E a Vida Continua...
Ernesto Fantini
Chegada a vez de Ernesto, que tom ou a poltrona de analisando algo desconcertado, o Instrutor form ulou as explicações anteriores, solicitou-lhe articular perguntas e acendeu o espelho de gravação.
Fantini, um tanto m ais à vontade, iniciou o interrogatório:
— Posso falar, com o se estivesse realm ente m orto, com o m e fazem crer?
O m entor sorriu, ao escutar aquela frase de m aterialista inteligente, e obj urgou sem aspereza:
— Fale tudo o que desej e, na convicção de que a teoria do corpo se está longe agora de nós.
Estam os efetivam ente desencarnados, encontrando a nós m esm os...
— Instrutor, se deixei m eu corpo na Terra, sem lem brar-m e disso, não é o caso de ter voltado ao am biente natural do Espírito, com a obrigação de retom ar a m em ória do tem po em que vivia, na condição de Espírito livre, antes de envergar, entre os hom ens, o corpo de que m e desfiz? por que m otivo isso não acontece?
— A existência no carro físico, além de ser um estágio para aprendizagem ou cura, resgate ou tarefa específica, é igualm ente um longo m ergulho no condicionam ento m agnético, em que agim os, no m undo, induzidos ao que nos cabe fazer, O livre arbítrio, na esfera da consciência, perm anece vivo e intocado, porquanto, em quaisquer posições, a criatura encarnada é independente para escolher os próprios rum os; no entanto, as dem ais potências da alm a, no período da encarnação, j azem orientadas na direção desse ou daquele trabalho, segundo os propósitos que tenha assum ido ou que tenha sido constrangida a assum ir.
Isso determ ina o obscurecim ento das m em órias pregressas que, aliás, não é senão uni fenôm eno tem porário, m ais ou m enos curto ou longo, conform e o grau de evolução que tenham os atingido.
— Teríam os sofrido, enquanto no plano físico, um a dilatada hipnose?
— Até certo ponto, sim . A passagem pelo claustro m aterno, o novo nom e escolhido pelos fam iliares, os sete anos de sem i-inconsciência no am biente fluídico dos pais, a recapitulação da m eninice, o retorno à j uventude e os problem as da m adureza, com as responsabilidades e com prom issos consequentes, estruturam em nós — a individualidade eterna — um a personalidade nova que incorporam os ao nosso patrim ônio de experiências. E’ com preensível que no espaço de tem po, que se nos sucede, im ediatam ente à desencarnação, a m em ória profunda estej a ainda herm eticam ente trancada nos porões do ser. Isso, porém , é francam ente transitório. Gradativam ente, reaverem os o dom ínio de nossas rem iniscências...
— O senhor quer explicar que, nesta cidade, sou ainda Ernesto Fantini, a personalidade hum ana com o nom e que m e foi im posto na existência que deixei, largando o estudo de m inhas m em órias anteriores para depois?
— Perfeitam ente. Cada um de nós perm anece aqui, em núcleos de trabalho e renovação, na vizinhança do plano físico, sob a m esm a ficha de identificação, através da qual éram os conhecidos nela. Até que nos prom ovam os por m erecim ento próprio a círculos m ais altos de sublim ação, quedar-nos-em os entre a Espiritualidade Superior e o Estágio Físico, operando no aperfeiçoam ento pessoal, da internação no berço à liberação para a vida espiritual e regressando da liberdade na vida espiritual a nova segregação no berço. Entendeu?
— Aqui som os então exam inados pelo que fom os, nas ações praticadas, no tem po de retaguarda m ais próxim o de nós...
— Isto.
— Som os com o éram os, na ficha individual, até...
— Até que as circunstâncias nos indiquem nova im ersão no corpo carnal, com o recurso inevitável aos obj etivos de burilam ento a que todos visam os, nas lides da vida eterna.
— Som os quais éram os, em tudo, até m esm o na sinalização m orfológica?
— Não tanto. Quaisquer sinais m orfológicos se m odificam na pauta das ordenações m entais.
Isso ocorre, habitualm ente, na própria Terra dos Hom ens, quando a ciência, sem m aiores dificuldades, m odifica os im plem entos da m áquina genésica da criatura, de acordo com os im pulsos psicológicos que a criatura apresente, harm onizando o binôm io corpo-alm a. Além disso, não nos será lícito esquecer os serviços m ultiform es da plástica cirúrgica, que consegue efetuar prodígios no envoltório carnal das pessoas, quando essas pessoas m ereçam as m elhoras com que a ciência terrestre lhes acena, generosa e otim ista.
