E a Vida Continua...

Chico Xavier · Capítulo 19 de 26

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E a Vida Continua...

Revisões da vida

Os dois am igos desencarnados ignoravam com o definir a estupefação que os em polgara.

 

Fantini, desarvorado, recordou-se, num átim o, da casa rústica que possuía na praia, e, sem pestanej ar, convidou Evelina a tom arem j untos o carro acolhedor, na poltrona traseira.

 

Am argas conclusões passaram a dom iná-lo.

 

Então, aquela era a j ovem a que tanta vez se reportara a senhora Serpa!

 

Vera Celina! Sua própria filha!

 

O auto com eçou a deslizar e lágrim as grossas lhe m olhavam a face.

 

A com panheira, com o a reconfortá-lo sem palavras, segurou-lhe a m ão num gesto de carinho.

 

Percebia-lhe a dor de pai. Ele fitou-a pelo véu de pranto e disse apenas:

 

— Entende com o sofro?

 

— Acalm e-se — sussurrou Evelina, com passiva —, som os agora m ais irm ãos.

 

Transcorridos alguns m om entos sobre a arrancada, os ocupantes da frente iniciaram a troca de im pressões quanto a banalidades da m archa, até que um e outro assinalaram m entalm ente a influência dos acom panhantes invisíveis.

 

Lem brando-se, às súbitas, de Evelina, a rival arriscou um a alegação:

— Caio, às vezes cism o indagando de m im m esm a se você não é um apaixonado pela m em ória de sua esposa...

 

— Eu? era o que faltava...

 

— Sem pre ouço, em torno dela, as m elhores referências.

 

— Não era m á.

 

— E você não tem saudades, não a sente no coração?

 

Caio riu-se e m ofou:

 

— Não tenho vocação para conviver com os m ortos.

 

— Não digo isso. Quero falar de sua m ágoa natural ao perdê-la.

 

— Você sabe que Evelina estava m orta para m im , m uito antes que o m édico lhe atestasse o óbito...

 

— Em m uitas ocasiões, surpreendo-m e, ao analisar-lhe o retrato... Aquela fisionom ia doce, aqueles olhos grandes e tristes... Im possível que você não houvesse casado por am or!...

 

— Sim , casei-m e por am or; no entanto, a vida tem as suas sequências.

 

Prim eiro, a paixão e, m uitas vezes, depois... o desinteresse.

 

— Mas, você pode precisar o m otivo pelo qual se desencantou?

 

— Você quer saber?

 

— Sim .

— Bem , guardava a am bição de ser pai; Evelina, porém , era fraca, doente.

 

Creio que carregava taras de fam ília. Enquanto não abortou, não lhe vi os defeitos... Entretanto, depois que se revelou enferm a e incapaz, o laço do casam ento se fez para m im pesado dem ais... Nos últim os tem pos da vida, era m ulher rezadeira e chorona...

 

Ao fim de risada franca:

 

— O rem édio era inventar viagens para estar com você...

 

A senhora desencarnada apoiava-se m ais fortem ente em Ernesto, buscando escora para suportar com denodo sem elhantes irreverências.

 

Vera, dando a ideia de quem não desej ava descam bar para o desrespeito, desviou o rum o da conversação, perguntando:

 

— Caio, não poderem os, por nossa vez, sonhar com um a casa enriquecida de filhos?

 

Ele lançou-lhe rápido m as expressivo olhar, furtado ao volante, e contestou:

 

— Depende...

 

— Depende de quê?

 

— Quanto a casar, sei que nos casarem os, m as pense, Vera. Negócio de criar filhos não é brincadeira. A saúde de sua m ãe não m e encoraj a, aquelas m anias, aquelas crises.

 

Qual se fora sacudido pelos pensam entos do sogro desencarnado a se lhe proj etarem na m ente, partindo da retaguarda, Serpa contrapôs:

 

— Que m e diz de seu pai?

A j ovem perspicaz lem brou-se im ediatam ente de que o genitor encontrara a m orte em condições idênticas às da senhora Serpa, m as, tem endo falar nisso, m entiu com intenção, asseverando:

 

— Meu pai era hom em robusto, de saúde im pecável, sem pre m oço, passava, para m uita gente, com o sendo m eu irm ão...

 

— Que lhe teria m arcado o fim ?

 

— Operou-se de um as verrugas sem im portância e não teve o cuidado preciso. Antes da cicatrização perfeita, com eçou a cavoucar no j ardim , cortou-se e adquiriu a infecção que o levou...

 

— Tétano?

 

— Isso m esm o.

 

— Psiquicam ente, com o era ele?

 

— Um hom em m uito inteligente e, às vezes, folgazão qual você m esm o, em bora tom asse a vida m uito a sério...

 

— Com preendo que ele terá tido por você um a afeição toda especial. Filha única!

 

— Engana-se. Meu pai decerto que m e estim ava, m as era corretor de m uitas atividades, ocupadíssim o, quase sem tem po para a casa... A não ser a criatura providencial, do ponto de vista econôm ico, que se esm erava para que o dinheiro não nos faltasse, com o pai não m e lem bro de algum dia em que se sentasse ao m eu lado para ouvir-m e ou aconselhar-m e em assuntos do coração... E nos m eus casos de m enina, bem que necessitei, m as...

