Contos escolhidos de Antonio de Trueba
O Preste João das Indias
I
Não basta que os contos populares deleitem: é mister que, ao mesmo tempo que deleitam, ensinem.
Este que vou contar não sei se satisfará á primeira condição; a segunda porém, ha de por certo preenchel-a, por isso que o leitor, que o levar a cabo, ficará sabendo quem era o Preste João das Indias, do qual todos fallam, e pouquissimos são os que o conhecem, a não ser de nome.
Pois, senhores, havia nas Indias um rei mui poderoso, cujo unico successor directo era uma filha de tres ou quatro annos. Como o monarcha se sentisse muito mal, chamou todos os grandes do reino, e fallou-lhes do seguinte modo:
—Ando tão adoentado, ha tempos a esta parte, que milagre será não esticar a canella antes de oito dias, e confesso que essa partida tão repentina para o outro mundo, me penalisa em extremo, por quanto desejava deixar casada a minha augusta filha; e no emtanto S. A. não passa por ora d'um comecilho. Asseguro-vos que pouco me importa morrer, porque para morrer todos nós nascemos, e demais, tanto faz morrer hoje como amanhã; porém o que eu não queria era que a pequena se casasse para ahi qualquer dia, em virtude de altas razões d'estado, com um principe, que não fosse muito do seu agrado.
—Senhor, lhe tornou um dos homens politicos mais importantes do reino, faz V. M. muito mal em estar a affligir-se com essas coisas. Quando a princeza chegar á edade de tomar estado, ha de casar-se com o principe, que fôr mais do seu gosto; e se houver no reino quem se atreva a querer oppôr-se á liberrima escolha de S. A., esteja V. M. certo de que tem que se haver comnosco.
—Ora, ora! Então cuidas tu que eu engulo essas patranhas? replicou o rei, traduzindo a sua incredulidade n'uma estrepitosa gargalhada. Nem que eu não soubesse o que são os partidos politicos! Aquelle que então estiver no poder apresentará a minha filha o seu candidato, e a pobre pequena terá de se aguentar, não com o marido que mais fôr do seu gosto, mas sim com aquelle que mais convier aos seus ministros, os quaes, só por satisfazerem mesquinhos interesses de partido, serão capazes de a obrigar a casar ainda que seja com o moiro Musa.
—Mas, senhor, V. M. deve lembrar-se de que este paiz é um paiz essencialmente monarchico...
—Isso é bom de dizer! Não estamos nós vendo, todos os dias, homens politicos, que nos concedem, a nós os reis, até o direito divino, e que, se um bello dia lhe não agradamos, nos chegam, inclusivamente, a negar o direito de pessoas decentes!
—De accôrdo, mas é que esses são uns vilões que nunca deveram ter parte na luta dos partidos.
—Mas o grande caso é que a têm no goso dos direitos constitucionaes.
—Em summa, ordene V. M. o que lhe aprouver, e eu lhe assevero, que póde marchar tranquillo para o outro mundo, e sem o menor receio de que deixemos de cumprir rigorosamente as suas ordens.
—Pois bem, n'esse caso escutae-me: quando minha augusta filha estiver em edade do tomar estado (e isso é coisa, que facilmente se conhece), deveis dar-lh'o a saber, tendo em vista todo aquelle recato com que se deve fallar d'essas coisas a uma donzella; em seguida fareis apregoar por todas as nações do mundo, que a vossa rainha e senhora resolveu casar-se, e dará a sua mão ao principe, que mais fôr do seu agrado.
—Até ahi estamos bem; mas V. M. sabe que o mundo se divide principalmente em tres religiões, a saber: a religião christã, a mahometana e a judaica. Devo portanto suppôr que V. M. terá já formado o seu juizo, ácerca da religião a que deve de pertencer o seu augusto genro.
—Homem, francamente, ainda nem tal coisa me passou pela cabeça.
—Ah! pois isso é coisa muito séria!
—Vae-te d'ahi com esses teus escrupulos de freira! Vós todos sabeis que no meu reino não ha religião alguma. A fallar a verdade, já por vezes tenho pensado sobre se conviria ou não que a houvesse, porque ha muito quem diga, que não póde haver sociedade sem o freio da religião; porém, no fim de contas, tenho acabado sempre por dizer cá para os meus botões: «deixar correr; quem me manda a mim metter a redemptor? Que religião póde haver n'um paiz tão desmoralisado como este, onde todos os dias se manda gente á forca?! Vá uma pessoa introduzir aqui, por exemplo, a religião christã, segundo a qual todos os homens são eguaes: haviam de marchar bem as coisas, desde o momento em que os escravos, que tiram os coches, soubessem que valem tanto como os senhores, que vão dentro d'elles, mui repimpados!»
—Visto isso, entende V. M. que a melhor religião... é não ter religião nenhuma, não é verdade?
—Não digo isso, homem; nem tanto ao mar, nem tanto á terra. O que eu te digo é que não tenho querido quebrar demasiado a cabeça, pensando em coisas tão delicadas. Que escolha, minha augusta filha, marido do seu gosto, e ainda mesmo que seja pêrro judeu...
Assim terminou a conferencia do rei com os próceres da republica, e avisado andou S. M. em não a deixar para o dia seguinte, porque n'aquella mesma noite teve um ataque tão forte, que esticou a canella, sem ter tempo sequer para dizer «Jesus».