Em busca da boa morte: antropologia dos cuidados paliativos

Rachel Aisengart Menezes · Capítulo 1 de 23

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Em busca da boa morte: antropologia dos cuidados paliativos

Prefácio

 

Sérgio Carrara

 

Não me parece possível afirmar com segurança, como querem alguns historiadores, que a morte esteja hoje menos presente no nosso cotidiano do que já esteve, por exemplo, no dia-a-dia de homens e mulheres que viveram nos séculos XV ou XVI. Digamos apenas que são mortes diversas e que aquela que conseguimos divisar desde a franja do império na qual atualmente vivemos manifesta-se de formas múltiplas e singulares.

Dentro de nossas casas, assistimos àquela morte que só conhecemos através dos meios de comunicação e que nos é apresentada por eles de modo cada vez mais impudente. Refiro-me, é certo, àquela espécie de morte coletiva, quase apocalíptica, que no contexto da guerra atual atinge Bagdá, Nova Iorque ou Madri. Mas penso também na morte bem mais próxima que, nos morros e subúrbios cariocas ou nas favelas de outras grandes metrópoles brasileiras, pinga diariamente seus números nas estatísticas oficiais. De um modo geral, essa é a morte dos sem-rosto, dos "outros", dos estrangeiros em guerra mas também dos marginais de fato ou por presunção. Morte de pobres, sobretudo de negros pobres, que se exterminam nos desvãos do narcotráfico. Além dessa morte massiva e anônima, há também a que nos espreita em cada esquina, nas mãos daqueles que só querem um pouco de dinheiro, um celular ou um carro. Dessa, não apenas ouvimos falar na televisão ou nos jornais, mas muitas vezes já tivemos a oportunidade de experimentar, quando alguém de nossas relações foi por ela atingido. Finalmente, convivemos ainda com a morte advinda das epidemias e das "febres" (no caso brasileiro, essa última expressão guarda muito de seu sentido original) ou com aquela ainda mais banal, causada por doenças não-infecciosas, acidentes ou velhice.

A morte permanece, portanto, muito presente em nosso dia-a-dia e, independentemente de suas causas ou formas, seu grande palco continua a ser, no Ocidente ou em suas bordas, os hospitais e instituições de saúde. Neles, diferentes grupos profissionais atuam segundo as convenções sociais que organizam esses espaços. São profissionais da saúde, mas são também, mesmo que lhes desagrade essa afirmação, profissionais da morte. E abordar o espaço da saúde como um espaço que é igualmente da morte é o pressuposto básico do trabalho de Rachel Aisengart Menezes, médica, psicanalista e antropóloga que, desde alguns anos, vem pesquisando os sentidos ou significados sociais da morte e do morrer nos hospitais.

No trabalho que agora se publica, o interessante é que, para discutir tal tema, a autora se voltou para uma nova organização no panorama das instituições de saúde, ainda bem pouco conhecida no Brasil: o centro de cuidados paliativos. Aqui, os profissionais de saúde assumem-se explicitamente como profissionais da morte e, deixando de lado a heróica ideologia segundo a qual a morte de um paciente é sempre um fracasso contra o qual se deve lutar a qualquer custo, procuram efetivamente cuidar daqueles para os quais a ciência não tem mais remédios a oferecer, daqueles que, segundo o jargão médico, são "FPT", ou seja, "fora de possibilidade terapêutica". Nesse contexto, não se trata mais de saber como "salvar" vidas, mas como propiciar "boas mortes".

Etnografando o mundo dos paliativistas - onde trabalham, entre outros, profissionais da medicina, da enfermagem, da psicologia - e tendo como posto de observação uma de suas instituições modelares, a autora procura avaliar a profundidade da ruptura cultural que seu ideário e prática implicam. Tal ruptura se constrói sobre o pano de fundo do chamado regime da "morte moderna", conforme o analisaram historiadores, como Phillipe Ariès, e sociólogos, como Norbert Elias, Anselm Strauss e Claudine Herzlich. Nesse regime, a morte caracteriza-se pelo silêncio, pela negação, pela evitação, pelo medo. Negada aos doentes e delegada aos hospitais, a "morte moderna" ocorre de modo paradigmático nesses não- lugares a que chamamos de CTIs e é contra ela que os paliativistas se insurgem. Procuram, de um lado, devolvê-la ao calor do espaço familiar, onde, segundo se acredita, ela ocorria antes da Modernidade. Buscam, de outro, colocá-la sistematicamente em discurso, não apenas contando a verdade aos moribundos, mas procurando fazer com que, através da morte, eles encontrem a sua própria verdade, dando sentido a suas vidas.

Observadora arguta, a autora porém não se restringe a apenas descrever o novo ideário, suas convenções e práticas, mas aponta também seus limites e impasses. Trata-se sem dúvida de "humanizar" e, em certo sentido, desmedicalizar a morte, embora isso só possa ocorrer graças ao desenvolvimento de potentes técnicas analgésicas, manipulada pelos médicos. Trata-se sem dúvida de devolver o paciente à família, mas não sem antes transferir a ela recursos hospitalares e responsabilidades que nem sempre ela quer ou pode assumir. Procura-se, é certo, elaborar através da morte um sentido para a vida de cada doente, mesmo para os que não vêem nela sentido algum. Enfim, a ruptura que lentamente se processa não trata simplesmente de "liberar" da morte, antes silenciada e ocultada, mas de colocá-la em um novo regime discursivo, de articulá-la, como diria Michel Foucault, a novos dispositivos de poder e de saber.

O trabalho de Rachel A. Menezes não interessa apenas aos profissionais de saúde que elegeram os cuidados paliativos como atividade principal e que nele seguramente encontrarão subsídios valiosos para aprofundar sua reflexão e aperfeiçoar sua prática. Interessa sobretudo aos cientistas sociais, tanto aos que se ocupam de questões bioéticas e das transformações que atualmente sofrem os aparatos de poder que incidem sobre os corpos e sobre a vida, quanto aos que estudam as cosmologias ocidentais contemporâneas. Para estes últimos, o livro traz uma contribuição inestimável, uma vez que seu objeto se situa em um explícito ponto de ruptura em relação aos discursos e representações que cercam a morte. Os cuidados paliativos apresentam-se assim como signo de um processo de mudança cultural muito mais amplo e de contornos ainda mal definidos. A natureza desse processo, suas linhas de fuga e seus impactos sociais apenas começam a ser vislumbrados.