E a Vida Continua...

Chico Xavier · Capítulo 16 de 26

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E a Vida Continua...

Trabalho renovador

 

Vida nova com eçou para Evelina e Ernesto, especialm ente para Evelina. Indispensável auxiliar Túlio, abençoá-lo, renová-lo. Para isso, os dois am igos se m atricularam em colégio de estudos preparatórios de m ais altas ciências do espírito. Radiantes de esperança e entusiasm o, adquiriam conhecim entos em torno de evangelização, reform a íntim a, sintonia m ental, afeição, agressividade, autocontrole, obsessão, reencarnação.

 

A fim de conversar construtivam ente com aquele que se lhe extraviara à conta pessoal, a senhora Serpa m unia-se de instruções com que lhe pudesse ganhar o raciocínio. Com petia-lhe o esforço m ais grave, desfazer-lhe na m ente o quisto de ilusões que ela própria criara. Fantini, contudo, que se com padecera fundam ente do rapaz m enos feliz, de acordo com avisos do

 

Instituto de Proteção, poderia acom panhá-la a pequena distância, com a obrigação de intervir quando necessário.

 

No dia m arcado para início da tarefa, a subdividir-se em visitas de esclarecim ento e enferm agem três vezes por sem ana, Ribas seguiu em pessoa os dois obreiros para o refúgio de saúde m ental em que os novos deveres se lhes im punham .

 

Integrando dim inuta com unidade de enferm os da alm a, o j ovem Mancini se achava recluso em solitária dependência que o Instrutor inform ou estar erguida à base de m aterial isolante contra o im pacto de vibrações suscetíveis de agravar-lhe a sede de com panhias m enos recom endáveis.

 

O orientador apresentou am bos os com panheiros às autoridades e auxiliares do pouso de reaj uste e, tanto Evelina quanto Ernesto, sob o beneplácito da sim patia geral, puseram m ãos à obra.

 

Túlio acolheu, encantado, a presença da m oça e, de com eço, reafirm ava-lhe os protestos de devoção afetiva em ditiram bos de lealdade e ternura.

 

A senhora Serpa, no entanto, redobrou cautelas em olduradas de carinho, suplicando a inspiração da Vida Maior, para não falhar na m issão que abraçara.

 

Os diálogos terapêuticos prosseguiam , pontualm ente. Apesar disso, Mancini não se desfixava da paixão que o absorvia, lem brando um barco chum bado ao solo, incapaz de afastar-se do cais.

 

Principiasse Evelina a preparar clim a adequado às lições e ele choram ingava, à m aneira de criança doente. Declarava-se indisposto e inabilitado para o estudo, desconsiderado, ofendido nos brios próprios.

 

Asseverava-se infenso a qualquer ponderação filosófica, alegando não sentir inclinação para assuntos de fé. Insistia em reconhecer-se unicam ente um hom em -hom em , na definição dele m esm o, e, nessa condição, não queria um a enferm eira ou preceptora, m esm o solícita quanto a m oça se revelava, e sim um a com panheira, a m ulher dos seus sonhos.

 

Evelina ouvia pacientem ente os rem oques e lam entações incessantes, aparando-lhe os golpes e podando-lhe as im pressões destrutivas, sem pre assistida por Ernesto que lhe supervisionava os esforços com generosa atenção. Im buída das responsabilidades que lhe assinalavam agora a vida e sendo criatura profundam ente em otiva, a senhora Serpa concentrava-se, de m odo constante, no esposo, nele investindo toda a carga de seus potenciais afetivos. Para sentir-se na posição de tutora m aternal de Mancini, experim entava a necessidade de ser m ais entranhadam ente a m ulher de Caio.

 

Por essa razão, m entalizava-lhe a im agem , a cada passo, endereçando-lhe em silêncio os seus m ais belos pensam entos de am or. É verdade que Serpa não lhe havia sido o consorte ideal. Além disso, sabia-o agora hom icida, com refinados recursos de inteligência para ocultar-se. Evelina, porém , hum ana quanto qualquer ser hum ano, ponderava, de si para consigo, que ele se fizera crim inoso por am á-la. Elim inara a existência de Túlio para disputar-lhe o coração, em agoniado lance afetivo. Aspirava a revê-lo em pessoa, haurir-lhe o calor da presença, a fim de revigorar-se para os em bates m orais a que se confiava; entretanto, por m ais solicitassem perm issão para visitar a fam ília terrena, Fantini e ela obtinham regularm ente a m esm a resposta dos m entores: “m uito cedo.”

 

Reconfortavam -se, por isso, com estudo e trabalho. De vez em vez, o tête-ã-tête entre am bos. As confidências.

 

Ernesto falava enternecidam ente da esposa Elisa e da filha Celina.

Sensibilizado, entretecia no m ágico painel da saudade a im agem das duas por espelhos cristalinos de am or, em que se com prazia m irar-se, conquanto a filha o tratasse, m uitas vezes, com rebeldia cruel... Decerto que a viúva e a j ovem não arrostavam dificuldades m ateriais de vulto m aior. Legara-lhes renda expressiva. Boa casa. Algum dinheiro em m ãos honestas a fornecer-lhes pensão sólida e os seguros em que m ontara a defensiva dom éstica.

 

Mas... e a ausência? Indagava-se, constantem ente, j unto da am iga que se lhe transform ara em irm ã de todas as horas. A ausência, a distância!

 

Perdiam -se os dois em conj eturas, prelibando alegrias de reencontro.

