E a Vida Continua...

Chico Xavier · Capítulo 5 de 26

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E a Vida Continua...

Reencontro

 

Evelina despertou num quarto espaçoso, com duas j anelas deixando ver o céu. Em ergia de um sono profundo, pensou.

 

Diligenciou recordar-se, assentando contas da própria situação.

 

Com o teria entrado na am nésia de que estava tornando agora à tona da consciência?

 

Desem perrou a custo os m ecanism os da m em ória e passou a lem brar-se, vagarosam ente... A princípio, indescritível pesadelo lhe conturbara o repouso com eçante. Sofrera, decerto, um a síncope inexplicável. Percebera-se m ovendo num m undo exótico de im agens que a faziam regredir na estrada das próprias rem iniscências. Recapitulara, não sabia com o, todas as fases de sua curta vida. Voltara no tem po. Reconstituíra todos os dias j á vividos, a ponto de rever o pai chegando m orto ao lar, quando contava som ente dois anos de idade.

 

Nesse film e que as energias ocultas da própria m ente haviam exibido para ela, nos quadros m ais íntim os do ser, ouvira, de novo, os gritos m aternos e enxergava, à frente, os vizinhos espantados, sem com preender a tragédia que se lhe abatia sobre a casa...

 

Depois, registrara a im pressão de trem endo choque.

 

Algo com o que se lhe desabotoara no cérebro e vira-se flutuar sobre o próprio corpo adorm ecido...

 

Logo após, o sono invencível.

 

De nada m ais se apercebera.

 

Quantas horas gastara no torpor im previsto? Estaria regressando a si, vencido o colapso, por efeito de algum tratam ento de exceção? Porque não via, ali, j unto do leito, algum fam iliar que lhe propiciasse as necessárias explicações?

 

Tentou sentar-se e o conseguiu, sem a m enor dificuldade.

Inspecionou o am biente, concluindo que o pouso se lhe trocara. Inferiu das prim eiras observações que, tom bada em desm aio, fora reconduzida ao hospital e ocupava, agora, larga dependência, que o verde-claro tornava repousante.

 

Em m esa próxim a, viu rosas que lhe cham avam a atenção para o perfum e.

 

Cortinas tênues bailavam , de m anso, aos ritm os do vento, que penetrava as venezianas diferentes, talhadas em substância sem elhante ao cristal revestido de essência esm eraldina.

 

Em tudo, sim plicidade e previsão, conforto e leveza. Evelina bocej ou, distendeu os braços e não se surpreendeu com qualquer dor.

 

Recuperara-se enfim , refletiu alegre.

 

Conhecia a presença da saúde e a testem unhava em si m esm a. Nenhum sofrim ento, nenhum estorvo.

 

Se algo experim entava de m enos agradável, era precisam ente um sinal de robustez orgânica: sentia fom e.

 

Onde o m arido? onde os pais?

 

Desej ava gritar de felicidade, com unicando-lhes que sarara. Aspirava a dizer-lhes que os sacrifícios efetuados por ela não haviam sido inúteis. No íntim o, agradecia a Deus a dádiva do próprio restabelecim ento e ansiava estender a j ubilosa gratidão aos seres queridos.

 

Não m ais lograva sopitar o coração em briagado de regozij o e, por isso, buscou a cam painha, rente a ela. Apertou o botão de cham ada e um a senhora de sem blante doce e atraente apareceu, saudando-a com palavras de irradiante carinho.

 

Evelina aceitou com naturalidade a cooperação da desconhecida.

— Enferm eira — falou para a recém -chegada —, posso rogar-lhe o favor de cham ar m eu m arido?

 

— Tenho instruções para, antes de tudo, inform ar o m édico sobre suas m elhoras.

 

A senhora Serpa concordou, afirm ando, no entanto, que sentia necessidade de reencontrar os fam iliares, de m aneira a repartir com eles o próprio j úbilo.

 

— Com preendo... — redarguiu a serviçal, com inflexão de ternura.

 

— Tenho sede de entender-m e com alguém — aditou a convalescente, anim ada —, com o se cham a a senhora?

 

— Cham e-m e Irm ã Isa.

