Contos escolhidos de Antonio de Trueba
Capítulo X
Dois ou tres dias depois da famosa caçada, estavam no gabinete de D. João Quijano, palestreando junto do fogão, o banqueiro, seu sobrinho D. Lucas e quatro ou cinco amigos intimos da casa.
Fóra, no escriptorio, trabalhavam em silencio os caixeiros e com elles Angelo, cujas côres rosadas iam pouco e pouco desapparecendo, e cuja tristeza era cada vez mais profunda.
—Como vamos nós de caça, D. Lucas? perguntou um dos amigos.
—Ás mil maravilhas, respondeu D. Lucas.
—Meu sobrinho, acudiu o banqueiro, está sendo o rei dos caçadores! Pois não sabem que, domingo, teve a habilidade de se apresentar aqui com quatro coelhos, que pareciam quatro bezerros?!
—Que nos diz, homem?
—Nem mais nem menos, é como lhes conto. Aprendam como elle a matar coelhos onde ninguem os costuma matar, nos suburbios de Madrid.
—Sempre queria saber como isso foi, disse um dos interlocutores.
—Tem pouco que saber, disse D. Lucas. Matei domingo quatro coelhos, junto ao ribeiro do Luche. Aquillo foi n'um abrir e fechar d'olhos, e é preciso advertir que a polvora não prestava para nada.
—Não sei como isso se faz; eu cá, por mais voltas que dou, não sou capaz de levantar um coelho por estas visinhanças.
—É porque os senhores são caçadores das duzias! Eu por mim, nem sequer preciso de cão; havendo coelho, está prompto; faço-o saltar, e depois de lhe atirar, nem todos os santos lhe valem, porque onde eu puzer a vista ponho o tiro. Pum! coelho a terra!... Os quatro de domingo foi um momento em quanto caíram.
—Pois, senhor, não tem que vêr, é um bom caçador!
D'isso está elle convencido. A caçada de domingo ha de ser apregoada por toda a cidade; não falla d'outra cousa a quantas pessoas aqui entram!
Estava ainda o sobrinho do banqueiro narrando, com toda a miudeza, como matára os quatro coelhos, quando entrou no escriptorio o tio Lobo, que ia levar a D. Lucas os dois arrateis de polvora de contrabando, que este lhe encommendára.
—Esta ahi o snr. D. Lucas? perguntou o caçador aos caixeiros.
—Sim, senhor, respondeu Angelo.
—Pois faça favor de lhe dizer que está aqui fóra o tio Lobo, que o procura.
O pequeno entrou no gabinete.
D. Lucas, que ainda não tinha acabado de contar como matára os quatro coelhos, ficou logo furioso por lhe interromperem a historia, e antes que o pequeno tivesse tido tempo de fallar, perguntou-lhe, com aquella amabilidade que lhe era propria:
—Que queres tu d'aqui, borrego?
—É que está ali fora o Lobo, respondeu Angelo.
Desataram todos a rir, vendo a relação casual, que havia entre a pergunta e a resposta.
Não era para admirar que Angelo omitisse a denominação de tio, que costumava preceder o nome do caçador, porque esse tratamento, que é tão vulgar em quasi toda a Hespanha, não se usava nem se usa, na sua provincia, senão quando o justificam os laços de consanguinidade. Julgando por tanto que se riam por não se haver explicado bem, ficou corrido de vergonha, e tratou de se fazer comprehender melhor.
—Parece-me que é assim que tenho ouvido chamar-lhe; e accrescentou, «é aquelle caçador a quem o senhor comprou domingo os quatro coelhos junto á porta de Toledo.»
Estas palavras de Angelo foram acolhidas com uma gargalhada ainda mais ruidosa do que a anterior, porém menos inoffensiva; uma gargalhada de mofa, insultante, sangrenta, e isto porque os caçadores têm dois grandes defeitos; são geralmente embusteiros e invejosos, e assim como não perdem a occasião de mentir, tambem não perdem nunca o ensejo de humilhar os que caçam, ou suppõem caçar mais do que elles.
D. Lucas ficou por espaço d'um segundo immovel, envergonhado e corrido; porém, de repente, injectaram-se-lhe os olhos de sangue, engorgitaram-se-lhe as veias, e tornou-se completamente livido e desfigurado.
Arremeçou-se como um tigre sobre a pobre creança, vociferando e praguejando como possesso, e lançando-lhe as mãos ao pescoço, levou-a d'encontro á parede e começou a descarregar-lhe furiosas patadas no estomago, antes que D. João e as outras pessoas, que se achavam presentes, tivessem tido tempo para se interpor entre aquella fera e o innocente cordeiro, que, por unica defesa, invocava o nome de sua mãe.
Oh! tu, Fernan Caballero, nobre e generoso cantor do nosso bom povo hespanhol, amigo dos pobres d'espirito e dos ricos de coração, que tens cabeça d'homem para pensar e alma de mulher para sentir; tu que és o amigo por excellencia dos meninos e das mães, dos fracos e dos attribulados; tu que buscas e encontras as dôres e as afflicções do proximo, onde as almas vulgares as não descobrem, e que, com tanto sentimento e caridade, as prantêas, dize-me, meu bom Fernando, não achas que os sabios legisladores da humanidade tem sido extremamente crueis e ignorantes, pondo os meninos debaixo da salvaguarda do codigo, que protege os homens, em vez de os acobertar com a égide celeste do codigo que protege os anjos?!