E a Vida Continua...

Chico Xavier · Capítulo 12 de 26

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E a Vida Continua...

Julgamento e amor

 

Transcorridas algum as sem anas, Ernesto e Evelina achavam -se m enos bisonhos no am biente.

 

Conquanto as afeições que prosseguiam entesourando, sentiam -se cada vez m ais vinculados um ao outro. Sensivelm ente m elhorados, dem oravam -se ainda no hospital, m as dom iciliados em pavilhões de convalescentes, cada qual no departam ento próprio, de vez que as referidas construções abrigavam hom ens e m ulheres, em vasta agrem iação de lares-apartam entos para uso individual. Desfrutavam a devida perm issão para se m ovim entarem na cidade, com o quisessem , apenas com a observação de que som ente lhes seria lícito visitar os arredores, onde se acom odavam m ilhares de Espíritos infelizes, com assistência adequada.

 

Efetivam ente os dois com eçavam a experim entar necessidade de serviço disciplinado e regular, m as, se pediam trabalho ou qualquer atividade no antigo lar terrestre que ainda não haviam logrado rever, as respostas da autoridade com petente eram ainda invariáveis. Que aguardassem m ais tem po, que seria j usto atender à im prescindível preparação. À vista disso, frequentavam bibliotecas, j ardins, instituições e entretenim entos diversos, figurando-se-lhes a vida, ali, um a fase longa de repouso m ental em tranquila colônia de férias.

 

Chegara porém , o dia em que Evelina realizaria um dos seus m aiores anelos naquele ninho de bênçãos. Fantini prom etera conduzi-la, com o preciso consentim ento dos benfeitores, a um tem plo religioso para assistirem ao ofício da noite que se constituiria de um a pregação sob o título Julgam ento e Am or, previam ente anunciada.

Am bos ardiam em curiosidade, porquanto ansiavam conhecer de perto com o se processavam as criações religiosas, naquele m undo para eles extrem am ente belo e novo.

 

À noitinha, puseram -se em m archa.

 

A senhora Serpa recordava em cam inho as visitas de outro tem po ao santuário de sua fé e albergava no coração as m ais doces rem iniscências...

 

Sensibilizada, m onologava intim am ente: “com o perdera o convívio dos entes m ais caros e porque se apoiava, ali, no braço de um hom em que vira na Terra tão-som ente um a vez?”

 

Em torno, o vento brando carreava o perfum e de j ardins e praças em flor.

 

A Lua, a erguer-se do horizonte, era o m esm o espetáculo de m aj estade e beleza a que se acostum ara no m undo...

 

De quando em quando, perm utava com Fantini um a que outra frase, observando que outros ranchos sim páticos cam inhavam na m esm a direção.

 

Transcorridos alguns m inutos de alegre peregrinar, ei-los diante do tem plo que prim ava pela sim plicidade, figurando-se enorm e pom bal edificado com franj as de neve translúcida, defendido, aqui e ali, por densas faixas de arvoredo.

 

No interior, tudo espontaneidade e harm onia.

 

A fila extensa de bancos deixava ver o púlpito afrente, que assum ia a feição de enorm e liliácea, esculpida em m árm ore alvíssim o.

 

Na parede m uito branca, diante da assistência, sob as legendas “Tem plo da Nova Revelação”, “Casa Consagrada ao Culto de Nosso Senhor Jesus-

 

Cristo» , ao invés de quaisquer sím bolos ou esculturas, j azia apenas um a tela, recordando o sem blante presum ível do Divino Mestre, cuj os olhos na excelsa pintura pareciam falar de vida e onipresença.

 

Sentada com Fantini, lado a lado, a senhora Serpa fitou os rostos, serenos uns e ansiosos outros, que os cercavam em profundo silêncio, e m ergulhou o coração em prece m uda.

