Em busca da boa morte: antropologia dos cuidados paliativos
Uma rotina de “cuidado com delicadeza”
De acordo com uma assistente social, este hospital de Cuidados Paliativos é nomeado pelos profissionais do Instituto Nacional do Câncer como "os fundos do cemitério", "por ser a última unidade", em contiguidade – metafórica e temporal – com o cemitério. Assim, seus profissionais de Cuidados Paliativos, com suas atividades de humanização, querem alterar esta imagem negativa. Trabalham ainda, no sentido de mudar as representações sociais correntes do morrer, ao criar um ambiente colorido, alegre, no qual circulam profissionais sensíveis e afetuosos, capazes de "dar um carinho a mais", "sem desmerecer o sofrimento de ninguém" (coordenadora do Programa de Humanização). Sem dúvida, trata-se de um desafio: transformar o espaço hospitalar destinado aos cuidados de doentes em etapa final de vida, singularizar o atendimento e entrar em contato com o sofrimento com sensibilidade – desde que na medida adequada.
Uma rotina de “cuidado com
delicadeza”
O hospital de Cuidados Paliativos dispõe de diversas modalidades de atendimento, sendo cada uma delas organizada segundo uma rotina própria de trabalho. O dia de trabalho nas enfermarias é iniciado com a passagem de plantão da enfermagem e nos andares das enfermarias, no período da manhã, há intensa movimentação: faxineiros, técnicos de enfermagem, enfermeiros, médicos, assistente social e, por vezes, funcionários administrativos circulam pelo corredor principal. Todos os profissionais se comportam de uma mesma forma: sorriem ao cumprimentar os passantes, falam em tom de voz tranqüilo, andam pelos corredores calmamente. Geralmente, os profissionais fazem brincadeiras e conversam sobre acontecimentos recentes.
Médicos e assistentes sociais chegam um pouco depois da equipe de enfermagem e por volta das 8 horas da manhã iniciam sua jornada. Cada profissional, depois de tomar conhecimento das últimas intercorrências dos doentes internados, conversando com enfermeiros ou lendo o quadro no posto de enfermagem, dirige-se
às enfermarias. O paciente é “visitado” 86 por, pelos menos, três profissionais: um médico residente ou especializando lotado temporariamente no andar, a enfermeira e a assistente social – ambas responsáveis pelo andar. A "visita" é realizada de modo semelhante: os membros da equipe cumprimentam o doente e seu acompanhante, identificando sua categoria profissional e, a seguir, fazendo indagações pertinentes à sua especialidade:
Bom dia, dona Fulana, sou a dra. A., [toca em alguma parte do corpo da
doente, delicadamente] estou neste andar de enfermaria, e gostaria de saber
como está a senhora. Como passou a noite? Conseguiu dormir? Teve dor?
Dirigindo-se à acompanhante, tocando levemente seu braço: Acordou muitas
vezes? Chamaram a enfermagem? É a senhora que costuma ficar aqui,
acompanhando a dona Fulana? Tem mais alguém para revezar com a
senhora? Está cansada, já tomou o café da manhã?
Examina a paciente, respondendo às perguntas calmamente, assegurando
tomar as providências para a melhora dos sintomas da doente, como: Ah,
então sentiu dor, mas não vai sentir mais não, vamos aumentar a dose do
remedinho e daqui a pouco deve melhorar... Vou passar logo a prescrição
para a enfermagem. De qualquer modo vamos fazer uma medicação SOS,
que é o que vocês podem pedir sempre à enfermeira, uma dose SOS. Não
queremos ninguém aqui sentindo dor.
Ao sair da enfermaria, a médica diz que vai tomar as providências e que
deve
retornar mais tarde, ao final da manhã, acrescentando:
Estou aqui até tal horário, mas caso precisem de algo é só tocar a
campainha que, mesmo eu não estando, vocês pedem à enfermagem. Deixo
tudo anotado para elas. O mais importante é que a senhora não sinta dor.
Não se acanhe de chamar a equipe, nós estamos aqui para isso. (Médica)
Ao mesmo tempo em que o médico, a enfermeira e a assistente social passam a visita aos leitos, a equipe de limpeza faz a faxina. Cada profissional responde dúvidas dos doentes e/ou acompanhantes, orienta-os, registrando informações em um caderno. A enfermagem faz os curativos e os cuidados corporais (troca de roupa de cama, higiene, banho). Se o paciente está acompanhado por familiar, este é solicitado a auxiliar no trabalho da enfermagem, para o aprendizado dos cuidados, necessários quando da alta da internação hospitalar e o regresso para residência. No caso do doente não contar com acompanhante, os voluntários auxiliam nos cuidados corporais e na alimentação.
Segundo os próprios profissionais observados, a equipe paliativista se comporta de modo diferente de outros hospitais: se movimenta calmamente, fala em tom de voz baixo, escuta pacientes e familiares, atenta e pacientemente. A atividade é intensa, mas desempenhada de um modo singular nos Cuidados Paliativos, a partir da construção de um ethos determinado, específico da morte contemporânea.
