E a Vida Continua...
Entendimento fraternal
O recém -chegado não foi estranho à em otividade daquele m inuto inesquecível. Lágrim as lhe rolaram no rosto sim pático e sisudo, lágrim as que ele buscava enxugar, em baraçado, procurando sorrir.
— Há quantos dias aqui?
— Positivam ente, não sei — adiantou notando fom e de conversação.
Entendimento fraternal
— Há quantos dias aqui?
— Positivam ente, não sei — adiantou Ernesto, denotando fom e de conversação.
E com pletou:
— Tenho m atutado bastante naquele nosso entendim ento de Poços de
Caldas, acalentando sem pre a esperança de revê-la...
— Gentileza de sua parte.
Evelina confidenciou a perplexidade em que vivia. Despertara naquela instituição de saúde que desconhecia de todo, obviam ente transferida de casa por im posição da fam ília, porquanto o único fato de que se recordava com clareza era j ustam ente o desm aio em que descam bara no tope de um a crise das piores que havia atravessado.
E salientou, sorrindo, que tivera a im pressão de m orrer...
Quanto tem po desacordada? Ignorava.
Retom ara-se apenas quando viera a si do sono profundo e sem sonhos, ali m esm o, no quarto do terceiro andar.
Desde então, andava intrigada com o m istério que a adm inistração fazia, em torno dela própria, de vez que não obtivera perm issão para telefonar ao m arido.
Fantini escutava, atencioso, sem articular palavra. Em derredor, algum as pessoas se m antinham sentadas ou cam inhavam com naturalidade, lendo ou palestrando, aqui e ali.
Rosas, m iosótis, j asm ins, cravinas, begônias e outras flores, sob árvores recordando am endoeiras, fícus e m agnólias, em balsam avam o ar, extrem am ente diáfano, com perfum e delicioso.
Alongados os com entários que anotava, curioso, Fantini m ostrou estranho brilho no olhar e concordou com Evelina.
Declarou achar-se em brasas. Revelou que tam bém sofrera esquisita fuga de si m esm o, com a diferença de que isso lhe ocorrera, logo após a cirurgia, quando voltava para o leito, segundo acreditava. E registrara aquele m esm o fenôm eno de retrospecção, a que se reportava a senhora Serpa em seus apontam entos confidenciais, no qual se vira repentinam ente devolvido ao pretérito, desde os prim eiros m om entos de espanto até os dias prim eiros da infância...
Depois, dorm ira pesadam ente.
Incapaz de explicar-se, quanto ao tem po exato em que se dem orara obtuso, inconsciente, tom ara acordo de si próprio naquele nosocôm io, dez dias antes. Conservava, igualm ente, a m esm a estupefação, perante as norm as de serviço ali regulam entadas, porque não conseguira o m ínim o contato com a esposa ou a filha, das quais se despedira na cela hospitalar, horas antes do trabalho operatório a que se subm etera.
Achava-se, por isso, inquieto.
Ela, Evelina, experim entara o enigm ático desm aio, no círculo dom éstico, ao pé dos entes queridos. Ele, porém , deixara a fam ília em m eio de agoniada expectativa, sem que lhe fosse facultado qualquer recurso de com unicação com os parentes. Reconhecia que o estabelecim ento de saúde a que se abrigava agora não era o m esm o onde se internara para o tratam ento.
Chegava a duvidar de que estivesse realm ente em São Paulo. O firm am ento parecia-lhe um tanto diverso à noite e a piscina de que se servira continha água tenuíssim a, em bora fosse com preensível tivesse aquela casa filtros e engenhos especiais para a m edicação da água com um .
E Ernesto acabou o relatório, indagando:
— A senhora j á foi às term as?
— Ainda não.
— Verificará m inha surpresa quando for até lá.
— E adm ite que irei? — retorquiu Evelina com o ar brej eiro de quem se via um tanto m ais consolada.
— Perfeitam ente. Já ouvi dizer que a hidroterapia aqui é obrigatória.
