E a Vida Continua...

Chico Xavier · Capítulo 14 de 26

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E a Vida Continua...

Novos rumos

— Vinde! Vinde!

 

O m oço arrancou-se da quadrilha, seguiu na direção que Cláudio lhe indicava e, em poucos m om entos, a senhora Serpa, trêm ula e consternada, tinha diante de si, Túlio Mancini, aquele m esm o rapaz a quem am ara noutro tem po e que, segundo estava convencida, havia descam bado nas trevas do suicídio por sua causa.

 

Novos rumos

 

A senhora Serpa, extática, não conseguiu articular palavra.

— Evelina! Evelina! — gritava o m oço com o que dem entado de j úbilo. — Agora! Agora que vi você, reconheço que estou vivo... Vivo! Cláudio considerou a delicadeza do m om ento e recom endou m edidas para que o rapaz fosse abrigado no lar de Am brósio, até que se lhe providenciasse hospitalização conveniente, de m odo a se adaptar ao m eio com o se im punha.

 

Depois de passes reconfortantes em que se lhe sossegaram as em oções, Túlio Mancini foi conduzido à residência dos m odestos am igos que o acolheram alegrem ente, enquanto o grupo socorrista retornava ao cam po dom éstico.

 

Distinto psicólogo, Irm ão Cláudio se absteve de quaisquer alusões pessoais, a não ser nas frases ligeiras com que notificou a Fantini e à senhora Serpa a possibilidade de reverem o am igo reencontrado no dia seguinte, se o desej assem , prom etendo indicar-lhes o endereço preciso, de vez que esperava situá-lo em dependência de reaj uste e descanso, tão logo pudesse avistar algum a das autoridades a cuj a orientação se lhe vinculava a obra assistencial.

 

Ernesto, a seu turno, estim aria ouvir a com panheira com respeito ao suicida que lhes fora obj eto de tantos com entários, desde a conversação prim eira; no entanto, calava-se, observando-a francam ente aparvalhada e apoiando-se-lhe ao braço em fundo silêncio. Na cabeça dele, Fantini, pensam entos contraditórios se em baralhavam , sugerindo inquirições sem resposta.

 

Não era Túlio um suicida? — perguntava-se. Lera bastante m aterial inform ativo sobre suicidas, além da m orte, e acreditava estivessem eles com um ente agoniados nas duras penalidades a que se im punham pelo desacato às Leis de Deus.

 

Por que m otivo escapara Mancini às corrigendas a que fazia j us, pervagando à vontade na província de alienados m entais, entre Espíritos rebeldes e vagabundos?

 

Hom em educado, porém , buscou em udecer considerações e perguntas para unicam ente reverenciar a perplexidade da am iga que, desde m uito, lhe ganhara o coração.

 

Passo a passo e diálogo a diálogo, a equipe dispersou-se entre saudações de fraternidade e votos de paz.

 

A sós com Evelina, entretanto, o generoso am igo, para dissipar os pensam entos constrangedores de que a via cercada, sorriu e falou com excelente hum or, infundindo-lhe calm a e otim ism o:

 

— Excelentíssim a senhora Serpa, se algum a dúvida nos restava sobre a m orte de nossos corpos físicos que j á devem ter desaparecido no boj o da terra, j á não nos é possível doravante qualquer incerteza.

 

Ela diligenciou, em vão, sorrir. Sentia-se esm agada, abatida...

 

Ernesto redobrou esforços por cham á-la ao reequilíbrio e, depois de larga série de alegações construtivas, rem atou:

 

— Acaso, não tem os nós solicitado trabalho? Quem dirá não tenham os sido induzidos, sem perceber, pelas autoridades daqui, ao achado de hoj e?

 

Esse Túlio que lhe foi, um dia, com panheiro de sonhos, será talvez para nós o com eço de novos rum os... Um a nova ocupação, um cam inho de acesso à elevação espiritual a que nos cabe dar início... Você concordará em que o vem os necessitado de tudo. Aquela voz atorm entada, aqueles olhos de doente não nos enganariam .

 

Estam os diante de alguém que solicita atenções im ediatas e, a rigor, sendo pessoa de suas relações, é nosso parente próxim o. Som os agora os únicos fam iliares que ele possui.

