E a Vida Continua...
Irmão Cláudio
Cláudio entreteceu, ainda, apontam entos ricos de beleza e de lógica e, ao térm ino da brilhante tertúlia, Ernesto e Evelina estavam reconfortados e felizes, ao m odo de viaj antes, sedentos de valores da alm a, depois de se abeberarem num a fonte de luz.
Irmão Cláudio
Finda a aula e, recom endados pela senhora Tam burini, que não pudera acom panhar a reunião, Fantini e a senhora Serpa se dem oraram em com panhia do Irm ão Cláudio, que os recebeu carinhosam ente na intim idade.
Não residia ali, explicou.
O Instituto desdobrava serviços em todo o prédio, ocupando-lhe as dependências. Ainda assim , que os am igos se sentissem convidados para alguns dedos de prosa, em casa, onde, j unto da esposa, teria prazer em recebê-los. Já que a senhora Tam burini o indicara, com o sendo um explicador capaz de prestar-lhes inform es, em torno de problem as que reputavam im portantes, punha-se-lhes à disposição para atender no que lhe fosse possível, conquanto se reconhecesse inabilitado a satisfazer com o desej aria.
Tudo isso era dito, cortesm ente, em recinto enluarado, no j ardim da instituição, onde pequenos grupos de estudantes se espalhavam , aqui e além .
Ladeando m esa fixa, conversava o trio, anim adam ente. Tão grande e tão m anifesta a fam iliaridade em pauta, que nada faria supor estivesse integrando um quadro que não fosse essencialm ente terrestre. Em razão disso, não obstante a fisionom ia cism ativa de Ernesto, exprim indo incerteza e ansiedade, via-se Evelina senhora de si, absolutam ente convencida de que se achava num recanto autêntico do m undo que sem pre lhe fora habitual.
— Com preendo que se proponham a saber algo da nova residência — expôs Irm ão Cláudio, im perturbável —, porquanto a irm ã Celusa Tam burini notificou que estão am bos despertos no hospital, de alguns dias para cá.
— Sim , é bem isso — confirm ou Ernesto —, e som os gratos pela atenção que nos dispensa.
— Professor — interveio a senhora Serpa, confiante —, são tantos os com entários absurdos que j á ouvim os, em nossos poucos dias de contato com o novo m eio, que, de m inha parte, estim aria estar inform ada se dispom os da liberdade de perguntar ao senhor tudo, tudo o que nos causa espécie.
— Oh! claram ente. Indaguem tudo, em bora não m e vej a capaz de a tudo responder.
Convocado a exprim ir-se pelo olhar percuciente do am igo, volveu Ernesto à palavra:
— Evelina, quanto m e ocorre, tem o espírito dom inado por um a questão capital. Isso lhe parecerá, talvez, um a criancice de doentes m entais, que, às vezes, tem os am bos a im pressão de ser, m as tem os escutado, em circunstâncias diversas, a afirm ativa de que som os m ortos em recuperação num am biente que não m ais pertence aos hom ens de carne e osso... A princípio, rim o-nos francam ente, categorizando isso à conta de grossa tolice; entretanto, as opiniões se avolum am .
A própria senhora Tam burini está certa de que j á cruzám os as fronteiras da m orte, com o quem vara um a noite de sono... Que nos diz a isso, professor?
Irm ão Cláudio esboçou significativa expressão facial, em que a adm iração se m isturava à piedade e obtem perou, sem cerim ônia:
— Estarão vocês em condições de acreditar em m inha palavra, se lhes ratificar a notícia de que respiram os em plena Esfera Espiritual?
— Mas, professor... — clam ou Evelina, lívida.
— Entendo — certificou ele, sorrindo —, a senhora, m uito m ais que o nosso irm ão Ernesto, opõe firm e recusa m ental à verdade, à vista de suas convicções religiosas, louváveis m as provisórias, convicções que j azem solidam ente estruturadas em seu espírito... Apesar de tudo, porém , tenho a obrigação de assegurar-lhes que não m ais pisam os a Terra que nos era com um e sim um departam ento da Vida Espiritual.
E ela:
— Meu Deus, com o pode ser isso?
— Irm ã Evelina, trabalhe com a própria m ente. Se não abordássem os a
Crosta Planetária pelo regaço m aterno, com o período da infância, logo após, constrangendo-nos a longos serviços de readaptação, não seria a m esm a coisa?
— Mas, a Terra... eu conheço.
— Puro engano. Classificam os a paisagem terrestre e os pertences que lhe dizem respeito, subm etidos aos conceitos de quantos estiveram nela antes de nós, ocorrendo análogas circunstâncias no am biente a que nos acolhem os agora, e onde contam os com geólogos e geógrafos em éritos... Na realidade, porém , tanto lá quanto aqui, conhecem os, na essência, m uito pouco acerca do m eio em que vivem os. Em sum a, analisam os e reanalisam os coisas e princípios que j á encontrám os feitos...