 

— Decerto, a senhora m e conhece. Sou Evelina Serpa e devo ter aqui m inha ficha...

 

— Sim .

 

— Irm ã Isa, que m e sucedeu? Estou bem , m as num estado estranho que não sei definir...

 

— A senhora passou por longa cirurgia, precisa descansar, refazer-se...

 

Para Evelina, em verdade, nada havia de surpreendente naquelas palavras articuladas em tom significativo. Sabia-se operada. Passara pela dolorosa ablação de um tum or. Estivera em casa, m elhorara tanto que obtivera um passeio com o m arido pelas estradas do Morum bi. Apesar de tudo, reconhecia-se novam ente hospitalizada, sem poder aj uizar dos m otivos.

 

Enquanto alinhava indagações m udas, não viu que a atendente pressionava um ponto cinza, em determ inado recanto, com unicando-se com o m édico de plantão. Em dois m inutos, um hom em de branco entrou, calm o.

 

Cum prim entou a doente, exam inou-a, sorriu satisfeito.

 

— Doutor... — com eçou dizendo, ansiosa por j ustificar-se.

 

E pediu inform es. Desej ava saber com o e quando conseguiria rever o esposo e os pais.

 

Não seria j usto dar aos seus a notícia do êxito com que o hospital a brindava?

 

O facultativo ouviu-a, paciente, e rogou-lhe conform idade. Retornaria aos parentes, m as precisava reaj ustar-se.

 

Gesticulando carinhosam ente, qual se sossegasse um a filha, aclarou:

 

— A senhora está m elhor, m uito m elhor; entretanto, ainda sob rigorosa assistência de ordem m ental. Em se ligando a quaisquer agentes suscetíveis de induzi-la a recordações m uito ativas da m oléstia que sofreu, é provável que todos os sintom as reapareçam . Pense nisso. Não lhe convém , por agora, recolocar-se entre os seus.

 

E com um olhar ainda m ais com preensivo, aj untou:

 

— Coopere...

 

Evelina ouviu a observação, de olhos lacrim osos, m as resignou-se.

 

Afinal, concluiu intim am ente, devia ser reconhecida aos que lhe haviam granj eado a bênção da nova situação. Não lhe cabia interferir em providências, cuj o significado era incapaz de apreender.

 

Adivinhando que o m édico se dispunha a sair, solicitou com hum ildade se lhe seria perm itido ler e, se essa concessão lhe fosse feita, rogaria que a casa lhe em prestasse algum volum e em que pudesse colher ensinam entos de Cristo. Sensibilizado, o m édico lem brou o Novo Testam ento e, a breves instantes, a atendente trouxe o livro m encionado.

 

Restituída à solidão, Evelina com eçou a ler o Serm ão da Montanha; todavia, a advertência clínica se lhe introm etia na im aginação, insistentem ente.

 

Se estava restaurada, qual se via, porque sim ples lem branças lhe im poriam retorno aos padecim entos de que se acusava liberta? Porquê?

 

Percebia-se na posse de inenarrável euforia. Deliciosa sensação de leveza lhe m antinha a disposição para a alegria, com o nunca sentira em toda a existência.

 

Tais recursos de equilíbrio orgânico seriam assim tão fáceis de perder?

 

Retirou a atenção do livro e engolfou-se em novas cogitações... E se reconstituísse em espírito a presença de Caio e dos pais, com veem ência? e se concentrasse os próprios pensam entos nas dores que havia deixado à retaguarda?

 

Infelizm ente para ela, confiou-se a sem elhantes exercícios e, decorridos alguns m inutos, a crise revelou-se, agigantando-se-lhe no corpo em m om entos rápidos. Regelavam -se-lhe as extrem idades, enquanto que m antinha a ideia de que um braseiro a requeim ava por dentro, com a dispneia afrontando-lhe o peito. Desencadeados os sintom as, quis reagir, contrapor conceitos de saúde aos de doença; entretanto, era tarde. O sofrim ento ganhou-lhe as forças e passou a contorcer-se no suplício de que se adm itira definitivam ente distanciada...

 

Atônita, prem iu a cam painha e a prestim osa atendente se desdobrou na tarefa assistencial.

