E a Vida Continua...

Chico Xavier · Capítulo 8 de 26

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E a Vida Continua...

Encontro de cultura

— Em que sentido?

 

— Dizem que são sacerdotes m édicos, professores, cientistas e operários e não se restringem aos serviços da fé. Prestam socorro espiritual, eficiente e positivo, em nom e de Jesus.

 

Fantini observou que o pátio esvaziava.

 

Todos os doentes se recolhiam .

 

Alzira, a nova am iga, apalavrou novo encontro para depois, enquanto cum prim entava às despedidas. Logo após, Ernesto e Evelina regressaram aos aposentos, na expectativa de se reverem no dia seguinte.

 

Encontro de cultura

Ernesto Fantini e a senhora Serpa usufruiam horas e horas de confortadora intim idade no pátio, m antendo interessantes conversações.

 

 

Mais de quinze dias haviam transcorrido sobre o prim eiro reencontro.

 

Evelina, tanto quanto o am igo, j á se fam iliarizara com os banhos terapêuticos e am bos j á haviam entrado em contato com a senhora Tam burini, que Alzira indicava com o sendo a pessoa m ais culta de suas relações. Essa prestim osa criatura lhes hipotecara a prom essa de conduzi-los, tão logo possível, ao Instituto de Ciências do Espírito, que funcionava ali m esm o, num dos recantos do grande j ardim .

 

Sem qualquer dúvida, para os dois, as considerações da senhora Tam burini eram , até então, as m ais esclarecedoras que tinham ouvido. No têtea-tête quase diário, solicitava-lhes m aior reflexão em torno da m atéria, a escalonar-se em diversos graus de condensação, e m ais am plo exam e das percepções da m ente, a se alterarem , conform e os princípios de relatividade; noutros lances dos repetidos entendim entos, rogava-lhes estudar neles próprios a extrem a leveza de que se viam possuídos, a agilidade do corpo sutil que envergavam agora e a m aneira singular em que exprim iam o pensam ento, com o se as ideias se lhes esguichassem do cérebro, em form a de im agens, acim a das suas possibilidades habituais de contensão. Que se detivessem tam bém a perquirir naquele novo clim a de vida as ocorrências telepáticas, a se erigirem , ali, em fenôm eno corriqueiro, apesar de não prescindirem da linguagem articulada. Bastava m aior grau de afinidade, entre as pessoas, para que se entendessem harm oniosam ente, em derredor dos assuntos m ais com plexos, com o m ínim o de palavras.

 

Acolhiam satisfeitos as j udiciosas apreciações da senhora Tam burini, que aceitava plenam ente a convicção de serem criaturas desencarnadas em algum departam ento do Mundo Espiritual; entretanto, não obstante o respeito que lhes m ereciam , não logravam adm iti-las por verdade inconteste.

 

Evelina, sentada no chão relvoso, ao pé de Fantini que se acom odava num pequeno escabelo, iniciou o diálogo, avaliando, cism arenta:

— De fato, a cada dia m e sinto m ais leve, sem pre m ais leve. E, com isso, vou perdendo o controle de m im m esm a. Noto que os m eus sentim entos sobem do coração para o cérebro, à m aneira das águas de um m anancial profundo ao j orro da fonte... Na cabeça, observo que as em oções se transfiguram em pensam entos que m e escorrem im ediatam ente para os lábios em form a de palavras, a partirem de m im , quais as correntes líquidas que se estendem , para além do nascedouro, terra avante...

 

— Bem lem brado. Você definiu com precisão m eu próprio estado de espírito.

 

- Mas, escute Ernesto — advertiu a m oça, tocando a base de árvore robusta —, que vê aqui?

 

— Um tronco.

 

— E ali, no canteiro m ais próxim o?

 

— Cravos.

 

— Seria este o Mundo Espiritual se a m atéria e a natureza estão presentes em tudo, segundo as conhecem os?

 

— Concordo em que para nós dois, que não possuím os estudos claros, com referência às nossas atuais condições, tudo isto aqui é absurdo, alucinante, m as...

 

— Mas?

 

— Sim , nada podem os afiançar, de afogadilho.

