E a Vida Continua...

Chico Xavier · Capítulo 7 de 26

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E a Vida Continua...

Informações de Alzira

 

— Conversem os — convidou a nova am iga.

 

Receosa, ante os serviços de vigilância, m anifestava a intenção de despistar. Dispunha-se a todo custo dem onstrar naturalidade, tem endo que alguém pudesse haver assinalado o choque da com panheira.

 

Fantini com preendeu e esm erou-se a coadj uvá-la.

 

Pretendendo ignorar a lividez com que a senhora Serpa os ouvia, fez as apresentações com aparente serenidade.

 

— Sou Alzira Cam pos — identificou-se a m atrona, recém -chegada ao grupo

 

— e m oro em São Paulo.

 

Deu o endereço, reportou-se à fam ília, caracterizou o bairro em queresidia e adiantou:

 

— Desde que caí em casa, trouxeram -m e desacordada para este hospital e, pelas contas que faço, há quase dois m eses espero alta.

Estabeleceu-se o diálogo entre ela e Ernesto, enquanto Evelina se

 

reasserenava, lentam ente.

 

— A senhora j á se sente restabelecida?

 

— Com pletam ente.

 

— Já travou relações com algum a autoridade que lhe possa orientar com indicações precisas, quanto ao futuro?

 

— Sim . A irm ã Letícia, que m e assistiu, de início, nos banhos m edicinais, avisou-m e anteontem que não está longe o dia em que m e será possível decidir, relativam ente a perm anecer aqui ou não...

 

— Que terá ela desej ado dizer com esse « perm anecer aqui ou não» ?

 

— Realm ente, sabendo-se quanto anseio voltar a casa, m uito m e encabulei ao receber-lhe esse apontam ento.

 

— Nada m ais indagou?

 

— Sim . Roguei m ais claras instruções, pedi m inudências. Ela, contudo, apenas m e disse, gentil:

 

- “Você com preenderá m elhor, m ais tarde”.

 

— Dona Alzira — sussurrou Ernesto, com firm eza— a senhora não acredita que estam os num a organização de saúde m ental, num asilo de loucos?

 

A m atrona relanceou o olhar em derredor, à feição de doente am edrontada com a vigilância de guardas severos, e opinou:

— Se vam os exam inar assuntos graves, não nos convêm isolar a com panheira. Nossa am iga Evelina pode acelerar o próprio refazim ento.

 

Peçam os para ela um tônico adequado.

 

Conj ugando ação à palavra, prem iu dim inuto botão que se incrustava à m esa e surgiu um rapaz de serviço, diligenciando saber em que lhes poderia ser útil.

 

Alzira encom endou refresco para três.

 

— Qual o sabor?

 

— Maçã.

 

Num átim o, o portador trazia três taças com róseo líquido arom atizado em safirina bandej a.

 

— Este, a m eu ver, é o m elhor refrigerante que encontrei aqui, até agora, porque tem pretensões a sedativo — avisou a dam a quando se viram , de novo, a sós.

 

Evelina sorveu um gole, avidam ente, com a im pressão de haver bebido um néctar, m ais vaporoso que líquido.

 

O inesperado reconstituinte revigorava-lhe as forças, ao m esm o tem po em que lhe reacom odava os pensam entos.

 

— Estou m elhor — notificou de súbito —, graças a Deus!

 

Alzira sorriu e confirm ou a disposição de palestrar, dando aos am igos todos os esclarecim entos que se lhe fizessem possíveis.

 

Fantini segredou:

— Voltando ao assunto, não considera a senhora que nos acham os sob assistência especializada, do ponto de vista da m ente?

 

— A princípio — aclarou Alzira —, tam bém pensei assim . Notem que nos sentim os aqui de pensam ento m ais leve e cabeça sem pre m ais clara por dentro. As ideias fluem com tanta ligeireza e espontaneidade que parecem tom ar corpo, j unto de nós. Concordo em que nos encontram os num tipo de vida espiritual diferente, m uito diferente daquela em que vivíam os, até a nossa vinda para cá. Apesar disso, porém , não creio estej am os nós num m anicôm io.

 

Certam ente j á sabem que estam os rodeados por vida citadina m uito intensa.

 

Residências, escolas, instituições, tem plos, indústrias, veículos, entretenim entos públicos...

 

— Quê? — disseram Evelina e Ernesto a um só tem po.

 

— É com o lhes digo. Isto aqui é um a cidade relativam ente grande. Nada m enos de cem m il habitantes e, ao que dizem , com adm inistração das m elhores.

 

— A senhora j á conseguiu algum a experiência lá fora? j á se afastou algum a vez destes m uros? — interrogou Ernesto, a desfazer-se em curiosidade.

 

— Sim , na sem ana finda, obtive perm issão para visitar um a fam ília que não conhecia, acom panhando duas am igas. Até agora, essa foi a única vez em que m e ausentei do hospital. E posso afirm ar que a excursão foi realm ente deliciosa, conquanto o pasm o de que m e vi tom ada, ao fim do passeio...

 

— Que viu e a quem viu? — sondou Ernesto.

 

— Não se aflij am . Vocês conhecerão tudo a seu tem po. A cidade é linda.

