E a Vida Continua...
Trama desvendada
Daí a instantes, a senhora Fantini atirou-se ao travesseiro, desfigurada, abatida.
E j ustam ente quando Ernesto transpunha a porta em retirada, Desidério dos Santos, o inim igo, saltou do leito em que j azia parado e tom ou-lhe a frente, desferindo brados terríveis.
Trama desvendada
— Patife! Celerado! — vociferou o agressor — você não se afastará sem contas!
Plantou-se à frente de Ernesto e, barrando-lhe o passo:
— Você acreditava que era só acabar com igo, hein? Fique sabendo que, intentando privar-m e do corpo, não obteve outra coisa senão colocar-m e em sua própria casa... Vivo aqui, m oro aqui e sua m ulher m e pertence!
Fantini, de sentim ento apurado, qual se achava, depois de tantas refregas, im plorou:
— Oh! Desidério! estou arrependido, perdoe-m e!
— Perdoar? Isso nunca. Estou longe do fim . Vocês m e pagarão, ceitil por ceitil. Miseráveis! Vocês ocultam aí na Terra o sangue do crim e na capa do arrependim ento e j ulgam que conseguem lavá-lo com lágrim as falsas.
Zom beteando:
— Ninguém m orre. Vocês, bandidos, que burlam a j ustiça do m undo, serão punidos pela Justiça Divina! E a Justiça Divina, em m eu caso, sou eu m esm o... Espírito vingador, sim ... Sou...
E quem m e contestará esse direito?
A superexcitação do desventurado provocava nele m esm o o corrom pido pranto do ódio, e era igualm ente chorando que profligava:
— Cretinos delinquentes! Perdi a existência, m eu lar, m inha esposa, m inha filha... e vocês esperam de m im um prêm io à crueldade com que m e aniquila-....... Então, vocês exterm inam um hom em e exigem que esse hom em lhes beij e as m ãos? Abusam da im punidade com que a terra do sepulcro lhes cobre os atos perversos e ainda reclam am o louvor das vítim as tom badas indefesas?
Ernesto soluçava...
Aj oelhou-se, de m ãos postas, diante do vencido de outro tem po, em sinal de hum ildade... Ah! se soubesse que am argas provações lhe com baliriam a alm a, nunca teria em preendido o retorno a casa. Saberia tolerar as cruciantes saudades da esposa e da filha, acom odando-se a outros clim as de luta!
Entretanto, em dois anos de m editação e de estudo, aprendera que cada espírito recebe da vida, nas Leis de Deus, segundo as próprias obras.
Certificara-se de que criatura algum a logra desertar da própria consciência e que chega invariavelm ente para o culpado o dia da expiação e do reaj uste. À face disso, recorria, intim am ente, ao apoio da prece, suplicando a Jesus lhe revigorasse os om bros para carregar a cruz que ele m esm o talhara com os próprios erros.
À m edida que ele se m antinha de j oelhos, flectidos na areia da entrada, fitando o céu fulgente de estrelas, Desidério continuava:
— Covarde! Levante-se para enfrentar as consequências de sua falta...
Som os agora dois hom ens, nas m esm as condições, sem a m áscara do corpo, qual você m e quis, há m ais de vinte anos! Onde estão agora sua prosápia, seu sorriso de m entira, sua arm a frouxa?
— Oh! Desidério, eu não sabia!
— Pois saiba, canalha m atador, que estou vivo!
— Sim , sei... — gem eu Fantini, com estertoroso esgar — e rogo a Deus m e perdoe pelo m al que lhe fiz...
— Se Deus existe, estará de m eu lado... Você não pode invocar o nom e de
Deus para acobertar-se...
— Reconheço... m as im ploro a você, Desidério...
A frase, porém , desfaleceu na garganta que a dor sufocava.
— Im plora o quê?
— Perdoe-m e pelo am or que você tem a Elisa e que Elisa lhe tem !
Ignorava que m inha esposa o am asse tanto! Sou um réprobo, bem o sinto... entretanto, fiz-m e crim inoso por m uito am ar a esposa que o Céu m e havia dado!
O frio interlocutor pareceu com over-se, diante daquele testem unho de abnegação e hum ildade, m as, retornando à dureza em que se caracterizava:
— Porque não escolheu outro processo para rem over-m e do cam inho?
