E a Vida Continua...
E a vida continua...
O auto rodou, de volta.
Evelina e Ernesto, por longo tem po, ainda se dem oraram em oração, no tranquilo santuário da m orte, transfigurado ali para os dois em pouso de reconhecim ento e alegria, ante as prim eiras estrelas que com eçavam a luzir na selva da noite, quais lanternas de fogo e prata, clareando o cam inho para
Deus, a pleno céu azul.
E a vida continua...
O m atrim ônio de Caio e Vera trouxe a Ernesto e Evelina nova fonte de incentivo ao trabalho.
Túlio, algo m elhor ante as prom essas de futura assistência por parte daquela a quem am ava tanto, concordou em m atricular-se voluntariam ente no
Instituto de Serviço para a Reencarnação (1), internando-se, de pronto, num dos gabinetes de restringim ento, entregando-se aos aprestos necessários.
Antecedendo, porém , a m edida, certa noite, em que Serpa se ausentara do lar, foi levado à presença de Vera, para fam iliarizar-se, de algum m odo, com aquela que o receberia nos braços de m ãe.
Ao vê-la na costura, em sua casa de Vila Mariana, o m oço, de im ediato, sim patizou com ela. Viu-lhe o sem blante m eigo, os olhos serenos de criatura sofrida, as m ãos ágeis na tarefa, e respirou-lhe, encantado, o am biente tranquilo.
Recom endou-lhe Evelina para que a abraçasse, nela venerando a protetora que o abençoaria por filho, em nom e de Deus... Mancini não apenas se confiou ao am plexo carinhoso, com o tam bém lhe osculou a fronte, enternecidam ente.
(1) Organização do Plano Espiritual. — Nota do autor espiritual.
A filha de Ernesto não percebeu aquela m anifestação afetiva, em sentido direto; no entanto, por alguns m om entos, deixou que o cérebro divagasse, feliz.
“Com o desej ava obter um filhinho!” — pensou.
— “Quanto anelava ser m ãe!” Aguardava essa bênção do Todo-
Misericordioso que, decerto, não a esqueceria! Por outro lado, não ignorava que o esposo ansiava acolher um herdeiro para o futuro e, por isso, nos sonhos que entrem ostrava, desperta, rogava conscientem ente a Deus um m enino!
À m edida que as doces prefigurações da m aternidade se lhe esboçavam no im o da alm a, sintonizava, m ais intensam ente, com Túlio, na m esm a onda de esperança e regozij o, am bos experim entando santo prelúdio de inenarráveis alegrias.
Ao separar-se dela, às despedidas, form ulou ele a pergunta esperada: quem lhe seria o genitor? a quem cham aria por pai?
Evelina, porém , deu-se pressa em explicar que o dono da casa se achava distante e que ele, Mancini, o conheceria em m om ento oportuno.
Na base da verdade prom etida, Túlio renasceria de Caio Serpa, absolutam ente m agnetizado pelo devotam ento m aterno, a fim de se reaproxim ar do antigo adversário e m etam orfosear ressentim ento em am or, pela terapêutica do esquecim ento.
Ante as realizações em processo, o tem po para Fantini e a com panheira j azia repleto de obrigações agradáveis e belas. Auxílio constante a Mancini,
Caio e Vera, na form ação do novo porvir, e am paro infatigável a Elisa e Desidério, convenientem ente hospitalizados.
Ernesto, renovado pelo sofrim ento, com o que rem oçara, enquanto que
Evelina, m odificada pelas novas experiências, parecia haver am adurecido, qual se os dois houvessem com binado operar um reaj uste da form a, com vistas à harm onização em nível de idade sem elhante de um para o outro. Com ungavam as m esm as ideias, partilhavam os m esm os serviços.
