E a Vida Continua...
Tarefas novas
Fundam ente sensibilizados com as apreciações ouvidas no tem plo, Evelina e Ernesto solicitaram adm issão à caravana socorrista que o Irm ão Cláudio presidia, em visita sem anal à região dos com panheiros perturbados e sofredores.
Aquele m esm o am igo do Instituto de Ciências do Espírito atendeu-lhes o pedido com sim patia e benevolência e, m ais alguns dias passados, vam os encontrar os dois am igos integrando operoso conj unto de serviço, que passava, então, ao núm ero de oito pessoas, cinco hom ens e três m ulheres, entre as quais se achava a irm ã Celusa Tam burini.
Na peregrinação de fraternidade, a equipe descia na direção de vale extensíssim o, destinando-se especialm ente naquele dia ao culto do Evangelho no lar de Am brósio e Priscila, casal que desem penhava o encargo de guardiães, dentre os m uitos sediados na fronteira que assinala os pontos iniciais da zona conflagrada pelas proj eções m entais dos irm ãos em desequilíbrio.
Tão logo se lhes descortinou m ais am pla faixa da paisagem , Ernesto e Evelina não conseguiam sopitar as expressões de assom bro. Densa névoa, a patentear-se por diversas tonalidades de cinza, barrava a província em toda a linha divisória. Pela prim eira vez, enxergaram nos céus m áquinas voadoras que se dirigiam da cidade para o território som brio, sem elhantes a grandes borboletas silenciosas refletindo o sol que lhes punha à m ostra as asas, com o que estruturadas em pedaços de arco-íris.
Fantini desfechou para logo um a indagação, a que Cláudio respondeu, satisfeito:
— São aparelhos volantes, em que viaj am com issões de trabalho, em tarefas de identificação e assistência.
— A região é tão grande assim ?
— Im agine um deserto planetário, com m uitas sesm arias de área, m arginadas por cidades ordeiras e prósperas, e terá a exata noção do que nos ocorre aqui.
— E esses viaj antes, através do ar, desencarnados com o estão, acaso não lograriam seguir adiante, sem esses engenhos, usando o poder de volitação que lhes é próprio?
O chefe sorriu e ponderou:
— Tudo na vida se rege por leis. Um pássaro terrestre possui asas e foge do cam po incendiado, por não suportar-lhe a cortina de fum o. Um bom beiro, a fim de penetrar num a casa invadida de fogo, veste roupa defensiva.
E aditou:
— Acham o-nos à frente de perigosa extensão de espaço, habitada por m ilhares de criaturas rebeldes que constroem , à custa dos próprios pensam entos em desvario, o am biente desolado que se nos im põe à vista. Aí, nesse m undo diferente, som os defrontados pelas m ais estranhas edificações, todas elas caricaturas dos abrigos dom ésticos de que os donos abusaram na experiência física, um a verdadeira floresta de fluidos condensados, retratando as ideias e m anias, am bições e caprichos, rem orsos e penitências dos m oradores. Tem os aí, nessa faixa um bralina, todo um estado anárquico, em que o individualism o se desborda na hipertrofia da liberdade, sem os constrangim entos benéficos da disciplina, que nos faz realm ente livres pela voluntária suj eição de nossa parte aos dispositivos das Leis de Deus.
— E porque Deus perm ite a form ação desses quistos gigantescos de perturbação e desordem ? — inquiriu Ernesto, num rasgo de lógica hum ana.
— Ah! m eu am igo — obtem perou o Irm ão Cláudio —, sem pre que indagam os de nossos Maiores porque não interfere a Divina Providência no cam po da inteligência corrom pida no m al, a resposta invariável é que o Criador exige sej am as criaturas deixadas livres para escolherem o cam inho de evolução que m elhor lhes pareça, sej a um a avenida de estrelas ou um a vereda de lam a. Deus quer que todos os seus filhos tenham a própria individualidade, creiam nele com o possam , conservem as inclinações e gostos m ais consentâneos com o seu m odo de ser, trabalhem com o e quanto desej em e habitem onde quiserem . Som ente exige — e exige com rigor — que a j ustiça sej a cum prida e respeitada. “A cada um será dado segundo as suas obras.”