— Entretanto, no m undo, com o entendem os o m undo, guardam os a certeza de perm anecer sobre bases de m atéria sólida...
— Irm ã Evelina, quem lhe disse que não m oram os lá, na arena terrestre, detidos igualm ente num certo grau da escala de im pressão do nosso Espírito eterno? Qualquer aprendiz de ciência elem entar, no Planeta, não desconhece que a cham ada m atéria densa não é senão a energia radiante condensada. Em últim a análise, chegarem os a saber que a m atéria é luz coagulada, substância divina, que nos sugere a onipresença de Deus.
— O senhor quer afirm ar m esm o que não estam os agora dom iciliados no plano físico? — voltou Fantini a m anifestar-se.
— Cham e-se a este m undo em que existim os, neste m om ento, “outra vida”, “outro lado”, “região extra-física” ou “esfera do Espírito”, estam os num centro de atividade tão m aterial quanto aquele em que se m ovim entam os hom ens, nossos irm ãos ainda encarnados, condicionados ao tipo de im pressões que ainda lhes governam , quase que de todo, os recursos sensoriais. O m undo terrestre é aquilo que o pensam ento do hom em faz dele.
Aqui, é a m esm a coisa. A m atéria se resum e a energia. Cá e lá, o que se vê é a proj eção tem porária de nossas criações m entais...
— Então, m orrer? Qual a novidade em torno disso? qual o m aior interesse em nos reconhecerm os redivivos?
— As incógnitas da vida exterior, com os desafios delas resultantes, são as m esm as; entretanto, se a criatura aspira efetivam ente a realizar um a tom ada de contas encontra neste novo m undo surpresas, m uito fascinantes, no estudo e redescoberta de si m esm a. Som os, cada um de nós, um astro de inteligência a perquirir e a aperfeiçoar por nós próprios.
Ernesto sustentou o interrogatório
— Todos os m ortos estarão em todos os lugares da Terra, em condições idênticas às nossas?
— Im possível. Revej am os, superficialm ente, a Hum anidade encarnada em si e perceberem os algo do assunto. Contam os na Terra, de onde som os egressos, m ilhões de pessoas sensatas e espiritualm ente desequilibradas, sadias e enferm as, instruídas e ignorantes, relativam ente sublim adas e outras tantas ainda excessivam ente anim alizadas, confiantes e descrentes, am adurecidas na evolução ou iniciantes nela. Im praticável categorizá-las, depois da m orte, segundo um critério exclusivo. Cada qual estará em seu grupo e cada grupo em sua com unidade ou faixa de afinidades.
Nada fácil padronizar as situações dos Espíritos desencarnados. Basta recordar que 150.000 pessoas, aproxim adam ente, por dia, saem da circulação do am biente físico, na m édia flutuante de 100 por m inuto, largando afetos, realizações, com prom issos, problem as... Ora, todos são filhos de Deus e recebem de Deus atenções e providências, análogas do ponto de vista do am or com que som os envolvidos na Criação, em bora diversas nos m odos m últiplos em que se exprim em .
Razoável reconhecer que por m uito se enfeitem , externam ente, com as honras que lhes são prestadas pelos entes queridos, quando se despedem do m undo, os hom ens, quaisquer que sej am , chegam aqui com o são... Porque haj am desencarnado, o louco não adquire o j uízo, de um dia para outro, e nem o ignorante obtém a sabedoria por osm ose. Depois da m orte, som os o que fizem os de nós, na realidade interna, e colocam o-nos em lugar com patível com as possibilidades de recuperação ou com as oportunidades de serviço que venham os a dem onstrar.
— Estam os diante de trabalho im enso... — anotou Fantini, espantado.
— Sim , no m undo dos hom ens, um a criatura não se m odifica, de im proviso, por haver atravessado o oceano, de um continente para outro... Acontece o m esm o, nos dom ínios do espírito.
— Há tem pos — sublinhou Ernesto — li m ensagens de entidades desencarnadas, m erecedoras de crédito, relacionando os sofrim entos e conflitos que experim entaram em regiões inferiores, individualidades, aliás, que m e pareceram senhorear largo patrim ônio de recursos intelectuais.
— Nada de adm irar. Por im posição de nossas necessidades, nós m esm os estam os residindo em zona dessas, na vizinhança das criaturas encarnadas.
— Refiro-m e às regiões tenebrosas ou infelizes, relativam ente às quais ouvi tantas dissertações e onde se desarvoram tantos irm ãos nossos...
— Fantini, precisam os certificar-nos — clareou o m entor — de que esses lugares não são infelizes, de vez que infortunados são os irm ãos que os povoam ... Os j ardins e pom ares que enriqueçam um m anicôm io deixarão de ser j ardins e pom ares porque existam enferm os a desfrutar-lhes as em anações nutrientes?
— ?
