E a Vida Continua...

Chico Xavier · Capítulo 25 de 26

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E a Vida Continua...

Nova diretriz

Quanto a nós, de novo em plena rua, lim itám o-nos pessoalm ente a contem plar o firm am ento, onde a aurora purpúrea, anunciando perpétua renovação, nos sugeria louvar a Ilim itada Misericórdia de Deus... E oram os, sem conseguir articular palavra.

 

Nova diretriz

 

Após internarem Desidério e Elisa em organização hospitalar, sob assistência afetuosa, Ernesto e Evelina retornaram , na tarde do m esm o dia, a São Paulo, desej osos que se achavam de consultar a posição intim a de Vera, ante a nova situação. Esclarecidos quanto ao futuro, em que a presença e a colaboração dela lhes seriam sobrem aneira im portantes à própria tranquilidade, identificavam -se no dever de am pará-la com m ais calor de ternura.

 

A rendição de Desidério aos ideais renovadores que alentavam era igualm ente um ponto fundam ental no program a de trabalho a cum prir-se e esperavam reaj ustar as atitudes de Caio para que se lhes assegurasse m ais am pla área de ação.

 

Encontraram Vera Celina m arcada de lágrim as, apoiando-se em parentes e am igos.

 

Caio, taciturno, orientava o lem e dom éstico, dava ordens.

 

Estabelecido o cortej o fúnebre, os dois visitantes desencarnados, além de outros m uitos am igos da Espiritualidade Maior, se instalaram no carro fam iliar, j unto de Vera; entretanto, na chegada ao cam po-santo, Ernesto escorou a filha, ao m esm o tem po que Evelina seguiu o ex-esposo, que se figurava distrair-se em quadra próxim a àquela em que os restos da viúva Fantini descansariam .

 

Serpa fugia, intencionalm ente. Não queria ver a inum ação.

 

Colhido em cheio pela influência da com panheira que ele, antes, pouco m ais de dois anos, levara ao sepulcro, pensava nela e, sem querer, lhe via m entalm ente o sem blante na tela da m em ória.

 

Não longe dele, Vera chorava nos braços dos am igos, enquanto ele m esm o, sorum bático, refletia, refletia...

 

Lem brava-se de quando deixara a m ulher m orta em outro cem itério, o da Quarta Parada (1), rem em orava-lhe a partida, revisava na im aginação os incidentes havidos.

 

Era crepúsculo, qual ocorria ali, em Vila Mariana. E as m esm as inquirições lhe vinham à cabeça...

 

A vida term inaria em m ontões de pedra e cinza? para onde se transfeririam os m ortos, na hipótese de continuação da existência? onde estariam os pais que ele vira partir, nos dias da j uventude? em que região andaria Evelina, a esposa que am ara, desm edidam ente, na prim eira m ocidade, e de quem a enferm idade e a m orte o haviam separado? Recordando-a, sentiu-se ligado a outra penosa rem iniscência: Túlio Mancini... O coração se lhe arrochava e passou a indagar de si m esm o por que m otivo se confiara à loucura de assassinar estupidam ente o colega. O delito aflorou-lhe à m em ória com todas as m inudências...

 

Propôs-se alij ar as reflexões que lhe assom avam ao cérebro; no entanto, sentia-se incom preensivelm ente fisgado ao pretérito.

 

(1) Cem itério da capital paulista. — Nota do autor espiritual.

 

Não podia perceber que Evelina, em espírito, ali estava, rente a ele, diligenciando acordá-lo para a verdade.

 

— Caio, que fazes da vida? — Ela perguntou, docem ente.

 

O advogado não registrou a indagação com os tím panos corpóreos, m as ouviu-a na acústica da alm a e j ulgou m onologar: “Caio, que fazes da vida?”

 

Repetiu, inconscientem ente, as palavras da com panheira desencarnada, no ádito da própria consciência, e passou a considerar que o tem po fugia sem que se desse conta de si m esm o... Em que valores perm utara o patrim ônio das horas? em que recursos convertia a saúde e o dinheiro? que bênçãos j á teria espalhado com o título acadêm ico que ostentava? Na condição de am igo, exterm inara um com panheiro, na posição de esposo, não tivera coragem de ser bom para a m ulher, quando sitiada pela doença!

 

O olhar se lhe esbarrou, sem querer, no ritual do sepultam ento de Elisa e inquiriu, de si m esm o, o que teria representado para a m orta. Sinceram ente, não se sentia bem consigo próprio, realinhando na im aginação a im paciência e a dureza com que sem pre a tratara, preocupado em arrebatar-lhe a ternura da filha...

 

Avaliando as péssim as notas que a consciência lhe conferia no educandário da existência, em bora de longe, fixou Vera, a esquadrinhar-lhe o íntim o, através do sem blante.

 

— Caio — assoprou-lhe Evelina aos ouvidos da alm a —, pense nos teus com prom issos... É tem po de legalizar a situação da j ovem que se entregou a ti sem qualquer restrição...