Todos receberem os, nas Leis da Vida, o que fizerm os, pelo que fizerm os, quando fizerm os e com o fizerm os. De conform idade com os Preceitos Divinos, podem os viver e conviver uns com os outros, consoante os padrões de escolha e afetividade que elej am os; entretanto, em qualquer plano de consciência, do m ais inferior ao m ais sublim e, o prej uízo ao próxim o, a ofensa aos outros, a crim inalidade e a ingratidão colhem dolorosos e inevitáveis reaj ustes, na pauta dos princípios de causa e efeito que im põem am argas penas aos infratores.
Som os livres para desenvolver as nossas tendências, cultivá-las e aperfeiçoá-las, m as devem os concordar com os Estatutos do Bem Eterno, cuj os artigos e parágrafos estabelecem sej am feitas e m antidas, no bem de todos e no am paro desinteressado aos outros, as garantias de nosso próprio bem .
Atingindo a orla escura da esquisita povoação, que com eçava, aqui e além surgiam criaturas andraj osas e alheadas.
Não se podia afirm ar fossem criaturas análogas aos m endigos, de algum a praça terrena, em penúria. Esse ou aquele habitante do im enso arrabalde davam a ideia de pessoas que o orgulho ou a indiferença tornavam espiritualm ente distantes. De par com esse gênero de transeuntes, outros apareciam entrem ostrando ironia e desprezo na m ím ica escarnecedora com que apontavam os viaj antes ou a estes se dirigiam . Quase todos exibiam roupas estranhas, cada qual obedecendo às condições e dignidades a que supunham pertencer.
A um a pergunta desfechada por Fantini — pois Evelina e ele eram os únicos adventícios na equipe socorrista — Cláudio observou:
— De m odo geral, os m ilhares de irm ãos que se abrigam nestas paragens não se aceitam com o são. Habituaram -se de tal m aneira às sim ulações — aliás, m uitas vezes, necessárias — da experiência física, que se declaram ofendidos pela verdade. Viveram , anos e anos, na esfera carnal, desfrutando essa ou aquela consideração pelos valores de superfície que exibiam , enfatuados, e não se conform am com a supressão dos enganos e privilégios im aginários de que se alim entavam ...
Narcisos fixados à própria im agem na retaguarda... Muitos se transferiram diretam ente da vida física para a região nebulosa sob nossa vista, e outros m uitos habitaram , logo após a desencarnação, cidades de recuperação e adestram ento, sem elhantes à nossa; entretanto, à m edida que se evidenciavam , tais quais ainda são na realidade, absolutam ente sem quaisquer sim ulacros dos m uitos de que se valiam na estância terrestre para encobrirem o “eu” verdadeiro, rebelaram -se contra a luz do Mundo Espiritual que nos expõe à m ostra a natureza autêntica, uns diante dos outros, e fugiram de nossas coletividades, asilando-se no vale de som bras geradas por eles m esm os. Aí, na penum bra criada pela força m ental que lhes é própria, com o obj etivo de se esconderem , dão pasto, em m aior ou m enor grau, às m anifestações da paranoia a que todos se afeiçoam , entregando-se igualm ente, em m uitos casos, a lastim áveis paixões que procuram debalde saciar, até as raias da loucura.
— Irm ão Cláudio — lem brou Evelina —, o senhor j á penetrou nesses sítios, atingindo algum ponto distanciado da orla?
— Já acom panhei diversas caravanas de fraternidade e socorro, utilizando veículos diversos, alcançando praças estabelecidas m uito longe de nós...
— E que viu?
— Cidades, vilarej os, povoações e aldeam entos vários, em cuj o seio
Espíritos de inteligência cultivada e vigorosa, m as profundam ente pervertidos, dom inam enorm es com unidades de Espíritos m enos hábeis no com ando das situações; contudo, tão pervertidos, via de regra, quanto eles m esm os.
