E a Vida Continua...
Na porta da intimidade
Não longe surgiu pequeno carro de passeio. Vinha devagar, m uito devagar.
Vendo o anim al que se aproxim ava, a passo lento, o cavalheiro disse à dam a:
— Com preendo-lhe a necessidade de repouso, m as se aceita um a excursão pelas term as...
— Agradeço — respondeu —, contudo, não posso. Refazim ento é agora m inha m aior terapêutica.
— Efetivam ente, nosso caso não com porta sacudidelas.
A pequena viatura passou rente ao sossegado retiro.
Os dois perceberam a razão da m archa m orosa. O veículo fora decerto acidentado e m ostrava um a roda partida, avançando dificilm ente; enquanto isso, o j ovem baleeiro, a pé, guiava o anim al com extrem ado carinho, deixando-o quase livre.
A senhora Serpa e o im provisado am igo seguiram -nos com o olhar, até que desaparecessem na esquina próxim a.
Em seguida, Fantini fixou um grande sorriso e enunciou m uito calm o:
— Senhora Serpa...
Ela, porém , cortou-lhe a frase com outro sorriso franco e corrigiu, j ovial:
— Cham e-m e Evelina. Creio que, sendo nós irm ãos num a doença rara, tem os direito à estim a espontânea.
— Muito bem ! — acentuou o interlocutor e aduziu: — doravante, sou tam bém apenas Ernesto, para a senhora.
Ele deixou cair a m ão descorada no encosto do banco enorm e e prosseguiu:
— Dona Evelina, a senhora j á leu algo de espiritualism o?
— Não.
— Pois quero dizer-lhe que a charrete, ainda agora sob nossa observação, m e fez lem brar certos apontam entos que esquadrinhei, nos m eus estudos de ontem . O interessante escritor que venho com pulsando, num a definição que ele m esm o considera superficial, com preende a criatura hum ana com o um ternário, sem elhante ao carro, ao cavalo e ao condutor, os três j untos em serviço...
— Com o pode ser isso? interrogou Evelina, sublinhando a palavra de surpresa e gracej ando com o olhar.
— O carro equivale ao corpo físico, o anim al pode ser com parado ao corpo espiritual, m odelador e sustentador dos fenôm enos que nos garantem a existência física, e o cocheiro sim boliza, em sum a, o nosso próprio espírito, isto é, nós m esm os, no governo m ental da vida que nos é própria. O carro avariado, qual o que vim os aqui, recorda um corpo doente, e, quando um veículo assim se faz de todo im prestável, o condutor abandona-o à sucata da natureza e prossegue em serviço, m ontando consequentem ente o anim al para continuarem am bos, no curso de sua viagem para diante... Isso ocorreria, de m aneira natural, na m orte ou na desencarnação. O corpo de carne, tornado inútil, é restituído à terra, enquanto que nosso espírito, envergando o envoltório de m atéria sutil, que, aliás, lhe condiciona a existência terrestre, passa a viver em outro plano, no qual a roupa de m atéria m ais densa para nada m ais lhe serve...
Evelina riu-se, sem perder em bora o respeito que devia ao interlocutor, e alegou: — Teoria engenhosa! O senhor m e fala da m orte, e que m e diz desse trio durante o sono?
— Muito razoavelm ente, no sono físico, há descanso para os três elem entos, descanso esse que varia de condutor para condutor, ou m elhor, de espírito para espírito. Quando dorm im os, o veículo pesado ou corpo carnal repousa sem pre, m as o com portam ento do espírito difere infinitam ente. Por exem plo, depois de copioso repasto para o condutor e o cavalo, é j usto se im obilizem am bos na inércia, tanto quanto o carro que carregam ; entretanto, se o boleeiro se caracteriza por hábitos de estudo e serviço, quando o veículo se detém na oficina para reaj uste ou reabastecim ento, ei-lo que utiliza o anim al para excursões educativas ou tarefas nobilitantes. De outras vezes, se o condutor é ainda profundam ente inábil ou inexperiente, patenteando receio da viagem , sem pre que o veículo exij a restauração, ei-lo que se oculta nas im ediações do posto socorrista, esperando que o carro se refaça, a fim de retom á-lo, à feição de arm adura para a própria defesa.
Evelina estam pou um gesto de incredulidade e obtem perou:
— Nada conheço de espiritualism o...
— É profitente de algum a religião particularizada?
— Sim , sou católica, sem fanatism o, m as francam ente determ inada a viver segundo os preceitos de m inha fé. Pratico as instruções dos sacerdotes, crendo neles.
— A senhora deve ser louvada por isso. Toda convicção pura é respeitável.
Invej o-lhe a confiança perfeita.
— Não é religioso, o senhor?
— Quisera ser. Sou um procurador da verdade, livre atirador no cam po das ideias...
— E lê espiritualism o por desfastio?
— Por desfastio? Oh! não! Leio por necessidade. Dona Evelina, a senhora esqueceu? Estam os na bica de um a cirurgia que nos pode ser fatal... Nossas m alas talvez estej am prontas para um a longa excursão!
— Da qual ninguém volta.
