Eu Acho que Amo Você

Allison Pearson · Capítulo 9 de 27

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Eu Acho que Amo Você

Capítulo 7

7

 

O Superteste sobre David Cassidy dom inou nossas vidas nos dias que culm inariam em White City. Sharon e eu nos ocupam os com ele cada m inuto livre que tínham os. Arrastam os todos os nossos recortes de fotos e caixas de sapatos que ficavam debaixo da sua cam a; a cam ada de poeira neles parecia um a pele de cam urça. A prim avera estava com pletam ente m aluca naquele ano, precipitando-se por todo lado, com o diz a canção, e o tem po ficou tão quente que o pequeno aquecedor que cheirava a cabelo queim ado foi colocado de lado. As duas j anelas do quarto rosa de Sharon foram totalm ente abertas e pudem os tirar toda aquela roupa para usar nossas cam isetas de m angas bem curtas, aj oelhadas no tapete enquanto vasculhávam os centenas de recortes, alguns tão fam iliares quanto as fotografias de fam ília. Gostava de pensar que estávam os em preendendo essa tarefa com o um exército que está pronto para a batalha. É isso, esse é o m om ento para o qual vínham os treinando. Nossa devoção a David estava sendo posta à prova. Iríam os aniquilar nossas inim igas, com o Annete Sm ith, que disse à revista Jackie que tinha 9.345 fotografias de David. Huh. Nós que estávam os em posse de cada edição da revista Tudo sobre David Cassidy, incluindo a rara e lim itada edição especial de aniversário de abril de 1973, não tínham os nada a tem er para essas exibidas de Sevenoaks, onde quer que fosse esse lugar. A derrota era im pensável. A m ãe de Sharon nos trouxe um energético, bolachas de água e sal e queij o para m anter nosso ânim o.

O verão nos pegou de surpresa. As luzes na castanheira-da-índia trem ulavam à noite. O grupo de Gillian j á tinha deixado o corredor de ciências, indo para o ponto de encontro debaixo da castanheira, no final das quadras de esporte. Era o m elhor ponto para fingir estar ignorando os garotos. Com extraordinário desdém , assistíam os – ou deliberadam ente não olhávam os – enquanto os m eninos chutavam a bola por cim a das traves, abaixando e m ergulhando por sua posse e geralm ente fingindo ser Barry John ou Gareth Edwards, que tinham frequentado um a escola em Pontardawe, a poucos quilôm etros de distância, subindo a rua. No ano anterior, Gareth Edwards, nosso herói local, fizera a m aior pontuação da história do rúgbi no estádio de Cardiff Arm s Park. Muitos séculos depois, criaturas de galáxias distantes ainda estariam ouvindo os gritos de anim ação que nossa cidade produziu naquela tarde de 1973. Nosso país era pequeno e pobre, m as quando eu era criança sem pre nos sentíam os ricos porque hom ens com o Gareth Edwards estavam do nosso lado. Até o dia de sua m orte, m eu pai adorava lem brar o com entarista da partida, repetindo a anim ação e o orgulho em sua voz: “Se o m aior escritor da literatura escrevesse um a história assim , ninguém acreditaria.”

Então, secretam ente, assistíam os aos garotos do rúgbi, escondidas debaixo da cobertura das árvores. Eu ainda estava loucam ente apaixonada por David, contando os dias para vê-lo em Londres: o que eu não poderia saber é que as coisas em breve iriam m udar.

Durante o intervalo, Sharon e eu deitam os à som bra, apoiadas nos cotovelos, exam inando m inuciosam ente a revista que ela trouxe para a escola dentro de um a bolsa. Estávam os chegando bem perto. Apenas quatro respostas das 40 ainda nos confundiam .

– Tenho certeza de que vi algo sobre o brasão do anel de David em algum lugar – disse Sharon, folheando outra revista j á conferida do nosso cheklist principal.

– O que vocês ganham se vencerem ? – perguntou Olga, que tinha acabado de voltar com Angela da m áquina de bebidas e entregou-as com chocolate.

