E a Vida Continua...

Chico Xavier · Capítulo 23 de 26

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E a Vida Continua...

Ernesto em serviço

 

A obra de assistência espiritual por parte de Fantini e Evelina avançava com segurança, entre as m elhoras de Túlio e os tentam es de reaproxim ação com Desidério, que não se desvinculava de Elisa, então relegada às próprias reflexões no sanatório a que fôra conduzida.

 

O trabalho para Ernesto se fazia, porém , cada vez m ais difícil, porquanto o adversário não perdia ocasião de arrancar-se contra ele, através de acusações e achincalhes. Por outro lado, as condições orgânicas de Elisa pioravam , de dia para dia, e os seus esforços, no sentido de abeirar-se dela, redundavam quase nulos. Preocupado com o rum o da situação, procurou Ribas, a quem expôs o problem a, inquirindo por que m otivo um Espírito sofredor e enrij ecido nas ideias de vingança adquirira tam anho poder de penetração, a ponto de apontar-lhe as m ínim as falhas de caráter.

 

— Ah! m eu am igo, m eu am igo! confessou o Instrutor — nossos irm ãos atrelados ao desespero e a revolta encontram razões para censurar-nos, sem pre que preferim os desem penhar na Terra a função de personalidades-legendas.

 

— Com o assim ?

 

— Muita vez, som os no m undo titulares desses ou daqueles encargos, sem que venham os a executá-los de m odo efetivo. Costum am os ser m aridos-legendas, pais-legendas, filhos-legendas, adm inistradores-legendas... Usam os rótulos, sem atender às obrigações que eles nos indicam .

 

Entendeu? Igualm ente, j á fui esposo-legenda na Terra, isto é, casei-m e, abracei com prom issos de fam ília, m as acreditei que as m inhas responsabilidades se lim itassem a ostentar a chefia da casa e a pagar as contas de fim de m ês. A rigor, j am ais com partilhei as inquietações da com panheira, na educação íntim a dos filhos e, que eu m e lem bre, nunca m e sentei, j unto de qualquer deles, para sondar-lhes as dificuldades e os sonhos, conquanto lhes exigisse conduta que m e honrasse o nom e.

 

Assinalando a delicada obj urgação, Fantini viu-se m ais um a vez espicaçado pela própria consciência.

 

Concluía, sinceram ente, de si para consigo, que não fora o esposo e o pai que deveria ter sido. Som ente ali, naquela estância espiritual, depois da m orte do corpo físico, percebia, nas duras refregas da autocorrigenda, que o dinheiro não faz o serviço do coração. Sentindo-se rebaixado, triste, absteve-se de quaisquer divagações nos tem as da consulta, ao passo que o m entor, risonho, deteve-se a confortá-lo nas despedidas:

 

— Nada de desânim o! Ouçam os os opositores nas críticas que assaquem contra nós, buscando aproveitá-las com hum ildade no que m ostrem de verdadeiro e de útil. Usem os essa chave, Fantini — a hum ildade — Ela funcionará com acerto na solução dos m aiores enigm as.

 

Sej am os cristãos autênticos, am ando, servindo, desculpando...

 

Atento às lições constantes do am igo, consagrava-se Ernesto, cada vez m ais, aos m isteres da fraternidade legítim a, fosse tolerando as diatribes da m ulher debilitada pelo sofrim ento, ou suportando, com resignação heroica, os baldões do irm ão infeliz, sem pre disposto ao espancam ento verbal.

 

Depois de vinte e seis dias de frequência correta ao clim a de serviço, verificou, surpreso, que Serpa, pela prim eira vez, vinha ao encontro da futura sogra.

 

Muito bem apessoado, postou-se o causídico à frente da enferm a, em sala particular, com o beneplácito da adm inistração do instituto, pois, segundo anunciou, desej ava colher im pressões claras e pessoais, com alusão à doente, a fim de prestar inform es positivos à noiva.

 

Em derredor de am bos, apenas os dois acom panhantes desencarnados, Desidério e Fantini, am bos ansiosos pelos resultados da entrevista.

