Contos escolhidos de Antonio de Trueba

Antonio de Trueba · Capítulo 23 de 32

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Contos escolhidos de Antonio de Trueba

Capítulo III

Andava Cosme pelo mundo com o madeiro da forca ao hombro, e toda a gente o escarnecia e fugia d'elle horrorisada.

Uma noite, tendo perdido a esperança d'encontrar asylo entre os homens, penetrou n'um bosque, esperando encontral-o no meio das féras, e vendo uma luzinha atravez da espessura, encaminhou-se para ella, e deu comsigo á porta d'uma cabana, onde uma velhinha dormitava, junto do lume.

—Santinha, disse elle á velha, com voz supplicante, deixe-me, pelo amor de Deus, passar aqui esta noite.

—Não póde ser, lhe tornou a velha, porque tenho dois filhos, que são bandidos, e que devem chegar dentro d'uma hora; se aqui o encontrassem, com certeza o matavam.

Cosme confiava piamente na promessa, que o anjo lhe tinha feito de que o senhor lhe perdoaria, e como visse que o madeiro da forca não tinha signaes, que indicassem que estava para rebentar, d'onde se deprehendia que vinha ainda longe o momento da sua morte, insistiu em pedir á velha que lhe désse pousada, no que ella, por ultimo, conveiu, esperando conseguir dos filhos que o não assassinassem.

Estava Cosme exhausto de forças e, retirando-se para um canto da choupana, poisou no chão o madeiro da forca, e deitou sobre elle a cabeça.

Condoida a velha de o vêr descançar em travesseiro tão duro, offereceu-lhe um feixe de cheirosa herva do monte, mas Cosme o recusou, dizendo:—offendi o Senhor, dizendo a um criminoso a quem levavam á forca: «quem as faz, paga-as», e para que o Senhor me perdôe, vou pelo mundo carregado com este madeiro, que deve ser o unico descanço da minha cabeça, até que d'elle brote um ramo verde, que será o signal de que o Senhor me perdoou.»

—Ai! exclamou a velha, rompendo n'um choro inconsolavel, se é tão difficil para quem se arrepende e unicamente peccou por palavras o alcançar o perdão do Senhor, quanto o não será para esses infelizes, que, como os meus filhos, peccam todos os dias por palavras e obras, e não têm no coração um vislumbre sequer do arrependimento.

O ancião adormeceu com a cabeça deitada no madeiro da forca.

Uma hora depois, chegaram os bandidos, e ao verem-n'o, arrancaram dos punhaes para o assassinar.

A mãe, porém, contou-lhes a historia d'aquelle ancião, e pediu-lhes de joelhos que, longe de o matarem, se arrependessem, como elle, das suas enormes culpas.

—Pois bem, perdôe-se-lhe a vida, responderam os bandidos, fazendo entrar os punhaes na bainha, e accrescentaram, soltando uma gargalhada d'escarneo:

—Quanto ao arrependimento, havemos de o ter quando brotar o tal ramo verde d'esse madeiro secco.

Principiaram os bandidos a cêar. Quando acabaram, dirigiram a vista para o canto da cabana onde dormia o velho, e viram, com assombro, que do madeiro secco tinha brotado um ramo verde e mimoso! Romperam então em amargo pranto, rogando a Deus que lhes perdoasse as suas culpas.

Ao som de taes vozes acordou Cosme, e ao vêr que do madeiro secco tinha brotado uma vergontea verde e louçã, expirou de alegria; e o anjo baixou, sorrindo amorosamente, a tomar conta da sua alma, e a leval-a comsigo para o ceu.