 

— Você está influenciado pelas ideias da Tam burini?

 

— Não tanto. Faço m inhas próprias ilações.

 

- Ouça, Ernesto. Se estam os m ortos para os entes que am am os, porque não nos vieram ainda buscar os seres queridos de nossas fam ílias, aqueles que nos precederam na vida nova? Nossos avós, por exem plo, e os am igos íntim os que todos vim os m orrer?

 

— E quem disse a você que eles j á não terão vindo?

 

— Com o j ustificar esta alegação?

 

— Recorde, Evelina, as lições elem entares de casa. Um televisor capta im agens que não vem os e no-las transm ite com absoluta lealdade. Um rádio-m irim assinala m ensagens que não escutam os e no-las entrega com a m aior clareza. É m uito provável estej am os sendo vistos e ouvidos, sem que tenham os, até agora, despertado a faculdade precisa de escutar e enxergar neste plano.

 

- Ernesto, e as orações? Se som os Espíritos libertos do cham ado corpo carnal, alguém no m undo ter-se-á lem brado de nós em prece... Sua senhora, sua filha, m eus pais, m eu esposo...

 

— Não conhecem os o m ecanism o das relações espirituais, nem tem os qualquer estudo de ciências da alm a. Quem afirm ará que não estarem os am bos sendo sustentados pela força das orações daqueles que am am os ou daqueles outros... que ainda nos am em ...

 

— Que quer dizer?

 

— Que contas j á nos foram apresentadas neste hospital? a que e a quem devem os os cuidados e gentilezas que nos são dispensados, diariam ente? não com pram os as nossas roupas novas e nem as utilidades que usufruim os...

 

Você, tanto quanto eu, j á endereçam os a algum a enferm eira aquela conhecida pergunta: “quem paga”?

 

— Já indaguei...

 

— Qual foi a resposta?

— “Aqueles que vos am am .”

 

— Quem são esses, no seu m odo de ver?

 

— Em m eu caso, m eu esposo e m eus pais...

 

— Tenho m inhas dúvidas. De início, supus estivéssem os em recuperação num instituto de saúde m ental; entretanto, cada dia que passa nos surpreende em nível m ais alto de consciência, no que diz respeito aos nossos raciocínios.

 

Se nos dem orássem os num hospício, depois de algum colapso nervoso, a nossa restauração não se faria assim tão rápida...

 

Quebrou-se, porém , o fio da interessante conversação.

 

A senhora Tam burini abordou-os, à pressa, a fim de avisar que o encontro de cultura espiritual estava m arcado para a noite que se avizinhava e urgia se aprestassem .

 

Munidos do necessário consentim ento, ei-los que se dirigem para a organização, às sete da noite, j unto da am iga, que os recom enda à estim a do m entor em serviço, o Irm ão Cláudio.

 

Acolhidos com sim patia no recinto, onde se instalavam vinte e três pessoas, notaram a presença de enorm e globo que, decerto, se prestaria com o ponto de partida para valioso aprendizado.

 

O orientador principiou a reunião, notificando que a turm a estaria em aula dialogada e que não era, ali, senão um com panheiro dos dem ais, com erros, hipóteses, aproxim ações e acertos, em tudo aquilo que viesse a dizer.

 

— Qual é o tem a, professor? — sindicou senhora distinta.

 

— “Da existência na Terra.”

Em seguida ao esclarecim ento, o diretor do grupo teceu preciosos com entários, em torno das funções do orbe terrestre na econom ia cósm ica, e prosseguiu:

 

