E a Vida Continua...
Assuntos do coração
E term inou dizendo para Fantini e a senhora Serpa que o ouviam , atentos:
— Não vej o qualquer interesse para Mancini na perm anência aqui.
Forçoso envidarm os esforços para que aceite, voluntariam ente, a m iniaturização.
— Renascer? — redarguiu Evelina, assustada. —Será preciso tanto?
E Ribas:
— Nosso am igo está m entalm ente enferm o, profundam ente enferm o, traum atizado, angustiado, fixado.
O rem édio será com eçar de novo... Ainda assim , terá dificuldades e desaj ustes pela frente.
O benévolo m entor não traçou advertências, nem articulou qualquer sugestão. E tanto Ernesto, quanto Evelina, enfronhados agora nos im perativos e provas da reencarnação, silenciaram de chofre, pensando, pensando...
Miniaturização ou restringim ento, no Plano Espiritual, significa estágio preparatório para nova reencarnação. — Nota do autor espiritual.
Assuntos do coração
Esvairam -se dez m eses sobre a tarefa assistencial de Evelina e Fantini, ao pé de Túlio necessitado, quando os dois solicitaram entendim ento com o
Instrutor Ribas, ao redor de problem as que lhes escaldavam o pensam ento.
Aspiravam , sobretudo, a rever os parentes no plano físico.
Convertera-se Ernesto num poço de m em órias sobre a esposa e a filha, a senhora Serpa não m ais suportava as saudades do m arido e dos pais. Porque ansiassem pelo retorno, ardiam na sede de inform es e explicações.
O orientador acolheu-os com a lhaneza habitual e, após registrar-lhes o pedido de bons ofícios para que lhes fosse obtida a concessão, acentuou, sim ples:
— Creio que vocês j á estej am em condições satisfatórias para a execução do em preedim ento.
Dedicam -se pontualm ente ao trabalho, conhecem agora o que sej a reencarnação, autodisciplina, burilam ento próprio...
E evidenciando entranhado carinho:
- Algum m otivo particular, m ais intim am ente particular, na petição?
Adiantou-se a m oça, acanhada:
— Instrutor, venho experim entando desoladoram ente a falta de Caio...
— Esposos que se am am — interferiu Ernesto —, quando distanciados um do outro, fazem -se noivos outra vez... Porque não confessar que tam bém eu ando aflito por abraçar m inha velha?
— Caro am igo — aventurou-se Evelina, fixando o m entor de m aneira expressiva —, em nos reportando à ligação conj ugal, arriscaria um a consulta...
— Diga, filha...
— O senhor não ignora que, em m eu prim eiro reencontro com Mancini, senti-m e, por m om entos, a j ovem m enos responsável que fui, observando-m e fortem ente atraída para ele.
Depois, reagindo, vi-m e, de novo, recuando m entalm ente para o dom ínio de
Caio, o m arido que ficou no plano físico, dando a m im m esm a a im pressão de que sou um satélite, gravitando entre os dois... Passei a esforçar-m e em auxílio de Túlio e, aos poucos, venho reconhecendo que ele não é, absolutam ente, o hom em que eu desej aria para com panheiro... Entretanto, para aj udá-lo e tolerá-lo, presentem ente, sinto necessidade de um estím ulo...
— O am or a Deus.
— Com preendo hoj e que todos respiram os na própria essência de Deus; contudo, o m istério para m im está nisso... Sei que nada conseguim os sem
Deus, m as, entre Deus e a obrigação que m e cabe cum prir, preciso de alguém que m e escore o espírito, que se m e erij a em apoio, na m ovim entação do cotidiano, em busca daquele estado de alm a que apelidam os por paz interior, euforia ou m esm o felicidade. .. Esta fom e espiritual que m e faz pensar dia e noite na reintegração com Caio significará que ele, m eu esposo, é realm ente o m eu am or absoluto? aquele espírito que será o sol de bênçãos a envolver-m e para sem pre, quando chegarm os à perfeição?
Ribas sorriu e filosofou:
— Todos nos destinam os ao Am or Eterno e no entanto, para alcançar o obj etivo suprem o, cada qual de nós possui um cam inho próprio. Para a m aioria das criaturas, o encontro do am or ideal assem elha-se, de algum m odo, à procura do ouro nas m inas ou de diam ante nas catas. É indispensável peneirar o cascalho ou m ergulhar as m ãos no barro do m undo, a fim de encontrá-lo.