 

Em dado instante, qual se se m aterializasse inesperadam ente na tribuna ou até ali fosse ter, através de porta oculta à observação do auditório, um hom em , envergando túnica lirial, surgiu e saudou a assem bleia, reverente.

 

Logo após, dirigiu-se para o Alto e, em oração com ovedora, rogou as bênçãos de Jesus para os ouvintes expectantes. De seguida, aproxim ou-se de grande exem plar do Novo Testam ento, aberto sobre delicado porta-livros e leu os versículos núm eros 1 a 4, do capítulo sete do Evangelho do Apóstolo Mateus:

 

Não j ulgueis para não serdes j ulgados, pois, com o critério com que j ulgardes, sereis j ulgados; e, com a m edida com que tiverdes m edido, vos m edirão tam bém .

 

Porque vês tu o argueiro no olho de teu irm ão, sem notares, porém , a trave que está no teu próprio? Ou, com o dirás a teu irm ão: “deixa-m e tirar o argueiro do teu olho, quando tens a trave no teu?”

 

Term inada a leitura, deteve-se o m inistro em dilatada concentração, qual se buscasse inspiração nas profundezas da própria alm a.

 

Ernesto e Evelina, porém , viram surpresos, que, ao revés, o pensam ento dele se exteriorizava, em form a de larga auréola de luz, que se lhe alteava da cabeça, am aneira de cham a, elevando-se cada vez m ais...

 

A curto espaço de segundos, clarões j orravam de cim a, lem brando as cham adas línguas de fogo do dia de Pentecostes, e o sacerdote sim pático iniciou a pregação de que respigarem os apenas alguns trechos que lhe definem a tessitura de sabedoria e beleza:

— Irm ãos, até ontem éram os parte integrante da coletividade hum ana — a nossa bendita fam ília da retaguarda — e acreditávam os no poder de j ulgar-nos uns aos outros. Encastelados nas ideias religiosas que supúnham os escravizar a serviço de nossas paixões, im aginávam os adversários e transviados quantos não pensassem por nossos princípios.

 

Interpretávam os os ensinam entos de Nosso Senhor Jesus-Cristo, conform e o nosso arbítrio, exigindo que o Senhor da Vida se nos fizesse rebaixado servidor, na estrada som bria e tortuosa que não nos cansávam os de palm ilhar; entretanto, despoj ados hoj e do corpo de m atéria m ais densa que nos acalentava as ilusões, aprendem os que todos som os consciências deficitárias perante a Lei. E com preendem os agora, para felicidade nossa, que apenas o

 

Senhor dispõe de recursos para avaliar-nos consideradam ente, porque, em verdade, ser-nos-á possível tão-som ente exam inar a nós próprios.

 

O que tenham os sido no im o do sentim ento, enquanto na existência do corpo terrestre, som os aqui.

 

Neste pouso de luz que o Senhor nos faculta por m oradia tem porária, percebem os, sem qualquer constrangim ento de ordem exterior, que todos os petrechos m antenedores das aparências que nos disfarçavam no m undo, para o desem penho do papel que nos cabia na ribalta hum ana, nos foram retirados, a fim de que sej am os aqui, na esfera da realidade espiritual, quem nos propusem os ser, com tudo o que tenham os aj untado em nós de bem ou de m al, durante o estágio na escola física!...

 

Muitos de vós outros carregais ainda hábitos e enganos da experiência carnal que, gradativam ente, perdereis por não encontrarem neste m eio qualquer significação...

 

Vossos palácios ou casebres, títulos convencionais ou qualificações pej orativas, privilégios ou cativeiros, honras fam iliares ou desconsiderações públicas, vantagens ou prej uízos de superfície, todos os condicionam entos m entais que vos centralizavam na ideia de direitos supostos ou im aginárias reclam ações, com o abandono dos deveres naturais de aperfeiçoam ento espiritual para a vida eterna, desapareceram no dia em que os hom ens, por força da desencarnação, vos im puseram ao nom e um atestado de óbito no

Planeta, senhoreando-vos os patrim ônios e analisando-vos os atos, para, ao depois, m uitos deles, varrer-vos do pensam ento, com a falsa convicção de que vos podem desterrar da m em ória para sem pre!