Adotando a violência, nada m ais conseguiu senão atirar-m e m ais intensivam ente para os braços de sua m ulher... E, enquanto você viveu nesta casa, após acreditar-m e m orto, partilhei sua m esa e sua vida... Você supunha surpreender-m e com os olhos da im aginação, na tela do rem orso, m as via realm ente a m im , a m im m esm o, Desidério dos Santos, com os olhos da m ente, no espelho da consciência...
Hoj e, cham am -m e os am igos, sem corpo terrestre, de Espírito obsessor. Que m ais posso ser? Sou quem sou, o hom em ultraj ado, o em preiteiro de m inha própria vingança!
— Oh! Deus de Misericórdia — lam entou-se Ernesto —, sou o culpado, o único responsável...
Nesse trecho do diálogo, o am argurado perseguidor desferiu ruidosa gargalhada e refutou:
— Não, não! Você não é o único... Você fez a ideia e o m odelo do crim e que m e arredou da existência física, m as o verdadeiro hom icida, aquele que se valeu de sua m aldade para destruir-m e, foi outro... Ignoro a razão, m as tenho o destino entre verdugos! Você disparou o tiro contra m im , no intuito de afastar-m e de sua esposa, e Am âncio, aquele canalha, observando que você errara o alvo, aproveitou a ocasião a fim de elim inar-m e e apossar-se da m inha esposa! Am igos tenebrosos, com panheiros satânicos, quem os reuniu naquela terrível m anhã, à feição de dois m onstros, para liquidarem com igo!
Recolhendo a revelação, não obstante o sofrim ento que lhe revolvia as entranhas da alm a, Ernesto rem em orou o dia funesto em que ele e os dois com panheiros se entregaram à busca de codornas. Desidério, alegre e confiante, Am âncio preocupado com os dois cães especializados na descoberta e no levantam ento das presas, e ele, Fantini, ensim esm ado, arquitetando o delito.
Recordou que Am âncio se esm erava em conduzir os cachorros, absolutam ente entretido com os possíveis resultados da em presa... Depois de algum as pequenas incursões pela m ataria, com balázios infrutíferos, Desidério escalara um tronco de árvore velha e cravara-se entre galhos robustos, de espingarda na m ira das aves em vôo... Am âncio, de um lado, e ele, Ernesto, de outro, com reduzidas distâncias entre si. Ao ver Desidério, sondando atentam ente um dos pássaros que planava ainda longe, disparara contra ele e recuara espavorido, a ocultar-se no m undo verde, esperando os efeitos do gesto infeliz. Não percebera qualquer grito, m as sim outros tiros que atribuiu, com o era óbvio, à arm a de Am âncio em ação de caça. Decorridos nada m ais que dois a três m inutos, escutara os brados do com panheiro, clam ando por socorro. Alarm ara-se, agoniara-se; todavia, arrastou-se quase até ao local em que o corpo de Desidério se retorcia no fim ...
Transtornado, não conseguia m entalizar coisa algum a que não fosse o próprio terror, diante do erro com etido e, por isso, aceitou com alívio a versão im ediata do am igo que anunciava em alta voz: “acidente horrível! acidente horrível!” Acidente! Não era aquela a suposição ideal para inocentar-se? O parceiro caçador dirigiu-lhe estranho olhar, com o quem o responsabilizava sem palavras pela ocorrência, ao m esm o tem po que lhe propiciava m ostras de com preensão e sim patia... De chofre, lem brou-se de com o a chum bada lograra penetrar sob a m andíbula, ganhando a região cerebral, o que lhe causara enorm e estranheza; no entanto, as circunstâncias não lhe perm itiam quaisquer averiguações... Aprovara a confusão que o favorecia e com o que suavizara a dor da própria consciência ao ver que populares am igos com pareciam j unto dele, em pequenos grupos, adim itindo a tese de desastre casual para o calam itoso acontecim ento. Om itira deliberadam ente todas as dúvidas suscetíveis de im peli-lo à confissão do próprio delito. E, de alm a opressa, recordou-se de que, após o enterro da vítim a, desligara-se para sem pre de
Am âncio, a pretexto de desgosto, e se em penhara, com todas as forças de que dispunha, a olvidar a esposa e a filha pequenina do assassinado cuj os gritos, no dia inesquecível, lhe haviam conturbado o coração, convencido qual se achava de que fora ele o réu único...
