E a Vida Continua...

Chico Xavier · Capítulo 3 de 26

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E a Vida Continua...

Ajuste amigo

 

Fantini percebeu que a interlocutora havia sido sulcada m entalm ente pelo olhar que lhe endereçara e dispôs-se a tranquilizá-la:

 

— Continuem os, Dona Evelina. Minha presença não lhe fará m al. Observe-m e, não direi com a sua gentileza, m as sim com o seu discernim ento. Sou um velho enferm o que pode ser seu pai e acredite que a vej o com o filha...

 

A voz dele esm oreceu, de algum m odo, entretanto cobrou ânim o e term inou:

 

— A filha que estim aria ter, em lugar da que possuo.

 

Evelina adivinhou o sofrim ento m oral que as palavras dele destilavam e reaj ustou a posição em otiva, sentenciando:

 

— O senhor não se alegraria com um a filha doente qual estou. Mas... voltem os ao m eu caso, o caso da confissão.

 

— Não m e conte tristezas...

 

— Certo. Já não dispom os de m uito tem po.

 

E continuou com um sorriso de m ofa:

 

— Conversando com tanta franqueza, num lugar que talvez sej a a antecâm ara da m orte para um de nós dois, desej o dizer-lhe que só um fato m e perturba. Tenho as desilusões com uns a qualquer pessoa. Meu pai m orreu, quando eu m al com pletara dois anos; m inha m ãe, então viúva, deu-m e um padrasto, algum tem po depois; ainda na infância, fui internada num colégio de religiosas am igas e, depois disso tudo, casei-m e para ter um m arido diferente daquele que eu sonhava... No m eio do rom ance, um a tragédia... Um hom em , um rapaz digno, aniquilou-se por m inha causa, seis m eses antes do m eu casam ento. Precedendo o ato que lhe im pôs a m orte, tentou o suicídio ao ver-se posto à m argem . Com padeci-m e. Busquei reaproxim ar-m e, ao m enos para consolá-lo, e, quando m eu sentim ento balançava entre o pobre m oço e o hom em que desposei, ei-lo que se despede da vida com um tiro no coração...

 

Desde aí, qualquer felicidade para m im é um a luz m isturada de som bra.

 

Em bora o im enso am or que consagro a m eu m arido, nem m esm o a condição de m ãe consegui. Vivo doente, frustrada, abatida...

 

— Ora, ora! — aventou Ernesto, diligenciando encontrar um a escapatória otim ista — não se j ulgue culpada. Não fosse supostam ente pela senhora e o m oço agiria de igual m odo por outro m óvel. O im pulso suicida, tanto quanto o im pulso crim inoso...

 

A voz dele em palideceu de novo, qual se o íntim o recusasse certas rem iniscências que as palavras em curso lhe suscitavam à m em ória; contudo, dando a ideia de quem agia fortem ente contra si m esm o, prosseguiu:

 

— São incógnitas da alm a. Talvez sej am ápices de doenças psíquicas, dem oradam ente m antidas no espírito. O suicídio e o crim e são de tem er em qualquer de nós, porque são atos de delírio, que fundos processos de corrosão m ental determ inam em qualquer um .

 

— O senhor procura apaziguar-m e com a sua nobreza de coração — exclam ou Evelina, cism ativa —, decerto não conheceu, até hoj e, um problem a assim agudo, a conturbar-lhe a consciência.

 

— Eu? eu? — gaguej ou Fantini, desconcertado —, não m e faça voltar ao passado, pelo am or de Deus!... Já com eti m uitos erros, sofri m uitos enganos...

 

E, no obj etivo de contornar a questão sem escalpelá-la, Ernesto sorriu à força, com a m aleabilidade das pessoas m aduras, que sabem usar várias m áscaras fisionôm icas, para determ inados efeitos psicológicos, e aditou:

 

— Não conseguiu, porventura, esquecer o m oço suicida, com apoio no confessionário? O seu diretor espiritual não lhe sossegou o coração sensível e afetuoso?

 

— Repito que sem pre encontrei na confissão de m eus erros m enores um a espécie de vacina m oral contra erros m aiores; entretanto, no caso em apreço, não obtive a paz que desej ava. Adm ito que se não houvesse hesitado, tanto tem po, entre dois hom ens, teria evitado o desastre. Basta m e lem bre de Túlio, o infeliz, para que o quadro da m orte dele se m e reavive na lem brança e, com a lem brança, surj a, de im ediato, o com plexo de culpa...