Fantini se m ostrava agradavelm ente surpreendido pela destreza m ental com que o Instrutor sabia colocar-lhe os esclarecim entos precisos na cabeça fam inta de luz.
— Caro am igo — tornou ele à inquirição. — Em bora o assunto de que vou tratar j á tenha sido obj eto de consideração na palestra que m antive com o
Irm ão Cláudio, estim aria recolher-lhe os avisos no m esm o tem a... Acontece que ouvi falar de m ortos, e de m ortos cultos, que atravessaram anos e anos atorm entados em zonas inferiores, antes de reconquistarem lucidez e tranquilidade; porque não m e ocorreu isso, se estou efetivam ente desencarnado e se sou um hom em consciente das culpas que carrega?
— O estado de tribulação a que se refere é pertinente ao espírito e não ao lugar. Muitos de nós, os desencarnados, suportam os tem pos difíceis, em paisagens determ inadas que nos refletem as próprias perturbações íntim as. Essa anom alia pode perdurar por m uito tem po, de conform idade com as nossas inclinações e esforço indispensável para que nos aceitem os, im perfeitos com o ainda som os, conquanto não ignorem os a necessidade de burilam ento que as leis da vida nos estabelecem . Som os, por agora, consciências endividadas ou expoentes de evolução deficitária, ante a Vida Maior, carregando o dever de podar os nossos defeitos em trabalho digno e incessante. Enquanto estej am os em desequilíbrio, após a desencarnação, desequilíbrio que é sem pre agravado pela nossa inconform idade ou rebeldia, orgulho ou desespero, am eaçando a segurança dos outros, perm anecerem os com preensivelm ente internados ou segregados em faixas de espaço, j unto de quantos evidenciem perturbações ou conflitos sem elhantes aos nossos, à m aneira de doentes m entais, afastados do convívio dom éstico para tratam ento j usto.
— Então, as ideias do castigo de Deus...
— Razoável que as abracem os, até que aprendam os que a Divina
Providência nos governa através de leis sábias e im parciais. Cada um de nós pune a si m esm o, nos artigos dos Estatutos Excelsos que haj a infringido. A
Justiça Eterna funciona no foro íntim o de cada criatura, determ inando que a responsabilidade sej a graduada no tam anho do conhecim ento...
— Instrutor Ribas, com o definir, desse m odo, o inferno engenhado pelas religiões no Planeta?
— Reportem o-nos a isso com o respeito que o assunto nos reclam a, porque para m ilhões de alm as o desconforto m ental a que se entregam , ao lado de outras nas m esm as condições, é perfeitam ente com parável ao sofrim ento do inferno teológico, im aginado pelas crenças hum anas. A rigor, porém , e atentos à realidade de que Deus j am ais nos abandona, o inferno deve ser interpretado na categoria de hospício, onde am argam os as consequências de faltas, no fundo, com etidas contra nós m esm os. Fácil perceber que a área de espaço em que nos dem orem os nessa desoladora situação venha a retratar os quadros m entais infelizes que criam os e proj etam os, ao redor de nós.
— Ouso aprofundar-m e em tantas inquirições, por achar-m e convencido de que, positivam ente, não m ereço a generosidade com que m e acolhem ... Tenho desfrutado aqui um a tranquilidade que não esperava, porquanto transporto com igo doloroso problem a de consciência...
— Um a das funções de nosso Instituto é precisam ente apoiar os irm ãos desencarnados que surgem aqui, sem qualquer prej uízo na própria integridade m oral, m as carreando consigo com plexos de culpa, suscetíveis de arroj á-los em alterações de m aior vulto. O socorro de nossa casa faz-se tanto m ais eficaz quanto m ais força de fé patenteie a criatura na possibilidade de superação das fraquezas que nos são peculiares. A sua estrutura psicológica im unizou-o contra os delírios de m uita gente boa e digna que, às vezes, se obriga a m uito tem po nas aflições purgativas dos grandes m anicôm ios a que nos referim os, sanando os desequilíbrios a que se despenham , em m uitos casos por haverem dado orientação falsa ao am or de que se nutriam .
Entregou-se Ribas a ligeira pausa, sorriu e alegou:
— Ainda assim , apesar do seu índice adm irável de resistência, o irm ão não está seguro contra os resultados de seus próprios atos e deve aprestar-se a fim de ser defrontado por eles.
— Esclareça-m e, por favor.