— Pois é, m eu caro, as áreas do espaço, às vezes enorm es, ocupadas por legiões de criaturas padecentes ou desequilibradas, estão circunscritas e policiadas, por m aiores que sej am , funcionando à m aneira dos sítios terrestres, utilizados por grandes instituições para a recuperação dos enferm os da m ente.
Você não ignora que existem doentes da alm a, consum indo larga faixa da existência nos hospícios acolhedores da Terra. Isso acontece aqui tam bém .
Ladeando o nosso vilarej o, tem os vasto território, em pregado no asilo a irm ãos desaj ustados, aos m ilhares, m antidos e vigiados por m uitas organizações de beneficência, que trabalham no socorro fraternal.
Evelina, que não acreditava no que ouvia, obj urgou, insatisfeita:
— Mas... Se nos acham os num plano espiritual, que dizer das construções sólidas, vinculadas à arquitetura terrestre, com que som os defrontados?
— Nenhum espanto, quando ponderarm os que os edifícios no m undo dos hom ens nascem do pensam ento que os esculpe e da m atéria que obedece aos proj etos elaborados. Aqui verificam os o m esm o processo, diferindo apenas as condições da m atéria, que se evidencia m ais intensivam ente m aleável à influência da ideia dom inante. Reflitam os no progresso da indústria de plásticos, na atualidade do plano físico de onde viem os e perceberem os, com m ais segurança, as possibilidades im ensas para as edificações delicadas e com plexas em nosso dom icílio de agora. Naturalm ente, tam bém aqui estam os subordinados ainda às técnicas, às vocações, às com petências pessoais e às criações estilísticas, no círculo das conquistas espirituais de cada um . O arquiteto que planeia um a casa e o obreiro que lhe cum pre as ordens, não servirão, de im ediato, em lugar do diretor da m anufatura de tecidos e do operário que lhe atende as determ inações. Ainda aqui, o escritor não faz a obra do m úsico, em ação de im proviso. Som os criaturas em evolução, sem haverm os atingido ainda a posição dos gênios polim orfos, apesar de esses gênios existirem igualm ente aqui.
A senhora Serpa não conseguia ocultar a incredulidade.
— Tudo parece inverossím il — asseverou.
— Nada se nos afigura m ais inverossím il que a verdade — obj etou Irm ão
Cláudio —; no entanto, porque prefiram os, por m uito tem po, a ilusão em lugar dela, a realidade não deixa de ser o que é.
O professor discorreu, ainda, por dilatados m inutos, referentem ente à vida e às condições da estância em que se dem oravam , m as, por fim , Evelina se viu entontecida, fatigada, provisoriam ente inabilitada a m ais am plas ilações, e, m oça de fé profunda, valeu-se de um intervalo na conversação, procurando saber:
— Irm ão Cláudio, não posso duvidar de suas afirm ações, em bora m e custe a crer que estam os na posição de pessoas desencarnadas, conform e as suas expressões. Estej a certo de que não desej o perder, de m odo algum , a sua orientação; contudo, gostaria de tom ar contato com um sacerdote, um padre católico, por exem plo... Ficaria feliz se pudesse entregar-m e à prática da confissão, perm utar ideias livrem ente com um diretor da fé que m e form ou o caráter, sem qualquer constrangim ento da vida social.
O am igo bondoso sorriu com preensivo e esclareceu:
— A Igrej a aqui está positivam ente renovada, posto que possam os encontrar representantes de todas as religiões terrestres, aferrados a dogm as, concepções estreitas, preconceitos e tiranias diversas do fanatism o, nas áreas vizinhas em que se congregam m ilhares e m ilhares de inteligências rebeldes e perturbadas. Aqui, própria m ente, os sacerdotes não a ouviriam em confissão de natureza religiosa. Enviá-la-iam a um dos nossos institutos de psiquiatria protetora, em que a irm ã pode e deve ter a sua ficha para receber a assistência necessária...
— Para tratam ento? — aparteou Fantini.
— Tratam ento e auxílio. Um a carteira de identificação para serviços de am paro e análise, num a casa de supervisão espiritual das que m e refiro, é valioso docum ento para que não estej am os aqui, nos prim eiros tem pos de adaptação, num lugar interm ediário entre planos inferiores e superiores, sem a assistência j usta. É indispensável nos poupem os, tanto quanto possível, a dissabores desnecessários.
— Oh! — exclam ou Ernesto, entusiasm ado —, esse tipo de confissão m e interessa... Se estam os m ortos...
— O seu se — obtem perou o m entor bem -hum orado — dem onstra que você e Evelina m e consideram um contador de histórias inverídicas... Vocês am bos estão desencarnados com raízes pregadas no chão da Terra; todavia, isto é natural. Aguardem os o tem po.
Em m eio de puras vibrações de confiança e sim patia, a senhora Serpa e o am igo solicitaram o apoio do m entor, a fim de que pudessem realizar contatos com algum a das instituições psiquiátricas da cidade, ficando estabelecido que atenderiam a isso, tão logo a adm inistração do hospital o consentisse.