 

— Não dispunha de um a hora ou outra para isso?

 

— Pelo m enos, era o que dizia, nunca pude contar-lhe nem m esm o os m eus problem as de colégio...

 

Fantini escutava, acusando-se hum ilhado, abatido, a confessar para si próprio que daria quanto lhe fosse possível, a fim de voltar atrás, de m odo a ser para a filha o pai afetuoso e vigilante que não buscara ser.

 

O diálogo, porém , prosseguia:

 

— Certam ente, em com pensação, você contou com o carinho m aterno...

 

— Tam bém não. Desde cedo, percebi que m inha m ãe é irritadiça, desanim ada. Gosta de estar só e, conquanto não m e negue atenção, até hoj e m anda que eu m e decida, em tudo, por m im m esm a.

 

— Ela e seu pai viviam bem ?

 

— Nada disso. Minha m ãe, aos m eus olhos, sem pre pareceu tolerar m eu pai, sem am á-lo, em bora se esforçasse, diante dele, para m ostrar o contrário.

 

— O infeliz chegava a perceber? — tornou Caio, galhofando.

 

— Acredito que não.

 

— Com o explica você a perturbação da velha, depois que ele se foi? não será isso a dor de perdê-lo?

 

— Duvido... Assim que m eu pai m orreu, ela foi tom ada de terrível transform ação, com o se o odiasse às ocultas. Queim ou-lhe os obj etos de estim a, quebrou-lhe o relógio de bolso, rasgou-lhe os retratos... Im agine....

 

Nem orações quis por ele... E foi piorando, piorando... Agora, é com o sabem os, recusa tratam ento, isola-se, fala sozinha, ri, chora, lam enta-se e am eaça o silêncio e a som bra, j ulgando ver e ouvir os m ortos...

— Estranha situação!

 

Em bora reconfortado pela sim patia de Evelina, Ernesto dava curso às lágrim as. Guardava os apontam entos da filha, qual se a desconhecesse até então. Verdade que não fora hom em de explosões afetivas; entretanto, nem de leve supunha fosse detestado no lar. Teria a j ovem razão? porque se teriam alterado as faculdades m entais de Elisa? que haveria ocorrido naquele longo pedaço de ausência?

 

Enquanto os dois desencarnados se identificavam sob rigorosa análise naquele retrospecto, esvaiu-se o tem po e o carro fêz parada no ponto term inal: a casa singela, docem ente ilum inada dentro da noite.

 

Excitado, m as cauteloso, Fantini instalou Evelina em sítio vizinho, de vez que, assim com o sucedera com ela própria, expressou o desej o de consultar, a sós, o am biente dom éstico. Depois disso, decidiria quanto à viabilidade de colocá-la na rota fam iliar. A posição de Vera, j unto de Serpa, não lhes encoraj ava, de im ediato, um avanço a dois.

 

Evelina concordou. Aproveitaria o ensej o para orar, refletir...

 

Fantini, em ocionado, penetrou o reduto que lhe falava tao alto à m em ória.

 

Na sala, tudo com o deixara. A m esa e as cadeiras surradas que ele m esm o trouxera da residência de Vila Mariana, os apetrechos de pesca, o arm ário de louça velha, os quadros hum ildes a penderem das paredes...

 

Registrou, em pranto de com oção, o calor de outro tem po... A pequena distância, enxergava o dorm itório da filha, em que ela e o advogado se entregavam a anim ada conversação, m as, ali, a dois passos, rente a ele, quase tateava o aposento em que tantas vezes repousara, ao lado da com panheira, aspirando as aragens m arinhas...

 

O relógio m arcava alguns m inutos, além das nove da noite. Que surpreenderia por trás da porta cerrada?

— Indagava-se, inquieto. — Elisa doente? Desanim ada?

 

Rem em orou as lições recolhidas de am igos, na m oradia espiritual de que chegava refeito para facear quaisquer surpresas, e orou. Pediu forças à Divina

 

Providência. Queria rever a esposa, com distinção e dignidade. As alegações da filha, no autom óvel, ditavam -lhe prudência, atenção. Achava-se ali, não para queixar-se e sim para agradecer, aj udar, querer bem . Ansiava servir.

 

Com essa disposição, transpôs o lim iar e encontrou-se dentro da câm ara, que conhecia em todos os escaninhos.

 

Jam ais faria ideia do quadro que se lhe abriu, de im ediato, à visão.

 

Elisa descansava... O corpo m agro, o rosto m ais profusam ente vincado de rugas e os cabelos m ais grisalhos... No entanto, j unto dela, estirava-se um hom em desencarnado, aquele m esm o sobre o qual atirara, tantos anos antes, ao desvairar-se pelo ciúm e! Estacou, aterrado... Num átim o, recordou a últim a caçada que em preendera, integrando um a equipe de três com panheiros, e na qual adquirira o rem orso e o sofrim ento que lhe haviam acom panhado grande parte da vida... Sim , aquele hom em sem corpo físico era Dedé, o colega de sua m eninice, ou m elhor, Desidério dos Santos, o assassinado, cuj a som bra supunha ele haver rem ovido para sem pre da própria casa.