– Pet e eu vam os para Los Angeles passar algum as horas com David nos estúdios de film agem de A Família Dó-Ré-Mi – anunciou Sharon com total convicção na voz.

– Sai dessa. Vocês duas nunca irão para Los Angeles – Carol retrucou com um a desaprovação alta e prolongada. Ela estava tom ando sol, deitada de barriga para cim a a alguns m etros de nós; ela enfiara a blusa debaixo do sutiã para deixar a barriga à m ostra, a saia estava virada para dentro da calcinha e suas pernas am plam ente abertas. Os m eninos estavam olhando para ela com o o chacal observando um antílope.

– Nós vamos para Los Angeles – disse Sharon. – Só tem os quatro respostas para term inar.

Olga m e passou m eu chocolate. Tentei quebrá-lo exatam ente na m etade para dividi-lo com Sharon, m as o centro estava duro com o um a pedra. Continuei tentando, até que a cobertura se fragm entou, expondo o caram elo de dentro e espalhando lascas de chocolate por toda a m inha roupa. Lam bi o dedo e com ele peguei os pedaços de chocolate, um por um , antes de dar a Sharon o pedaço m aior.

– Mesm o que vocês acertem todas, estatisticam ente é m uito im provável que vocês vençam – disse Olga, que naquela época j á não era um a sonhadora.

– Claro, m ilhões de garotas vão participar – zom bou Carol.

Angela disse que sua prim a, Joanna, que vam os conhecer em Londres, iria participar.

– Esse não é um teste qualquer. – Sharon estava exasperada com a absoluta ignorância delas. – É com o um nível avançado em David Cassidy – ela explicou. – Mesm o que você pense que conhece David virado do avesso, ainda assim é m uito, m uito difícil. De qualquer j eito, Pet sugeriu um a coisa fabulosa para o desem pate. A revista disse que a fã que escrever o desem pate vencedor deve revelar um certo “Jenê”. O que é m esm o, Petra?

– O quê?

– Qual é aquele ditado? Eu não sei o quê?

– O que você não sabe?

– Francês. Você sabe. Jenê disse algum a coisa.

– Je ne sais quoi.

– É isso.

– Qual é a frase de desem pate de Petra, então? – Gillian rolou sobre a gram a, virando as costas para Stuart e o rúgbi. Com os cílios sem icerrados, ela vinha analisando sua presa, m as agora outra vez nós nos tornáram os seu interesse por um curto período de tem po.

– Não vou contar. – Sharon riu, com um lam pej o de desconfiança. – É segredo nosso. Petra e m eu. Vam os m andar vários cartões-postais de Beverly Wilshire para vocês.

– Quem é Beverly Wilshire? – Carol exigiu saber.

Os olhos de Sharon se cruzaram com os m eus e caím os na gargalhada. De repente m e dei conta do que era aquele sentim ento estranho com o qual estava lutando nom ear. Estava feliz. Não era apenas a castanheira-da-índia que estava cheia de esperanças. Íam os vencer o teste, m as, m elhor que isso, eu com eçara a ser aceita por quem eu era, talvez até gostassem de m im , um dos m elhores sentim entos que se pode ter. Será que Gillian percebeu? Será que decidiu ali, naquele m om ento, tirar isso de m im ?

Só porque ela podia.

Quando se com eça a aprender a tocar violoncelo, o som produzido é irritante e desafinado. O instrum ento é um desafio. Ele m achuca os dedos e deixa um verm elho vivo nas pontas. Eu chorava. Minha m ãe m e disse que eu tinha de perseverar. Sua tia Petra fora violoncelista em Berlim . Tia Petra tocava de m aneira tão bela, ela dizia, que fazia a fam ília toda chorar. Im agino com o seria fazer m inha m ãe chorar. A pele dos m eus dedos calej ou. Eu perseverei.