 

Quando se acharam a sós, Elisa expôs, com palavras serenas de m ãe, o desej o de abraçar a filha, a fim de que ela lhe testem unhasse a sanidade m ental e lhe patrocinasse o regresso para a casa, sensibilizando tanto a Fantini quanto a Desidério, pela atitude hum ilde em que vazava as súplicas de m ulher derrotada pelas circunstâncias.

 

Serpa, no entanto, contrariou-a, inflexível:

 

— Absolutam ente, a senhora não terá alta, assim com o pretende, pois os prognósticos a seu respeito não aj udam ...

 

— Porquê?

 

— As inform ações relativas ao seu com portam ento não nos autorizam a retirá-la.

 

— Com portam ento? que com portam ento?

 

— Continua chorando sem propósito, conversa sozinha, interpela som bras.

 

— Sim plesm ente, não sou com preendida, o que vej o, vej o...

 

— Vera telefona diariam ente e os enferm eiros são concordes em declarar que as suas perturbações não dim inuíram .

 

— Serpa — adm oestou Elisa, carregando a voz de m al-estar —, apesar de tudo, insisto com o seu cavalheirism o, a fim de que m e traga Vera...

— Para quê? para traum atizá-la com as suas fantasias? Não acredita que sua filha j á sofreu o bastante com os seus choros e noites em claro?

 

— Oh! Serpa!

 

— A senhora sabe que j á sou quase seu genro, tenho direito a interferir...

 

— Não sei quem teria o direito de interferir entre as m ães e os filhos — reivindicou a enferm a, agora suplem entando cada palavra com inflexão de funda tristeza. — Não reclam o contra a sua ingerência nos negócios de m inha casa, a ponto de m e achar interditada, no tocante a em itir um sim ples cheque...

 

— Não se lam urie — atalhou Caio, agressivo —, aceitei o papel de seu procurador, por exigências de sua filha. Tenho serviço que m e baste e não disputaria a condição de seu em pregado...

 

— Não lam ento e conto com a sua honestidade para proteger os interesses de m inha filha...

 

Quanto a m im ...

 

— Que quer dizer?

 

— Quanto a m im , vocês dois não se afligirão por m uito tem po. Alguns palm os de terra...

 

— Porque fala nisso? que há de m ais? a m orte é o fim de nós todos, e, se a senhora se expressa dessa form a para com over-m e, está m uito enganada...

 

— Oh! m eu Deus, só desej ava ver m inha filha!

 

— Pois enquanto não se norm alizar, enquanto não puder recebê-la sem causar-lhe im pressões negativas, não conseguirá.

— Mas porque m e im põe essa recusa, se sem pre recebi você em m inha casa, com o se fosse m eu próprio filho?

 

— Mentira! a senhora m e detesta... Não m e expulsou, porque Vera não perm itiu, porque sou o hom em que ela escolheu para lhe dirigir o futuro...

 

E ante a penosa estupefação da doente:

 

— E saiba que tanto ela quanto eu estam os fartos de saber que a senhora j á viveu sua vida e que precisam os viver a nossa... Não será um a sogra velha que frustrará nossos planos.

 

Inopinada revolta anuviou o cérebro de Elisa, que se aprestou para a reação, exclam ando, frenética:

 

— Infam e!

 

Surgida a indignação, Desidério — o desencarnado que, a rigor, lhe controlava todas as faculdades — senhoreou-lhe a m ente, de form a espetacular, e a crise se desencadeou dom inadora, terrível...

 

Elisa, possessa, investiu sobre o visitante, buscando asfixiá-lo, a m eio de im propérios que se lhe estranhavam na boca.

 

Serpa recuou, sob indisfarçável espanto, dando lugar à paciente enferm eira que im obilizou a viúva, ao m esm o tem po que, de outro lado, Ernesto, a pulso, im pedia os m ovim entos desordenados do com panheiro.

 

Restabeleceu-se a ordem .

 

A m oça de serviço reconduziu a doente para o quarto, apoiada no concurso de duas auxiliares, e voltou para as escusas.

 

— Não se aflij a, doutor. Foi um a crise com o tantas... Isso passará.

— Com preendo — revidou Caio, gentil. — Dona Elisa sem pre m e tratou com carinhos de m ãe. Pobre am iga! tem os nervos positivam ente destram belhados.

