E a Vida Continua...

Chico Xavier · Capítulo 15 de 26

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E a Vida Continua...

Momentos de análise

 

Atendendo à solicitação de Ernesto e Evelina que ansiavam por esclarecim ento, no em baraço que a presença de Túlio lhes im punha à cabeça, o Instrutor Ribas m arcou-lhes encontro, de que se valeram pontualm ente.

 

No am biente acolhedor do Instituto, o am igo lhes ouviu pacientem ente as arguições.

 

Que significa a perturbação do rapaz? com o lograriam os dois, notadam ente Evelina, auxiliá-lo corretam ente? ser-lhes-ia lícito rogar ao Instituto algum a inform ação, quanto às acusações de Mancini contra Caio Serpa? estariam am bos capazes de assum ir responsabilidades para aj udar ao m oço infeliz?

 

Após ouvi-los, o orientador repartiu com eles um olhar de brandura e advertiu:

 

— Vocês j á reiteraram diversos pedidos de acesso ao trabalho espiritual; não estranhem se chegou a hora de com eçar.

 

Depois de um a pausa, transform ada em sorriso:

 

— Túlio Mancini é o m arco de início da obra redentora que abraçam .

 

Investiguem os próprios corações, especialm ente nossa irm ã Evelina, e verifiquem a pena que as dificuldades dele lhes causam . Onde o am or respira equilíbrio, não há dor de consciência e não existe dor de consciência sem culpa.

— Oh! Instrutor — clam ou a senhora Serpa diga, por gentileza, tudo o que devo fazer!

 

— Falar-lhes-ei com o a filhos, porque entre pais e filhos não prevalecem suscetibilidades.

 

Mudando de tom :

 

— Irm ã Evelina, que sensações foram as suas, em se vendo a sós com o am igo recém -visto?

 

A m oça, que form ulara o intim o propósito de arrostar a verdade, fossem quais fossem as consequências, adm itiu:

 

— Sim , ao rever-m e a sós com ele, sem ninguém a observar-nos, com o que m e detive nas lem branças do passado, quando supunha haver achado nele o hom em de m inha preferência. Senti-m e transportada à j uventude, e então...

 

— E então — o m entor benevolente com pletou a frase reticenciosa — as suas próprias vibrações lhe encoraj aram a agressividade afetiva.

 

— Entretanto, recordei, às súbitas, os m eus com prom issos conj ugais e contive-m e.

 

— Fez m uito bem — contrapesou Ribas —, ainda assim , o seu coração falou sem palavras, provocando novas sequências do desaj uste em ocional de que Mancini foi vítim a, na experiência terrestre, em grande parte m otivado por suas prom essas não cum pridas.

 

Oh! m eu Deus!

 

— Não se aflij a. Som os Espíritos endividados, perante as Leis Divinas, e estam os situados na faixa de expressiva transição, a transição do am or narcisista para o am or desinteressado. Tem os teorias de santificação para o sentim ento, m as, na essência, som os, na prática, sim ples iniciantes.

 

Na esfera dos pensam entos nobres, assim ilam os o influxo dos Planos Gloriosos; todavia, no cam po dos im pulsos inferiores, carregam os ainda o im enso fardo de desej os deprim entes, que se constituem de vigorosos apelos à retaguarda.

 

Im pressionado, Fantini aparteou:

 

— Quer dizer que o hom em terreste.

 

— É um ser de inteligência refinada pelos poderes que adquiriu na cam inhada evolutiva em que se em penha, desde m uitos séculos, m as ainda oscilante, de m odo geral, entre anim alidade e hum anização, conquanto os casos particulares de criaturas que j á se encam inham da hum anidade para a angelitude. A m aioria de nós outros, os Espíritos capitulados na escola da

 

Terra, nos acham os em trânsito da poligam ia para a m onogam ia, com referência à devoção sexual. Decorre daí o im positivo de vigilância sobre nós m esm os, sabendo-se que o sexo é faculdade criativa, nos dom ínios do corpo e da alm a.

Denotando, porém , o propósito de não se afastar do problem a específico de Evelina:

 

— Com preensível, m inha irm ã, que você houvesse registrado o fenôm eno da atração de que dá notícia e m uitíssim o j usta a continência a que se determ inou, exortando o raciocínio claro e responsável a frenar o coração im aturo. Ninguém atingirá o porto da dignidade espontânea, sem viaj ar, por longo tem po, nas correntes da vida, aprendendo a m anej ar o lem e da disciplina. Em bora isso, porém , saibam os debitar a nós próprios os erros que perpetram os, no tocante aos valores afetivos, a fim de saná-los ou resgatá-los em m om ento oportuno;

 

— Devo reconhecer m inha dívida para com Mancini, hipotecando-lhe noutro tem po tantos votos de felicidade que deixei para ele absolutam ente vazios... — suspirou a senhora Serpa, desconsolada.

