Em busca da boa morte: antropologia dos cuidados paliativos
Após a morte
O trabalho da equipe paliativista não se encerra com a morte do doente em enfermaria. Com o óbito, são necessárias diversas tarefas: preparo do corpo, confecção e entrega do atestado de óbito para os familiares, relatório médico, comunicação à família e gestão das emoções que porventura possam emergir – dos familiares ou dos próprios profissionais. Há uma divisão do trabalho por categorias: técnicos de enfermagem preparam o corpo, médicos constatam o óbito e preenchem o atestado e o relatório, assistentes sociais esclarecem os procedimentos necessários ao sepultamento
ou cremação. 169 Todos os profissionais, independente de sua categoria, amparam e acompanham os familiares, com a preocupação de manter um ambiente calmo e pacífico nas enfermarias, também para não causar transtornos aos demais doentes e familiares. O preparo do corpo é descrito por um técnico de enfermagem:
Nós preparamos o corpo, limpamos, tamponamos e preparamos para descer
até a morgue. O corpo é preparado aqui na enfermaria. Caso tenha outro
paciente no leito ao lado, nós puxamos a cortina que faz a divisória e,
quando não tem cortina, colocamos um biombo e também tiramos os
familiares do outro paciente do quarto, porque é uma falta de respeito fazer o
tamponamento de um óbito com outro familiar presente, pois eles vão saber
que nós vamos fazer o mesmo procedimento com seu paciente. Enquanto
faço este trabalho converso com o paciente, mesmo ele indo a óbito. Falo
assim, por exemplo: "Dona Maria, a senhora fez partida, então vim aqui para
preparar o corpo – porque o espírito já saiu daquela matéria, daquele corpo –
então faz parte da nossa profissão, e quero que a senhora vá para perto de
Deus, que seu espírito vá para junto Dele. Estou aqui por profissionalismo,
não por abuso". (Técnico de enfermagem)170
O diálogo do profissional com o recém falecido, solicitando autorização para a preparação de seu corpo, indica a antítese da "morte social": após a morte, o doente ainda é tratado pelo técnico de enfermagem como se estivesse vivo, ou como se "seu espírito" permanecesse presente. Os cuidados e retirada dos materiais do corpo e a entrega aos familiares de objetos pessoais do recém falecido são condutas feitas discretamente, de modo a não produzir transtorno no ambiente hospitalar. Caso tenha ocorrido algum sangramento, o ambiente é prontamente limpo e reorganizado: a equipe busca construir uma imagem pacífica e asséptica da morte
para os familiares.171 Todos os procedimentos – preparo do corpo, retirada de materiais, limpeza e organização do ambiente – constituem um ritual indicativo da continuidade da vida e da rotina institucional, em contraposição à desordem causada pela morte, uma ruptura inexorável. O relato de técnico de enfermagem sobre o tema é ilustrativo:
O mais difícil é quando estamos preparando o corpo e o familiar está ali, o
tempo todo agarrado, não querendo que levem o corpo, porque ele não
acredita que o paciente morreu. (Técnico de enfermagem)
Trata-se de retirar a carga dramática do evento da morte, aceitando-o como natural. Os procedimentos após o óbito são rotinizados, deixando pouco tempo e espaço para que os familiares fiquem perto do morto, apesar de ser um hospital regido pelo ideário
da "boa morte") 172 Depois do preparo do corpo, ele é conduzido à morgue. Curiosamente, uma profissional diz que, neste momento,
Quando ele vai para a morgue, eu falo: 'vai com Deus', quando o paciente
sai daqui no pacote, mas não entro junto no elevador não. Não entro porque
já foi bastante ter tido aquela caminhada com ele até ali, vou no outro
elevador. Não tenho medo, mas não quero, não me sinto bem estando ali ao
lado do corpo. Não vou a enterro nenhum dos meus familiares, nunca entrei
em um cemitério. (Assistente social)173
Paradoxalmente neste caso, há uma recusa da profissional em se aproximar do cadáver, apesar de se tratar de assistente social que trabalha cotidianamente com o processo do morrer.