 

Um a espécie de vale de edifícios, com o que talhados em j ade, cristal e lápis-lazúli. Arquitetura original, praças encantadoras recam adas de j ardins. Creiam vocês que cam inhei, fascinada, de rua em rua. O irm ão Nicom edes, pois assim se cham a o dono da casa, acolheu-nos com m uita gentileza. Apresentou-m e a filha Corina, um a bela j ovem , com quem para logo sim patizei. Intim a de um a das am igas que eu seguia e com a qual entraria em com binação sobre assuntos de serviço, salientou a alegria festiva do lar, falando-nos de esperados j úbilos dom ésticos. Mostrou-nos os lustres novos, as telas e os vasos soberbos... Tudo seguia num crescendo de doces supressas para m im , quando surgiu a bom ba... Achávam o-nos no terraço, adm irando um canteiro de j asm ins suspensos, quando ouvim os o « Sonho de Am or» , de Liszt, tocado ao piano. Corina inform ou-nos de que o pai dedilhava o instrum ento com grande m estria. Enterneci-m e de tal m odo que m anifestei o desej o de ouvi-lo, m ais de perto. A nossa anfitriã conduziu-nos, de im ediato, à sala de m úsica. E foi um deslum bram ento. O irm ão Nicom edes, absorto, revelava-se num m undo de alegrias profundas, que se lhe irradiavam da vida interior, em form a, de m elodias, das notáveis m elodias que se sucediam um as às outras. Em dado m om ento, apontei: « ele parece m ergulhado num longo êxtase, toca com o quem Ora» , ao que a filha respondeu: « estam os efetivam ente m uito felizes; m inha m ãe, ao que sabem os, deverá chegar nesta sem ana» . “Ela está de viagem ?” perguntei. Com a m aior naturalidade, a m oça esclareceu: “m inha m ãe virá da Terra. Quando ouvi isso, experim entei horrível choque, com o se acabasse de receber um a punhalada no peito. Faltou-m e o ar, entrei, desprevenida, num a terrível crise de angústia... Á sim ples ideia de que nos situávam os em lugar fora do m undo que sem pre conheci, m e fazia voltar às dores anginosas que, desde m uito tem po, não registrava. Corina m e entendeu sem palavras e trouxe um calm ante. Meu estado de perturbação, ao que observei, se com unicou a todo o am biente, porque o dono da casa interrom peu-se, de im proviso, quando executava um belo noturno... Via-m e prestes a desm aiar, O pequeno grupo congregou atenções j unto de m im e fui levada para o ar livre. Sentaram -m e num a poltrona de pedra, sem elhante ao m árm ore.

 

Tateei com força o respaldar da curiosa cadeira e, ao verificar a dureza do m aterial sob m inhas m ãos, com ecei a tranquilizar-m e... Em seguida, olhei para o céu e vi a lua cheia, fulgindo com tanta beleza que m e asserenei de todo.

 

Percebi a sem -razão do m eu susto. E refleti, de m im para com igo: “porque não existirá um a cidade, um a vila, um lugarej o qualquer de nom e Terra?” O quadro que m e cercava era positivam ente um recanto do m undo...

 

Indiscutivelm ente, a esposa de Nicom edes estaria sendo esperada de algum a aldeia anônim a...

Rum inava m inhas conclusões, quando o chefe do lar indagou, com padecido: “há quanto tem po nossa irm ã Alzira está conosco?” “Pouco m ais de dois m eses”, participou um a de m inhas guardiãs. Nada m ais se com entou a m eu respeito. A visita foi encerrada. De retorno ao hospital, as irm ãs a quem seguira, por sinal duas excelentes enferm eiras, não fizeram a m ínim a referência ao m eu sobressalto...

 

— Não tem trocado ideias com m ais ninguém ? —obj etou Fantini, interessado.

 

- Apenas durante os banhos, ouço um a que outra com panheira. Em cada um a, encontro a dúvida, pairando... A m aioria supõe que nos vem os defrontados por outra vida...

 

— Nenhum a delas tem certeza absoluta? — interveio a senhora Serpa.

 

— Unicam ente a senhora Tam burini se m ostra plenam ente convencida de que não m ais nos situam os no dom icílio terrestre. Contou-m e que vem frequentando um gabinete de estudos m agnéticos, aqui m esm o em nossa organização hospitalar, e suj eitou-se a testes que lhe deram a confirm ação de que não está de posse do corpo físico. Escutei-a com atenção e ela acabou convidando-m e para algum as experiências, m as agradeci a gentileza, sem aceitá-la. Essas histórias de clarividências e reencarnações não se afinam com a m inha fé católica.

 

— Ah! a senhora é católica? — interrom peu-a Evelina.

 

— Oh! sim ...

 

— E j á que respiram os no clim a de grande cidade, não tem os aqui sacerdotes?

 

— Sim , tem os.

 

— Já se entendeu com algum deles?

 

— Estou convidada para visitar um a igrej a e farei isso, logo obtenha perm issão. Devo, porém , dizer-lhe que, segundo inform ações de boa fonte, os padres são m uito diferentes nestas paragens...