 

 

Quantos de vós viestes escutar aqui as vozes da verdade para as quais tantas vezes selastes os ouvidos do corpo terreno?

 

A Divina Providência não pergunta o que fostes, porque nos conhece a cada um em qualquer tem po... Entretanto, é j usto investigue sobre o que fizestes dos tesouros do tem po, concedido a nós todos em parcelas iguais...

 

Sábios, em que aplicastes os dotes do conhecim ento superior? Ignorantes, onde colocáveis o talento das horas? Ricos, em que trabalho dignificastes o dinheiro? Irm ãos destituídos de reservas douradas, m as tanta vez detentores de bênçãos m aiores, que realizastes com as oportunidades de paciência e serviço, com preensão e hum ildade na esfera da obediência? Jovens, que operastes com a força? Com panheiros encanecidos na m archa do cotidiano, em que boas obras convertestes o clarão de vosso entendim ento?

 

Não vos iludais!

 

Qual ocorreu a nós outros, os que habitam os atualm ente o Plano Espiritual desde longas décadas, trouxestes para cá o que efetuastes de vós m esm os...

 

Aprendestes o que estudastes, m ostrais o que fizestes, entesourais o que distribuístes!

 

Em sum a, atravessada a Grande Fronteira, som os sim plesm ente o que som os!

 

Reconhecereis, assim , no curso do dia-a-dia, neste dom icílio das realidades excelsas, que todos os disfarces que nos encobriam a individualidade real no m undo se extinguem naturalm ente, expondo-nos à vista a esfera íntim a.

 

Fora das constrições carnais, cada espírito se revela por si.

Mecanicam ente, na residência ancestral da alm a, estam pam os nas atitudes e palavras os sentim entos e pensam entos que nos são peculiares, sem que nos sej a m ais possível qualquer recurso à sim ulação.

 

Patenteando de todo o que som os e o que tem os, nos recessos do ser, terá chegado para cada um de nós a hora do j ulgam ento, porquanto a Divina

 

Misericórdia do Senhor nos oferece ainda, aqui com o em tantas outras estâncias da Espiritualidade, esta cidade-lar, com o sendo antecâm ara de estudo e serviço, possibilitando-nos valiosos aprestos para a ascensão à Vida

 

Maior, em cuj as províncias nos aplicarem os à conquista de dons inefáveis, na continuação da luta bendita pelo aperfeiçoam ento próprio.

 

Quantos, porém , desprezarem as sublim es oportunidades do tem po, no clim a de recom posição a que nos acolhem os agora, decerto que, por eles m esm os, recuarão para os distritos vizinhos, onde se afinam os agentes da perturbação e das trevas — doentes voluntários, seviciando-se, em lam entável regim e de reciprocidade — até que, fatigados de rebeldia, roguem à piedade das Leis Eternas a preciosa dádiva das reencarnações de sofrim ento regenerativo para o retorno a estes sítios, Deus sabe quando!

 

Não aspiram os a dizer com as nossas afirm ativas que o renascim ento no cam po físico sej a sem pre cadinho de reparação aos delitos que praticam os, pois m ilhares de com panheiros, depois de longo e honesto esforço pela própria corrigenda, entre nós, com larga quota de tem po em nossa colônia de trabalho e reform a, volvem ao corpo carnal, honrados com tarefas de abnegação e heroísm o obscuro, j unto de alguém ou ao lado de grupos afins, granj eando, em louvável anonim ato, concessões e vitórias dignas de apreço que, apesar de perm anecerem quase sem pre ignoradas pelos hom ens, se lhes erigem , aqui, em passaportes de libertação e acrisolam ento para as Esferas Superiores!...