— Reflitam os, m eus am igos. Quem de nós, na atualidade de nossos conhecim entos incom pletos, conseguirá deitar sabedoria, no cam po da inteligência, tão-só pelo testem unho das im pressões pessoais? Não ignoram os que a Terra é um gigantesco engenho no Espaço, transportando consigo quase três bilhões de pessoas físicas, conduzindo-as pelas vias do Universo, sem que saibam os, ainda, ao certo, em que base de força se dependura, inform ando-nos unicam ente de que sem elhante colosso realiza, ao redor do Sol, um a órbita elíptica com a velocidade m édia de 108.000 quilôm etros por hora; enquanto certas regiões do Planeta se encontram aprum adas perante o zênite, em outras, as criaturas se acham de cabeça para baixo, diante do nadir, sem que ninguém dê por isso; até ontem , qualquer pessoa asseverava que a m atéria densa de um a paisagem se constituía de elem entos sólidos em repouso; hoj e, porém , qualquer j ovem estudante sabe que essas im pressões são im aginárias, de vez que a m atéria, em toda parte, se dissolve num m isto de elétrons, prótons, nêutrons e dêuterons, encerrando-se em energia e luz; qualquer hom em reside num corpo do qual se faz inquilino, respira e atende aos im positivos da nutrição, sem m aior esforço de sua parte. De que m aneira dogm atizar afirm ativas sobre causas, processos, acrisolam ento e finalidade de nossa existência terrestre pelos acanhados recursos dos sentidos com uns?

 

Estabelecendo-se com prida pausa, aventou um cavalheiro:

 

— Professor, com estas deduções, o senhor quer dizer...

 

— Que a vida na Terra deve ser interpretada com o um trabalho especial para o espírito. Cada qual nasce para determ inada tarefa, com possibilidades de evolver para outras, sem pre m ais im portantes, e que, por isso m esm o, não será possível arrebatar às criaturas os princípios religiosos de que dispõem , sem prej uízos calam itosos para elas próprias. A ciência avançará, desvendando segredos do Universo, resolvendo problem as e suscitando desafios novos a sua capacidade de investigação; no entanto, a fé sustentará o hom em nas realizações e provas que é cham ado a atravessar. O Espírito renasce no m undo físico, tantas vezes quantas se façam necessárias para utilizar-se, aperfeiçoar-se, lucificar-se; e, à m edida que se aprim ora, vai percebendo que a existência carnal é um ofício ou m issão a desem penhar, de que dará ele a conta certa ao térm ino da em preitada.

O explicador revelava tam anha altura cultural, através da exposição em andam ento, que raros apartes se fizeram ouvir. Sem desviar, por isso, a espinha dorsal da preleção que pretendia, indubitavelm ente, preparar os ouvintes para a aceitação pacífica do novo estado espiritual a que se haviam transferido, com entou:

 

— Se as leis do Senhor se m anifestam claras e m agnânim as, em todos os departam entos da experiência física, estaríam os, acaso, desprezados por Deus, quando ultrapassam os as fronteiras da m orte? Referim o-nos, aterrados, ao aniquilam ento das vidas hum anas, quando as guerras varrem a face do

 

Planeta; entretanto, que concluir acerca dessas m esm as vidas hum anas, a se extinguirem , m etodicam ente, nas épocas de paz? Conservar-se-ia o Senhor indiferente aos nossos destinos, em algum lugar do Universo? Ele, que inspira a graduação do alim ento para a criança e para o adulto, relegaria ao abandono a criatura desencarnada, quando a criatura vestida de agentes físicos vive e age num a esfera de ação, na qual os fatores de previsão e proteção oferecem , todos os dias, os m ais belos espetáculos de grandeza?

 

Ninguém , ali, penetrava, a fundo, o caráter sibilino daquelas alegações. Os circunstantes, pelo m enos em m aioria, não se apercebiam de que estavam sendo adestrados, delicadam ente, a fim de adm itirem a realidade espiritual, sem barulho.

 

Surgindo m ais am pla quota de silêncio, em virtude de achar-se o professor interessado em averiguar posições geográficas, no globo à vista, Evelina cobrou ânim o e perguntou:

 

— Irm ão Cláudio, todas as pessoas registrarão sensações iguais entre si, depois da m orte?

 

— Não. Cada qual de nós é um m undo por si e, em razão disso, cada individualidade, após largar o carro físico, encontrará em oções, lugares, pessoas, afinidades e oportunidades, conform e desem penhou o oficio, ou m elhor, os deveres que lhe com petiam durante a existência, na Terra.

 

Ninguém pode conhecer o que não estuda, nem reter qualidades que não adquiriu.