 

Enquanto a conversa prosseguia, Fantini segurava Desidério, am istosam ente, coadj uvado por outros tarefeiros desencarnados, em atividade no sanatório.

 

Um deles solicitava prisão para o agitado agressor, ao passo que os dem ais inform avam que, desde a entrada de Elisa no estabelecim ento, era ele um prestativo e pacato acom panhante da enferm a, que encontrava nele um am paro e um am igo.

 

Ouvindo alusões a encarceram ento provável, o pai de Evelina percebeu que se achava diante da possibilidade de perder-se da criatura querida, e asserenou-se.

 

Valeu-se Ernesto da circunstância e o apresentou com o sendo para ele um irm ão caríssim o, no intuito de sossegar as sentinelas, acentuando que o pobre se desm andara ligeiram ente, à vista de certas provações de fam ília. Entretanto, ele, Fantini, estava ali j ustam ente a fim de aj udá-lo a se desvencilhar de quaisquer lem branças destrutivas.

 

Dispersaram -se os guardas.

 

Depois disso, Ernesto convidou o rival a segui-lo, no que foi atendido, sentando-se am bos em espaçoso banco de j ardim próxim o.

 

Desidério chorava, colérico, im pedido que se vira de surrar o advogado com o desej ara.

 

— Você viu que crápula? — explodiu, encarando Fantini com expressão m enos cruel — não sei porque ainda não aniquilei esse pulha de Serpa!

 

Prim eiro, assassinou um colega, o advogado Túlio Mancini, depois m atou m inha filha aos poucos, e agora quer arrasar Elisa, após furtá-la, descaradam ente...

 

O am igo fitou-o com bondade e aj untou:

— Desidério, perdoe-nos por todo o m al que j á lhe fizem os e escute-m e!

 

Acalm e-se, por am or de Deus! Não lhe peço isto por nós, m as por Elisa, a quem você am a tanto... Presentem ente, nada m ais disputo senão a paz entre nós. Tranquilize-se, para arrostarm os a realidade; posso inform ar a você que a nossa enferm a está no fim da resistência física!

 

— Tenho algum a ideia disso — replicou Desidério m enos hostil, patenteando intenções de acordo e entendim ento, pela prim eira vez — m as lutarei com o um touro para defendê-la. Darei a ela as m inhas forças, m inha vida. Minha alm a é a dela, assim com o o corpo em que ela respira é o m eu corpo. Habitam os a m esm a cela de carne, pensam os pela m esm a cabeça!...

 

— Graças a Deus — concordou Fantini com hum ildade — com preendi que assim é e que assim deve ser.

 

Dem onstrando o elevado grau da despersonalização que ia adquirindo:

 

— Desde que você m e falou com clareza fraterna, em nosso prim eiro reencontro, reconheci que Elisa descobriu em você a sustentação de que necessitava, e creia que, se atualm ente algo aspiro em relação a ela, anseio vê-la feliz ao seu lado... Estou convencido de que a nossa doente não perseverará m ais por m uitos dias no corpo terrestre e o choque de hoj e, com certeza, pesará na balança...

 

— Ah! esse Caio, esse m iserável...

 

— Não, Desidério! Assim , não... Suplico a você paciência e tolerância...

 

Acaso, não estarem os cansados de rebeldia e de ódio? Ante a m inha falta, no propósito de suprim ir você, am arguei a existência terrena, perdendo em rem orso e fuga incessante de m im m esm o os m elhores tem pos da vida no m undo dos hom ens, e você, m eu caro, por não haver desculpado a m im e ao nosso Am âncio, tem estado na selva das provações, que se reservam aos

 

Espíritos im penitentes e sofredores... O leito das lágrim as de Elisa não poderia ser o ponto term inal de nossos disparates? o santo lugar de apaziguam ento?

 

Elisa se libertará dos suplícios corpóreos, e nós, m eu am igo? que será de nós, se, largado o corpo de m atéria pesada, continuam os de espírito atorm entado nas ideias de culpa e condenação, crim e e castigo? Ela partirá.

 

Desidério, porém , transtornado pelos argum entos que lhe anunciavam separação, bradou, im pulsivo:

 

— Elisa não partirá de m eus braços, não m e abandonará! Não a deixarei!