Im pressionado com aquela conciliação gradativa, a surgir m ecanicam ente da associação sem pre m ais am pla e m ais íntim a dos dois, na obra da própria edificação espiritual, Ernesto procurou o Instrutor Ribas, inquirindo, respeitoso, se lhe seria cabível conhecer o passado, sem m ais delongas, reavendo a m em ória de outras existências, ao que o m entor inform ou, sensato:
— Não, Fantini. Desaconselhável a providência, conquanto possível. Você e Evelina estão abraçando longa em presa de serviço em nosso plano. Terão m uitos problem as a resolver, m uito trabalho a realizar. Desidério, Elisa, Am âncio, Brígida, Caio, Vera, Túlio, Evelina e você form am um a equipe de corações com prom etidos uns com os outros, perante as Leis de Deus, há m uitos séculos. Todos reciprocam ente enlaçados no clim a da provação, lem brando elem entos quím icos em cadinho fervente para o acrisolam ento indispensável! Outros com ponentes do grupo chegarão com o tem po para a vitória geral sobre os alicerces do am or que ainda vem m uito ao longe!
Integram os, eu tam bém com vocês, um a grande fam ília... E num sorriso am istoso:
— Som os aqui m ilhares de criaturas nas m esm as condições, trabalhando e batalhando por nossa redenção, com eçando pelo aperfeiçoam ento de nós m esm os, nos recessos do m undo individual.
— Na Terra, não form ulam os ideia do volum e de obrigações que nos espera depois da m orte...
— Sem dúvida. Toda construção nobre há que ser dirigida. Prim eiro, o proj eto; em seguida, a execução... No plano físico, idealiza-se a continuação da vida, no m undo espiritual. No m undo espiritual, idealiza-se a correção, o reaj uste, a m elhoria e o polim ento dessa m esm a vida, no plano físico. Som os viaj ores do berço para o túm ulo e do túm ulo para o berço, renascendo na Terra e na Espiritualidade, tantas vezes quantas se fizerem precisas, aprendendo, renovando, retificando e progredindo sem pre, conform e as Leis do Universo, até alcançarm os a Perfeição, nosso destino com um ...
— Isso quer dizer que, de futuro, talvez Evelina e eu venham os a renascer, entre os hom ens, daqueles m esm os Espíritos, em cuj a aproxim ação estam os colaborando...
— Quem sabe? Isso é m ais que possível, por obviam ente natural...
O orientador ainda não havia articulado o esclarecim ento, de todo, quando
Ernesto aventou, tím ido, qual j ovem que estivesse abrindo o coração, diante da autoridade paternal:
— Instrutor Ribas, Evelina e eu tem os refletido, refletido.
Fantini, receoso, não conseguiu term inar o enunciado. Foi o próprio Ribas que lhe com pletou a exposição, carregando as palavras de bom -hum or:
— Já sabem os, Fantini, vocês dois pensam num casam ento com preensível e digno, conscientes agora da im ensa obra de transform ação e burilam ento que estarão dirigindo, por m uito tem po, no grupo espiritual a que se vinculam .
— O senhor vê algum im pedim ento?
— Absolutam ente nenhum , de vez que, tanto Elisa quanto Caio j á dispensaram vocês de qualquer com prom isso afetivo...
Fantini, acanhado, se dispunha a prosseguir, m as um auxiliar do Instituto veio cham á-lo, com urgência, para custodiar Evelina, de viagem para a esfera física, em ação de assistência a Vera, j á em avançado processo de gravidez.
Despedindo-se, o m entor afirm ou-lhe, satisfeito:
— Estej a tranquilo, Ernesto. Pensarem os no assunto.
Os dias de Fantini e da com panheira rodavam em plenitude de serviço.
