Contos escolhidos de Antonio de Trueba

Antonio de Trueba · Capítulo 11 de 32

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Contos escolhidos de Antonio de Trueba

Capítulo III

Não estava a mesa na sôpa, mas estava a sôpa na mesa, e D. Joanna, a esposa de Quijano, aguardava com impaciencia a chegada do marido, não porque tivesse o estomago vazio, mas sim porque o seu caracter irascivel e dominador não supportava que a fizessem esperar.

D. Joanna, que entrára como creada e acabára por ser ama em casa de D. João Quijano, tinha o relogio atrazado, pois assegurava ter trinta annos, ao passo que a sua physionomia, e o que ainda é mais, a certidão do baptismo, lhe davam quarenta.

Deter-me-hei pouco na descripção dos seus dotes physicos; direi apenas que as creadas, que despedia todas as semanas, a mimoseavam, ao descerem pela ultima vez as escadas, com os epithetos de: dentes de cavallo, estafermo, e olhos de gato.

Quanto ao moral era D. Joanna a personificação da antithese; alternavam-se n'ella a vaidade e a modestia, a avareza e a liberalidade, a crueldade e a compaixão, a elegancia e a falta de gosto no vestir.

Se um dia fazia gala, em uma reunião de pessoas distinctas, de não ter gasto até a edade de quatorze annos, outro calçado que não fosse o do seu proprio coiro, despedia, no dia seguinte, uma creada por a pobre rapariga pedir, na sua innocencia, ao carteiro, que lhe lêsse uma carta do seu noivo, por isso que sua ama não sabia lêr; agora despedia um mendigo com a seguinte blasphemia: «Vá pedir a S. Bernardino», que na bôca dos que podem e não querem dar, substitue a supplica—«queira perdoar, irmãosinho, não póde ser agora»—que costumam usar os que querem e não podem; e logo, sabendo que qualquer vizinho estava doente e precisado de meios, era muito capaz de lhe mandar uma boa esmola. Pela manhã dava uma tarêa ao cão por este ter mordido o gato, e de tarde dava outra ao gato por ter arranhado o cão; na quarta feira ia passear ao Prado, de vestido de velludo, e na quinta apresentava-se no mesmo sitio de vestido de chita.

Se sou tão minucioso e até prolixo, é porque não quero que alguem critique e censure no pintor as inconsequencias do original.

D. Joanna dominava por tal arte o marido, que a vontade d'elle estava sempre subordinada á sua. D. João tremia diante d'um gesto ameaçador da mulher, e por mais d'uma vez teve ella um accesso medonho de cólera só porque o honrado banqueiro entrou em casa ás dez horas em vez de se recolher ás nove.

—Ora, com effeito, disse D. Joanna, quando D. João entrou na sala do jantar, já julgava que seria preciso metter-lhe empenhos, e dirigir-lhe algum requerimento para que o senhor se resolvesse a vir jantar. Se se persuade que eu estou para aturar as suas grosserias, está muito enganado.

—Sempre tens muito mau genio, Joanninha! disse o banqueiro, esfregando as mãos e com um sorriso affavel nos labios.

Sentou-se D. João á mesa, encheu um prato de sopa e passou-o a sua mulher; esta porém empurrou-o com tal violencia, que todo o seu conteúdo se entornou na toalha.

—Tambem tenho mãos para me servir.

—Como gostares mais, Joanninha, disse D. João humildemente.

Principiaram a jantar, e por mais que o banqueiro dirigisse a palavra a sua mulher, em tom agradavel e risonho, não foi possivel quebrar-lhe o silencio.

Por fim resolveu-se D. Joanna a fallar, perguntando ao marido: —Então que negocios tão importantes foram esses que o obrigaram a deixar-me esperar por si meia hora?

—Meia hora! Não sei como não disseste uma, filha!

—Faça o favor de me não contradizer! exclamou D. Joanna, com um gesto terrivel. Eu fallo mais verdade do que você e toda a sua geração.

—Então! Não vale a pena alterares-te por tão pouco! A dizer a verdade, nem por isso eram lá muito grandes os negocios que me prendiam;—estava conversando com o pequeno.

—Com que pequeno?

—Com Angelo.