 

Ante a pausa que surgiu espontânea nos lábios do orador que se aureolava de intensa luz, Evelina e Ernesto se entreolharam e, em seguida, através de ligeira m irada sobre os circunstantes, notaram que dezenas de rostos se banhavam de lágrim as.

— Irm ãos — continuou o m inistro —, não vos sintais num tribunal de j ustiça, quando nos acham os num a casa de fé! Mãe am orosa dos nossos im pulsos de m elhoria e sublim ação, diz-nos a fé, neste recanto operoso e tranquilo, que não obstante desencarnados é preciso reconhecerm os que as nossas ocasiões de trabalho e progresso, retificação e aprendizagem não chegaram a term o!...

 

Aceitem o-nos quais som os, reconheçam os o m ontante de nossas dívidas e coloquem os m ãos fiéis no arado do serviço ao próxim o, sem olhar para trás... A cidade que nos reúne está repleta de instituições benem éritas com as portas descerradas ao voluntariado de quantos queiram colaborar no socorro aos que chegam até nós, em posição de angústia ou necessidade, todos os dias... Na

 

Crosta Planetária, onde as criaturas irm ãs da retaguarda travam dura batalha de evolução, entes queridos, ainda encarnados, exigem -nos os m ais entranhados testem unhos de ternura hum ana, através do concurso espiritual que lhes possam os adm inistrar, nos dom ínios da com preensão e do am or, a fim de que continuem a viver na experiência terrestre que lhes é necessária, tranquilos e felizes, sem nós... Todo um apostolado de renúncia construtiva, abnegação, carinho e entendim ento se descortina para a m aioria de vós outros, no lar terrestre, onde quase todos estais ainda vinculados de pensam ento e coração!

 

Além disso, estam os cercados, através de quase todos os flancos, por m ultidões de com panheiros dem entados, a nos pedirem am or e paciência para que se refaçam ! Na arena física, m ultiplicávam os apelos a que se pusessem m esas dedicadas aos fam intos e se acum ulassem agasalhos para o socorro à nudez. Aqui, som os desafiados à form ação e sustentação do devotam ento e da tolerância, para que a harm onia e a com preensão se estabeleçam na alm a sofrida e conturbada dos nossos irm ãos tresm alhados nas som bras de espírito.

 

Caridade, m eus irm ãos! Am or para com o próxim o!

 

Muitas vezes, o serviço de alguns dias pode endossar-nos valioso em préstim o de energias e m eios para as em presas de recuperação e elevação que nos requisitam o esforço de m uitos anos.

 

Orem os, suplicando ao Senhor nos inspire, a fim de que venham os a escolher decididam ente a estrada de purificação em novos e benditos avatares na estância física, ou a vereda ascendente para a Vida Maior!

Calou-se o sacerdote em prece m uda.

 

 

Do teto pendiam estrias de safirina luz, quais pétalas m inúsculas que se desfaziam ao tocar a cabeça dos presentes, ou desapareciam , de leve, atingindo o chão.

 

Dir-se-ia que no peito do m inistro, em profunda concentração m ental, se inflam ara um a estrela de prata translúcida, de cuj o centro se irradiava, docem ente, toda um a chuva de raios liriais, inundando o salão.

 

Fantini estava com ovido, m as Evelina, qual sucedia a m uitos dos com panheiros ali congregados, não conseguia j ugular o pranto que lhe vinha em onda crescente do coração aos olhos.

 

A senhora Serpa não saberia explicar a razão da em otividade que lhe assaltara os recessos do espírito, extrem am ente sensibilizada com o se achava, ignorando se devia aquelas abençoadas lágrim as às aspirações para o Céu ou às saudades da Terra... Não m ais ouviu as derradeiras palavras do m inistro, ao encerrar o ofício da noite. Sabia apenas que se am parava agora de m aneira total no braço do am igo, j unto de quem se retirou do recinto, soluçando...