Pouco a pouco, percebiam quantos deveres precisavam aceitar para assegurarem um renascim ento relativam ente tranquilo a um Espírito enferm o, qual Mancini, que requisitava cuidado incessante, para que o aborto não repontasse em prej uízo geral. Observavam que em m ilhares de outros casos não cabiam preocupações assim tantas. Entidades acom odadas ao m undo carnal aj ustavam -se ao processo reencarnatório, com a sim plicidade da m ão, quando se adapta a um a luva. Noutras situações, as criaturas de regresso à esfera física, dispunham de tanta elevação que a presença delas, só por si, não apenas estabelecia distância aos Espíritos infelizes, com o tam bém bastava para propiciar sossego à m ente m aterna... Túlio, porém , não estava entre aquelas criaturas que tão-som ente tocam , de leve, as forças do espírito para se refastelarem , de m odo quase que absoluto, nos prazeres e m ecanism os do m undo físico, e nem alcançara, ainda, a condição daquelas outras que sim plesm ente tocam na m atéria grosseira tão-só buscando energia para se sustentarem , acim a de tudo, nas tarefas e operações do Mundo Espiritual. Nem pisava o início do m onte de elevação, nem lhe atingira os degraus m ais altos.
Era um hom em de cultura e virtude m edianas, com aguçada sensibilidade à m ostra, em função de sua própria necessidade de burilam ento, à vista de débitos contraídos em outras existências.
Quaisquer choques no am biente m aterno induziam -no à irritabilidade e quaisquer dificuldades pequeninas im pediam -no a indisposições lam entáveis.
Certam ente que se dem orava em sono terapêutico no laborioso tratam ento para a volta criteriosam ente vigiada ao cam po terrestre, a que na arena dos hom ens se dá sum ariam ente o nom e de gravidez, com o se gravidez, em definição tão rápida e sim plista, fosse acontecim ento insignificante e igual para todos os reencarnados, com repercussões análogas para as m ães que os hospedam ; im porta reconhecer, porém , que o sono terapêutico do Espírito, conj ugado ao desenvolvim ento fetal, se caracteriza por graus diversos e, por isso, nem sem pre raia pela inconsciência total.
Em preendim entos e obrigações se avolum aram , a benefício de Mancini, até o dia em que lhe ouviram os prim eiros vagidos no berço, entre o êxtase de
Vera e a em oção de Caio, m aravilhados com o filhinho...
Túlio varara a grande barreira entre os dois m undos e, daí em diante, reclam aria cuidados de outro tipo.
Reconfortados e felizes com a execução gradual do program a estabelecido, Fantini e a com panheira se acharam de espírito voltado para questão que se lhes im punha, de im ediato: o retorno de Desidério à experiência carnal.
Era necessário instalá-lo no sul paulista, em casa de Am âncio, segundo o esquem a do Instituto.
Os dois am igos passaram às entrevistas preparatórias. Proposições e debates. Desidério dos Santos pedia, exigia, queixava-se... E, no fundo, não se lhe podia dar, de pronto, a extensão total da verdade, quanto ao porvir próxim o, para que não a desacatasse com dúvidas inj ustificáveis ou desconsiderações prem aturas. Cabia-lhe saber que era forçoso retom ar o corpo terrestre e prom etia-se-lhe a ida de Elisa, algum tem po depois dele, a fim de que se reencontrassem no dom icílio dos hom ens, m as, no roteiro traçado, se lhe proibia a antecipação de inform es, acerca do refúgio dom éstico em que se lhe outorgaria a nova oportunidade. Merecia a bênção da reencarnação; contudo, não lhe era lícito com plicar ou desprim orar as situações, em que as autoridades do Plano Superior, sem pre sábias e generosas, lhe assegurariam a concessão. Com petia-lhe, sobretudo, defrontar-se com Am âncio e Brígida, tanto quanto os dois, j á am adurecidos nas lides hum anas, deveriam arrostá-lo em casa, para adquirirem a luz do am or recíproco, em regim e de esquecim ento do passado, de m aneira a consolidarem os m éritos que j á possuíam perante a Lei. Desidério, no entanto, não era fácil de contentar. Interpunha recursos e alegava direitos, nas questiúnculas intercorrentes, que a filha, assessorada por Ernesto, se esm erava em aprovar, tanto quanto possível, angariando-lhe apreço, aceitação, cobertura e carinho.