—Pois elle já chegou?

—Chegou, sim. Ainda o não sabias?

—Não, senhor, ninguem me disse nada. N'esta casa sou eu sempre a ultima palavra do credo... Pois não devia ser assim, e d'hoje para o futuro, eu lhe protesto que não tornará a acontecer uma coisa d'estas, porque, no fim de contas, eu é que sou a dona d'esta casa; entende o senhor?

E dizendo isto, D. Joanna atirou o trinchador com tal furia, que fez um prato em pedaços.

—Oh! menina!... por quem és, Joanninha.

—Deixe-me... não me diga uma palavra, quando não...

O banqueiro fez um movimento para traz, porque a mulher tinha pegado n'uma faca e agitava-a convulsivamente.

A final o silencio e a humildade do marido desarmaram aquella megera.

—Então, quando veiu o pequeno? perguntou ella.

—Haviam de ser duas horas, filhinha; eu suppunha que o creado t'o teria dito.

—Não me disse nada. Aquelle Toribio é um bruto, que ha de ir hoje mesmo para o meio da rua. E que me diz tambem ao mono do rapaz, que não soube subir para me vir cumprimentar?!

—Bem vês que elle, coitado, não sabe...

—Pois tem obrigação de saber que sou eu a dona d'esta casa.

—Em primeiro logar o pobre pequeno chegou meio morto de frio, e depois aquelle excommungado de Lucas começou a embirrar com elle, de modo que a creança ficou logo sem saber de que freguezia era.

—Eu me encarrego de o pôr fino com umas correias que alí tenho.

—Não digas isso, Joanninha; para o pôr fino, como tu dizes, requerem-se carinhos e não correias. Já disse a Lucas, que comigo tem de se haver, se lhe puzer a mão. A ti não é preciso repetir a mesma coisa, porque tens melhor coração do que o meu sobrinho, e estou até convencido de que has de ser para Angelo uma segunda mãe. Afianço-te que está morto por te vêr; a primeira coisa que fez, quando chegou, foi perguntar por ti.

Esta mentira do banqueiro foi o bastante para reconciliar Angelo com D. Joanna, que disse:

—Mas o que faz essa creatura no escriptorio? Porque o não mandaste subir, logo que chegou, para tomar alguma coisa? Provavelmente está ainda em jejum, molhado, cheio de frio...

—Nada, não, elle disse-me que não tinha vontade de comer; e quanto a aquecer-se, está no meu gabinete, sentado ao fogão.

—E porque foi, então, que Lucas o tratou mal?

—Que queres? coisas d'elle! Por ter dito que gostava mais da sua terra do que de Madrid.

—Santo Deus! Pois isso era motivo para ralhar com a creança? Aqui estou eu a quem, graças a Deus, não falta nada, e no entanto, morro pela minha aldeia...—Toribio! accrescentou D. Joanna, chamando pelo creado dos trocadilhos, dize ao rapazinho, que está no gabinete do senhor, que suba.

—Quem, o rocim-chegado? perguntou o asturiano com um sorriso malicioso.

—Atrevido! exclamaram, a um tempo, D. Joanna e o banqueiro; se tornares a divertir-te á custa d'Angelo, vaes immediatamente para o andar da rua.

O asturiano baixou a cabeça, pouco satisfeito com o exito do seu gracejo, e um instante depois subia com o pequeno.

Angelo saudou D. Joanna com bastante desembaraço, e depois que ella lhe chegou um prato de bolos, acabou de perder todo o seu acanhamento, e respondeu com vivacidade ás mil perguntas que por largo espaço de tempo lhe dirigiram os dois esposos.

—Tens muitas saudades de tua mãe? lhe perguntou D. Joanna.

—Muitissimas, respondeu o pequeno.

—Pois, se fôres bom rapaz, hei-de estimar-te e cuidar tanto de ti, como se fôra ella propria.

—Muito obrigado, minha senhora!... disse o menino; e arrazaram-se-lhe os olhos de lagrimas... lagrimas d'alegria e de agradecimento.

O banqueiro e sua mulher levantaram-se da mesa.

—Deixa-te estar aqui, filho, disse D. Joanna a Angelo; espera que vaes tu agora tambem comer e os teus companheiros.