Ao final da manhã, quando a maior parte dos doentes já tomou
banho e almoçou, inicia-se o " 87 round ", termo designativo de uma nova visita aos leitos por um grupo de profissionais: o médico responsável pelo andar, os médicos residentes e/ou especializandos, a enfermeira e/ou assistente social. Os profissionais novamente cumprimentam os presentes e, a seguir, o médico mais jovem, que realizou a primeira visita do dia, inicia o relato do caso – utilizando jargão médico – para o profissional mais experiente. Por vezes, os outros profissionais acrescentam alguns dados ao relato. Geralmente, o médico, ao perceber a preocupação do doente e/ou dos familiares com o linguajar, traduz os termos técnicos. Durante o "round" o clima é semelhante ao da visita, os profissionais falam devagar, explicando as opções terapêuticas, buscando tranqüilizar doentes e acompanhantes. Quando há piora do paciente e/ou uma notícia sobre algum novo dado, como, por exemplo, resultado de exames, o médico solicita que o familiar saia da enfermaria para uma conversa – no corredor, na sala de médicos ou na sala para reuniões com familiares. Nestas ocasiões, o profissional informa sobre a situação e, olhando para o acompanhante, geralmente tocando seu braço ou ombro, coloca-se à disposição no que for necessário.
Tudo se passa em uma temporalidade muito diferente da de outros hospitais: o médico fica próximo ao acompanhante, aguardando sua reação, ao mesmo tempo em que os outros profissionais vão tomar as providências necessárias. Os profissionais se comunicam por meio de olhares, sem expressão verbal – por vezes, sugerindo que outros membros da equipe se afastem ou se aproximem.
Ao examinar detalhadamente cada paciente, coletar informações e trocar dados com outros profissionais, a equipe paliativista atua segundo os preceitos de uma assistência à totalidade do enfermo, para proporcionar melhor "qualidade de vida". A assistência paliativa é feita em uma temporalidade específica, que pretende integrar diversas tarefas – medicar, conversar com doentes e familiares, preencher documentação legal, providenciar recursos que porventura não estejam disponíveis na instituição – a serem executadas o mais rapidamente possível, visando alívio dos sintomas, principalmente da dor. Ao mesmo tempo, os profissionais transmitem sua disponibilidade de escuta aos doentes e/ou familiares.
A rotina hospitalar é organizada de modo a produzir um efeito – aparente – de um ritmo lento de trabalho, provavelmente pela forma de comunicação e movimentação dos profissionais. A construção desta nova maneira de administração do tempo da equipe se deve, sobretudo, a duas características do trabalho em Cuidados Paliativos: a primeira se refere à valorização da expressão das emoções dos envolvidos no processo do morrer; os profissionais podem adiar alguma atividade técnica em prol da escuta e da pacificação dos sentimentos emergentes, priorizando a comunicação com doentes e familiares. A segunda se relaciona à adaptação do profissional ao ritmo do paciente, já que a assistência paliativa preconiza que a morte não deve ser acelerada nem prorrogada, conforme fala de uma médica: "o profissional de Cuidados Paliativos deve ter uma prática em obstetrícia, no acompanhamento do trabalho de parto." Deste modo, o trabalho do morrer aparece neste contexto, simbolicamente relacionado com o do nascimento, quando o ritmo de cada doente deve ser respeitado. Entretanto, na prática, esta proposta encontra algumas dificuldades de viabilização, já que o profissional deve atender a uma diversidade de demandas, por vezes, não compatíveis com o tempo de sua jornada. A equipe paliativista presta uma assistência de
"cuidado com delicadeza, no tempo de vida limitado do paciente", 88 e se preocupa em aliviar, o mais rapidamente possível, qualquer desconforto.
Uma vez terminada a rotina matinal nas enfermarias, os profissionais se organizam para o almoço. Começa então o período vespertino de trabalho, quando nas enfermarias permanece apenas a equipe de enfermagem. Durante a tarde, há menor movimentação e um horário para visitação dos doentes, sendo permitida a presença de dois visitantes simultâneos ao mesmo doente. O sistema de alto-falante anuncia os eventos: início e término do horário de visitas, reuniões com familiares e reuniões da equipe.
O trabalho nos ambulatórios é realizado em dois turnos, quando os pacientes são atendidos por médicos e/ou assistentes sociais nos consultórios. As salas são confortáveis e o formato das consultas é análogo ao das visitas aos leitos: o médico examina o doente, conversa sobre suas queixas, buscando esclarecer as dúvidas. Ao final da consulta, prescreve medicamentos a serem retirados na farmácia do hospital e agenda o próximo encontro. Geralmente o clima é ameno e, por se tratar de uma relação médico/paciente de longa data, alguns detalhes pessoais são abordados. O dia de trabalho dos profissionais – com exceção dos plantonistas – é encerrado ás 17 horas.
Da mesma forma que é feito nas enfermarias, ambulatórios ou na emergência, os profissionais da visita domiciliar atendem pacientes em casa, examinando-os detalhadamente e conversando calmamente com eles e seus familiares. Em uma visita domiciliar observada, na qual acompanhei uma enfermeira, surgiu uma situação delicada: enquanto a profissional conversava com o marido da doente, verificando a quantidade de medicamentos ainda restante, esta me confidenciou a consciência de sua piora e possibilidade de morte próxima, solicitando que não transmitisse estes dados a seu esposo. Pouco depois, já no carro, a enfermeira me contou que o marido da paciente estava preocupado com o enfraquecimento de sua esposa e perguntou sobre o que fazer em caso de morte. E, ainda, pediu que não comentasse este assunto com a paciente, já que ela tinha esperança de melhorar.
Em todas as visitas domiciliares observadas, as despedidas eram acompanhadas por agradecimentos dos doentes e familiares. A gratidão da clientela é indicativa do reconhecimento da qualidade da assistência prestada, superior ao atendimento em outras unidades públicas de saúde. Por vezes, o doente e os familiares assistidos por este hospital se encontram em uma condição de tamanha precariedade que não consideram que esta modalidade de assistência seja um direito seu, sendo percebido como um presente extraordinário. Tal atitude é indicativa da falta de consciência de cidadania, em certos meios sociais.