 

Porque a am iga se referisse, de leve, à dor m isturada de assom bro que a descoberta lhe causara, Fantini voltou ao bom -hum or do princípio e gracej ou, de braços abertos:

 

— Que esperaria de m elhor a senhora Serpa, a fim de trabalhar?

 

Cravou as m ãos na cintura, num gesto que lhe era peculiar, e sublinhou:

— Quanto ao m ais, m inha querida am iga, lem bro aqui a declaração filosófica de um velho com panheiro:

 

“Convivei e purificai-vos”. Estam os desencarnados e precisam os, com o nunca, de burilam ento m oral. Se a presença de Túlio nos cham a ao serviço que nos testará a capacidade de am or ao próxim o, não hesitem os abraçar as novas obrigações.

 

Dias transcorreram até que os dois am igos conseguissem reavistar o rapaz, então suficientem ente m elhorado, depois dos cuidados recebidos.

 

Ernesto fitava-o, curioso, no prim eiro tête-à-tête, m as Evelina sentia-se tom ada de surpresa e inquietação.

 

Aquele era Túlio Mancini, m as um Túlio Mancini diferente, Os olhos penetrantes, quando pousados nela, denunciavam sentim entos estranhos.

 

Nem a ela, nem a Fantini passavam despercebidos os propósitos enferm iços a lhe nascerem , ali m esm o, à frente dos dois, sem que o m oço se soubesse intim am ente visto e analisado.

 

Sem qualquer im pulso intencional, Ernesto e Evelina perm utavam im pressões, telepaticam ente, reconhecendo com m ais clareza que lhes era possível conversar pelo idiom a do pensam ento, de m odo espontâneo, principalm ente ali, diante de um com panheiro que não lhes com ungava o m esm o nível de ideias e em oções. Naquele m om ento, guardavam a convicção de ler na alm a de Túlio, com o num livro aberto.

 

Registrando as afirm ações entusiásticas do rapaz, a im aginar-se vivo no m undo físico pelo fato de haver reencontrado a ex-noiva, os dois am igos não se anim avam a desm anchar-lhe, de pronto, a ilusão.

 

— O que m ais m e espanta é ter aguentado isso aqui, tanto tem po, com o flagelo da dúvida... — suspirou Mancini, aliviado.

 

A senhora Serpa diligenciou m odificar-lhe o curso dos raciocínios, no evidente intuito de prepará-lo para a verdade, e interpôs com bondade:

 

— De m inha parte, o que m ais lam entei foi a sua atitude, atirando contra você m esm o, num ato de loucura...

 

— Eu? eu?! Pois você não soube? — redarguiu o m oço, adm irado — nunca fiz isso! Tive, é verdade, a fraqueza de pensar, um dia, em m atar-m e pelo veneno por sua causa, m as, depois, reconheci que você não m e desprezava e eu queria, a todo preço, reconquistar a sua afeição.

 

Sucede, porém , que no anseio de colocar-m e fora de cam po, Caio foi procurar-m e, solicitando-m e ir com ele ao m eu escritório, para consultarm os j untos um livro de Direito Internacional. Porque alegasse urgência, não vacilei em prestar-lhe o favor. Era um feriado e as salas próxim as j aziam fechadas. A sós com igo, abandonou os assuntos da profissão, e passou a acusar-m e. Disse que a m inha covardia, recorrendo ao veneno, abalara o am or que existia entre ele e você... Tentei j ustificar-m e... Quando m e detinha a considerar a pureza de m eu afeto, aquele brutam ontes vom itou insultos que não consigo olvidar e, sacando um revólver, m e alvej ou no peito... Caí no piso e nada m ais vi. Acordei, não sei quando, num quarto de hospital e, desde então, vivo enferm o e revoltado, buscando reaver a saúde para ensinar àquele biltre quanto vale a m inha vingança...

 

Um raio que caísse, ali, sobre os três, não teria arrasado o ânim o da senhora Serpa quanto aquela revelação terrível.

 

Num átim o, percebeu que Túlio não largara o corpo em arrancada suicida, m as sim constrangido pela arm a daquele a quem desposara no m undo, ao m esm o tem po que Fantini, estupefato, concluía que o rapaz fora vítim a de um crim e desconhecido entre os hom ens; e fosse porque aflitivos pensam entos de culpa lhe azorragassem o cérebro ou porque notava no m oço o anseio indisfarçado de ficar a sós com Evelina, rogou telepaticam ente a ela não fizesse o m ínim o esforço por trazer Mancini à realidade e sim tivesse paciência, até que pudessem estabelecer planos de socorro ao m oço infeliz.