Sem pre que am am os profundam ente a alguém , transform am os esse alguém no espelho de nossos próprios sonhos... Passam os a ver-nos na pessoa que se nos transform a em obj eto da afeição. Se essa criatura efetivam ente nos reflete a alm a, o carinho m útuo cresce cada vez m ais, assegurando-nos o clim a de encoraj am ento e alegria para a viagem nem sem pre fácil da evolução.
Nessa hipótese, terem os obtido apoio seguro para a subida do acrisolam ento m oral... Em caso contrário, a pessoa a que particularm ente nos devotam os acaba devolvendo-nos os próprios reflexos, à m aneira de um banco que nos restituísse ou estragasse os investim entos por desistência ou incapacidade de zelar por nossos interesses. Então, surgem para nós aquelas posições espirituais que nom eam os por m ágoa, desencanto, indiferença, desilusão...
— O senhor desej ará talvez afirm ar — recordou Fantini — que cam inham os na existência pelas vias da afinidade, de afeição em afeição, até achar aquela afeição inesquecível que se nos levante na vida por cham a de am or eterno?
— Sim , m as entendendo-se o conceito de afeição, sem a estreiteza do sexo, de vez que a ligação esponsalícia, em bora sublim e, é apenas um a das m anifestações do am or em si. Determ inado hom em ou determ inada m ulher podem confirm ar na esposa ou no esposo a presença do seu tipo ideal; entretanto, talvez prossigam , após o casam ento, m ais intim am ente vinculados ao coração m aterno ou ao espírito paternal... E, às vezes, som ente encontrarão o laço de eleição num dos filhos. Em am or, a afinidade é o que conta...
— Instrutor — enunciou Evelina, im pressionada e as uniões de suplício, os casam entos infelizes?
Sim , a reencarnação é tam bém recapitulação. Muitos casais no m undo se constituem de espíritos que se reencontram para a consecução de afazeres determ inados. A princípio, os sentim entos se lhes j ustapõem , no setor da afinidade, com o as crenas de duas rodas que se com pletam para fazer funcionar o engenho do m atrim ônio. Depois, percebem que é im perioso burilar outras peças dessa m áquina viva, a fim de que ela produza as bênçãos esperadas. Isso exige com preensão, respeito m útuo, trabalho constante, espírito de sacrifício. Se um a das partes ou am bas as partes se confiam a desentendim ento, a obra encetada ou reencetada vem a cair...
Então? — a pergunta de Evelina pairou no ar, revestida de im ensa curiosidade.
Então, aquele dos cônj uges que lesou o aj uste, ou am bos, conform e as raízes da desunião, devem esperar pela obtenção de novas oportunidades no tem po para a reconstrução do am or que dilapidaram .
— Instrutor, perm ita-m e um a pergunta. A união conj ugal de duas criaturas que se am am , quando interrom pida pela m orte no m undo, pode ser reatada aqui?
Ribas, expressivo:
— Perfeitam ente, se os cônj uges realm ente se am am ...
Fantini aparteou:
— E quando isso não acontece?
— Aquele que am a sinceram ente continua trabalhando, neste lado da vida, pelo outro que não lhe guarda na Terra a m esm a altura de sentim ento, aprim orando a obra do am or em outros aspectos, que não o da afetividade esponsalícia.
A senhora Serpa m ostrou o sem blante ilum inado por bonito sorriso e asseverou, segura de si:
— Isso não m e ocorrerá. Tenho hoj e m otivos para confiar em Caio tanto quanto confio em m im m esm a.
- Sua fé — volveu o Instrutor — é um retrato de sua sinceridade. Ernesto fitou dem oradam ente a com panheira e adm irou-lhe a ternura da alm a boa e ingênua.
Desde m uito, passara a nutrir por ela entranhado carinho. Nunca a apanhara em qualquer deslize. Sem pre com passiva, abnegada. Muitas vezes, surpreendia-se ligado a ela por encantadora atração. Sob que prism a a estim ava? Filha, com panheira, m ãe, irm ã? Não conseguiria dizer.
Tem endo o m ergulho em m ais longas divagações, ele, o bom am igo, chasqueou, no intuito claro de desviar o curso dos próprios pensam entos:
— Instrutor Ribas, qual se verifica no caso de nossa irm ã, tam bém estou persuadido de que m inha esposa espera por m im ... Entretanto, se isso não sucede?
— Se isso não ocorre — e o m entor frisou as palavras com paternal inflexão de bom -hum or —, você, Fantini, desfrutará, sem dúvida, a possibilidade de auxiliá-la na condição de um am igo fraternal.
