E a Vida Continua...
Evelina Serpa
Devidam ente credenciados, Evelina e Ernesto, após ligeiro traj eto pelas ruas da cidade que se lhes figurou encantadora, alcançaram o Instituto de
Proteção Espiritual.
Acolhidos carinhosam ente pelo Instrutor Ribas, dedicado à clínica psiquiátrica, no departam ento assistencial que lhe dizia respeito, sentiam -se tão à vontade, do ponto de vista do habitual, com o se estivessem visitando m oderno consultório terrestre. Em tudo, sim plicidade, conforto, segurança.
Atendentes à vista. Fichários. Aparelhos diversos para registro do pensam ento.
Depois das apresentações, o instrutor m édico entrou no assunto:
— Estam os inform ados de que se ficharão aqui em nosso gabinete e podem os com eçar por nossa irm ã.
Ato contínuo, acenou para um funcionário a quem nom eou por Irm ão
Telm o, e, obedecido pelo auxiliar, designou Ernesto a ele, anunciando:
— Ficarão j untos, enquanto ouço a irm ã Evelina...
E para Fantini, bem im pressionado:
— Nada tem a. Toda conversação em nosso Instituto está subordinada ao encoraj am ento e à saúde. Nada de pensam entos negativos. Tão logo term ine o entendim ento inicial com a nossa am iga, terem os nosso encontro.
Revestia-se aquele quadro íntim o de tam anha espontaneidade, que os dois recém -chegados não conseguiram atinar com a verdadeira situação.
Estariam no Mundo Espiritual ou na Terra m esm o, na Terra que lhes era fam iliar, em algum sítio desconhecido, onde se lhes falava do espírito libertado com algum a finalidade terapêutica? — pensavam os dois. E chegavam quase a adm itir que talvez tivessem estado loucos, achando-se agora em recuperação.
Acalentando sem elhantes dúvidas, Evelina acom panhou, docilm ente, o m édico, e, chegados a um a sala, m obilada com distinção e singeleza, assentou-se na poltrona que ele lhe indicou, explicando, atencioso:
— Estej a tranquila. Nosso Instituto se consagra a proteção e ao tratam ento de seus tutelados.
Prim eiro, a cobertura socorrista, depois, o reaj ustam ento, se necessário.
Em razão disso, terem os tão-só um entendim ento fraternal. Nada de cerim ônias. Conversarem os sim plesm ente e todos os seus inform es serão gravados para estudos posteriores. A bem dizer, funciono aqui quase que apenas na condição de introdutor dos clientes, de vez que os nossos analisados possuem vasta coleção de am igos na retaguarda, am igos que lhes exam inarão as palavras e reações, de m odo a saber em que sentido e até que ponto lhes prestarão o auxílio de que se m ostrem carecedores.
Diante de Evelina adm irada, a um gesto do m entor grande espelho se fez visível, j unto à poltrona, dando a ideia de que a peça fora ligada ao sistem a elétrico, por disposições especiais.
— Nossa palestra será film ada. Sim ples recurso para que os seus contatos com a nossa casa sej am seguidos com segurança, no capítulo da assistência de que não prescindirá em seus prim eiros tem pos de vida
espiritual. Tranquilize-se, com preendendo, porém , que todas as suas perguntas e respostas se revestem da m aior im portância para seu benefício. Por suas indagações, a autoridade do Instituto identificará a sua posição no conhecim ento e, por suas respostas, saberá o m ontante de suas necessidades.
Conversem os.
Perante aquele olhar, brando e enérgico ao m esm o tem po, reconheceu-se
Evelina qual criança de letras prim árias, ante exam inador experiente, e, concluindo que não lhe seria licito recusar a prova, perguntou com respeitosa coragem :
Instrutor Ribas, conquanto o senhor tenha feito referências a m eus “prim eiros tem pos de vida espiritual”, é verdade que som os Espíritos desencarnados, pessoas que não m ais habitam a Terra?
— Perfeitam ente, em bora a irm ã não consiga ainda certificar-se disso.
— Porque sem elhante inadaptação?
— Falta de preparo na vida física. De m odo geral, a sua posição de surpresa é com um à m aioria das criaturas terrestres, em virtude da ausência de integração real com as experiências religiosas a que se afeiçoam .
— Se estam os efetivam ente m ortos, acredita o senhor que eu, na condição de católica, devo apresentar ou deveria apresentar um índice m ais com pleto de com unhão com a verdade espiritual que não estou conseguindo entender?