 

A senhora Serpa entendeu e Ernesto pediu licença para afastar-se.

Queria pensar, repousar...

 

Ao dem ais, inform ou, era natural que os dois tivessem confidências, de coração para coração.

 

Mais tarde se reencontrariam .

 

Em bora contrafeita, Evelina aquiesceu.

 

Quando se voltou, porém , para o ex-noivo, sentiu-se algo desam parada, qual se renteasse com perigos ocultos.

 

Mancini convidou-a a pequeno passeio pelo parque da instituição que o albergava e, em poucos instantes, ei-los, um ao lado do outro, a passo vagaroso, entre sebes floridas e árvores protetoras, aspirando o vento em balsam ado de nutrientes perfum es.

 

— Evelina — recom eçou ele —, quem é este velho que você está trazendo a tiracolo?

 

A interpelada m ostrou-se penosam ente im pressionada com a frase agressiva, pronunciada em tom de sarcasm o; no entanto, respondeu, gentil:

 

— Trata-se de am igo distinto, a quem devo inestim áveis favores.

 

Ele chasqueou:

 

— Com preenda que sofri m uito para achar você... Agora, não cedo sua com panhia a hom em algum , m esm o que esse hom em fosse seu pai...

 

Ela se dispunha a revidar, solicitando m oderação; todavia, Mancini prosseguiu, eufórico:

 

— Evelina, tenho um m undo de coisas a saber, a perguntar e a ouvir de você... Não sei, realm ente, se tenho estado louco. Onde estam os? que fazem os? Entretanto, prefiro falar de você e de m im , unicam ente de nós dois...

 

Nessa altura do diálogo, esbarraram com bonito e pequeno caram anchão, totalm ente envolto de trepadeiras.

 

Túlio, em voz suplicante, im plorou fizessem ali um a parada de refazim ento.

 

Sentia dores, quando se m ovim entava em dem asia, alegou. Desde o tiro sofrido, não se reconhecia o m esm o. Evelina obedeceu m aquinalm ente im pulsionada pela com paixão.

 

Acom odaram -se am bos num dos bancos existentes no recinto doce e agreste.

 

O m oço relanceou os olhos, por todos os lados, com o a certificar-se de que se viam absolutam ente sozinhos e, em seguida, cerrou a única porta da peça, que passou a receber luz e ar através das altas e estreitas j anelas que quase se com unicavam com o teto. Em se voltando para a com panheira, patenteava no sem blante tam anha expressão de sensualidade que a senhora estrem eceu.

 

— Evelina! Evelina! — rogou ele, apaixonadam ente — você sabe que tenho esperado por este m om ento de felicidade, em todos estes anos de angústia. Você e eu, j untos!

 

Ela não foi totalm ente insensível ao apelo afetivo daquele hom em j ovem a quem am ara, e enterneceu-se. Relem brou as noites de cochichada ternura, nos parques e nos cinem as, antes de com prom eter-se com Serpa. Sim !

 

Aquele era Mancini, o rapaz que a im pressionara tanto! A. m esm a sim patia e a m esm a voz de enam orado, acenando-lhe com a renovação do destino.

 

Instintivam ente, rem em orou as infidelidades do m arido, o escárnio revestido de belas palavras que recebera dele tantas vezes em casa e, por um m om ento, balançou-se-lhe outra vez o coração, entre os dois, qual ocorrera nos tem pos do noivado... Túlio estava, agora, diante dela, prom etendo-lhe, de novo, um am or ardente e tranquilo... Achou-se com o que inebriada pelas considerações que ouvia, m as a consciência vigilante im peliu-a a reaj ustar-se.

 

Via-se dom inada por estranho sentim ento que a induzia para ele; no entanto, ao m esm o tem po, algo em Mancini, naquele instante, lhe im punha m edo e certa repugnância. Não era ele m ais o cavalheiro de outra época.

 

Mostrava-se im ponderado, desabrido. Moralm ente refeita, Evelina confessava a si m esm a que não lhe cabia o direito de ceder a quaisquer sugestões incom patíveis com a sua dignidade fem inina.