— E, nessa hipótese, caber-m e-ia o direito de eleger um a nova com panheira na vida nova?
— As leis hum anas, tanto no plano terrestre quanto aqui, são princípios suscetíveis de alteração e, na essência, não afetam as Leis Divinas. Na m oradia dos hom ens, não existe obrigatoriedade para o estado de viuvez.
Conservam -se órfãos de com panhia no lar aqueles corações que o desej am .
Rom pidos os com prom issos do casam ento com a m orte do corpo, o hom em ou a m ulher perm anecem sozinhos, quando possuem m otivos para isso. Natural aconteça aqui o m esm o, O hom em ou a m ulher desencarnados guardam insulam ento ou não, conform e os propósitos íntim os que alim entem , entendendo-se, porém , que em qualquer posição dispom os de recursos para honorificar o trabalho da edificação do am or puro que acabará im perando, de m aneira definitiva, em nossas relações uns com os outros.
Evelina, denotando preocupação no olhar, diligenciou colher m aiores conhecim entos:
— Instrutor am igo, o senhor conhece com panheiros que não conseguiram consorciar-se aqui?
— Eu sou um deles.
— Algum a razão especial? — esm erilou Fantini.
— Acontece que o am or conj ugal, quando se exprim e em bases do am or puro, continua vibrando no m esm o diapasão entre dois m undos, sem que a perm uta de energias de um cônj uge para outro venha a sofrer solução de continuidade. Minha esposa e eu sem pre fom os profundam ente unidos.
Bastávam o-nos na Terra um ao outro, em m atéria de alim ento afetivo.
Sobre-vindo a m inha desencarnação, percebi logo que ela e eu continuávam os em plena vinculação m útua, qual se fôssem os partes integrantes de um circuito de forças. Na dedicação espiritual dela, colho m eios de continuar em m eu aprendizado do am or a todos, ocorrendo-lhe o m esm o.
— Ligação ideal! — regozij ou-se Evelina, extática.
Patenteando a ansiedade de que se via presa, no sentido de se reintegrar na ternura do m arido distante. com entou, reverente:
— Instrutor, noto que há sem pre reserva em nossos am igos m ais experientes daqui, quando se diz algo sobre a possível desencarnação de pessoas queridas que deixam os na retaguarda... Chego a pensar que isso é assunto proibido entre nós, será m esm o assim ?
— Não tanto. À m edida que se nos desenvolve a noção de responsabilidade, com preendem os a reencarnação com o período de escola.
Cada existência está supervisionada por deliberações superiores, m uitas vezes insondáveis para nós.
A interlocutora, denunciando aspirações íntim as, profundas, arriscou:
— Caro am igo, suponham os que eu venha a reencontrar o esposo m ergulhado em saudades iguais às m inhas, atorm entado, triste. Não m e será cabível, nem de leve, encoraj á-lo na certeza de que serem os novam ente felizes aqui, prom etendo-lhe a ventura renovada para além da m orte?
Digo isso, porquanto não lhe deixei filhos para entreter-lhe a coragem de sofrer, de esperar...
— Fuj a de refletir assim . Não tem os instrum entos para m edir a fidelidade daqueles que am am os, e, ainda que seu m arido estivesse agoniado, em trem endo desaj uste, por m otivo de sua ausência, não saberíam os se a desencarnação lhe traria o rem édio adequado. Quem nos dirá que a m ais longa dem ora dele, no corpo físico, não seria a providência desej ável, a fim de que se lhe revele com m ais segurança? Martelar-lhe na cabeça a ideia da m orte significaria, provavelm ente, aj udá-lo a reduzir tem po na experiência m aterial; e quem nos afirm ará com certeza que ele se sentirá feliz, regressando à vida do espírito, por im posição nossa e não por determ inação da natureza, sem pre sábia, por refletir os desígnios do Eterno?
— Oh! m eu Deus! — e a senhora Serpa deixou escapar um suspiro de aflição — com o agir em auxílio do coração que vive no m eu?
Ribas respondeu, afetuoso:
— Em m uitas ocasiões, quando dizem os que o coração de alguém pulsa em nós, seria m ais j usto declarar que o nosso coração é que pulsa nesse alguém ...
E com inflexão m ais carinhosa:
— Dentro de breves dias, você e Fantini poderão viaj ar, de visita ao ninho dom éstico.
Evelina e o com panheiro agradeceram , felizes. Doce alegria banhou-lhes a alm a, de im proviso, com o se o sentim ento se lhes deslocasse das brum as da saudade para brilhar ao sol da esperança, em novo alvorecer.