Transido de assom bro, Ernesto verificava que todas as cenas da tragédia se lhe reconstituíam na delicada película da m em ória, em apenas segundos, e Desidério, com o quem o via nos lances m ais íntim os daquela desesperada retrospecção, insistia, im placável:
— Lem bre-se, m iserável! Lem bre-se de com o vocês dois, cínicos m atadores, m e elim inaram ... Com o afastar-m e do corpo inerte, sem detestá-los? Enlouquecido de sofrim ento e revolta, recusei, enoj ado, os braços piedosos de enferm eiros que m e buscaram para que outras terras, não sei... Já que outra vida m e surpreendia, depois da m orte, não a desej ava senão para a desforra... Ainda assim , você não m e encontra m ais na furiosa aversão dos prim eiros tem pos, conquanto m eu ódio ainda tenha suficientes reservas de fogo e fel para despej ar-lhe no Espírito!
Avalanchas de provação se abateram sobre m im ; entretanto, você, o suposto hom em de bem , receberá agora, no tribunal da sua consciência, por m inha vingança m áxim a, o peso inexorável de m inhas acusações!
Prosseguindo, num m isto de crueldade e pranto, noj o e dor:
— Pense no m artírio com que m e reaproxim ei, desencarnado, da esposa j ovem e da filha ainda tenra, para ver Am âncio, o assassino, senhorear-lhes a existência... Ah! Fantini, acredita você que, a princípio, eu quisesse tanto a sua m ulher? Não! Eu era um hom em sem qualquer princípio religioso e, por este m otivo, sem qualquer orientação definida. Possuía um a esposa e um a filha que adorava e punha m eus olhos sobre Elisa, à m aneira de um tolo entusiasm ado por ver-se distinguido pelas atenções de tão devotada e distinta m ulher...
Contudo, ao invés de um a palavra franca de com panheiro, capaz de im por-m e o lugar j usto, você, ralado de ciúm e, tentou abater-m e com o alim ária no cam po. Com isto, você, Ernesto, m e transfigurou num a fera sem a j aula dos ossos.
Abom inando o invasor de m eu lar, pois Am âncio deu-se pressa em desposar Brígida, a m oça que eu deixara viúva e inexperiente, eu sentia em m eu antigo refúgio caseiro a presença de um inferno que m e expulsava...
Batido à m aneira de um cão escorraçado e sem dono, sem a com panheira que m e retirou da lem brança e sem a filha que devia beij ar m eu algoz por segundo pai, vagueei pelas estradas de ninguém , entre as m altas das trevas, até que m e instalei definitivam ente ao pé de Elisa, sua m ulher, cuj a silenciosa ternura m e cham ava, insistentem ente...
Aos poucos, do ponto de vista do espírito, aj ustei-m e a ela, com o o pé ao sapato, e passei a am á-la com ardor, porque era ela a única criatura da Terra que m e guardava na m em ória e no coração...
Ante a pausa de Desidério, que se im punha a curto silêncio para repouso, Ernesto quis im plorar piedade, m as não pôde; o verbo esm orecera-lhe na garganta asfixiada de desespero, enquanto lhe trem iam todas as fibras da alm a, qual condenado ouvindo o próprio libelo, sem possibilidade de qualquer defensiva.
O adversário refizera-se e investia:
— Tudo isso porquê? porque o rem orso deform ou a sua vida m ental de hom em ... Você, desde a em preitada om inosa em que perdi m eu corpo, andou buscando incessantem ente um a fuga im possível... Mergulhou o espírito em negócios e rendas, com prom issos e corretagens, viaj ando e viaj ando, sem procurar saber se a esposa e a sua própria filha eram alm as necessitadas de assistência e carinho! Tudo isso fez de m inha afeição por Elisa m ais que afeição terrestre!
Obsessor, oh! sou... Sou... Mas sou tam bém servidor incondicional de quem leva seu nom e e aguentou sua frieza de coração... Aprendi com sua m ulher a paciência e o silêncio para esperar e esperar... Você soube, algum dia, das enferm idades de sua filha na infância? conheceu-lhe as duras tentações nos dias prim eiros da j uventude? sabe que rapazes insensíveis lhe abusaram da confiança? por acaso enxergou, algum a vez, as lágrim as ardentes que lhe queim aram o rosto, depois dos pontapés daqueles m esm os j ovens desalm ados que lhe prom etiam lealdade e ternura?