 

— Inúteis, Desidério, quaisquer protestos nossos contra as forças da vida.

 

As leis de Deus se cum prirão. Elisa sustenta-se em você, m as igualm ente am a a filha, e, sabendo-se irrem ediavelm ente afastada da ternura filial, inconscientem ente aspira à m orte e há de tê-la m ais depressa, depois que se certificou das atitudes m enos felizes de Serpa... Com toda a certeza, a pobrezinha se deterá no pensam ento da desencarnação, supondo-se no rum o direto de sua com panhia; no entanto, verificar-se-á o im previsto... A m orte vai situá-la em polo oposto ao seu... Ela não tem a sua estrutura m ental, nem a sua disposição para dem orar-se nestes sítios... Ressentida hoj e contra o genro, am anhã saberá absolvê-lo e patrociná-lo, acom odando-se com os Mensageiros da Vida Maior, através da oração... Apesar do tem peram ento irritadiço que lhe conhecem os, não odeia a ninguém e nunca dem onstrou vocação para a vingança.

 

Desidério abaixou-se para o solo, agarrou a cabeça entre as m ãos e desfez-se a prantear com m aior desespero.

 

— Perdoe, m eu am igo! perdoe a nós todos, incluindo Caio em sua com paixão!

 

— Nunca, nunca!

 

— Sou eu quem reconhece as inj ustiças que perpetrám os contra você, sou eu quem lhe observa a nobreza de coração... Revele-m e e ouça! Agradeço o seu devotam ento à m ulher que eu não soube fazer feliz e a ternura pela filha, para a qual você se transform ou em abnegado zelador... Por tudo isso, peço-lhe ainda para que estenda até nós, os seus carrascos, as vibrações de sua piedade e de sua sim patia...

 

— Ah! Fantini, Fantini! — rugiu o interlocutor, com o a guerrear-se para não se render à em oção — porque m e tenta assim a um a conciliação im possível? que razões para tanto em penho em m odificar-m e?

 

— Desidério, no m undo físico, trabalham os particularm ente com a m atéria pesada e transfiguram os pedras, m etais, glebas, fontes... Aqui na

 

Espiritualidade, lidam os, de m odo especial, com as forças do espírito e renovam os alm as e consciências, a com eçar de nós m esm os... Atenda-m e!

 

Lem bre-se de que Elisa possui m uitos am igos para requisitá-la aos Planos

 

Superiores, com o os teve a sua querida Evelina! Por am or de Evelina, que você guarda na m em ória, à feição de um gênio tutelar, não quererá você sublim ar atitudes, principiando pelo perdão que im ploram os e carecem os?

 

— Evelina! Evelina, m inha filha! — suspirou o desventurado em lágrim as copiosas — não, não posso im iscuí-la em nossa conversação!

 

Evelina deve habitar na casa dos anj os! que eu padeça no inferno, acalentado por m im m esm o, que eu m e debata no lam eiro que m ereci, m as que a felicidade abençoe m inha filha nos Céus!

 

— E se ela própria vier, um dia, ao seu encontro para advogar nossa causa, am parar-nos, rogar a sua m isericórdia de credor para nós outros, os seus devedores?

 

Desidério esforçava-se para falar, rom pendo a barreira de dor que lhe com buria o âm ago da alm a; no entanto, com passivo assistente espiritual da instituição veio até aos dois para notificar-lhes o inesperado. Finda a crise violenta de angústia, caíra Elisa em funda prostração, ante a ruptura de delicado vaso cerebral, prenunciando-se-lhe a desencarnação para breves horas.

Esqueceram -se am bos, para o socorro preciso.

 

Através de telefonem as à pressa, Vera e Serpa, alarm ados, cientificaram -se quanto ao novo rum o que se im prim ira à situação e, j untos, dem andaram o estabelecim ento, encontrando Elisa agonizante, em am biente de tranquilidade e carinho.

 

O m édico am igo, não obstante expender argum entos de consolo e esperança, foi claro no aviso: “nada m ais a fazer, senão aguardar.”

 

Vera Celina, em soluços, aj oelhou aos pés daquela cuj a boca não m ais se abriria para abençoá-la com os recursos do corpo terrestre.