Quando o tem po m arcou precisam ente um ano sobre a desencarnação da viúva Fantini e quando Túlio Mancini, em novo renascim ento, orçava aproxim adam ente dois m eses de idade, Desidério deu por term inadas as exigências para o regresso pacífico ao m undo carnal, com exceção de um a só: queria rever Elisa e conversar com ela, inteiram ente a sós, de m odo a entretecerem proj etos para o futuro.
Encam inhada a solicitação ao exam e de Ribas, o Instrutor aprovou o requerim ento e, conduzido o peticionário às dependências onde Elisa, agora lúcida, se dem orava convalescente e tranquila, puseram -se os dois em palestra íntim a, plenam ente isolados, num tête-â-tête que perdurou por dez horas consecutivas.
Nada transpirou do que am bos confidenciaram , entre si, naquele prim eiro e últim o encontro, no Mundo Espiritual, antes da reencarnação; no entanto, algo ocorreu de inesquecível. Desidério voltou às instalações que lhe eram próprias, tocado de novo brilho no olhar. Desapareceram nele os ressentim entos e as interrogações. Mostrou-se, desde então, paciente e respeitador.
Concom itantem ente, a ex-senhora Fantini rogou o am paro de Evelina para internar-se em algum educandário, a fim de estudar os problem as da alm a e reeducar-se, quanto lhe fosse possível, antes de retom ar o envoltório terrestre.
Inform ada de que partiria para a existência vindoura, daí a três anos, para reencontrar Desidério no m undo, sob a proteção dos benfeitores que ali os acolhiam , ansiava aprender, preparar-se e m elhorar-se, ciente qual se achava de que todos os valores conquistados na Espiritualidade Maior se transform am em m ais dilatados recursos de apoio e colaboração, para aqueles que os evidenciem , sej a onde sej a.
Evelina anuiu, satisfeita.
Nos três anos que lhe antecederiam o retorno ao próprio lar terreno, na condição de filha do casal Serpa, Elisa estaria internada em colégio adequado às suas necessidades, sob custódia e responsabilidade da filha de Desidério, cuj os créditos e m éritos aum entavam sem pre no Instituto a que soubera dedicar-se e servir.
Quem poderá m edir a força colocada por Deus nos prodígios do am or?
Recolhido Desidério aos gabinetes de restringim ento para a reencarnação, concluíram as autoridades que não lhe seria proveitoso o conhecim ento prévio do lar em que lhe cabia renascer, porquanto a condição de enj eitado haveria de com peli-lo a m ergulho m ais profundo no passado para a revisão de existências outras, em que fizera j us à prova em perspectiva, e não seria útil im ergi-lo em avançados processos de m em orização.
Felizm ente, após a entrevista com Elisa, patenteava-se calm o, confiante, aceitando todas as prom essas que se lhe form ulavam .
Por outro lado, Ribas e os com panheiros categorizavam -lhe a volta ao convívio de Am âncio e Brígida, sem que os antigos associados de luta precisassem esperar por ele em futura reencarnação, por valioso ganho de tem po, com o am paro da Providência Divina.
Situava-se, desse m odo, nos serviços de introdução ao renascim ento no plano carnal, quando o Instrutor Ribas convidou Fantini e a com panheira para tom arem contato com a senhora hum ilde e sim ples que seria para Desidério a benem érita genitora. Com petia-lhes assisti-la e auxiliá-la quanto possível, na gravidez próxim a, e orientar o encam inham ento do am igo renascido ao lar dos
Terra, j á que entre as colaboradoras e obreiras do Instituto, reencarnadas nas vizinhanças de Brígida, fora ela quem aceitara a incum bência de recebê-lo nos braços m aternais, não obstante a penúria que lhe m arcava a existência.
Evelina e Fantini apanharam inform es rápidos em torno daquela a quem passariam tanto a dever.