 

Convencido de que conversava de si para consigo, Serpa reproduziu a interpelação, no cam po m ental, em silêncio, sem perceber que a esposa desencarnada lhe colhia as respostas. Supondo desenvolver tão-som ente um processo de autocrítica, m onologou sem palavras: “legalizar a situação com Vera? casar-m e? porquê?”. Sim , aprovava, prom etera-lhe m atrim ônio, m as não se resignava a aceitar a m edida sem m aior observação. Já fora hom em preso a obrigações de m arido e não se propunha a retom ar afeição recheada a constrangim entos. Além disso, m atutava, dava-se por hom em robustecido na experiência do m undo. Escutara em sociedade m uitas referências desprim orosas, ao redor da filha de Elisa, que não a recom endavam para esposa. De rapazes diversos, obtivera apontam entos que lhe enodoavam a ficha de m ulher. Porque entregar seu nom e a um a criatura tida por inconstante?

 

— Caio, quem és tu para j ulgar?

 

A interrogação de Evelina percutiu na alm a dele em form a de ideia fulgurante que o enterneceu e assustou...

 

E qual se pensasse em voz alta, a falar espiritualm ente para si próprio, recebia novas exortações, sem elhando im pactos da verdade a lhe atingirem o ádito do próprio ser:

 

— Caio, quem és tu para j ulgar? não és igualm ente de ti m esm o, alguém onerado com débitos escabrosos perante a Lei? a que título, condenar sum ariam ente um a j ovem , prej udicada pelos enganos da sua condição de m enina m oralm ente desam parada?

 

Na base das advertências que lhe eram endereçadas, prosseguia indagando-se... Seria j usto abusar dela agora que se via praticam ente só no m undo? se a desprezasse, para onde iria? E quem era ele, Caio Serpa, senão um hom em no rum o da m adureza, reclam ando a dedicação de alguém para que o com boio da vida se não lhe descarrilasse? Conhecia ele toda a escala dos prazeres físicos e que lucrara finalm ente com isso, se levava toda m anifestação afetiva para o terreno da irresponsabilidade e do abuso? que recolhera senão cansaço e desilusão das noitadas barulhentas, cheias de vozes e vazias de sentido? até ali, que lem brasse, nunca aj udara a ninguém .

 

Sabia ser afável até o ponto em que as circunstâncias não o descontentassem .

 

Bastava, porém , um ponto, um leve ponto a contrariá-lo, em quaisquer acontecim entos, para que se internasse nessa ou naquela escapatória, no claro intuito de não se incom odar. Não teria chegado o m om ento de auxiliar a outrem , agir a favor de alguém ? De com eço, em penhado à conquista, cum ulara

 

Vera de gentilezas, carinhos. Enredara-lhe as atenções. Depois, o fastio daqueles que não m ais sabem am ar, quando a cham a do desej o se lhes extingue na candeia da form a. Entretanto, não lhe era lícito negar que a m oça lhe dera os m ais altos testem unhos de confiança. Vera Celina se lhe entregara, de todo. E, por fim , não vacilara hum ilhar a própria genitora, a fim de colocar-lhe nas m ãos todos os bens...

 

Serpa registrava todos os argum entos da com panheira desencarnada, à feição de um a lâm pada que se j ulgasse fonte da luz de que se beneficia, a ignorar que a recolhe da usina.

 

E opunha contraditas:

 

— Consorciar-m e? prender-m e? porquê? não tenho toda a satisfação do hom em casado, sem as peias do m atrim ônio?

 

E a voz de Evelina a ressoar-lhe novam ente no espírito:

 

— Sim , és o elem ento-com ando da união; entretanto, com o não te garantires contra as tentações do futuro, com o não te im unizares contra as tuas próprias inclinações para a aventura, doando a ela — o elem ento-obediência — a tranquilidade de que carece para servir-te? Acaso te j ulgas livre das tendências à leviandade que te assinalam o cam po afetivo? Não será recom endável lhe assegures a paz, preservando a paz de ti m esm o, pela subm issão às disciplinas j ustas da vida?

 

Pensa! Im agina-te à frente de tua própria m ãezinha, j á que quase todo hom em procura na esposa, acim a de tudo, o apoio m aternal que a m adureza furtou da infância. Estim arias que um hom em , na hipótese o teu próprio pai, lhe espancasse os m ais puros anseios do coração?

 

Porventura não se tornaria ela m ais digna do teu am paro e do teu carinho, se a visses brutalizada, desam parada, esquecida por aquele m esm o a quem se rendeu, confiante? porque alegares sofrim entos passados para m enoscabar a criatura que am as, se sem elhantes provações fazem dela alguém com m ais acentuada necessidade de tua proteção e entendim ento?

 

Das adm oestações propriam ente consideradas, a ex-senhora Serpa se transferiu para reflexões de otim ism o e esperança:

 

— Caio, m edita! Vera não te confiou parcos recursos m ateriais à adm inistração! Dispões de patrim ônio apreciável para organizar um a fam ília...

 

Pondera quanto às bênçãos do futuro! Escuta!