 

O m édico reapareceu e adm inistrou sedativos.

 

Am bos, nem ele nem a enferm eira, lhe endereçaram o m ínim o reproche, m as a doente lhes leu no olhar a convicção de que tudo haviam com preendido.

Em silêncio, davam -lhe a saber que não lhe ignoravam a teim osia e que, com toda a certeza, não se acom odando aos avisos recebidos, quisera experim entar por si m esm a o que vinha a ser um tipo de m entalização inconveniente.

 

Conquanto a bondade de que dava m ostras, o m édico agiu com energia.

 

Forneceu instruções severas à com panheira de serviço, depois da inj eção calm ante que ele próprio aplicou à senhora Serpa, em determ inada região da cabeça, e recom endou m edidas especiais para que ela dorm isse. Aconselhável obrigá-la a repousar m ais tem po, controlada por anestésicos. A doente não podia e nem devia entregar-se a ideias fixas, sob pena de voltar a sofrer sem necessidade.

 

Evelina registrou as observações dele, em franca m odorra. Depois, abism ou-se em pesado sono, do qual despertou m uitas horas após, consciente de que lhe com petia cuidar-se, evitando novo pânico. Mostrou o desej o de alim entar-se e foi im ediatam ente atendida com caldo quente e reconfortante, que lhe calhou gostosam ente ao paladar, à feição de néctar.

 

Refez-se, vigilante. Reconhecia-se sob um a espécie de assistência cuj a eficácia e poder não lhe cabia agora subestim ar.

 

Finda um a sem ana em descanso absoluto, com entretenim entos de leitura escolhida pelas autoridades que a cercavam , passou a cam inhar no recinto do quarto.

 

Ao retom ar a verticalidade, assinalava em si m esm a inequívocas diferenças. Os pés se lhe patenteavam leves, qual se o corpo houvesse dim inuído de peso, intensivam ente, e, sobretudo, no cérebro, as ideias lhe nasciam em torrente, vigorosas e belas, quase a se lhe m aterializarem diante dos olhos.

 

Num a tarde em que se via m ais am plam ente estim ulada a reaver os m ovim entos norm ais, abeirou-se da j anela que dava para um pátio enorm e e, do alto do terceiro andar que a hospedava, contem plou dezenas de pessoas que conversavam alegrem ente, m uitas delas sentadas em torno de irisada fonte que se erigia em centro de florido e extenso j ardim .

Aquela sociedade serena atraiu-a.

 

Tinha sede de convivência, atreita que se achava a austeras disciplinas. A vista disso, consultou a enferm eira se lhe era concedido descer, travar conhecim ento com alguém . Afinal, sugeriu com otim ism o, um a casa de saúde não deixa de assem elhar-se a um navio, em cuj o boj o as criaturas se interessam um as pelas outras, estendendo-se as m ãos.

 

A serviçal achou graça e escorou-a nos braços, para a descida.

 

Poderia, sim , divertir-se ali. O am biente lhe faria bem , ao m esm o tem po que lhe seria lícito granj ear um a que outra am izade.

 

Deixada a sós, fitou ansiosam ente os rostos que a rodeavam . Figurou-se-lhe estar no seio de vasta fam ília de pessoas afins pelo coração, m as quase todas desconhecidas entre si, qual acontece num balneário.

 

Todos os circunstantes acusavam -se na posição de convalescentes, adivinhando-se-lhes, sem dificuldade, os vestígios das enferm idades de que haviam conseguido evadir-se.

 

Evelina interrogava-se, quanto ao m elhor processo de estabelecer contato com alguém , quando viu um hom em , não longe, que a fitava, evidentem ente assom brado. Oh! não era aquele cavalheiro, exatam ente Ernesto Fantini, o im provisado am igo das term as? O coração bateu-lhe agitado e estendeu, na direção dele, os dois braços, dando-lhe a certeza de que o aguardava, de alm a aberta.

 

Fantini, pois era ele m esm o, ergueu-se da poltrona em que se guardava e avançou para ela, a passos rápidos.

 

— Evelina! Dona Evelina! Estarei realm ente vendo a senhora?

 

— Eu m esm a! — respondeu a m oça, chorando de alegria.