 

Achavam -se suficientem ente inform ados de que entre eles e os am ados do m undo se levantava agora o m uro das vibrações diferentes. Em vista disso m esm o, não m ais lhes seria possível retom ar-lhes a atenção com o quem volta de um a viagem . Com petia-lhes a obrigação da conform idade, perante quaisquer transform ações a que se lançassem . Nesse sentido, até ali, haviam registrado as m ais diversas narrações de m ortos que procediam da Terra, desacoroçoados e tristes, ante a im possibilidade de serem vistos, ouvidos, assinalados, tocados pelos parentes. Muitos voltavam consolados e esperançosos, com o que libertos de laços e algem as que lhes fossem pesados aos corações, m as outros m uitos regressavam desencantados e sorum báticos, evidenciando pouca disposição para conversar. Referiam -se a am igos e a m udanças radicais na vida caseira, m encionavam desastres e falências na ordem afetiva de alm as inolvidáveis. Eles dois, porém , se identificavam otim istas, confiantes. Evelina entusiasm ava-se, derram ando-se em nobres im pressões, diante de Ernesto, atento. Caio, na opinião dela, caíra em deslizes; todavia, reabilitara-se-lhe no conceito de esposa pelo alto gabarito de ternura e abnegação a que se elevara, durante os dias últim os da enferm idade que lhe fora fatal ao corpo físico. Em verdade, podia ter sido desleal, durante algum tem po, lá isso podia. Era um hom em com as exigências naturais da vida com um e obviam ente se distraía, enquanto lhe aguardava a cura e o refazim ento, m as à frente da m orte, diante da longa separação .... m odificara-se, parecia haver recuperado a condição do noivo, am oroso, terno... E Evelina, ao contem plá-lo com os olhos da im aginação, supunha-o agoniado e infeliz, no anseio de livrar-se da carne, a fim de reacolhê-la nos braços. Antecipava opiniões, enquanto Fantini lhe guardava, com interesse, a doce expectativa.

 

Solenizando alegações, asseverava que Serpa com etera até m esm o a loucura de elim inar a presença de Túlio, no intuito de desposá-la. Fora isso terrível calam idade, fora. No fundo, porém , Evelina m ostrava traços inequívocos da vaidade de sentir-se querida. Declarava, resoluta, que tal qual se esforçava por

 

Mancini, desvelar-se-ia, m ais tarde, por Serpa. Esm erar-se-ia em aj udá-lo em qualquer reparação que se fizesse precisa.

 

Ernesto volvia, então, a biografar-se, contando histórias do lar. Am ava a esposa, entranhadam ente, e confessava que praticara m uitos disparates, quando m ais m oço, de m aneira a preservar a tranquilidade dom éstica. E a filha? Celina era um a bênção que lhe acalentara o coração na m adureza.

 

Sem pre terna, com preensiva, devotada. Sonhara para ela um m arido bom , am igo; no entanto, deixara-a aos vinte e dois de idade sem casam ento à vista.

 

Conquanto a dor de pai, distanciado de casa, depunha na filha a m aior confiança. Não lhe tem ia o futuro. Além de provida com m esada apreciável, lecionava Inglês com m estria. Ganhava dinheiro e sabia guardar.

 

Mantinham -se, desse m odo, sucessivas conversações entre os dois.

 

Sentim entais. Saudosistas.

 

Passados seis m eses de atenção e doutrinação, a benefício de Túlio, Ribas veio exam iná-lo em pessoa, segundo prom essa havida.

 

Após verificar a pontualidade e a eficiência de Evelina, através de anotações referendadas pelas autoridades orientadoras da casa, penetrou o aposento do enferm o, categorizado para ele com o m édico em acurada inspeção. Ao prim eiro olhar, porém , reconheceu que Mancini apresentava escasso proveito com as lições recebidas.

 

Apático, denunciava na m ente um a ideia central:

 

Evelina. E com Evelina no m iolo das m ais profundas cogitações, vinham as ideias-satélites: o anseio de transform á-la em obj eto de posse única, o tiro de

 

Caio, o desej o de vingança e as escuras alusões da autopiedade.

 

Ribas não descobria a m ais ligeira fresta, naquele coração pesado de angústia, para filtrar um só raio de otim ism o e esperança.

 

Ás prim eiras m anifestações do inquérito afetivo, respondeu ao Instrutor, com a tristeza de um doente que se sabe sem cura:

 

— Qual, doutor, sem Evelina com igo, nada consigo entender. Se ouço

 

Evangelho, penso que ela — ela só — é o anj o capaz de salvar-m e; se anoto ensinam entos, acerca de autocontrole, vej o-a no pensam ento, com o sendo a única alavanca, bastante forte para governar-m e; se escuto exortações à fé, acabo querendo-a para m eu reconforto exclusivo; se recebo esclarecim entos em torno de obsessão, term ino a aula confessando a m im m esm o que, se pudesse, largaria este hospital a fim de persegui-la e tom á-la em m eus braços, ainda que para isso devesse cam inhar até os derradeiros confins do m undo!...

 

O m entor sorriu, paternal, e aconselhou calm a, equilíbrio.

 

— Reflitam os, m eu filho, que som os espíritos eternos. Urge conservar serenidade, paciência...

 

Felicidade é obra do tem po, com a bênção de Deus.

 

O rapaz revidou ácido, irreverente. Não pedira, não aceitava conselhos.

 

Hábil psicólogo, Ribas despediu-se.

 

Á noite, esteve com os am igos e elogiou o trabalho de Evelina.

 

A em presa de reeducação fora efetuada com segurança. Túlio, entretanto, não reagira construtivam ente. Mostrava-se abúlico, em butido nas fantasias que estabelecera em prej uízo próprio.