E a Vida Continua...

Chico Xavier · Capítulo 18 de 26

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E a Vida Continua...

O retorno

 

Enfim , a volta.

 

Am bos, Evelina e Fantini, m anifestavam o contentam ento de crianças em festa.

 

A prim eira vinda ao lar, após dois anos.

 

Às despedidas, antes de se incorporarem à reduzida equipe de com panheiros que tornariam ao dom icílio terrestre em condições iguais às deles, recolheram de Ribas a recom endação:

 

— Vocês representam nossa cidade, nossos costum es e princípios, portem -se na base do novo entendim ento. Se precisarem de auxílio, com uniquem -se conosco pelo fio m ental.

 

Um abraço e os votos de felicidade para a viagem .

 

Quando o veículo pousou rente à Via Anchieta (1), no ponto em que a estrada se bifurca, descerrando cam inho para São Bernardo, o pequeno grupo dispersou-se.

 

Cada excursionista era um anseio itinerante, cada qual um m undo vivo de saudades.

 

O dirigente da caravana e responsável pela viatura m arcou regresso para o dia seguinte. Que os viaj antes se reunissem , ali m esm o, esgotado o prazo de vinte horas.

 

(1) Rodovia entre as cidades de Santos e São Paulo. — Nota do autor espiritual.

 

Nossos am igos respiraram , m aravilhados, o vento brando que os saudava.

 

Surpresos. Felizes. Custavam a crer estivessem na entrada de São Paulo.

 

Em bevecidos, contem plaram o céu lavado e im ensam ente azul do entardecer de m aio. Em torno, raj adas de frio neles fixavam recordações de tem pos idos. Cam inhavam sob fascinante j úbilo a lhes povoar o coração.

 

Era, sim , a cidade para eles fam iliar, a terra que am avam ... Inalavam sofregam ente o arom a das flores e sorriam para os ocupantes dos carros que, naquele fim de sábado, desciam para Santos.

 

Evelina, que trazia a m ente e o coração absorvidos pela im agem do esposo, em certo trecho do cam inho perfilou-se diante de Ernesto, qual se buscasse nele um grande espelho, e indagou com ternura ingênua que opinião era a dele, na posição de hom em , quanto à apresentação dela. Queria estar nas m esm as características de sim plicidade e bom gosto, com que o m arido estim ava encontrá-la no refúgio dom éstico. Sabia que a situação era outra.

 

Serpa não lhe identificaria a presença, do ponto de vista m aterial, tanto quanto lograria vê-lo; no entanto, ouvira dizer que as pessoas saudosas enxergavam os am ados distantes com os olhos da alm a, qual se trouxessem um televisor no pensam ento. Se Caio tivesse em oções e ideias concentrados nela, certam ente lhe registraria os afagos, ainda que para ele tudo não passasse de sim ples m em ória.

 

Ernesto riu-se ao ouvi-la e elogiou-lhe a perspicácia.

 

Fitou-lhe o penteado e o rosto, pediu reaj uste nas dobras do vestido e aprovou os sapatos, à feição de um pai, encoraj ando a filha para a exibição num baile de debutantes. Depois, acusou-a com graça, asseverando que não lhe toava bem tão alta dem onstração de coquetism o.

A senhora j ustificou-se, assegurando-se convencida, quanto às preferências do esposo.

 

Am bos, em suave tête-à-tête, j á pisavam o bairro do Ipiranga, onde Evelina esperava encontrar o com panheiro na m esm a casa que lhe fora teatro à ventura. De chofre, eis que se lhe transfere a alegria para a inquietação. À m edida que se avizinhava do ninho antigo, oprim ia-se-lhe o peito. Mesclava-se-lhe o regozij o com im prevista angústia. E se Caio não estivesse na altura em que ela o situava, am oroso e fiel? A dúvida cravou-se-lhe no espírito, com o estilete envenenado que lhe varasse as entranhas.

 

— Ernesto, você tem algum a intuição, quanto ao que nos espera? Im agine você que, j ustam ente agora, estou am edrontada, tenho as pernas bam bas...

 

— Em oção.

 

— Que m ais?

 

Fantini deitou um olhar de funda gravidade para a com panheira e glosou:

 

— Evelina, você recorda nossas lições para Mancini?

 

— Com o não? Mas, que tem isso a ver com o nosso problem a?

 

— Meditem os. Por m eses e m eses, tem os falado a Túlio, você de m odo especial, relativam ente às coisas da alm a... Abnegação, com preensão, serenidade, paciência... Ensinam entos dados e recapitulados, ilações e repetições...

 

— Sim ...

 

— Você não adm ite que o Instrutor Ribas, com tantas explicações sobre am or e casam ento, serviço e espiritualidade, para nós dois, não terá feito o m esm o, a nosso benefício? não acredita que ele, o dedicado am igo, conversando, às vezes de m aneira exaustiva, não estaria sendo para nós um professor, enxergando longe?

— É... é...

 

— Estej am os preparados para m udanças...

 

A senhora desconversou. Mudou de assunto. Asseverou-se receosa, algo fatigada. Se possível, aceitaria algum descanso. Não desej ava acercar-se do m arido com qualquer indício de m al-estar.

 

Ernesto propôs alguns m inutos de repouso nos j ardins do Museu. (1) Rum aram para lá, acolhendo-se ao pé de fonte am iga, cuj as águas pareciam guardar o poder de asserenar-lhes os pensam entos.

 

Com o que contagiado pelos tem ores da com panheira, Fantini, de repente, acusou-se am uado.

 

No exato instante em que se abeirava da m ulher e da filha, esm orecia-lhe o entusiasm o que a rom agem lhe causava. Ensim esm ou-se. Evelina percebeu e passou a falar de alegria e esperança, encarecendo o m érito das ideias positivas. Assinalava ele as frases de vigorosa confiança a se derram arem no verbo da m oça que se lhe fizera irm ã e am iga, incapaz de alhear-se da taciturnidade que o acom etera de súbito.

 

A senhora Serpa, discreta, silenciou e, por fim , declarou-se disposta ao trecho final da viagem .

 

Cavalheiroso, Fantini prom eteu assisti-la, em seu prim eiro contacto com o lar. Que ela verificasse o am biente dom éstico. Se tudo lhe respondesse à expectativa otim ista, viesse até ele que lhe aguardaria, nos arredores, o aviso conveniente e, então, deixá-la-ia com o esposo, até o dia im ediato, enquanto que, ao m esm o tem po, se arrancaria para a Vila Mariana, onde contava rever a fam ília.

 

(1) Museu do Ipiranga, em São Paulo. Nota do autor espiritual.

 

Evelina concordou; não lhe aprazia ficar a sós, nem lhe prescindia do apoio.

Seis horas da tarde. A m oça não m ais via o céu paulistano, nem o casario, nem os transeuntes.

 

Coração aos pulos, aproxim ou-se do lar.’ Atravessou o pátio de acesso e tateou a porta de entrada que lhe facilitou a passagem . Algo lhe dizia no íntim o que Serpa estava em casa e seguiu à frente. Trem ia, assustada. Inspecionou a peça em torno. A sala era a m esm a, com pequenas alterações no m obiliário do seu tem po. Ao lado, o estreito escritório do esposo, entrem ostrando as cortinas abertas. Penetrou aí com a unção de quem avança, passo a passo, pelos recantos de um santuário. Os livros em ordem . De inopino, surgiu-lhe à observação, atalaiada por dim inuto vaso de flores, um a foto de m ulher.

 

Vasculhou as paredes, buscando o retrato dela própria, segundo velhas lem branças, m as não viu nem sinal. Acusou-se apunhalada por im pressões negativas. Turvou-se-lhe o raciocínio. Fora substituída, decerto. Sentia a cólera prestes a explodir-se em crise violenta de lágrim as; no entanto, ganhou forças para rearticular nos próprios ouvidos as palavras do Instrutor: “portem -se na base do novo entendim ento”.

 

Contrafeita, alcançou o interior, surpreendendo pequeno j ardim de inverno, que ela m esm a instalara j unto à copa, e o quadro de am or com que não contava: Serpa e a j ovem da fotografia que exam inara m om entos antes. Caio acariciava a destra da m oça entre as m ãos, num gesto de ternura que ela,

 

Evelina, conhecia à saciedade.

 

Entre revolta e pesar, ensaiou m ovim ento de recuo. Terríveis calafrios lhe agitavam as fibras da alm a, qual se estranha lipotim ia a subj ugasse de todo, anunciando-lhe nova m orte. Quis correr e denunciar-se, ao m esm o tem po, gritar e afastar-se, para esconder a im ensa dor no peito de Fantini, m as não pôde. Sem ser percebida pelos dois nam orados, não teve outro rem édio senão se acom odar em cadeira próxim a, intentando refazer-se. Inquirições confraditórias lhe subiam à cabeça.

 

Quem era a desconhecida? a m esm a que lhe torturara o espírito, com os bilhetes endereçados a Serpa, adornados com beij os coloridos a carm im ? Caio protestara-lhe am or eterno, durante os últim os dias da sua perm anência no lar e a que título rom pera os votos que ela m antinha por relíquias do coração? a que laços novos ter-se-ia entregue o com panheiro? estaria casado ou se conservava m enos responsável, à m aneira do hom em que brinca com os sentim entos alheios, m enosprezando a vida? que lhe reservava o futuro?

 

Fitou am bos os circunstantes, francam ente assom brada com a indiferença que revelavam diante dela. Pela prim eira vez, depois da grande libertação, verificava que os sentidos físicos se enquadravam a lim ites rigidam ente determ inados, porquanto Caio e a com panheira, m uitas vezes, pousavam nela o olhar sem que a vissem ; era, no entanto, obrigada a enxergá-los e ouvi-los, com o qualquer pessoa terrestre com um , desde que não se arredasse dali.

 

A senhora Serpa agoniava-se. Apesar do anseio de om itir-se, desertar, a em oção com o que lhe interceptava os m ovim entos.

 

De alm a ferida, notou que o m arido dirigia à outra aqueles m esm os olhares de carinho envolvente que lhe haviam pertencido. E m ais. Reconheceu o fio de pérolas que lhe fora presente de noivado, oferecido por ele m esm o, enfeitando o colo da rival. Chorou, irritada.

 

Evelina, no entanto, em bora trouxesse os pensam entos conflagrados, não m ais lograva desfazer-se da sutil vinculação com ensinam entos da cidade espiritual que passara a se lhe erguer em residência. Por isso m esm o, percebia-se analisada no aproveitam ento das lições que aprendera ao contato de Ribas e de outros am igos da Vida Maior. Lem brou-se de Túlio, a quem tão repetidam ente ensinara o desapego afetivo, e adm itiu-se em condições de egoísm o e inconform idade, talvez m uito piores que as dele. Recorreu à prece, diligenciou hum ilhar-se, lutou contra si própria, concluindo que Caio desfrutava o direito de ser feliz com o desej asse. Aos poucos, m uito aos poucos, conseguiu acalm ar-se, de algum m odo, e com eçou a escutar o diálogo que se desdobrava, ativo, rente a ela.

 

— Você, Vera — blasonava o advogado, risonho —, achou em m im um hom em pacato e sincero, deve orgulhar-se disso.

 

E com o explica você o caso daquela dam a indesej ável no escritório?

 

— Não m e venha com ciúm es. Um causídico não seleciona clientes à porta, sou um hom em do povo e não posso negar-m e.

 

— Quer dizer que não tenho o direito de zelar por nossas relações.

 

— Quem falou isso?

 

— O telefonem a que recebi dessa lam bisgóia m e deixou arrasada; o que ela m e disse de você...

 

— Se derm os atenção a tudo o que se com enta a nosso respeito, a vida seria im praticável.

 

— Mas eu não estou aguentando m ais.

 

— Ora, ora, aguentando o quê?

 

A j ovem que Serpa designava por Vera caiu em pranto. Ele atraiu-a de encontro ao peito, sob os olhos espantados de Evelina, e sussurrou-lhe aos ouvidos, depois de beij á-la, várias vezes, na face:

 

— Tolinha! A felicidade não é flor que se adube com lágrim as. Anim e-se! sou seu e você é m inha... E daí?

 

— Se ao m enos estivéssem os casados, se ao m enos pudesse usar seu nom e, saberia com o proceder com essas m ulheres que infernizam a nossa vida...

 

— Bobagem ! Você exagera tudo, j á disse que caso com você; não sou hom em sem palavra...

 

— Há quanto tem po espero!

 

— E há quanto tem po, tam bém eu, aguardo solução ao problem a de sua casa? Você não há de querer que eu viva carregando um a sogra louca!

— Minha m ãe é um a infeliz, não podem os desam pará-la...

 

Já falei. Meta essa velha no hospício, que ela j á aproveitou a vida dela, agora tem os de viver a nossa. Hoj e, irem os ao Guaruj á, quero ver o negócio por m im m esm o.

 

A j ovem chorava copiosam ente por resposta. Enquanto Serpa lhe acarinhava os cabelos, tentando consolá-la, Evelina cobrou ânim o e arrastou-se para fora. Tinha sede da presença de Ernesto, ansiava retom ar-lhe a com panhia. Im possível dem orar-se no lar que reconhecia haver perdido, para sem pre.

 

Balda de autocrítica, à face da superexcitação de que se via possuída, tão logo se viu na rua clam ou pelo am igo em voz estentórica, e, quando Fantini repontou à frente, atirou-se-lhe aos braços, qual criança desarvorada.

 

— Ah! Ernesto, Ernesto! Não suporto m ais!

 

O com panheiro conduziu-a discretam ente para um banco do pátio, com pelindo-a a voltar cam inho andado e, sentando-a j unto dele, escutou a narração de toda a ocorrência que a senhora, am arrotada, fazia entre soluços.