Cláudio sorriu e ressalvou:
— Quando digo a palavra « pervertidos» , não m e proponho a j ulgar os nossos irm ãos transitoriam ente encastelados na som bra. Desej o apenas qualificar, para a com preensão de quem chegou recentem ente da vida física, a posição desses am igos doentes. Aliás, consideram o-los tão enferm os quanto os nossos irm ãos alienados m entais de qualquer hospício da Crosta Planetária, credores de nosso m elhor carinho. E saibam os, com entranhado respeito, que num erosos pais e m ães, esposos e esposas, filhos e pessoas am adas de m uitos dos com panheiros transviados nessas regiões som brias aí residem , por m ero devotam ento, na situação de heróis obscuros, em adm iráveis apostolados de am or e renúncia. A benefício dos que se enrij ecem no erro, de m odo a reconduzi-los ao reequilíbrio necessário, preparando-se para as novas reencarnações que os esperam . Esses paladinos da bondade e da paciência parecem escravizados aos infelizes que am am ; no entanto, pela cátedra do sacrifício da hum ildade que esposam , acabam conseguindo prodígios pela força irresistível do exem plo.
A casa singela de Am brósio j á se debuxava a distância, quando Fantini, com o quem não desej ava perder o fio dos raciocínios em andam ento, inquiriu ainda:
— Irm ão Cláudio, são geralm ente m uitos os que são resgatados pela dedicação afetiva daqueles que os tutelam nestes lugares?
— Sem dúvida. Todos os dias, chegam às nossas casas de reaj uste pequenos ou grandes m agotes dos que aspiram a renovar-se.
— E perm anecem na cidade, indefinidam ente?
— Isso não. Com poucas variantes, dem oram -se conosco apenas o tem po preciso ao exam e da nova reencarnação, em que regressam aos disfarces da carne, sem os quais, segundo acreditam , não conseguem seguir à frente, nas veredas da regeneração. Entre o cansaço da erraticidade nas som bras da m ente e o terror da luz espiritual que confessam não suportar sem longa preparação, suplicam o socorro da Providência Divina e a Divina Providência lhes perm ite a nova internação na arm adura física, na qual se reocultam , lutando pela própria corrigenda e pelo burilam ento próprio, encobertos transitoriam ente no engenho carnal, que, pouco a pouco, se desgasta, pondo de novo, à m ostra, o bem ou o m al que fizeram a si m esm os, no período da encarnação. Obtido o em préstim o do novo corpo, via de regra j unto daqueles que se lhes fizeram cúm plices nos desvarios do pretérito ou que se lhes afinam com o tipo de débitos e resgates consequentes, esses candidatos à recapitulação expiatória do passado im ploram m edidas contra eles m esm os, sej a na escolha de am biente dom éstico em desacordo com os seus ideais ou na form ação do futuro corpo de que farão uso, corpo esse que, m uitas vezes, desej am sej a bloqueado em determ inadas funções, prevenindo-se prudentem ente contra as tendências inferiores que, em outro tem po, lhes facilitaram a queda.
— Isso quer dizer que pedem certas cassações em desfavor deles m esm os? — interpôs Fantini com a sua habitual agudeza de raciocínio.
— Sim , cassações. Em vista disso, encontram os na Terra, a cada passo, grandes talentos frustrados para a direção que anelariam im prim ir aos próprios destinos... Inteligências vigorosas, desde cedo, barradas na obtenção de quaisquer louros acadêm icos e, por essa razão, detidas em artesanatos obscuros ou encargos singelos, em longa e dolorosa subalternidade, nos quais entesouram hum ildade e equilíbrio, paz e m oderação; artistas contrariados nas m ais altas aspirações, arrastando defeitos físicos e inibições outras que lhes obstam tem porariam ente as m anifestações e sob as quais adquirem a reeducação dos próprios im pulsos com o respeito necessário para com os sentim entos do próxim o; m ulheres de profunda capacidade afetiva j ungidas a corpos que lhes deprim em a apresentação, aprendendo em terríveis conflitos da alm a quanto dói a deserção do lar e o m enosprezo aos com prom issos da m aternidade; hom ens hábeis e enérgicos, carregando frustrações insidiosas e ocultas que lhes proíbem a euforia orgânica, no estágio físico, de m odo a edificarem o espírito de entendim ento e caridade, no âm ago de si próprios...