 

Casara-se. Devia ao esposo lealdade e acatam ento. A consciência controlou a sensibilidade. A noção dos com prom issos assum idos guardou-lhe a alm a nobre e sincera. Im pôs-se fortaleza e serenidade, resolvendo perm anecer a cavaleiro de em oções que não se j ustificavam .

 

Enquanto sem elhantes reflexões lhe escaldavam a cabeça, Mancini continuava:

 

— Deixe-m e recostar em seu colo, um m om ento só! Evelina, quero sentir o calor de seu coração... Tenho necessidade de você, qual o sedento quando se aproxim a da fonte! Com padeça-se de m im !

 

Observando os gestos de desconsideração que ele passara a assum ir, a m oça tentou recuar e replicou, valorosa:

 

— Túlio, contenha-se! Não sabe você que desposei Caio, que tenho a responsabilidade de um lar?

 

— Oh! o infam e! Com preendo que a m inha ausência longa terá levado você a desposar aquele canalha, m as isso não fica assim , ......

 

E, depois de pausar, alguns instantes, prosseguiu para a com panheira estarrecida:

 

— Evelina, sei que você não é indiferente ao que sinto! Vam os! Diga que m e atende

Ato contínuo, intentou beij á-la.

 

Em bora possuída de assom bro e tem or, ela ganhou ânim o e, retrocedendo, reagiu indignada:

 

— Túlio, que é isto? estará você louco?

 

— Tenho pensado em você, dia e noite... Desde que tom ei o balaço daquele patife que levarei à cadeia. Não tenho m ais ninguém na im aginação!

 

Não se com padece você de m im ?

 

O entono com ovedor daquela voz feria-lhe fundo a alm a; no entanto, a senhora Serpa obj etou, firm e:

 

— Com preendo a sua estim a e agradeço a lem brança, m as j ulga você j usto atacar-m e assim , desrespeitosam ente, quando j á lhe falei que tenho um m arido e, por isso m esm o, contas a prestar?

 

Mancini silenciou por m om entos; em seguida, exibiu nos olhos esgazeados a perturbação que lhe passou a senhorear os m ecanism os da m ente, transfigurou o pranto em escárnio e desfez-se num a gargalhada terrível.

 

— Um m arido! Um m arido, aquele crápula! — zom bou. — O povo de onde venho agora, o povo da terra da liberdade, tem toda a razão... Entendo, você agora faz parte dos santos, m as eu não sou m ascarado. Sou o que sou, um hom em com as funções que m e são próprias... Quero você e isso a escandaliza? Boa piada! Você é um a m ulher com o as outras, você não é m elhor do que todas aquelas que conheço na terra da liberdade, apenas com a diferença de que você se oculta na capa andraj osa da disciplina...

 

— Sim — suspirou Evelina, m agoada —, não nego a m inha fragilidade hum ana... Não acredita você, porém , que a disciplina é a m elhor m aneira de educar-nos e dignificar os nossos sentim entos?

— Ah! Ah! Ah! — galhofou ele — obediência é a cam isa-de-força em que os hipócritas m etem os sim ples, m as você m udará de ideia...

 

A m oça agoniada confiava-se à oração m uda, im plorando socorro aos poderes da Vida Maior.

 

Enquanto isso, o com panheiro avançava, m ofando:

 

— Olhe para dentro de você m esm a e verificará seu disfarce... Você é um anj o de pé-de-chum bo, igual aos outros m acacos fantasiados que andam por aí. Largue m ão disso... Todos som os livres! Livres filhos da Natureza para fazer o que quiserm os! Proclam e a sua independência se não desej a acabar na senzala dos tartufos da suj eição!

 

Mancini investiu para ela e estava prestes a agarrá-la, quando alguém providencialm ente bateu à porta.

 

Constrangido em bora, Túlio refez-se, de im ediato, e foi atender.

 

O m ensageiro declinou para logo a sua condição. Tratava-se de auxiliar do Instrutor Ribas e vinha da parte dele, a fim de conduzir a irm ã Evelina Serpa ao Instituto de Proteção Espiritual, para a solução de assunto urgente.

 

A senhora respirou aliviada e percebeu que fora ouvida na silenciosa petição e, enquanto agradecia, em pensam ento, o am paro salvador, Túlio, seguido igualm ente de perto pelo em issário, voltou à casa de reaj uste, onde foi recolhido à cela especial, destinada a serviço de segregação e tratam ento.