— Querem os dizer que você necessita revestir-se de calm a para com parecer diante daqueles que deixou no m undo, de m odo a com preender-se e com preendê-los... Na esfera física, m uitas vezes ouvim os a afirm ativa de que é preciso coragem para ver os m ortos e ouvi-los! A situação aqui não é diferente, em relação aos cham ados vivos. De m aneira geral, todos nós, im ediatam ente depois da desencarnação, som os levados a cursos preparatórios de entendim ento, para ganhar o ânim o indispensável, a fim de rever os vivos e escutá-los de novo, sem danos para eles e para nós...
Os olhos de Ernesto fizeram -se esbugalhados nas órbitas ao assinalar aquelas advertências.
Lágrim as grossas deslizaram -lhe na face, enquanto que, com o se sofresse a pressão de m olas invisíveis, constrangendo-o a lançar para fora de si as ideias de culpa, que rem oía nos recessos da alm a, aj oelhou-se à frente do benfeitor, qual criança atem orizada e gritou:
— Instrutor, segundo creio, m eu delito é um só; entretanto, é suficiente para criar m uitos infernos em m eu espírito. Matei um am igo, há m ais de vinte anos, e nunca m ais tive paz... Sabia-o no encalço de m inha esposa com intenções m enos dignas, a espreitar-lhe os passos e atitudes...
Via-o sondar m inha casa, em m inha ausência... Algum as vezes, registrei frases inconvenientes da parte dele para com aquela que m e partilhava o nom e... Um dia, tive a im pressão de surpreender nos olhos da com panheira certa inclinação afetiva para com o inim igo de m inha tranquilidade e, m uito antes que m inhas suposições se confirm assem , aproveitei o m om ento que se m e figurou oportuno e alvej ei-o durante um a caçada a codornas... Atirei para acertar e, satisfeito o m eu intento, ocultei-m e na folhagem , até que o outro com panheiro, pois éram os três hom ens no entretenim ento, deu alarm e ao esbarrar com o cadáver... A vítim a, porém , caíra ao solo em condições tais que a versão de um acidente senhoreou a convicção de todos os circunstantes...
Aterrado perante o m eu crim e, qual m e achava, aceitei, aliviado, a falsa interpretação... Jam ais, no entanto, recuperei o sossego íntim o... Ele, o hom em que elim inei, era casado, tanto quanto eu m esm o, e não m ais tive coragem de procurar-lhe a fam ília, que, para logo, abandonou a região do terrível acontecido, sequiosa de esquecim ento... Esse esquecim ento, contudo, não veio para m im ...
A m orte que provoquei, com o que m e trouxe o tem ido desafeto para dentro de casa... Desde a ocorrência dolorosa, passei a sentir-lhe a presença no lar, à feição de som bra invariável que m e ironiza e m e insulta sem que os outros percebam . Em m eu círculo dom éstico, reconheço-m e algem ado a ele, com o se o infeliz estivesse m ais vivo e m ais forte, a cada dia... Rara a noite em que não lutava com ele em sonho, antes da cirurgia que m otivou m inha vinda para cá... Então, acordava, com o se houvéssem os travado um duelo m ortal, para continuar a vê-lo, com os olhos da im aginação, com partilhando-m e a vida cotidiana! Oh! Instrutor Ribas! Instrutor Ribas! Diga-m e, por Deus, se há rem édio para m im !... Esperava encontrar, depois da m orte, um lugar de punição onde as potências infernais cobrassem de m im a falta que ocultei à j ustiça da Terra; entretanto, estou usufruindo um a proteção exterior que m e agrava o torm ento íntim o! Oh! m eu am igo, m eu am igo, que será então de m im , que não m ais consigo suportar a m im m esm o?
Assim dizendo, Fantini abraçou-se ao m entor, soluçando qual m enino desam parado, suplicando refúgio.
O Instrutor acolheu-o no regaço paternal e consolou-o:
— Asserena-te, m eu filho! Som os espíritos eternos e Deus, nosso Pai, não nos deixará sem arrim o.
Os olhos de Ribas m ostravam lágrim as que não chegavam a cair. Dir-se-ia que ele, o com petente orientador, conhecia por si sem elhante m artírio da consciência, porque, longe de repreender, afagou-lhe a cabeça fatigada, que se lhe abrigara sobre os j oelhos, e rem atou sim plesm ente:
— A j ustiça de Deus não vem sem apoio na m isericórdia. Confiem os! E sem m aior delonga, o am igo espiritual ergueu-se, sensibilizado, apagou o espelho de serviço e encerrou a sessão.