A srta. Fairfax era m inha professora de violoncelo. Minha m elhor professora, m as tam bém a m ais esquisita. Tinha cabelos grisalhos curtos e o rosto enrugado com pelos no queixo, e era um a daquelas pessoas tão velhas que fica difícil saber ao certo se é hom em ou m ulher. Ela dava aulas de latim tam bém , m as ninguém lhe dava ouvidos. Na aula, Jim m y Lo disse que a srta. Fairfax parecia um a tartaruga de peruca. Mesm o rindo com todos os outros, sabia que aquilo era um a traição terrível. Ela m erecia m ais de m im . Na verdade, ela m erecia tudo o que tivesse para dar. Diziam que a srta. Fairfax perdera o noivo durante a Prim eira Guerra Mundial, j á há tanto tem po que ela não poderia estar viva ainda. A srta. Fairfax tocou violoncelo em Londres por m uito tem po em um quarteto que se apresentou no Wigm ore Hall. Eu havia visto em um pôster em oldurado em sua casa. Jane Fairfax: violoncelo.

Depois que passei para o 8º. ano, aos 12 anos, ela disse:

– Agora, Petra, estam os entrando em outro país. – Ela não m encionou o nom e do país, m as assim que ela m e introduziu às suítes de Bach para violoncelo, acho que soube que era o país no qual queria m orar.

Antes de entrar para a turm a de Gillian, costum ava praticar pelo m enos duas a três horas por dia. Vinha m e esforçando bastante para a apresentação à princesa Margaret, e a srta. Fairfax sabia disso.

– Seu violoncelo não é um asno, Petra. É um cavalo de corrida. Quero ouvir esse violoncelo ressoar. Nesse m om ento, o pobre violoncelo está m uito taciturno e triste. – A srta. Fairfax fez um a careta trágica de palhaço tristonho.

Sua boca virada para baixo, com todas as rugas ao redor, parecia com aquelas bolsas fechadas por um cordão. Pensei: é assim que ela vai ficar quando estiver m orta.

Estávam os na pequena sala de prática de m úsica, dez dias antes de White City e exatam ente três sem anas antes da princesa Margaret. Atrás de seus óculos, os olhos azuis da srta. Fairfax tinham um brilho leitoso que lem brava o m árm ore. Fiquei im aginando se um dia ela j á havia sido bonita.

– Não consigo, srta. Fairfax – disse, infeliz. Queria que ela dissesse que eu não teria que fazer aquilo.

Ela fez um leve toc-toc, aj ustou m inha m ão no arco, puxou m eus om bros para baixo e para trás, e deixou sua m ão descansando ali por um instante. Sua m ão não tinha peso, seus ossos eram tão leves quanto os de um rato, m as os tendões ainda eram poderosos devido aos anos de prática. Veias azuis saltavam da pele m osqueada, com o fios elétricos.

– Petra, quero que suas costas fiquem tão firm es quanto um tronco de árvore e seus pés e suas pernas sej am com o raízes entrando no solo. Ótim o, bem m elhor. Dessa form a a cabeça fica livre e seus ouvidos podem escutar a sala. Durante a apresentação vai haver m uita distração e você terá de encontrar um ponto de calm a no saguão. E seu braço direito – assim –, o braço direito tem de ficar livre com o água corrente. Pode sentir a diferença?

– Sim , srta. Fairfax.

– Ótim o. Dessa form a seu corpo estará se m ovim entando naturalm ente, m as seus ouvidos e sua m ente estarão totalm ente focados. Sabe, Bach nunca deixava passar um a única nota. Você deve tocar cada nota conscientem ente.

Ela deve ter sentido m inha dúvida, pois colocou um dedo no m eio da m inha testa.

– Todas as notas estão aqui dentro – disse ela. – Agora, devem os usar nossa im aginação. Em m úsica, j am ais se diz a m esm a coisa do m esm o m odo duas vezes. Você entende, Petra?

Balancei a cabeça. Ela pediu que eu pensasse no título de um a canção.

– A prim eira que vier à sua cabeça.

– Você quer dizer um a m úsica norm al ou clássica?

Quando ela sorriu, achei ter visto a m enina. A que tinha dito adeus ao nam orado soldado há m ais de 50 anos e que nunca se casou. Ela se sentava com o Paciência em um m onum ento, sorrindo para a dor, com o na peça. Com o aquilo era triste. Sentar-se em um m onum ento de guerra com o nom e de seu nam orado escrito nele.