Tratava-se de m ulher j ovem , esposa de um lavrador que a tuberculose devorava, e m ãe de quatro filhinhos em constrangedoras necessidades. Ela m esm a, Dona Mariana, com o era conhecida, j á se achava em condições orgânicas deficitárias, sentenciada a contrair a m oléstia, em bora a tuberculose não assum a, na atualidade, entre os hom ens, a periculosidade que se lhe atribuía em outros tem pos. Sucede, porém , que tanto o esposo quanto ela própria estavam encerrando valioso ciclo de provas regeneradoras no m undo e não conseguiriam sustentar-se, na frágil arm adura de carne, por m uito tem po.
Desidério ser-lhes-ia o rebento derradeiro, antes da desencarnação, e aos dois am igos espirituais, erigidos ao encargo de guardiães, caberia o santo dever de criar as circunstâncias pelas quais o recém -nato entrasse no lar do velho casal
Terra, na posição de filho adotivo.
Noite alta no plano físico...
Mariana, em desdobram ento espiritual através do sono com um , penetrou a sala em que Ribas e os am igos a esperavam .
Escoltada carinhosam ente por um m ensageiro, a recém -chegada não poderia apresentar-se de m aneira m ais sim ples.
Ao defrontar-se com os benfeitores, deteve-se perante Ribas, com a lucidez que lhe era possível, e, m agnetizada talvez por aquele olhar brando e sábio, aj oelhou e pediu-lhe a bênção.
O m entor, recalcando a em oção de que fora tangido, afagou-lhe a fronte, rogou a Jesus para que a protegesse e recom endou:
— Levante-se, Mariana, tem os algo a conversar...
Ao vê-la convenientem ente sentada, o orientador apresentou-lhe Evelina e
Ernesto, dem orando-se, todavia, a salientar Evelina, a fim de que ela lhe guardasse m ais vivam ente a figura na tela da m em ória, quando tornasse ao corpo denso:
— Esta é a irm ã que velará por você, na próxim a gravidez. Por favor,
Mariana, esforce-se para retê-la na lem brança!
A interpelada fitou-a com sim patia e im plorou:
— Anj o de Deus, com padecei-vos de m im !
A filha de Brígida, em ocionada, retificou, de olhos úm idos:
— Mariana, não sou um anj o, sou apenas sua irm ã.
A j ovem m ãe, cuj o corpo descansava no m undo de m atéria grosseira, com o que espiritualm ente m uito distante da form osa paisagem dom éstica, a que se acolhia, para deter-se tão-só na alegria de ser útil, voltou-se para Ribas, com quem j á tivera entendim entos anteriores, e notificou, tom ada de apreço filial:
— Meu pai, cum prirei a vontade de Deus, recebendo m ais um filho, e aguardo a vossa proteção. Joaquim , m eu esposo, está m ais fraco, m ais doente. Lavo e passo, trabalho quanto posso, m as ganho pouco. Quatro filhos pequenos! Ignoro se j á sabeis, m as nosso barraco não está resistindo às chuvas... Quando o vento atravessa as paredes rachadas, Joaquim piora, tosse m uito! Não estou a queixar-m e, m eu pai, m as peço o vosso auxílio!
— Oh! Mariana — respondeu o m entor, sensibilizado —, não tem a! Deus não nos abandona!
Seus filhinhos serão sustentados e, m uito em breve, você e Joaquim estarão num a casa grande...
— Confio em Deus e em vós!
Não sabia a devotada criatura que o Instrutor se reportava à próxim a desencarnação do casal, quando, por m erecim ento genuíno, teriam os dois cônj uges novo dom icílio na Vida Maior.
Mariana voltou, agora custodiada tam bém por Evelina e Fantini, à rústica habitação que o vento castigava e, em retom ando o corpo, o coração bateu-lhe descom passado, ante o j úbilo que se lhe represava no peito, e acordou o m arido:
Joaquim ! Joaquim !
E, enquanto ele, estrem unhado, articulava m onossílabos:
— No sonho, acabei de encontrar o velho que j á vi outras vezes... Ele disse que vam os ter m ais um filho!
— Que m ais?
— Disse que nós dois vam os ter um a casa grande...
Ele riu-se e aditou, ignorando que abordava a realidade:
— Ah! m inha m ulher! Casa grande? só se for no outro m undo...
