Em busca da boa morte: antropologia dos cuidados paliativos

Rachel Aisengart Menezes · Capítulo 9 de 23

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Em busca da boa morte: antropologia dos cuidados paliativos

Parte II – Uma nova organização social do morrer

Parte II – Uma nova

 

organização social do morrer

Capítulo 3 – Etnografia de um

 

hospital de cuidados paliativos

 

Cenário

 

O hospital de Cuidados Paliativos por mim observado é um edifício especialmente construído para ser um serviço de assistência paliativa. Possui onze andares, ambulatório, farmácia, auditório, salas para funcionários administrativos e andares destinados às enfermarias para internação, que dispõem de quatorze leitos, distribuídos em seis enfermarias com dois leitos e, ainda, duas individuais, quando se faz necessário o isolamento do doente. As enfermarias são amplas, arejadas e claras. Os dois leitos de cada enfermaria podem ser separados – para privacidade dos pacientes e familiares – por uma cortina, presa ao teto por um trilho. Para cada leito, há uma mesa de cabeceira, um pequeno armário, uma poltrona reclinável para o acompanhante e uma televisão.

A construção do hospital é moderna, clara e ampla, com decoração em fórmica colorida e quadros nas paredes, a maior parte dos ambientes possui ar condicionado. Todos os setores são bem sinalizados e há um sistema de comunicação por alto-falante. Via de regra, todos os profissionais que atuam nesta instituição recebem os visitantes atenciosamente, assim, o primeiro contato com a unidade hospitalar produz um impacto positivo, também pela organização e limpeza de suas instalações físicas.

O hospital de Cuidados Paliativos atende apenas doentes inscritos no Instituto Nacional do Câncer, em tratamento curativo que, quando categorizados como FPT, são encaminhados à assistência paliativa. Após exame e entrevista, o doente recebe a informação de que naquele hospital não há mais tratamento e que será encaminhado à unidade paliativa, na qual será acompanhado de outro modo, com atendimento mais individualizado. Neste atendimento, o médico agenda a primeira consulta e investiga se o paciente tem medicamento suficiente até a data marcada. O prontuário é enviado à nova unidade hospitalar e os familiares são solicitados a participar desta consulta de transferência, o que, por vezes, surpreende o doente e os próprios familiares, já que durante o tratamento curativo estes últimos não são objeto da atenção dos profissionais. À ocasião, o doente é informado do prognóstico, do encaminhamento à assistência paliativa e seus familiares são convidados a comparecer à "reunião de primeira vez".

O hospital de Cuidados Paliativos presta assistência a cerca de 300 pacientes por mês, nas seguintes modalidades: consultas ambulatoriais, emergência, plantão telefônico, visitas domiciliares e internação hospitalar, contando com uma equipe de mais de 200 profissionais. O ambulatório funciona nos dias úteis e os atendimentos são realizados com hora marcada, de modo que não há tempo de espera. Os medicamentos prescritos na consulta são fornecidos pela farmácia, em quantidade suficiente até a próxima consulta agendada.

O posto de emergência funciona 24 horas por dia, atendendo intercorrências agudas ou exacerbação dos sintomas dos doentes, e possui também um plantão telefônico, para orientar familiares e pacientes e evitar deslocamentos desnecessários. Geralmente, doentes e acompanhantes são orientados a telefonarem antes de se dirigirem à emergência. Este posto não conta com material para reanimação nem ambulância para transporte dos doentes, o que é informado a seus usuários. A opção da equipe pela não realização de manobras de ressuscitação é indicativa da aceitação dos limites da medicina, frente ao avanço da doença. Trata-se de um signo da especificidade da proposta dos Cuidados Paliativos, em busca da "boa morte".

O serviço de visita domiciliar é feito por uma equipe de médicos, enfermeiras, técnicos de enfermagem e assistentes sociais, que faz uma primeira visita para avaliação e usualmente retorna em sete dias. O atendimento domiciliar é agendado e avisado com um dia de antecedência. Os profissionais fornecem ao doente medicamentos e materiais necessários aos cuidados (fraldas, balas de oxigênio e outros).

A internação hospitalar tem por finalidade oferecer suporte clínico ocasional aos pacientes que estão em casa ou sob acompanhamento ambulatorial. Promove o retorno à residência o mais breve possível, já que o ideal é que a morte ali ocorra, com o doente cercado por seus familiares. O paciente é internado em

enfermaria apenas para resolução de intercorrências: 84 assim que o quadro clínico é estabilizado, ele recebe alta da internação e volta a ser atendido em visita domiciliar ou no ambulatório.

Este hospital é destinado à assistência, à formação e treinamento

de "cuidadores" 85 e profissionais: oferece treinamento aos familiares e cursos de especialização nas áreas de medicina, serviço social, nutrição e enfermagem, além de contar com uma residência em enfermagem.

Uma vez que, em sua proposta de assistência ao doente, os familiares são considerados como parte da equipe de "cuidadores", existem diversas atividades para sua orientação, tais como: "reunião de primeira vez de familiares", "cuide bem de seu paciente", "grupo de família", "reunião pós-óbito", além de atendimentos do serviço de psicologia às famílias com demandas específicas. Na "reunião de primeira vez", a equipe apresenta a estrutura do hospital e modalidades de atendimento, além de esclarecer dúvidas sobre o encaminhamento e a doença. A reunião "cuide bem de seu paciente" é para ensinar e treinar os familiares a cuidar de seus doentes em suas casas. Nesta reunião semanal, são transmitidas técnicas de limpeza de sondas, de higiene, cuidados em curativos e outras manobras necessárias. O "grupo de família", coordenado por uma psicóloga, é um espaço para a expressão dos familiares, de suas dificuldades no acompanhamento do doente. A "reunião de pós-óbito", também coordenada por uma psicóloga, conta com a participação de familiares de enfermos falecidos há mais de um mês, para o acompanhamento de seu processo de luto.

Em sua Clínica da Dor, a unidade paliativa desenvolve atividade de pesquisa, para controlar o sofrimento físico. Os médicos especializados em Cuidados Paliativos realizam ainda pequenas cirurgias, para uma melhor "qualidade de vida" de seus pacientes. Um espaço hospitalar “humanizado”