 

Fantini com padeceu-se, procurando olvidar as próprias apreensões. Não atinava com as razões da ternura que o levava irresistivelm ente para a senhora

 

Serpa; no entanto, aquele tem po de graves experiências, vividas por am bos em com um , convertera-o, para ela, num am igo incondicional. Ouvindo-a, com partia-lhe a dor, tom ava-lhe o partido. Esquecia-se. Enternecido, esforçou-se por asserená-la, expondo, conselheiral:

 

— Justo que assim sej a, Evelina. Caio é j ovem . Você e ele não form avam um casal de velhos, qual m e acontece com Elisa. Adm ito que ele terá um lugar no coração, particularm ente reservado para você, m as decerto experim enta as necessidades do hom em com um ...

 

— Mas a m oça que está com ele é a m esm a Vera que lhe escrevia os bilhetes de m eu conhecim ento.

A m esm a! Isso m ostra que ele era infiel antes de nossa separação e prossegue infiel até hoj e...

 

Ernesto, afagando-lhe a cabeça num gesto paternal:

 

— Tenho pensado... pensado... Não acredita você que a m orte nos entregou a nós m esm os e que Deus nos concedeu benfeitores abnegados, e estes nos am pararam e esclareceram a fim de poderm os enfrentar as verdades que hoj e estam os vivendo? que terem os feito da existência no m undo? um curso de egoísm o ou um aprendizado de abnegação?

 

A voz dele estava encharcada de pranto íntim o.

 

— Teria você um esposo para am ar ou para converter num obj eto de enfeite? falam os tanto em devotam ento, quando j ungidos ao corpo terrestre!

 

Não será depois da m orte o tem po m ais propício à dem onstração de nossas j uras? não haverá chegado o instante em que Serpa m ais necessita de consideração e carinho?

 

Não tanto pelas palavras, m as pelo tom em que foram ditas, viu-se a m oça inclinada à piedade.

 

Na tela da im aginação, com eçou a j ulgar o m arido sob novo prism a. Caio era um hom em j ovem e os desígnios do Senhor m antinham -no vinculado ao envoltório físico. De que m odo reclam ar-lhe um roteiro de austeridade afetiva para o qual se achava ainda tão longe? Estivera reclusa, no Mundo Espiritual, por dois anos, sem revê-lo sequer. Com o criticar-lhe a conduta? E porque hostilizar a m enina que o seguia? Não lhe vira as lágrim as de sofrim ento, em registrando os sarcasm os do esposo irrefletido e volúvel? Acaso, não conseguia enxergá-la, ocupando-lhe o lugar j unto dele, recolhendo-lhe a dedicação incom pleta e herdando as aflições que ela própria atravessara!

 

Fantini desfez a pausa e arrancou-a da ligeira elucubração, j ustificando, sensato:

 

— Evocando as lições de Ribas, concluo de m im para com igo que os nossos instrutores im peliram você, à excursão corrente, para que você aprenda a perdoar e quem sabe? Talvez que essa m oça...

 

— Talvez o quê? — obj etou Evelina, ante as desm aiadas reticências.

 

— Talvez que essa m oça sej a a pessoa a quem você deva im plorar a graça de ser nova m ãe para Túlio. Tem os estudado tem as com plexos de paixão e reequilíbrio, culpa e reencarnação, induzindo-nos a pensar e pen......

 

Por outro lado, Ribas m ostrou-nos as necessidades de Mancini, sem oferecer-nos quaisquer sugestões; no entanto, sabem os que o rapaz está por nossa conta, na presente fase de reaj uste, depois de haver perdido o corpo físico pelo tiro de Serpa... Não adm ite você que Caio deve restituir-lhe a experiência terrena com a devoção e a ternura de um pai? e que m elhor ocasião encontrará você, além da de agora, para exercitar os ensinam entos de Jesus, am ando aquela que considera inim iga e transform ando-a em instrum ento de auxílio, a benefício do hom em endividado que você am a?

 

A com panheira com preendeu o alcance de sem elhantes ponderações e caiu nos braços do am igo, em copioso pranto, exclam ando:

 

— Oh! Ernesto! Ernesto!

 

Alguns instantes m ais e um carro despontou da garagem , conduzindo o casal.

 

Sustando os soluços, Evelina inform ou ter ouvido que os dois se dirigiriam ao Guaruj á.

 

Enquanto o m oço causídico deixava a direção do veículo para atender ao fecham ento da casa, Fantini contem plou-lhe a j ovem parceira e fez-se lívido.

 

Então, m ais profundam ente chocado talvez que a senhora Serpa, gaguej ou, arrasado de angústia:

 

— Evelina, Evelina, escute! Esta m oça... esta m oça é Vera Celina, m inha filha! Revisões da vida