Usualmente, os paliativistas conversam com os acompanhantes do morto em uma sala fechada, para que a expressão das emoções se dê sem que os outros pacientes e familiares percebam, momento em que os diversos integrantes da equipe falam do ocorrido, na sala dos médicos ou no posto de enfermagem – espaços privativos de profissionais, onde somente é permitida a entrada de familiares com autorização. Após a saída dos familiares e do corpo, o quarto é limpo e reorganizado rapidamente, possibilitando sua ocupação
imediata. 174
A assistência à "totalidade bio-psico-social-espiritual" dos familiares não é concluída com o óbito. Durante toda a trajetória do familiar, há uma preocupação da equipe em auxiliar na aceitação da morte, o que é compreendido como condição necessária à elaboração do luto normal. Com este propósito, foi criado um espaço institucional destinado ao acompanhamento dos familiares de doentes falecidos: a "reunião de pós-óbito" (encontro mensal, para familiares de pacientes falecidos no mínimo há um mês e no máximo há quatro meses). Esta reunião, coordenada por uma psicóloga, conta com a presença de diversos profissionais e geralmente participam cerca de vinte pessoas. As cadeiras do auditório são organizadas em círculo, de modo que todos participantes possam ver e serem vistos. Os profissionais não possuem necessariamente um lugar demarcado, sentando-se ao lado dos familiares. O encontro é iniciado pela fala da psicóloga:
Sabemos que vocês passaram por uma situação dolorosa nos últimos
tempos e agradecemos sua vinda. Compreendemos que não é fácil voltar
aqui, pois este hospital está associado à vivências dolorosas, vinculadas à
perda de um ente querido. Admiramos sua coragem e, como o trabalho de
nossa equipe interdisciplinar não é concluído com a morte do paciente,
gostaríamos de saber como vocês estão lidando com a perda. Em nossa
proposta de assistência, vocês são muito importantes, e estamos aqui para
ajudá-los neste momento difícil. (Psicóloga)
Em seguida, a coordenadora solicita que todos se identifiquem (inclusive os profissionais) e compartilhem o percurso vivido no acompanhamento do familiar falecido. Com o estímulo da psicóloga, algum familiar inicia seu relato sobre a trajetória do doente: os primeiros indícios do adoecimento, a procura por assistência médica, a prescrição de exames até a conclusão médica e comunicação do diagnóstico. Em seguida, é apresentado o tratamento para a cura da doença e as reações emocionais do próprio paciente e dos familiares: depressão, revolta ou coragem. São comentados os efeitos colaterais do tratamento. Por vezes, a história relatada por um participante do grupo estimula a expressão de outros familiares, que tomam a palavra, comentando semelhanças e diferenças com o vivido em suas famílias. À medida que os familiares apresentam seus relatos, a psicóloga ou outro profissional faz comentários.
Quando o relato toca no momento do segundo diagnóstico – a impossibilidade de cura, seguida do encaminhamento do paciente para o hospital de Cuidados Paliativos – há uma mudança no clima da reunião. Os familiares geralmente ficam muito emocionados, ao relembrar a notícia do médico sobre o esgotamento dos recursos para a cura. Diversos participantes choram diante do que a psicóloga toma a palavra, dizendo compreender a dificuldade de recordar um momento tão doloroso. Em seguida, a coordenadora estimula o relato do último período de vida do doente, valorizando os cuidados prestados pelos familiares.
O tema central da reunião passa, então, a ser o processo de negociação dos desejos do paciente, sua consciência do avanço da doença e aceitação – ou recusa – da morte. Por vezes, surgem situações referentes à gestão de conflitos relativos aos cuidados do doente ou a interesses financeiros. Por fim, os familiares contam com detalhes os últimos momentos de vida de seu parente. O encontro atinge um clímax emocional: diversos participantes choram – familiares e profissionais – ao rememorar a perda. Alguns familiares expõem seu sentimento de culpa por não terem atendido os pedidos do doente como, por exemplo, o episódio vivido pela mãe de uma jovem que, ao piorar, foi levada por vizinhos ao posto de emergência mais próximo à residência, onde faleceu. Apesar do pedido da filha, a mãe não compartilhou seus últimos momentos:
Não fui com ela ao hospital, não suportei ir. Nós nos abraçamos antes dela
sair de casa, e ela dizia "vem comigo, mãe, me ajuda", mas não consegui,
não tinha como ajudá-la. Ainda sinto até hoje como o coração dela batia
fraco e rápido, junto do meu, sinto dentro do meu peito. Me arrependo, mas
era demais para mim. Me despedi dela em casa. (Mãe de paciente falecida)
Este relato comoveu especialmente a todos os presentes. Diante do arrependimento da senhora, a psicóloga disse-lhe:
Não há porque sentir culpa, pois todos temos um limite pessoal. Além do
mais, a senhora conseguiu despedir-se de sua filha e guardar dentro do seu
coração a imagem e a sensação do coração dela ainda vivo. A senhora não
podia ajudá-la além de tudo que já tinha feito. O importante agora é guardar
esta lembrança, transformar a dor em saudade, sem culpa. (Psicóloga)
Diante da expressão – emocionada – do momento da morte, a psicóloga explicita o principal objetivo do encontro: propiciar a "transformação da dor em saudade" ou, em linguagem psicológica, possibilitar uma elaboração saudável da perda e prevenir o luto patológico. Para dar conta desta tarefa, a coordenadora propõe um exercício de visualização: os participantes devem dar as mãos aos seus vizinhos, fechar os olhos e imaginar uma caminhada em uma paisagem bonita, em direção a algo que desejem muito. A psicóloga reduz a iluminação da sala e fala em um tom de voz calmo e apaziguador, estimulando que todos prestem atenção à respiração, buscando relaxar e concentrar-se na beleza da paisagem, no bem-estar por ela produzido e na satisfação ao encontrar o objeto ou a cena desejada. A coordenadora permanece de olhos abertos, observando o comportamento dos presentes e, quando estima que todos tenham concluído o exercício, pede que abram os olhos e apresentem as metas desejadas. Todos os participantes – inclusive a coordenadora, os profissionais e a observadora – devem contar o que imaginaram e as razões da escolha.