— Quem pode saber?
— Entendo — aj untou a dam a, sorrindo —, estuda espiritualism o, à m aneira do viaj ante que aspira a conhecer o dinheiro, a língua, os costum es e as m odas do país estrangeiro que tenciona visitar. Inform ações resum idas, cursos rápidos...
— Não nego. Tenho tido m ais tem po ao m eu dispor e desse tem po faço hoj e os investim entos que posso, nos dom ínios de tudo o que se relacione com as ciências da alm a, principalm ente com - aquilo que se refira à sobrevivência e à com unicação com os Espíritos, supostos habitantes de outras esferas.
— E o senhor j á encontrou a prova de sem elhante intercâm bio? conseguiu m ensagens diretas com algum de seus m ortos queridos?
— Ainda não.
— Isso, acaso, não lhe desencoraj a a busca?
— De m odo algum .
- Prefiro as m inhas crenças tranquilas. A confiança sem dúvida, a oração sem tortura m ental...
— Será um a bênção o seu estado íntim o e acato, com todo o m eu coração, a sua felicidade religiosa; no entanto, se houver um a outra vida à nossa espera e se a indagação aparecer em sua alm a?
— Com o pode falar desse m odo se ainda não obteve a suspirada dem onstração da sobrevivência?
— Não m e é possível descrer do critério dos sábios e das pessoas de elevado, caráter, que a tiveram .
— Bem — explicou-se Evelina bem -hum orada —, o senhor estará com os seus pesquisadores, eu ficarei com os m eus santos...
— Não faço qualquer obj eção, quanto à excelência dos seus advogados — revidou Fantini no m esm o tom —, m as não consigo furtar-m e à sede de estudo.
Antes da m oléstia, reconhecia-m e seguro da vida. Com andava os acontecim entos, nem sabia, ao m enos, da existência desse ou daquele órgão no m eu corpo. Entretanto, um tum or na supra-renal não é um a pedra no sapato. Tem qualquer coisa de um fantasm a, anunciando contratem pos e obrigando-m e a pensar, raciocinar, discernir...
— Tem m edo da m orte? — chasqueou a m oça, com fina verve.
— Não tanto, e a senhora?
— Bem , eu não desej o m orrer. Tenho m eus pais, m eu esposo, m eus am igos. Adoro a vida, m as...
— Mas?
— Se Deus determ inar a extinção dos m eus dias, estarei conform ada.
- Porventura, não tem problem as? Nunca sofreu a influência dos m ales que nos atorm entam o dia-a-dia?
— Não diga que m e vai exam inar a consciência; j á tenho que dar contas de m im m esm a aos confessores.
E rindo-se, desem baraçadam ente, reforçou:
— Adm ito os m ales que outros nos façam com o parcelas do resgate de nossos pecados perante Deus; no entanto, os m ales que fazem os são golpes que desferim os contra nós m esm os. Supondo assim , procuro preservar-m e, isto é, reconheço que não devo ferir a ninguém . Em razão disso, busco na confissão um contraveneno que, de tem pos a tem pos, m e im unize, evitando a explosão de m inhas próprias tendências inferiores.
— Adm irável que um a inteligência, qual a sua, se acom ode com tanto gosto e sinceridade à confissão.
— Certam ente preciso saber com que sacerdote m e desinibo. Não quero com prar o Céu com atitudes calculadas e sim agir em oposição aos defeitos que carrego e, por isso, não seria correto abrir o coração diante de quem não m e possa entender e nem aj udar.
— Com preendo...
Retom ando o trato íntim o, à base de respeitosa confiança, a senhora Serpa considerou:
— Acredite que tam bém eu, ante a enferm idade, tenho vivido m ais cuidadosa. Até m esm o na véspera de m inha vinda para cá, harm onizei-m e com os deveres religiosos. Confessei-m e. E das inquietações que confiei ao m eu velho diretor, posso dizer-lhe a m aior.
— Não, não! Não m e conceda tanto... — tartam udeou Fantini, espantado com a devoção carinhosa em que Evelina se exprim ia.
— Oh! porque não? Estam os aqui na ideia de que som os am igos de m uito tem po. O senhor m e fala de suas preparações ante as probabilidades da m orte e não m e deixa tocar nas m inhas?
Desataram -se am bos em riso claro e, quando a pausa m ais longa se introm eteu no diálogo, entreolharam -se, de m odo significativo. Um e outro fixaram no rosto inequívoca nota de susto.
A m irada recíproca lhes fazia observar que haviam cam inhado, a passos com pridos, para a intim idade profunda.
Onde vira antes aquela j ovem senhora que a beleza e o raciocínio tanto favoreciam ? — pensava Ernesto, atordoado.
Em que lugar teria encontrado algum a vez aquele cavalheiro m aduro e inteligente que tão bem conj ugava sim patia e com preensão? — refletia a senhora Serpa, incapaz de esconder o agradável assom bro que a dom inava.
O intervalo consum iu segundos inquietantes para os dois, enquanto o crepúsculo, em derredor, acum ulava cores e som bras, anunciando a noite próxim a.