 

Acusou-se ralado de arrependim ento, transido de angústia... Com o arrostar o adversário, a inj uriá-lo no próprio tálam o?

 

Fantini chorava para dentro de si, ralado de desespero. Motivos ponderosos tinha Ribas, o instrutor, delongando-lhe a volta. Horas antes descobrira na filha a rival de Evelina, e ali, diante dele, ao pé de Elisa, se estendia o inim igo triunfante, dom inador...

 

Aguentaria com êxito os desafios que a vida lhe propunha, depois da m orte? Decerto rentearia, por fim , com o hom em que não suportava. Am bos desencarnados se defrontariam agora, quais estavam , tais quais eram .

Diligenciou Fantini asserenar-se e estugou um passo adiante.

 

O antagonista, em silêncio, deitou-lhe um olhar sarcástico, ostentando a tranquilidade de quem se sabia num m om ento esperado, m as, com estupefação para ele, Ernesto, a esposa anotou-lhe a presença e desferiu grito terrível:

 

— Maldito! Maldito! — rugiu ela, positivam ente obsidiada, na penum bra do quarto, que o luar filtrado pela vidraça fracam ente alum iava — fora daqui,

 

Tinhoso! Fora daqui, assassino!Assassino!... Socorro, Dedé! Socorro, Dedé! Leva este infam e para fora!

 

Sai, Ernesto! Sai!

 

Matador! Matador!

 

Entrem entes, Caio e Vera invadiram a peça, terrificados.

 

Fez-se luz forte.

 

A j ovem acercou-se da genitora que bradava im propérios, segurando a própria cabeça entre as m ãos, num esgar de espanto, e tentou consolá-la:

 

— Mãezinha, que há? estam os aqui, não precisa tem er...

 

— Ah! m inha filha! m inha filha! — a enferm a soluçou — é seu pai, aquele infeliz!

 

Agarrou-se à m oça, qual criança assustada, e esticou o clam or, dando a

 

Serpa a im pressão de um a alienada m ental, no m ais fundo desequilíbrio.

 

— Seu pai está aqui, aquele canalha! Não quero vê-lo! Defenda-m e, pelo am or de Deus!

 

Voltem os para São Paulo, hoj e m esm o! Tire-m e daqui!

 

Dos olhos tristes de Ernesto o pranto j orrou em m aré de angústia. Tantas vezes acariciara proj etos de reencontro! Tantas vezes im aginara-se pássaro distante do ninho, fam into de repouso na úsnea tépida! Entretanto, chegava até ali, na condição do hóspede indesej ável, abom inado pelos seus...

 

— Elisa! — im plorou.

 

A conturbada esposa, que trazia as faculdades psíquicas desordenadas, não lhe lobrigava a figura espiritual, depois que a luz m ais viva se derram ou no am biente; no entanto, lhe assinalava a voz com ovida e firm e, a repetir, suplicante:

 

— Elisa! Elisa, ouve! Eu sem pre te am ei...

 

Estabeleceu-se a conversação entre os dois, sem que a filha e o nam orado conseguissem ouvir senão m etade.

 

— Cala-te, infam e! Recuso um a afeição que sem pre detestei.

 

— Porque te alteraste assim ?

 

— Sou hoj e livre para dizer o que m e vem à cabeça.

 

— Mas, quando j untos...

 

— Eu era a escrava algem ada ao senhor...

 

— Entretanto, sem pre afirm aste que m e querias bem .

 

— Sem pre te desprezei, isto sim ...

— Oh! m eu Deus!

 

— Quem fala em Deus? Um assassino...

 

— Porque tanta crueldade?

 

— Dedé m e falou que não passas de um m atador! Nessa altura do diálogo, fundam ente estranho para os dois ouvintes reencarnados que o acom panhavam pelo m eio, Serpa inquietou-se e, confessando-se incom odado ante o delírio da enferm a, passou a esquadrinhar a casa, em busca de m edicação que lhe sedasse os nervos.

 

O entendim ento, contudo, entre a obsidiada e o m arido, prosseguiu, sem pausa.

 

— Ouve, Elisa! — m endigou Fantini, em pranto — não nego haver com etido grandes erros, m as invariavelm ente por tua causa, pelo extrem ado apego ao teu carinho!

 

— Balela! — gargalhou a interlocutora, entre a ironia e a dem ência — desde que arrasaste Dedé, passei a gostar dele. A qualquer m om ento a que vinhas em casa, isso acontecia sem pre para infelicidade nossa, porque vivíam os j untos aqui, antes de tua m orte, e vivem os j untos depois...

 

Olha este quarto! Dedé está no lugar onde sem pre esteve!

 

Sem elhantes declarações foram suplem entadas de inform es, sobre os quais pede a caridade se faça silêncio.

 

Ernesto chorava, ao passo que, defronte dele, o adversário desencarnado sorria, escarnecedor.

 

Nesse ínterim , o advogado surgiu trazendo a inj eção calm ante com que

 

Vera socorreu a doente agitada.