 

— Isso m esm o. Túlio terá com etido m uitos disparates, até agora; no entanto, a sua consciência de m ulher não se exim irá, com certeza, aos com prom issos que lhe cabem no assunto.

 

— E de que m odo apagar o m eu débito?

 

— Auxiliando-o a lim par as próprias em oções, com o se purificam as águas de um poço barrento.

 

Diante da inquietude que passou a desassossegar a j ovem senhora:

 

— Nada de precipitação, nem de violência. Forçoso aceitar-nos tais quais som os e facear os problem as que nos advenham dos próprios desacertos. Não estudam os para chorar. A irm ã está consciente de que cooperou no desastre m oral do am igo em análise. Vej am os serena-m ente o que lhe será possível fazer agora, de m aneira a que se reponha na estrada certa.

 

— Pequenina quanto sou, que conseguiria realizar?

 

— Suplicou a m oça, hum ilde.

Ribas recorreu a largo m óvel em que se adivinhava com plicada peça de arquivo e, sacando um a ficha, explicou que ali j aziam sum ariados todos os inform es que Evelina prestara em seu prim eiro contato com o Instituto. Em seguida, elucidou que, de posse da versão doada por ela m esm a, acerca dos acontecim entos que lhe haviam atorm entado a existência, ele, Ribas, providenciara a obtenção de conhecim entos com plem entares, alusivos à senda que ela escolhera trilhar. Viera, assim , a saber que Mancini efetivam ente perdera o corpo físico pela ação delituosa de Serpa, que lograra ilaquear as autoridades hum anas com um crim e perfeito, no qual com pusera com habilidade a tese de suicídio. Vítim a da desencarnação prem atura, peram bulara o rapaz, algum tem po, à feição de sonâm bulo, na paisagem terrena que lhe servira de fundo à tragédia, sendo, m ais tarde, recolhido, ali m esm o, na cidade de regeneração e refazim ento em que lhe pesquisavam agora a situação. Aí convalescera por alguns m eses; no entanto, a paixão que Evelina lhe insuflara levianam ente na alm a lhe fixara nela e em torno dela os pensam entos. À vista disso, tornara-se arredio ao próprio reerguim ento, acabando por fugir no rum o do tenebroso distrito da inteligência desenfreada, onde se relegara, nos últim os anos, a desvarios diversos. Vinculado à m oça que lhe acalentara em vão tantos sonhos de ventura e de afeto, viciara-se no território da som bra, desconsiderando a própria respeitabilidade. Retornando àquele pouso de consolação e reequilíbrio, por efeito do reencontro com a criatura que lhe perm anecia na m ente por eleita inesquecível, fora agraciado com novo ensej o de auto-reeducação.

 

A senhora Serpa e Ernesto assinalavam , atônitos, a exposição que prim ava por lógica irretorquível.

 

Às agoniadas inquirições da interessada, quanto ao com portam ento que lhe com petia adotar, Ribas aclarou:

 

— Podem os dizer-lhe, m inha irm ã, que, por seus m éritos indiscutíveis, benfeitores e am igos de que dispõe na Espiritualidade Maior rogaram aos agentes da Divina Justiça não lhe perm itissem a desencarnação sem com eçar o processo de sua reabilitação espiritual na Terra m esm o... Assim é que, através da onda m ental dos rem orsos que lhe ficaram , à face do suposto suicídio de Mancini, você atraiu para o próprio claustro m aterno o Espírito sofredor de um irm ão suicida, sentenciado pela própria consciência a experim entar a provação de um corpo frustrado, de m odo a valorizar com m ais respeito o divino em préstim o da existência física. Com o é fácil de ver, as angústias da m aternidade m alograda lhe foram extrem am ente úteis na Terra, por lhe haverem proporcionado ensej o a preciosas reparações.

 

— Entretanto — m encionou Fantini —, inform am o-nos de que Mancini não caiu por si próprio e sim pela arm a do rival.

 

— Apesar disso — consertou Ribas —, não olvidem os que o m oço em preendeu, antes, a lam entável tentativa, im pulsionado pela ação da própria

 

Evelina, dando a Serpa o m olde do crim e.

 

Esboçando sorriso benevolente:

 

— Estam os exam inando, entre am igos, a lei de causa e efeito.

 

Com preendam os que a j ustiça funciona em nós m esm os.

 

— Mas...