Os visitantes desencarnados sorriram ...
Evelina, em ocionada, com preendeu que Joaquim não se deteria m uito tem po na Terra e, em prece ao Senhor, a rogar-lhe forças m ultiplicadas, prom eteu a si m esm a não repousar, enquanto não ligasse Mariana a Brígida, sua querida genitora, para que os derradeiros dias daquele pouso de sofrim ento fossem lenificados pelo sol da beneficência.
Transcorridos dois dias sobre o singular contato, a enteada de Am âncio, am parada em Fantini e com perm issão das autoridades superiores, sediou-se na m ansão do padrasto e pôs-se a influenciar o coração m aterno, com vistas à realização esperada. Deu-lhe sonhos com o pequenino que lhe chegaria aos braços, povoou-lhe as reflexões com ideais de caridade e esperança, sugeriu-lhe leituras renovadoras, inspirou-lhe conversações com o m arido, quanto ao futuro que Deus ilum inaria com a presença de um filhinho adotivo e, pela prim eira vez, na casa senhoril, apareceu o hábito regular da prece, porquanto
Brígida, ante a doce atuação da filha, conseguiu que o esposo lhe com partilhasse as orações, todas as noites, no preparo do sono, ao que
Am âncio aquiesceu com bonom ia e estranheza. Espantado, anotava ele o fervor da m ulher, a inflam ar-se de am or ao próxim o, e, porque fosse, de si m esm o, devotado à prática da solidariedade hum ana, encoraj ava-lhe os rasgos de altruísm o.
Planeavam , planeavam ...
Se Deus lhes enviasse um filhinho adotivo, tratá-lo-iam com todas as reservas de am or que conservavam no coração, procurariam analisar-lhe as inclinações para lhe propiciarem trabalho digno e, quando crescesse, realizariam um sonho de m uito tem po: transfeririam residência para São Paulo, de vez que assim lograriam educá-lo com esm ero... Solicitariam , para isso, a cooperação de Caio, o genro de outro tem po que se casara em segundas núpcias e que continuava am igo, conquanto lhes escrevesse apenas em ocasiões especiais... Se obtivessem um filhinho... e os proj etos repontavam , sem pre m ais vivos e m ais belos, daqueles dois corações am adurecidos na experiência.
Quatro m eses haviam transcorrido sobre a nova situação, quando, num a ensolarada m anhã, em que os velhos cônj uges haviam palestrado com ênfase acerca de assistência às m ães desvalidas, eis que Mariana, cuj a residência se erguia a quatro quilôm etros, trazida espiritualm ente por Evelina, bateu à porta...
Por solicitação de prestim osa servidora, Brígida veio atender.
Enlaçada, de im ediato, pela filha, a fazendeira ouviu a recém -chegada, com sim patia.
Mariana im plorava trabalho. E relacionou em voz triste alguns pedaços da própria história. Engravidara-se de novo, em bora j á tivesse quatro filhinhos...
Achava-se, porém , sem recursos, com o m arido m uito doente...
Sem explicar-se, quanto ao m otivo de tanta e tão súbita com paixão, a senhora Terra deu-lhe algum dinheiro e prom eteu visitá-la em pessoa, naquele m esm o dia, logo que o esposo voltasse do serviço para o descanso caseiro.
Evelina exultava de alegria e confiança.
Am âncio não regateou atenções ao pedido da com panheira e, ao crepúsculo, ei-los j untos na habitação paupérrim a. Condoídos am bos, providenciaram a rem oção da fam ília em penúria para estreito m as confortável dom icílio, na gleba que cultivavam .
Qual se houvesse encontrado, por fim , todo o socorro a que m ais aspirava, antes que o quinto filhinho viesse à luz, Joaquim dem andou a Espiritualidade, louvando os benfeitores...
Mariana, desde m uito enfraquecida, adoeceu gravem ente. Viúva, agora, apelou para a cooperação de fam iliares hum ildes e entregou-lhes os quatro órfãos na previsão da m orte próxim a...