Fantini sorriu significativam ente e enunciou, carregando cada palavra de recôndita inquietação:
— Sabe da hipótese m ais razoável? Desconfio de que nos acham os, com autorização de nossos fam iliares, num a organização psiquiátrica. Nada sei de m edicina; no entanto, estou supondo que os problem as da supra-renal nos transtornaram a cabeça. Terem os talvez enlouquecido, entrando pelas raias da absoluta alienação m ental e, com certeza, a segregação terá sido a providência aconselhável...
— Porque pensa assim ? — volveu a senhora Serpa, m uito pálida.
— Dona Evelina...
— Não m e cham e « dona» ... Insisto em que som os am igos e agora m ais irm ãos...
— Sej a — aquiesceu Fantini.
E continuou:
— Evelina, você verá os aparelhos engraçados com que nos aplicam raios à cabeça, antes do banho m edicinal. E creia que todos os doentes acusam m elhoras gradativas. Desde anteontem , quando fui à im ersão pela prim eira vez, sinto-m e m ais lúcido e m ais leve, sem pre m ais leve...
— Acaso não se vê em boa posição m ental, desde que despertou?
— Não tanto. Aflito por notícias dos m eus, voltei a sentir agudas crises.
Bastava lem brar a m ulher e a filha, concom itantem ente com a intervenção cirúrgica, e via-m e, quase que de im ediato, sob asfixia terrível, a desfalecer de sofrim ento.
Evelina rem em orou a própria experiência, m as silenciou. Sentia-se cada vez m ais inquieta.
— Através do cuidado com que as autoridades m e respondem às interpelações — estendeu-se Fantini —, entendo que se esforçam por m anter-nos em harm onia e tranquilidade. Adm ito que terem os passado por algum traum a psíquico e que nos acham os presentem ente na reconquista do próprio equilíbrio, o que vam os obtendo, m uito a pouco e pouco. Segundo creio, fom os colocados sob terapêutica puram ente m ental. Ainda ontem , renovei a reclam ação de sem pre, solicitando com unicação com m eu pessoal e sabe o que a enferm eira de plantão m e respondeu, perfeitam ente senhora de si?
— ?
— Irm ão Fantini, estej a tranquilo. Seus fam iliares estão inform ados de sua ausência. Mas não querem conversar com igo? nem m e cham am ao telefone?
—indaguei. E a assistente respondeu:
“Sua senhora e sua filha sabem que não podem aguardar tão cedo a sua presença em casa.”
Porque eu recalcitrasse, exigindo providências, a m oça declarou: “por enquanto isso é tudo o que lhe posso dizer”.
— Que deduz de suas próprias observações?
— Concluo, salvo m elhor j uízo, que estivem os, claram ente sem o saberm os, na condição de alienados m entais — sugeriu Fantini, quase novam ente bem -hum orado —, e decerto em ergim os, agora, com m uito vagar das trevas psíquicas para o estado norm al de consciência. Os m édicos e enferm eiros que nos rodeiam estão plenam ente j ustificados, quanto ao propósito de resguardar-nos contra quaisquer tipos de preocupação com a vida exterior. O m enor vinco de aflição na tela m ental de nossas im pressões do m om ento, assim penso, nos traria talvez grande prej uízo às em oções e ideias, qual ocorre à pequena distorção que desfigura a sim etria das ondas elétricas.
— É possível.
Expressiva pausa caiu entre os dois.
Após fundo m ergulho no m undo de si m esm o, Ernesto rom peu o intervalo:
— Evelina, quando você entrou na crise terrível de que m e fala, ter-se-á confessado antes? que lhe teria dito o sacerdote? recebeu dele quaisquer conselhos?
A interlocutora assustou-se, perante a angústia com que sem elhantes inquirições eram m oduladas e contra-indagou:
— Oh! porquê? porquê, m eu am igo? confessei-m e antes do desm aio, sem pre que pude... m as, porque procura saber? para chasquear?
Fantini, porém , não brincava. Os olhos dele entrem ostravam indisfarçável m al-estar.
— Não se am ofine. Pergunto por perguntar —devaneou ele, tam borilando os dedos da m ão esquerda sobre o tripé que se erguia à frente —; num a conj untura perigosa, qual a que atravessam os, toda a assistência é pouca...