 

— Não se agaste. A senhora está m uito j ovem . Com o acontece à m ão que, a pouco e pouco, se calej a no trabalho do cam po, a sensibilidade tam bém se enrij ece com o sofrim ento na vida. Certam ente, se escaparm os, com êxito, no salto que pretendem os dar para a saúde, ainda verem os m uitos suicídios, m uitas decepções, m uitas calam idades...

 

A senhora Serpa refletiu alguns m om entos e, dando a im pressão de quem se propunha ganhar ensej o para balsam izar feridas íntim as, indagou com intenção:

 

— O senhor, que vem estudando as ciências da alm a, acredita piam ente que reencontrarem os as pessoas queridas, depois da m orte?

 

Fantini estam pou um gesto de com placência e divagou:

 

— Não sei porque, m as, à frente de sua inquirição, veio-m e à cabeça aquele pensam ento do velho Shakespeare: Os infelizes não possuem outro m edicam ento que não sej a a esperança. Tenho boas razões para crer que nos reverem os uns aos outros, quando não m ais estiverm os neste m undo; todavia, com preendo que a precariedade do m eu estado orgânico é o agente fixador de sem elhante convicção. A senhora j á notou que as ideias e as palavras são filhas das circunstâncias? Im agine se nos víssem os hoj e em plenitude da força física, robustos e bem apessoados, num encontro social, num baile por exem plo... Qualquer conceito, em torno dos assuntos que nos aproxim am agora um do outro, seria im ediatam ente banido de nossas cogitações.

— É verdade.

 

— A m oléstia aflitiva nos dá direito de entretecer novos recursos e novas interpretações, ao redor da vida e da m orte, e, na esfera das novas conclusões que tem os à frente, adm ito que a existência não acaba no túm ulo. Estam os intim ados a recordar aquela antiga ilação das novelas de am or, « o rom ance term ina, m as a vida continua... » O envoltório de carne tom bará consum ido; todavia, o Espirito seguirá adiante, sem pre adiante...

 

— O senhor costum a pensar em alguém que estim aria achar na outra vida?

 

Ele m ostrou enigm ático sorriso e zom beteou:

 

— Penso em alguém que estim aria não achar.

 

— Não consigo entender o trocadilho. Apesar disso, reconforta-m e anotar a certeza com que m e fala, acerca do futuro.

 

— A senhora não pode e nem deve perder a confiança no porvir. Lem bre-se de que é, sobretudo, cristã, discípula de um Mestre que ressurgiu da cam pa, ao terceiro dia, depois da m orte.

 

A senhora Serpa não sorriu, O olhar divagou, além , nas nuvens róseas que refletiam o Sol j á distante, reconhecendo-se talvez sacudida nas forças profundas de sua fé por aquela inesperada observação.

 

Findo o longo intervalo, voltou a fitar o interlocutor e preparou a despedida:

 

— Bem , senhor Fantini, se houver outra vida, além desta, e se for a vontade de Deus que venham os a sofrer, em breve, a grande m udança, creio que nos verem os de novo e serem os lá bons am igos...

 

— Com o não? se conseguir adivinhar o fim de m eu corpo, conservarei firm e o pensam ento positivo do nosso reencontro.

— Tam bém eu.

 

- Quando volta a São Paulo?

 

— Am anhã pela m anhã.

 

— Tem ocasião m arcada para o trabalho operatório?

 

— Meu m arido decidirá isso com o m édico; no entanto, creio que, na sem ana vindoura, enfrentarei o problem a. E o senhor?

 

— Não estou certo. Questão de m ais alguns poucos dias. Não desej o retardar a intervenção. Posso, acaso, saber o nom e do seu hospital?

 

Evelina m editou, m editou... E concluiu:

 

— Senhor Fantini, som os am bos portadores da m esm a doença, insidiosa e rara. Não será isso o bastante para aproxim ar-nos um do outro? Esperem os o futuro sem aflição. Se escaparm os do atoleiro, estou convencida de que Deus nos favorecerá com um novo encontro aqui na Terra m esm o... Se a m orte vier, a nossa am izade, em outro m undo, ficará tam bém subordinada aos desígnios da Providência.

 

Ernesto achou graça e am bos regressaram ao hotel, passo a passo, em com ovido silêncio.