Em busca da boa morte: antropologia dos cuidados paliativos

Rachel Aisengart Menezes · Capítulo 5 de 23

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Em busca da boa morte: antropologia dos cuidados paliativos

A “morte natural”

A meta preconizada no ideário da "morte contemporânea" é a conclusão de uma obra, de preferência bela, harmoniosa e produtiva, busca infindável de si, da totalidade, da identidade individual, devendo resultar em um final de vida digno e belo. O produto desta construção conduz à idéia de uma estetização da morte, na qual o doente se mantém tranqüilo, uma vez acolhido por uma equipe que o trata de modo individualizado. Em sua singularidade, pode permanecer com suas características físicas, com suas roupas, adereços, em um ambiente personalizado: em casa ou no quarto do hospice, decorado segundo sua escolha. Freqüentemente, à imagem da "bela morte" associa-se a idéia da "morte pacífica", aliada à manutenção da identidade pessoal: a beleza está intimamente ligada às idéias de paz e harmonia. A "boa morte" é produzida por quem está morrendo e o produto deve ser belo.

O modelo da "morte contemporânea" é apresentado de diversas formas, dependendo do contexto histórico e cultural. Byock, norte-americano, valoriza a singularidade e autonomia do indivíduo, enquanto Hennezel possui uma compreensão psicanalítica, não somente por sua profissão, mas provavelmente pela difusão dos saberes psicanalíticos na França. Os ideólogos da "boa morte" propõem uma aceitação social do processo do morrer, o que produz debates e polêmicas sociais.

 

A “morte natural”

 

Inserido no modelo da "boa morte", surge, na Inglaterra nos anos 1990, o movimento pela "morte natural", inspirado no parto natural e na "humanização" do parto. Em 1991 foi fundado por três

psicoterapeutas o 48 Natural Death Center , uma instituição educacional sem fins lucrativos, para divulgar a "morte natural". Publicou em 1993 o livro The Natural Death Handbook que foi e

continua sendo sucesso de vendas em toda Inglaterra.49 Este manual apresenta casos exemplares do "morrer bem" e de uma prática do luto saudável, com uma argumentação pela "morte natural".

Este Centro se propõe a ensinar e a divulgar as melhores formas de cuidados aos doentes que estão morrendo, seja em hospices ou em casa, por quaisquer doenças, e não apenas por câncer. Os autores argumentam que, se há uma preparação para o parto, com exercícios corporais e rituais, que propiciam uma redução da ansiedade da parturiente e possibilitam que o bebê possa nascer sorrindo, da mesma forma, em relação ao morrer, poderiam ser desenvolvidas técnicas e práticas, voltadas a uma redução da ansiedade diante da morte. Indo além, propõem que o morrer poderia ser vivido à semelhança do parto – um processo de êxtase para muitas mulheres. O manual apresenta uma declaração dos direitos da pessoa que está morrendo em casa:

 

Tenho o direito de não morrer só, assim como tenho o direito de ser deixado

só, se assim o desejar;

Tenho o direito de contar com o religioso local ou com outro líder comunitário

e solicitar ajuda da vizinhança para dar suporte a mim e aos que cuidam de

mim; tenho o direito de contar com as "parteiras para o moribundo"

("midwifes for the dying"), ou seu equivalente, para me atender em minhas

necessidades físicas, emocionais e espirituais; Tenho o direito de receber a

assistência dos especialistas em alívio da dor, da mesma forma que

receberia se estivesse em um hospital ou em um leito de hospice;

Tenho o direito de não ser levado ao hospital sem meu consentimento

quando minha condição física se deteriorar ou, se for necessária uma

cirurgia em hospital para alívio de dor, tenho o direito de voltar para casa em

seguida; tenho o direito de ser respeitado em qualquer dos itens do meu

Living Will50 que tiver escolhido e assinado. Que meus desejos sejam

atendidos e respeitados, mesmo não estando em condição de plena

consciência; tenho o direito de rejeitar estimulantes cardíacos, transfusões

de sangue ou outras intervenções médicas para o prolongamento da vida;

Tenho o direito – até o quanto desejar – de saber a verdade sobre minha

condição e sobre os propósitos, alternativas e conseqüências dos

tratamentos propostos; tenho o direito de jejuar quando a morte se aproximar

– se assim o desejar – sem ser forçado a receber alimentação de qualquer

forma;

Tenho o direito de discutir minha morte e o morrer, meu funeral ou quaisquer

outros assuntos relacionados abertamente aos que cuidam de mim;

Tenho o direito de estar consciente e de ter uma morte o mais digna possível

nas circunstâncias;

Tenho o direito – se assim o expressar e as circunstâncias permitirem – de

que meu corpo permaneça sem ser perturbado em casa, por um tempo após

a morte, e que meu funeral seja cuidado pelos meus parentes e amigos – se

eles assim o desejarem – sem a intervenção dos agentes funerários. (Albery,

2000:343).