Lem brei-m e de que você tem um a religião e de que ainda sou um hom em sem fé... Ernesto ainda não rem atara de todo a últim a frase, quando um a j ovem , num grupo de três que cam inhavam a curta distância, se roj ou ao chão, com o quem fora subitam ente acom etida por violento acesso de histeria, gritando em m eio de m anifesta agonia m ental:
— Não! Não posso m ais! Quero m inha casa, quero os m eus! Minha m ãe...... onde está m inha m ãe? Abram as portas! Bandoleiros! Quem é bastante coraj oso aqui para derrubar com igo estes m uros? A polícia! Cham em a polícia!...
Tratava-se, inquestionavelm ente, de um caso de loucura, m as havia tanto sofrim ento naquela voz que os circunstantes m ais próxim os se levantaram , espantadiços.
Um a senhora, irradiando paciência e bondade, exibindo na blusa as insígnias de enferm eira da casa, surgiu de chofre, abriu cam inho no grupo de curiosos que com eçava a adensar-se e inclinou-se, abraçando, m aternalm ente, a m enina revoltada. Sem o m ínim o im pulso à repreensão, soergueu-a, notificando com inexcedível brandura:
— Filha, quem lhe disse que não voltará a sua casa? que não reverá sua m ãe? Nossas portas j azem abertas... Venha com igo!
— Ah! irm ã — suspirou a j ovem repentinam ente asserenada por aquelas m ãos fortes e boas que a enlaçavam —, perdoe-m e!... Perdoe-m e! Não tenho razão de queixa, m as estou com saudades de m inha m ãe, sinto falta de casa!
Há quanto tem po estou aqui, sem qualquer dos m eus?
Sei que sou doente, recebendo o benefício da cura, m as porque não tenho notícias?
A assistente ouviu calm a e apenas prom eteu:
— Você as terá...
Passando-lhe, em seguida, o braço carinhoso acim a dos om bros, concluiu:
— Por agora, vam os ao repouso!
A m enina, com o quem surpreendera na benfeitora algum a recordação do calor m aterno de que sentia exacerbada carência, encostou a loura cabeça ao peito que lhe era ofertado e retirou-se, soluçando...
Evelina e Ernesto, que haviam acorrido para o auxílio possível, contem plaram o quadro, entre aflitos e m agoados.
Em am bos, a sede de esclarecim ento.
Que ilação recolher da súplica chorosa da doentinha atribulada pela ausência do ninho dom éstico? que hospital era aquele? um pronto-socorro para alienados m entais? um nosocôm io destinado à recuperação de desm em oriados?
Num im pulso de curiosidade que não m ais pôde sopitar, abeirou-se Evelina de um a senhora sim pática que acom panhara a cena, denotando aguda atenção, e cuj os cabelos grisalhos lhe recordavam a cabeleira m aterna, o assuntou com discrição:
— Desculpe-m e, senhora. Não nos conhecem os, m as a aflição em com um nos torna fam iliares uns aos outros. A senhora pode dar algum a inform ação, acerca da pobre m enina perturbada?
Eu? eu? — redarguiu a interpelada.
E advertiu:
— Minha filha, eu aqui, praticam ente, não sei da vida de ninguém .
— Mas escute, por favor. Sabe onde estam os? em que instituto?
A m atrona achegou-se m ais para perto de Evelina que, a seu turno, recuou para j unto de Fantini, e cochichou:
— A senhora não sabe?
Ante o assom bro indisfarçável da senhora Serpa, dirigiu o olhar penetrante para Ernesto e aduziu:
- E o senhor?
— Nada sabem os — com unicou Fantini, cortês.
— Pois alguém j á m e disse que estam os todos m ortos, que j á não som os habitantes da Terra...
Fantini sacou o lenço do bolso para enxugar o suor que passou a escorrer-lhe abundantem ente da testa, enquanto Evelina cam baleou, prestes a desfalecer.
A desconhecida estendeu os braços à com panheira e recom endou, preocupada:
— Minha filha, contenha-se. Tem os aqui dura disciplina. Se m ostrar qualquer sinal de fraqueza ou rebeldia, não sei quando voltará a este pátio...
— Repousem os — interveio Ernesto.
E dando o braço a Evelina, ao passo que a dam a prestim osa aj udava a escorá-la, rum aram os três para largo assento próxim o, sob grande fícus, onde passaram a descansar.