A palestra adm irável, que valera por aula inesquecível no ânim o dos ouvintes, foi repentinam ente interrom pida pelo abraço de Am brósio e Priscila que aguardavam os peregrinos fora das portas.
Saudações, bênçãos, votos, alegrias.
O serviço religioso no lar se revestiu das características do Evangelho em casa, nos dom icílios cristãos da Terra.
Havia, porém , ali, naquela tenda sim ples, valioso trabalho de extensão do apoio espiritual aos am igos sofredores da vizinhança.
Vinte e duas entidades, das quais vinte m ulheres e dois hom ens, tinham vindo do grande nevoeiro próxim o, a fim de ouvirem a palavra do Irm ão Cláudio, entrem ostrando anseios de tranquilidade e transform ação.
Desdobraram -se as tarefas nos m oldes das reuniões evangélicas do m undo, suplem entadas pela conhecida orientação espírita-cristã, portadora da interpretação respeitosa, m as livre, dos ensinam entos do Senhor.
Na fase term inal, passes de reconforto e m ensagens de esclarecim ento, advertência e ternura.
Ocasiões de serviços repontaram do quadro para Ernesto e Evelina, que, por designação do orientador, suavizaram os padecim entos de duas das irm ãs visitantes, a se cobrirem de lágrim as, depois dos com entários ouvidos.
Toda a equipe se dedicava à conversação edificante, às despedidas, acom panhando os frequentadores hum ildes da sem enteira evangélica, fora da casa, quando, em ergindo da névoa, com pacto grupo de Espíritos zom beteiros e dem entados apareceu.
Explodiram im propérios, entrem eados de vaias e ditos chulos.
Prevenindo, especialm ente aos dois recrutas, Cláudio avisou:
— Não se aflij am . A ocorrência é norm al...
— Patifes! Sum am , sum am daqui! (1) — rugiu um dos atacantes de vozeirão descom unal — não querem os serm ões, nem encom endam os conselhos.
Am ainando a saraivada de insultos, Cláudio tom ou a palavra e falou alto, sem alterar-se:
— Irm ãos! Para aqueles de vós que desej ais vida nova com Jesus, som os com panheiros m ais íntim os desde agora! Vinde à verdadeira libertação!
Unam o-nos em Cristo!
- Hipócritas! — reagiu a m esm a voz troante, seguida pelas gargalhadas irônicas de m uitos — nada tem os com Jesus! Mascarados! Vocês todos são iguais a nós, vestidos na capa de santarrões! Nós é que podem os cham ar vocês para a liberdade! Larguem as asas de barro!
Anj os cotós! Cães enfeitados! Vocês são tão hum anos, quanto nós m esm os! Se são coraj osos, deixem de ser burros velhos no freio da disciplina e venham ser livres com o som os!
Dito isso, a m alta avançou sobre o grupo fraterno, m as Cláudio, evidentem ente em oração, ergueu a destra e um fio de luz cortou o pequeno espaço que isolava os agressores.
A chusm a de infelizes estacou, aterrada. Alguns deles caíram no solo, com o que traum atizados por força incoercível, outros resistiram vom itando inj úrias, ao passo que outros ainda fugiam em disparada... Todavia, dentre aqueles que se m antinham de pé, um deles, m uito j ovem , bradou com acento inesquecível:
(1) Com preendem os a inconveniência das citações pej orativas; entretanto, em bora esm aecidas, acreditam os que as reações dos com panheiros m enos felizes, internados em regiões hospitalares ou purgatoriais, devem com parecer no presente relato, de m odo a não fugirm os do encontro com a verdade. — Nota do autor espiritual.
— Evelina! Evelina! É você aqui? Oh! Estou vivo, estam os vivos!
Quero Jesus! Jesus!
Socorro! Socorro! Quero Jesus!
Cláudio aquiesceu, com padecido: