Contos escolhidos de Antonio de Trueba

Antonio de Trueba · Capítulo 25 de 32

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Contos escolhidos de Antonio de Trueba

Capítulo II

Senéca não tinha outra familia senão um filho de dez annos, nem outras cavallarias senão um burro de vinte. Morreu-lhe a mulher, que era quem ficava no moínho, curando das moagens, emquanto elle andava com o burro, levando e trazendo folles por aldeias e casaes, e o pobre Senéca viu-se então em graves embaraços, porque os seus ganhos lhe não permittiam tomar uma creada, que substituisse sua mulher no moínho, nem um creado, que o substituisse a elle no transporte dos folles.

—E como te has de tu arranjar agora? lhe perguntavam os visinhos, quando o viram viuvo, e sem outro auxilio mais que o do pequeno.

—Não me dá isso cuidado, respondia Senéca, não faltará quem me ajude.

—Isso é bom de dizer; mas quem te ha de ajudar?

—Quem?... A Necessidade.

Os visinhos punham-se a rir do bom humor de Senéca, porém sem comprehender o que elle queria dizer na sua.

Uma certa manhã apparelhou Senéca o burrico, poz-lhe em cima um sacco, que continha quatro alqueires de farinha, e chamando o pequeno, disse-lhe:

—Rapaz, toma o burro pela arreata, e leva-me esta carga á padaria de Somorrostro.

O pequeno desatou a chorar.

—Que é lá isso, homem? perguntou-lhe o pae.

—Que ha de ser de mim pelo caminho, se o burro cair, ou se espojar no chão! exclamou o rapazito, sem cessar de chorar.

—Não te dê isso cuidado, disse Senéca; se tal acontecer, não faltará quem te ajude a levantar o burro.

—E quem é que me ha de ajudar n'essas devezas tão solitarias, que não se encontra por ellas viva alma?!

—Quem? A Necessidade. Se o burro caír, ou se deitar no chão e se não podér erguer, chama pela Necessidade, e verás como logo acode em teu auxilio.

—Está bem, disse o pequeno, limpando as lagrimas com a manga da jaqueta; e pegando na corda do burro, tomou pela margem do rio, caminho de Somorrostro, que distava uma legua do moínho.

—Ora, ora, ora! Sempre este Senéca tem coisas!... diziam os visinhos, ao verem o rapazito com o burro atraz de si. Com que então a Necessidade, com cujo auxilio contava Senéca, para levar e trazer os folles, era essa pobre creança?!... E o pequeno, quem é que o ha de ajudar?