 

Estas são as principais propostas dos militantes da "morte natural", que reivindicam amplas mudanças sociais diante da morte, tanto nas políticas públicas de assistência aos doentes em período final da vida, como na área da educação, voltada a profissionais de saúde, à população em geral e às crianças. O objetivo do projeto é tomar a morte socialmente mais visível, de modo a ser concebida e vivida "naturalmente", como um evento que faz parte do ciclo da vida. Os militantes elaboram críticas ao culto atual da juventude, à medicalização da sociedade e à fragmentação dos vínculos sociais.

Para Nicholas Albery, a necessidade de construção de um modelo de "morte natural" teria surgido em decorrência do envelhecimento da geração de vanguarda dos anos 1960, que criou o movimento hippie, buscou a expansão da consciência por meio do uso de drogas alucinógenas e, com o advento da pílula anticoncepcional, promoveu mudanças nas relações sexuais, com o chamado amor livre, e nas relações de gênero. Foi também a geração a desenvolver movimentos pacifistas, pela liberdade de expressão, e responsável pelas revoltas estudantis de 1968. Para os autores do manual da "morte natural", quando os integrantes desta geração optaram por ter filhos, escolheram e divulgaram a prática do parto natural e da amamentação. Mais adiante, criaram o movimento ecológico, no qual se insere o movimento pela "morte natural",

condizente com os ideais vividos anteriormente.51 Para Gilberto Velho, a principal característica desta geração seria a busca

constante de mudança e transformação.52

O Natural Death Center almeja ser a vanguarda de mudanças sociais frente à morte e ao morrer, preconizando que uma das metas da velhice e do envelhecimento seria a construção de uma "boa morte natural". Indo além, seus divulgadores consideram que a própria morte – ou o acompanhamento do morrer de alguém próximo – seria uma etapa de desenvolvimento pessoal, uma graduação.

Para atingir seus objetivos, o movimento organiza palestras e workshops de divulgação de seus ideais e cursos para educação e debate das novas formas de vivência e cuidados diante da morte. O Centro discute questões importantes sobre o final da vida, como a recusa de alimentação por parte de doentes terminais, experiências de quase-morte e seus significados, e a importância da construção do morrer individualizado e singularizado. Segundo os divulgadores do ideário, surge na contemporaneidade, em contraposição à crescente tecnologização social, a necessidade de um retorno pagão à natureza: os doentes terminais devem permanecer ao ar livre, em sítios, se possível, junto a um rio ou cachoeira, o mais próximo possível da natureza.

Além disto, outra proposta deste movimento é que a morte seja tema presente na educação básica, com a introdução obrigatória de literatura sobre a morte e o luto, propondo que as crianças participem de funerais – se elas assim o desejarem – e que tenham

mais oportunidades de visitar doentes terminais.53

Outro projeto dos militantes da "morte natural" é a manutenção de leito compartilhado pelo moribundo com pessoa de sua relação, a exemplo do parto natural. Técnicas como massagens corporais, escuta de fitas para relaxamento, uso de florais de Bach, exercícios respiratórios e de visualização e mensagens sussurradas aos moribundos (como "vá para a luz, vá ao encontro da luz") são usadas para uma melhor vivência do morrer. Estas proposições não excluem as intervenções médicas (uso de medicações analgésicas, radioterapia, antidepressivos, anti-convulsivantes, ultra-som, bloqueios nervosos), desde que sob controle do paciente, que pode decidir suspendê-las.

O projeto da "morte natural" é amplo e abrangente, chegando a postular a profissionalização das "parteiras para o moribundo" e a confecção de um livro inglês dos mortos que traduziria as compreensões tibetanas sobre esta experiência e a psicologia do morrer, com relatos dos que viveram experiências de quase-morte. O movimento propõe mudanças nos hospitais de Cuidados Paliativos, como a de que os pacientes internados saibam da morte de outros doentes e que possam se despedir deles. Com relação aos profissionais de saúde, os autores aconselham que estes oficiem um ritual – religioso ou não – de despedida para o recém-falecido. Para que a meta da "boa morte" seja alcançada, a equipe médica deve reconhecer seus limites e saber que uma morte pacífica pode ser um dos objetivos de seu trabalho. Assim, os profissionais de saúde deveriam ter permissão para pesquisar e utilizar drogas e agentes psicoativos com o objetivo de ajudar os moribundos a alcançar uma percepção melhor e mais ampla de sua situação.

Segundo os autores do manual, no passado, muitas enfermeiras e médicos percebiam a morte como uma falha de suas habilidades, afastando-se do moribundo, pois ele apontava as limitações dos profissionais em manter a vida. De acordo com pesquisas citadas pelo manual, em 1961, 90% dos médicos preferiam não informar aos pacientes o diagnóstico de câncer, enquanto em 1979, 97% dos médicos passaram a dar preferência a falar francamente sobre o diagnóstico – o que indica uma alteração rápida e profunda na conduta dos profissionais. Em suma, os autores do manual enfatizam a naturalidade da morte e a busca contemporânea de uma nova construção filosófica da morte, acarretando novas posturas e práticas em torno do morrer.