 

Fantini, adm irado, iniciou debalde a tréplica vacilante. Ignorava com o entretecer novas dúvidas, ante a conceituação racional que o m entor tranquilam ente patenteava.

 

Foi o próprio Ribas quem retom ou o fio das j ustificações. Anotando:

 

— Som os m ecanicam ente im pelidos para pessoas e circunstâncias que se afinem conosco ou com os nossos problem as. Suscitando ideias de autodestruição na m ente de um hom em cuj as atenções granj eara, Evelina transportou-se da irreflexão para o arrependim ento, depois de verificar-lhe a derrocada m oral num a em presa gorada de suicídio, procurada conscientem ente.

 

Apenas aí, coagida pela com punção, nossa irm ã percebeu que agira em prej uízo do rapaz de quem obtivera integral confiança, lesando, em consequência, a si própria. Lastim ando Mancini, deplorava a si m esm a e, nesse estado de em oções negativas, fez-se vaso de um a entidade nas condições em que supunha haver precipitado o m oço m enos feliz. À vista disso, converteu-se autom aticam ente em desventurada m ãe de um com panheiro suicida, no anseio de expiar a própria falta.

 

Endereçando afetuoso olhar para a senhora Serpa:

 

— Enunciando inconscientem ente o desej o de exculpar-se, o seu propósito alcançou o coração de am igos e benfeitores, no Mundo Espiritual, que lhe advogaram a concessão da bênção a que j á nos referim os. Você padeceu, pois, antes da desencarnação, a pena de que se j ulgava m erecedora, sequiosa que se achava de propiciar a Mancini a supressão do m al que lhe havia causado. Você não pagou em Túlio o débito em que se viu incursa, m as resgatou essa conta, j unto a suicida anônim o, tão filho de Deus quanto nós, redim indo-se no foro íntim o, segundo a lei que rege a tranquilidade de consciência. E o irm ão desconhecido, ao m esm o tem po que am argou a provação do berço prem aturam ente inutilizado, com eçou a ressarcir a dívida que assum ira para consigo m esm o, aprendendo quanto custa e com o custa o tesouro de um corpo físico, utensílio de aperfeiçoam ento e progresso.

 

Ernesto e Evelina escutavam , surpresos.

 

— Cum pre-se a Eterna Justiça no m undo de cada um de nós — rem atou o professor. — Deus não nos condena nem nos absolve. O Am or Universal está sem pre pronto a soerguer-nos, instruir-nos, burilar-nos, elevar-nos, santificar-nos. O destino é a som a de nossos próprios atos, com resultados certos.

 

Devem os sem pre a nós m esm os as situações em que se nos enquadra a existência, porquanto recolhem os da vida exatam ente o que lhe dam os de nós.

 

— E agora? — interrogou Evelina, espantada.

 

— As circunstâncias trouxeram -lhe o credor ao am biente pessoal, porque você, m inha irm ã, está felizm ente em posição de prosseguir no trabalho restaurador!

 

— Que fazer, m eu am igo?

 

— Se você está realm ente disposta a renovar o cam inho, chegou o m om ento de aj udar Mancini a desvencilhar-se das ideias enferm iças que a sua conduta de m oça m enos responsável lhe instalou na cabeça, tornando-se presentem ente para ele em devotada preceptora, a reform ular-lhe a visão da vida, no plano espiritual.

 

— Não posso desem penhar, j unto dele, o papel de com panheira...

 

Ribas acarinhou-lhe a m ão com ternura paterna e apontou:

 

— Se os erros da m ulher não foram perpetrados, na categoria de parceira da vida sexual de um hom em , ela não tem a obrigação de ser-lhe a esposa, tão só porque lhe deva essa ou aquela indenização no reino do Espírito, sucedendo o m esm o ao hom em , referentem ente à m ulher. Não obstante esse princípio, a lei de am or deve efetivar-se, independentem ente das form as em que o am or se expresse.

 

E num tom de enternecim ento profundo:

 

— Aqui m esm o, você pode regenerar o cam po em otivo de Túlio e sublim ar os seus próprios sentim entos em relação a ele, am parando-o e instruindo-o no grau de m entora m aternal. Quase sem pre, a recuperação de alguém é um a planta sublim e da alm a que som ente vinga porque a abnegação de outro alguém se dispõe a adubá-la com a proteção da ternura e com o orvalho das lágrim as...

 

Identificava-se Evelina banhada de esperança, Fantini m ergulhou em alta m editação acerca das realidades eternas e Ribas, pressionado pelo horário que lhe convocava a presença em outros setores, prom eteu continuar a esclarecedora conversação, logo lhes surgisse a desej ada oportunidade, em m om entos seguintes.