Contos escolhidos de Antonio de Trueba
A Necessidade
FIM DO MADEIRO DA FORCA.
A NECESSIDADE
I
Ainda hoje existe, junto á confluencia de dois rios, um formoso castanheiro, a cuja sombra eu me sento, sempre que por alli passo, haja ou não haja calor, e isto pela razão muito natural de que, sendo eu creança, costumavamos sentar-nos, minha mãe e eu, á sombra d'aquella mesma arvore, quando iamos a uma aldeiasinha, que ficava perto da nossa. A pequena distancia do castanheiro vêem-se ainda as ruinas d'um moínho, taes quaes eram nos tempos saudosos da minha infancia; e a lembrança de minha mãe, do castanheiro e das ruinas, faz-me recordar d'um conto, que ella me contou, em uma tarde de verão, ao pé da arvore frondosa, a cuja sombra, graças a Deus! ainda posso sentar-me.
O ultimo moleiro, que habitou o moínho, era conhecido n'aquellas redondezas pelo appellido de Senéca; e vejam lá, não vão mudar para o primeiro o accento que puz sobre o segundo «e» d'este appellido, pois que o moleiro de quem estou fallando, e que minha mãe conheceu e tratou, era tão modesto, que ainda hoje no ceu se veria muito afflicto e contrariado, se o confundissem com o philosopho cordovez.
Não tinha Senéca pretenções a philosopho, mas era-o até sem querer, e a isto devia elle indubitavelmente o seu appellido, em cuja applicação não podemos deixar de reconhecer uma philosophia muito profunda; se não, reparem os leitores, e digam-me se não é bem admiravel a do povo, que, com a mudança d'um simples accento, marca o abysmo, que separa o philosopho da natureza do philosopho do estudo! Tinha eu que fazer, se quizesse referir os muitos rasgos d'engenho e sã philosophia com que Senéca illustrou a sua trabalhosa e modesta vida, e portanto limitar-me-hei a referir um dos que mais captivaram minha pobre mãe, de quem herdei o gosto que tenho pelas recordações da infancia.