Ah! Fantini, Fantini! Você nunca desceu à faixa de suplícios do seu m undo dom éstico, m as eu sei que calvários foram transpostos pela m ulher que envelheceu gem endo e pela outra que se desenvolveu chorando! A que títulos retornou a esta casa? colher um am or que não plantou? pedir contas?
Ernesto, quebrado de aflição ante o libelo doloroso, conseguiu balbuciar:
— Oh! Desidério! Com preendo agora... Perdoe-m e!
O antagonista, cada vez m ais excitado pelo m artírio m oral que patenteava em cada frase, retom ou o ím peto:
— Padeci por sua filha e pela outra, a pequenina que a m orte m e constrangera a largar... Ilaqueada na boa fé pelo patife que lhe absorvera a atenção, Brígida concordou em descartar-se de nossa filhinha, situando-a m uito cedo em estabelecim entos de ensino, onde, se é verdade que recebeu educação esm erada, curtiu a falta dos pais, qual se fosse enj eitada no berço...
O que sofri, Fantini, o que sofri! Entretanto, m inhas agonias não pararam nesses cuidados... Minha infortunada filha, que cresceu triste e m oralm ente quase desam parada, a m ingua da assistência paternal que você e Am âncio lhe furtaram , encontrou a m orte, há precisam ente dois anos... Im pelida pelo padrasto, interessado em livrar-se da responsabilidade de tê-la em custódia, casou-se m uito cedo com um celerado que lhe destruiu todos os sonhos... Oh! com o trabalhei para evitar-lhe a com unhão com esse hom em covarde!
Cam inhava incessantem ente entre os seus e os m eus, esm agado de desespero, dedicando-m e a conj urar a tragédia que, afinal, se consum ou...
Quando fui vê-la m orta, j unto de com panheiros desencarnados, tão sofredores e tão desvalidos quanto eu m esm o, aj oelhei, diante do corpo im óvel que ainda lhe conservava o derradeiro sorriso, e j urei que m e vingaria dos três m ascarados que a rodeavam , Am âncio, o m atador, Brígida, a ingrata, e o detestado genro, cuj a presença m e enoj a! Em lágrim as, roguei a Deus a graça de ver m inha filha libertada do sofrim ento físico, a felicidade de ouvir-lhe a voz; entretanto, piedosos enferm eiros espirituais m e inform aram que ela fora conduzida a estâncias de repouso e que som ente m e será concedido reencontrá-la quando sanar as chagas de revolta que trago dentro de m im , com o se m e fosse possível apagar o incêndio de m ágoas que m e calcina a m ente infeliz! Pobre filha!
Desposou um crim inoso, qual se devesse com partilhar o m eu destino de
Espírito, extraviado ...
Ah! com o extinguir as labaredas da inconform ação que m e devora? Im possível!
Ernesto soluçava...
Dando a ideia de quem se propusesse despej ar, de um a só vez, todo o fel que portava na alm a ulcerada, sobre o desditoso am igo, Desidério prosseguiu:
— Mas, é preciso que você saiba ainda... Ao notar m inha filha abatida e enferm a pelos desgostos do lar, o m arido lançou-se a novas aventuras e veio a conhecer Vera Celina, sua filha, de cuj a afeição se apoderou... Então, dom inou-a, escravizou-a.
E, articulando gesto expressivo com o dedo indicador, apontou para o interior da casa, acrescentando:
— Este bandido está aí dentro... É Caio Serpa... Ah! Evelina! Minha filha! Minha filha!
Nisso, quando Fantini percebeu toda a tram a desvendada, com a enunciação dos nom es de Evelina e do esposo, sentiu com o se o cérebro lhe estalasse de angústia. Deslocou-se de um salto e, em bora suplicasse a bênção de Jesus e a proteção de Ribas, correu para m atagal próxim o, entre gritos dificilm ente abafados, e roj ou-se no solo arenoso da ilha, à m aneira de um cão espancado, ganindo de dor.