 

Caio, evidentem ente contrafeito, contem plava a cena, fum ando cigarros sucessivos.

 

Enferm eiras iam e vinham , no afã de se fazerem m ais úteis, e auxiliares espirituais form avam cadeias m agnéticas de apoio à viúva Fantini, a fim de que o trânsito de um m undo para outro lhe fosse m ais rápido e m enos intranquilo.

 

Ernesto dem andou a residência da Espiritualidade, a fim de colher as instruções de Ribas, diante da em ergência, e Desidério se plantou à cabeceira, im erso em revolta e desesperação.

 

Durante oito horas consecutivas, o coração ainda sustentou o corpo tom bado inerte.

 

Sobrevindo a m adrugada, Elisa abriu as pálpebras, desm esuradam ente, e tentou fixar os olhos na filha para endereçar-lhe a inexpressável despedida; no entanto, descortinou a presença de Serpa, que a fitava, rente ao leito, e, não obstante incapaz de nutrir quaisquer resquícios de ódio no âm ago da alm a, cerrou o coração em densa nuvem de m ágoa, pedindo m entalm ente a Desidério que a resguardasse e defendesse. Bastou essa deliberação irrefletida e, qual se lhe agarrasse, ávido, os pensam entos que lhe seriam os derradeiros, no envoltório carnal, o acom panhante colou-se a ela, dando a ideia de quem lhe sorvia todas as forças...

Vera pressentiu que a genitora se rendia, por fim , ao grande repouso e, ansiosa, procurou debalde reanim ar-lhe a vida orgânica, suplicando:

 

— Mãe! Mãe! Minha m ãe!

 

Da boca hirta, contudo, não surgiu qualquer resposta.

 

Elisa Fantini pendeu a cabeça nos travesseiros, enquanto o corpo se lhe im obilizava para sem pre.

 

Na enferm aria do sanatório, caía o pano da m orte sobre aquela existência, fértil de tribulações e problem as, na ribalta do m undo; todavia, por trás dos bastidores, na esfera espiritual, o dram a não term inara. Jungido à m orta pela força dos últim os desej os que ela m esm a enunciara, Desidério, inflam ado em labaredas de ódio, retivera-lhe um a das m ãos na destra rude, im pedindo-lhe a retirada... Elisa, em bora sem i-inconsciente, percebeu que se achava presa a ele e algem ada ao cadáver, ouvindo o desventurado com panheiro a repisar e repisar que j am ais a deixaria.

 

Irm ãos da Terra, em m eio às vicissitudes da experiência hum ana, aprendei a tolerar e perdoar! Por m ais se vos fira ou calunie, inj urie ou am aldiçoe, olvidai o m al: fazendo o bem ! Vós que tivestes a confiança traída ou o espírito dilacerado nas arm adilhas da som bra, acendei a luz do am or onde estiverdes! Com panheiros que fostes vilipendiados ou insultados em vossas intenções m ais sublim es, apagai as ofensas recebidas e bendizei os ultraj es que vos burilam o coração para a Vida Maior! Irm ãs que padecestes indescritíveis agravos na própria carne, desprezadas pelos carrascos risonhos que vos enlouqueceram de angústia, depois de vos acenarem com m entirosas prom essas, abençoai aqueles que vos destruíram os sonhos! Mães solteiras que fostes banidas do lar e batidas até a queda na prostituição, por haverdes tido suficiente coragem de não assassinar no próprio ventre os filhos de vossa desventura, com a insânia do aborto provocado, m ães agoniadas às quais tantas vezes se nega até m esm o o direito de defesa, conferido aos nossos irm ãos crim inosos nas cadeias públicas, perdoai os vossos algozes! Pais que trazeis nos om bros escalavrados de sofrim ento a carga dolorosa dos filhos ingratos, filhos que aguentais na carne e na alm a o despotism o e a brutalidade de pais insensíveis e cônj uges flechados entre as paredes dom ésticas pelos estiletes da incom preensão e da crueldade, absolvei-vos uns aos outros! Obsidiados de todos os clim as, tecei véus de piedade e esperança sobre os seres infelizes, encarnados ou desencarnados, que vos torturam as horas!