Brígida, atônita, ante a crise que se agravava, a identificar-se cada vez m ais ligada à pobre irm ã em penúria, transferiu-a para a própria casa, onde Desidério, reencarnado, abriu, por fim , os olhos, de novo, para a existência terrestre.
Na íntim a convicção de que se houvera desencarregado de seu últim o e sagrado dever, Mariana colocou nos braços dos protetores a criancinha ansiosam ente esperada e desencarnou cinco dias depois!
Benfeitores desencarnados acolheram a piedosa m ãe, ao m esm o tem po que osculavam o pequenino... Misturavam -se ali, na m ansão cercada de flores, o adeus e a chegada, a tristeza da m orte e a alegria da vida! A fazendeira chorava e ria, Am âncio m editava, tocado de em oções e ideias renovadoras...
Ernesto e Evelina, em preces de j ubilosa gratidão, perante a m isericórdia da
Providência, notavam , surpresos, que tanto para Mariana, no esquife, quanto para Desidério, no berço, enviava Deus a bênção de novo dia!
À noite, pequena carruagem voadora, em form a de estrela irisada, depunha Fantini e a com panheira na cidade que lhes servia de residência.
Aí chegados, dem andaram o Instituto de Proteção Espiritual, em cuj as dependências alm as carinhosas e am igas atiravam -lhes flores. Lam padários inflam ados de luz policrôm ica cercavam todos os edifícios, assinalando-lhes as filigranas de arquitetura a j orros de beleza.
A casa festej ava os dois obreiros que haviam sabido vencer, com devotam ento e hum ildade, os tropeços iniciais do levantam ento de bem -aventurado futuro!
Rodeado de assessores, Ribas saudou-os no lim iar e, tom ando-os nos braços, com o a filhos queridos, ergueu os olhos para o Alto e rogou, com ovidam ente:
— Senhor Jesus, abençoa os teus servos que se consagram hoj e um ao outro em sublim e união! Ilum ina-lhes, cada vez m ais, os anseios transfigurados para o teu reino, através da abnegação com que souberam esquecer dificuldades e agravos para se deterem tão-som ente no auxílio aos com panheiros de cam inhada, ainda m esm o quando esses com panheiros lhes apunhalassem os corações! Ensina-lhes, oh! Mestre, que a felicidade é um a obra de construção progressiva no tem po e que o m atrim ônio deve ser realizado, de novo, todos os dias, na intim idade do lar, de m aneira que os nossos defeitos se extingam , nas fontes da tolerância recíproca, a fim de que as nossas alm as encontrem a perfeita fusão, diante de ti, aos clarões do am or eterno!...
Silenciou o Instrutor, enquanto Ernesto contem plava o rosto da com panheira m arej ado de lágrim as...
Do alto, choviam pequeninas grinaldas azuis, lem brando safiras que se eterizassem , radiosas, propiciando ao casal venturoso a certeza de que os
Planos Superiores lhe endossavam os com prom issos e de ângulos ocultos da paisagem vinham m elodias de ternura, em oldurando palavras de confiança, em que a Sabedoria do Universo confirm ava a perpetuidade da Misericórdia de
Deus na vida que, em toda parte, continua sem pre m ais bela, plena de grandeza, a santificar-se pelo trabalho e a inundar-se de luz.
Fim !
Table of Contents
Encontro inesperado
Na porta da intim idade
Aj uste am igo
Renovação
Reencontro
Entendim ento fraternal
Inform ações de Alzira
Encontro de cultura
Irm ão Cláudio
Evelina Serpa
Ernesto Fantini
Julgam ento e am or
Tarefas novas
Novos rum os
Mom entos de análise
Trabalho renovador
Assuntos do coração
O retorno
Revisões da vida
Tram a desvendada
Retorno ao passado
Bases de novo porvir
Ernesto em serviço
Evelina em ação
Nova diretriz
E a vida continua...
Você terminou E a Vida Continua...
Chico Xavier
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