– Um a m úsica norm al está bem – riu a srta. Fairfax. – Qual é o título da m úsica?

– “I Think I Love You”.

– É um a m úsica popular?

– Sim .

– Perfeito. Então, na prim eira vez, tocam os sim plesm ente “I Think I Love You”, exatam ente com o é. “I Think I Love You”. Na segunda vez é “I think I love y ou”. Porque com certeza ninguém m ais am a você da m esm a m aneira. A terceira vez é “I think I love y ou”. O violoncelo está dizendo, hum m , talvez eu te am e, talvez não, vam os esperar e ver. E a quarta vez tocam os o quê, Petra?

– “I think I love y ou”?

– Certo. Certam ente ninguém m ais poderá am á-lo, não é? Ele é seu. Ou poderia ser, “I think I love y ou”, eu am o você, não é apenas gostar, é estar apaixonada. Ou, a últim a, “I think I love YOU”.

– Sim , e não há m ais ninguém – disse.

– Exatam ente – disse a srta. Fairfax com um breve bater das m ãos. – Boa m enina. Um a pequena frase e todas essas diferentes m aneiras de dizê-la e senti-la. Agora, quando tocar a peça, quero que tente fazer de cada nota um a pérola, depois faça de cada com passo um colar de pérolas.

Ela perguntou o que im aginava quando tocava Bach. Disse que pensava em um a história triste, talvez alguém m orrendo. (Não disse o que realm ente pensava, que era um a garota tentando trazer de volta um m enino que tinha ido em bora, incitando a m úsica a trazê-lo de volta para que ela pudesse abraçá-lo um a vez m ais; ele volta e a beij a, e eles caem nos braços um do outro e eles m eio que explodem de alegria e tristeza, e então m orrem de êxtase porque seu am or é perfeito dem ais para este m undo. Eu não poderia dizer isso a ela, não é?)

– Sim , perda. Luto. – A srta. Fairfax tirou os óculos e esfregou seus velhos olhos. – Mas podem os ficar de luto por pessoas que estão vivas, Petra. A princesa Margaret. Olham os para ela e pensam os que ela é linda, é a irm ã da rainha usando roupas belíssim as, chega na nossa escola em um Rolls-Roy ce e todos a aclam am e aplaudem . O que ela sabe sobre a tristeza?

A srta. Fairfax m e contou que a princesa Margaret certa vez am ou um hom em , o capitão Peter algum a coisa, e teve de desistir dele porque ele era divorciado. Ela teve que renunciar a ele porque era seu dever. A Igrej a decidiu assim .

Um a princesa de carne e osso com um coração partido. Essa era um a novidade eletrizante de outro planeta.

– Ela é feliz agora?

A srta. Fairfax pegou um pouco de resina e passou-a em m eu arco, esfregando um pouco m ais no com eço e no fim .

– Não, querida, não acho que ela sej a feliz.

O am or era algo tão difícil de aprender. Era sorte não ter de fazer um teste sobre ele.

– Agora do com eço, se você não se im portar. Bach não quer que você tenha m edo dele, Petra. Vam os lhe m ostrar respeito tocando cada nota com o você im agina que ele queria que fosse. Um a pérola de cada vez.

Com ecei a tocar, tentando fazer exatam ente o que ela havia dito, sentindo sua m ão m e guiar. Ela pediu que eu parasse depois de 20 com passos e disse que estava m elhor. Muito m elhor.

– Agora continue praticando assim . Pelos próxim os 25 anos.

 

Quando vi o quarto de Gillian pela prim eira vez, quis erguer um a bandeira branca.

– Certo, você venceu – disse bem baixinho.

Só de pensar em Gillian com seu quarto perfeito e beleza invencível, sentia vontade de m e render. Ao seu aparelho de som com a tam pa de vidro fum ê e alto-falantes separados, ao tapete branco felpudo, à óbvia superioridade da garota. Além disso, havia um a penteadeira com três espelhos na qual Gillian podia se ver de frente, de lado e de costas. Era do tam anho do nosso carro com pacto.