— Claram ente.
— Com o assim ?
— Se a irm ã, durante a sua existência no corpo denso, pensasse firm em ente nos ensinos de Jesus, o Divino Mestre que se reergueu do túm ulo para a dem onstração da vida eterna, se m editasse na essência dos ofícios religiosos de sua fé, todos eles dirigidos a Deus e, depois de Deus, aos m ortos sublim es, com o sej am Nosso Senhor Jesus-Cristo, sua Augusta Mãe e aos
Espíritos heroicos que veneram os por santos da vida cristã, decerto não experim entaria o assom bro que, até agora, lhe insensibiliza os centros de força, apesar da elevação e da delicadeza de suas aspirações.
Viu-se Evelina, de repente, transportada pelas m olas m ágicas da im aginação, ao seu velho tem plo religioso... Recordou as preces, os cânticos, as novenas e os rituais litúrgicos de que partilhara, com o se unicam ente ali, naquele gabinete de análise espiritual, pudesse penetrar-lhes o sentido. Com o não se inclinara a interpretá-los, antes, por invocações ao Mundo Espiritual? com o não lhes percebera, até aquela hora, a função de canais de com unicação com as Forças Divinas?
Em pensam ento, aspirava a rever-se em São Paulo, cam inhar para o recinto de sua devoção religiosa e saudar na própria crença o ponto m ais alto da vida, aquele, através do qual, lograva entregar-se à proteção do Todo-
Misericordioso, com as suas dores e alegrias, aflições e ânsias m ais íntim as...
Lem brou-se de Jesus, fosse nas esculturas ou nos painéis, nas pregações e conversações, com o sendo um Espírito Divino a bater-lhe, debalde, às portas do coração, tentando ensinar-lhe a viver e a com preender...
E, ao refletir no Mestre de paciência infinita, a cuj a m agnanim idade recorria em todas as dificuldades e tribulações, sem se dar ao trabalho de perquirir-lhe as lições e acom panhar-lhe os exem plos, entrou em crise de lágrim as, qual se a fé cristã, excelsa e piedosa, se lhe transfigurasse em j uiz nos recessos da alm a, exprobrando-lhe o com portam ento.
— Oh! m eu Deus! — inferia em pranto — porque precisei m orrer para com preender? porquê, Senhor? porquê?
Ali com parecia para retratar-se m oralm ente, falar de si própria, prestar contas; entretanto, que trazia na própria bagagem senão o vazio de um a existência que lhe parecia então inútil? Tinha a ideia de que as trancas m entais que a isolavam das realidades eternas se haviam rom pido, de chofre, na leveza de pensam ento que passara a desfrutar, e aquele Jesus que adorara por fora lhe ganhava agora a intim idade do coração e lhe perguntava com infinita doçura: “Evelina, que fizeste de m im ?”
A senhora Serpa, algo descontrolada, chorou convulsivam ente diante do
Instrutor que a seguia, paternal.
O generoso am igo deixou que ela m esm a estancasse a fonte das lágrim as e, ao vê-la asserenar-se, falou, com ovido:
— A depressão m om entânea lhe faz bem . A dor m oral nos m ede a noção de responsabilidade.
Seu sofrim ento de espírito, ao recordar-se do Senhor Jesus, evidencia a sua confiança nele.
Em tom m ais afetuoso, o Instrutor im prim iu novos rum os à análise em andam ento, participando à j ovem senhora que, praticam ente, a sua ficha de identificação estava pronta, de vez que, antes de sua vinda, o estabelecim ento de saúde, através do qual ingressara na cidade, fora consultado sobre a sua procedência e filiação na Terra.
Ainda assim , acrescentou:
— O seu depoim ento aqui, porém , será valioso, porquanto, de posse dele, estarem os m ais am plam ente inform ados quanto à nossa tarefa de auxílio.
— Posso saber que auxílio será esse?
— Sim , por seus apontam entos, ser-nos-á possível aquilatar o tipo de am paro que lhe será m inistrado.
— Entretanto, Instrutor, não serei conhecida no Mundo Espiritual? não tem os, acaso, todos nós, guardiães na existência terrestre?
— Perfeitam ente. E todos aqueles que nos conhecem possuem determ inada versão de nossas experiências para uso deles próprios. Em nossos estudos, todavia, a sua versão pessoal é m uito im portante, considerando-se que as suas anotações autobiográficas se lhe j orrarão da própria consciência. Há que prom overm os um auto-encontro, no plano das realidades da alm a, para o balanço preciso de nossas necessidades im ediatas.
