Contos escolhidos de Antonio de Trueba
Capítulo III
Em quanto as cruzadas, attrahindo a um campo commum as differentes nações da Europa, e pondo em contacto o Occidente com o Oriente, faziam raiar a aurora de uma nova civilisação, travavam encarniçada lucta a realeza e o feudalismo. Aquella, soccorrendo-se ao principio popular, acabou por triumphar do seu poderoso adversario. Porém, durante a pugna, o poder real teve de arcar com o poder theocratico, o qual, a seu turno, alcançára victoria sobre a propria realeza.
A influencia dos pontifices no regimen dos estados, que tão benevola e providencial se ostentou, em quanto serviu de medianeira entre os opprimidos e os oppressores, estendendo sobre os mais fracos a égide do poder espiritual, veiu a tornar-se oppressiva e intoleravel, desde que, abusando da sua intervenção nos negocios temporaes das nações, converteu em tyrannia aquella missão paternal.
A supremacía dos papas, actuando na politica dos governos e nas idêas e costumes populares, imprimiu uma grande modificação no viver da sociedade. Essa modificação não tardou a estampar-se no romance, despojando-o dos esplendores e galanteria, com que até alli se ataviára, e fazendo-lhe vestir a roupagem, modesta e singela, mas não falta de poesia, das lendas religiosas, que lá foram aninhar-se nas chronicas monasticas, parecendo fugir ás impurezas do seculo.
A fé viva, sugeitando a razão além do dogma; a esperança vivissima em uma eternidade de gloria e de suprema ventura na outra vida, como recompensa do refreamento das paixões e das abstinencias, e como compensação das grandes dôres; o curso geral das cogitações e controversias dos sabios para as materias theologicas; as diversões populares restringindo-se, quasi exclusivamente, ás procissões, nas quaes eram admittidas dansas, e toda a sorte de exhibições phantasticas e burlescas, aos arraiaes e outras festividades religiosas, e, finalmente, aos autos sacros, que constituiam o theatro na infancia, depois do seu renascimento; as provas do fogo, do ferro em brasa, e da agua fervente, denominadas juizo de Deus, aceites nos tribunaes de justiça como testemunhos irrecusaveis da innocencia ou da culpabilidade: todo este pensar e este viver reflectiam-se nas lendas religiosas com a mesma exactidão e vigor, com que o sol reflecte na superficie das aguas a sua fronte luminosa.