 

Creias ou não em Deus e na sobrevivência do espírito, além da m orte, carregas contigo um doloroso problem a, até agora inarredável da m ente: o rem orso pelo hom icídio praticado, a lem brança de Túlio Mancini, abatido por tuas m ãos! Escapas, no rum o de prazeres que não te dim inuem a m ágoa, e tentas, em vão, bloquear rem iniscências am argas que te assediam constantem ente. Ser pai, cuidar de filhos queridos, não te será na Terra a m ais elevada com pensação? O m atrim ônio com Vera te investirá legalm ente na posse de recursos a serem valorizados e aum entados, garantindo, aos filhinhos vindouros, segurança e conforto, alegria e educação! Um lar, Caio! Um lar, onde possas descansar, renovar-te, esquecer! Filhos em que te revej as e o convívio de Vera, cuj a presença te lem brará o refúgio m aternal!

 

Diante daquelas santas evocações de paz e ventura que j am ais experim entara, pela prim eira vez, depois de m uitos anos, Serpa chorou...

 

Evelina continuava:

 

— Sim , Caio, lava o coração na corrente das lágrim as! Chora de esperança, de j úbilo!

 

Confiem os em Deus e na vida! O Sol que hoj e se põe, voltará am anhã!

 

Contem pla estas lousas, fita os sepulcros à frente! De todos os lados, explodem verdura e flor, a dizerem que a m orte é ilusão, que a vida triunfa, bela e eterna! De um outro m undo, os que te am am regozij ar-se-ão com os teus gestos de entendim ento! Túlio te perdoará, Elisa há de abençoar-te! Coragem , coragem !

 

O causídico, surpreso, incapaz de identificar-se visitado pelo espírito da com panheira de outros tem pos, reconhecia-se subitam ente consolado e eufórico, tangido por suave renovação, nos recônditos do ser.

 

À m aneira de um doente que encontrara o rem édio providencial e a ele se agarrasse, na sede da própria cura, instintivam ente decidiu-se a não perder o precioso m om ento de exaltação construtiva em que entrara.

 

— Vam os! — insistiu Evelina — concede agora, m as claram ente agora, a nossa Vera a certeza de que a protegerás num casam ento digno!

 

Sucedeu o inesperado.

 

Habitualm ente agressivo e rebelde, Caio Serpa arrancou-se, hum ilde, do lugar em que se plantara, avançou sem pre abraçado pelo espírito da ex-esposa, na direção do grupo em que a j ovem se apoiava... Ali, de pensam ento conj ugado ao da m ensageira espiritual, observou a m oça sob novo prism a.

 

Pareceu-lhe que com eçava a am á-la de m aneira diversa. Viu-a m ais cativante na dor que dem onstrava, percebeu-lhe a solidão e a sede j usta de com panhia.

 

Às súbitas, reconheceu-se tam bém só, a requisitar-lhe m ais intensivam ente a dedicação e o carinho para viver.

 

Já não sabia, naquele inolvidável instante, se a queria com a im pertinência de um hom em ou com a ternura de um pai...

 

Abordando-a, tom ou-lhe o braço, de leve, e com unicou-lhe, em voz alta, no propósito de alicerçar a própria declaração com o testem unho dos am igos presentes:

— Vera, não chore m ais... Você não está sozinha! Am anhã m esm o, cogitarem os de organizar a docum entação precisa para casar-nos tão breve quanto possível!

 

A interpelada lançou-lhe um olhar significativo e agradecido... E enquanto am bos se escoravam um no outro para o retorno a casa, Evelina e Ernesto, com os am igos desencarnados atentos às derradeiras hom enagens à viúva.

 

Fantini, entraram em prece, agradecendo ao Senhor a bênção daquela transform ação.

 

Mais um passo im portante estava articulado para o futuro m elhor...

 

Caio e Vera levantariam um lar com o Am paro Divino. Túlio Mancini ressurgiria para a Terra, no tronco daquele m esm o que lhe subtraíra a existência, satisfazendo à Lei do Am or que determ ina sej am o ódio e a vingança para sem pre banidos da Obra de Deus! Mais tarde, Elisa se lhes reuniria por filha bem -am ada! Caio se reconfortaria e certam ente seria outro hom em , ao ver-se continuado na posteridade feliz, sob o olhar carinhoso de Vera, que o am ava ardentem ente...

 

Evelina cism ava em tudo isso, incapaz de sofrear o pranto de j úbilo...

 

Continuava am ando o ex-esposo, porém , noutro nível, e, com toda a alm a, agradecia ao Senhor a existência de Vera Celina, a quem passara a reverenciar e querer bem , na condição de protetora, cuj os serviços se m anteriam para ela irresgatáveis.

 

Em transporte de alegria, correu ao encontro dos noivos e, antes que Serpa se aboletasse no autom óvel, j unto da com panheira, abraçou-o, reconhecida, e, pela prim eira vez, bradou-lhe ao coração com a celeste em otividade do am or purificado a labaredas de sofrim ento:

 

— Caio, m eu filho! Meu filho! Sê feliz e que Deus te abençoe!

 

Em seguida, inclinou-se para Vera e beij ou-lhe a m ão com enternecim ento indescritível.