Certam ente, em outros lugares, a irm ã com parecerá nas citações de m uitos com panheiros, retratada nas im pressões que lhes terá causado; no entanto, em nosso instituto, recolherem os a sua proj eção individual, intransferível.
Logo após, ante a expectação da cliente espantada, o benfeitor solicitou-lhe rem em orasse, de viva voz, alguns traços da própria história, a com eçar das rem iniscências m ais antigas. Que evitasse um relatório exaustivo e sim procurasse sum ariar notícias e lem branças, tanto quanto possível.
A senhora Serpa narrou, hum ilde:
— Minhas m em órias principiam , confusam ente, ao perder m eu pai. Era um a criança tenra, quando escutei os gritos de m inha m ãe, agarrando-se a m im , a dizer-m e que eu estava órfã...
Pouco tem po decorrido, m inha m ãe deu-m e um padrasto bom e am igo.
Realizado o segundo m atrim ônio, ela e m eu segundo pai resolveram abandonar a região em que m orávam os, decerto no intuito de fugir a recordações indesej áveis. Apesar da ternura do hom em que passara a chefiar nossa casa, sentia falta instintiva de m eu pai; entretanto, a respeito dele, as notícias foram para m im sem pre escassas. Acerca do seu falecim ento, nada m ais pude colher de m inha m ãe, em m atéria de esclarecim ento, senão que ele m orrera de m odo repentino, quando se achava num passeio... Mais crescida, com preendi que ela reprim ia com entários, em torno do pretérito, esquivando-se a conflitos possíveis com o m arido que, sej a dito em louvor da verdade, lhe dedica, até hoj e, enternecido afeto. Aos doze anos de idade, fui internada num educandário católico, no qual m e diplom ei para o m agistério, sem exercê-lo em tem po algum , porque, desde o baile de form atura, m e vi requestada por dois rapazes, ao m esm o tem po, Túlio Mancini e Caio Serpa. Confesso que, m uito m oça e m uito irresponsável ainda, deixei que o m eu coração balançasse, entre os dois, prom etendo fidelidade a am bos, sim ultaneam ente. Quando adm iti m inha escolha definitiva na pessoa de Caio, que veio a ser m eu esposo, Túlio tentou o suicídio e, ao vê-lo salvo, pensei no sacrifício a que se dera por m inha causa e, de novo, m e inclinei para ele... Quando m e dispunha a requisitar de m eu noivo a exoneração de qualquer com prom isso, Túlio m atou-se com um tiro no coração... Depois da terrível ocorrência, casei-m e... Caio e eu fom os felizes, por alguns m eses, até que vim os frustrado o anseio de possuir um filhinho...
Abortei, logo ao engravidar-m e. Em seguida, caí em deperecim ento orgânico progressivo. Talvez em virtude da enferm idade que m e acom eteu sem pausa,
Caio procurou nova com panheira, um a j ovem solteira, com quem passou a conviver, sim ulando vida conj ugal na cidade grande... A vexatória situação em que m e achei passou a m e arrasar. As hum ilhações incessantes a que m e vi exposta, dentro de casa, am argaram -m e a existência... desde então, nada m ais tenho a confessar senão sofrim ento m oral e desânim o de viver, com a enferm idade de que m e vej o em tratam ento até hoj e...
O Instrutor fitou-a, com ovido, e perguntou:
— A irm ã chegou a desculpar o esposo infiel e a com padecer-se da rival?
A senhora Serpa refletiu alguns m om entos e intercalou com am argura:
— De m odo nenhum . Estou num a confissão em que tom o a Jesus por m inha testem unha e não posso m entir. Nunca pude perdoar a m eu m arido pela deslealdade com que m e afronta e nem tolerar a presença da outra em nosso cam inho.
O benfeitor, longe de alterar-se, interpôs, afetuoso:
— Com preendem os os seus sentim entos hum anos e podem os encerrar a sessão de hoj e. A irm ã tem problem as difíceis a enfrentar e o nosso Instituto verificará até que ponto conseguirá propiciar-lhe a devida cobertura.
Perm anecerem os em contato e prosseguirem os conversando em futuras reuniões.
Evelina retirou-se, sendo substituída por Fantini cuj o exam e ia com eçar.