As som bras Mary Quant que dei de presente pareciam ter feito sua m ágica, j ustam ente com o pensei. Na fila do alm oço, um dia depois de seu aniversário, Gillian m e convidou para ir à casa dela ouvir discos. Minha m ãe ficou tão im pressionada por eu ter um a am iga que m orava na Parklands Avenue que fez m eu pai usar um a gravata para m e deixar na porta, m esm o não tendo sido convidado para entrar.

Sabe, eu vinha fantasiando sobre esse convite há m uito tem po. Im aginara conversas inteiras com Gillian e, de repente, descobriríam os o quanto tínham os em com um . Via nós duas sentadas em sua cam a, rindo j untas; experim entávam os suas roupas e as deixávam os espalhadas em m ontes pelo chão.

Ela enrolaria m eu novo corte de cabelo chanel para baixo com seu baby liss e daria um nó com sua echarpe em volta do m eu pescoço enquanto m e dava conselhos sobre o que m e caía m elhor. “Essa blusa verde fica fabulosa em você, Petra.” Eu nos via com o duas garotas de um a tira em quadrinhos de Jackie, com os balões aguardando para serem preenchidos.

Quando aconteceu de verdade, subitam ente não tinha certeza de que queria ir. Não era porque o quarto legendário de Gillian seria um a decepção – com o poderia ser? Eu seria a decepção. Eu falharia em engatar em um a conversa de m eninas, perm aneceria eu m esm a em vez de ser transform ada na Petra popular, engraçada e ilusória com quem as outras garotas gostariam de andar – m eninas com o Angela Norton, que ainda era considerada a m elhor am iga de Gillian, m as que parecia estar prestes a chorar quando ficou sabendo que eu estava indo lá para um lanche.

No fim das contas, eu não precisaria ter m e preocupado com o m eu lado da conversa. Tudo o que Gillian queria era falar de Stuart.

Eu achava que ele gostava dela?

Achava.

Mas por que Stuart gostava dela se ele poderia ter qualquer garota da escola?

Porque ela era incrivelm ente bonita e fabulosa.

Certo, m as eu tinha m esm o, m esm o 100 por cento de certeza de que ele gostava dela?

Não havia dúvidas quanto a isso. Ele seria um com pleto idiota se não gostasse, não é?

Mas Gillian disse que tinha term inado com Stuart na sexta-feira e j ogado seu m edalhão na rua porque ele quis ir longe dem ais e ela não se sentia pronta. Deixar que ele desabotoasse seu sutiã, tudo bem , m as o que eu achava sobre os m eninos pegando em sua calcinha? Isso faria dela um a vadia?

Eu realm ente não sabia.

Ah, então eu achava que ela era um a vadia.

Não, claro que não. Não achava.

Eu achava que Stuart iria ligar para ela para pedir desculpas ou ele iria com eçar a sair com um a garota do seu ano, com o Debbie Guest, que deixaria que ele fizesse qualquer coisa?

Eu achava que ele iria ligar para ela e pedir desculpas.

Então eu achava que ela deveria ligar para ele naquele m inuto e dizer que ela lhe perdoava, e dar a ele outra chance?

Não tinha certeza.

– É, acho que você tem razão – Gillian concluiu, feliz. – Vou ligar para ele agora. – Era inacreditável, tinha um telefone só para ela ao lado da cam a.

– É, eu tam bém senti sua falta, gato – ela sussurrou. Enquanto Gillian deitava em seu travesseiro rendado para o que obviam ente seria um a longa conversa, fiquei na beirada da cam a, com um pé enfiado debaixo de m im , o outro no chão, pensando quando seria um bom m om ento para levantar e dar um a desculpa para ir em bora.

– Não, eu não, você é. Sim , claro que eu quero. Garoto safado.

Com dificuldade, consegui encontrar os olhos de Gillian e apontei prim eiro para m im e depois para a porta, sinalizando m eu desej o de ir em bora, m as ela sacudiu a cabeça duas vezes com um tom sério. Sej a lá qual fosse o teatro se desenrolando entre ela e Stuart, aquilo obviam ente requeria um a plateia. Sem dizer um a palavra, voluntariam ente aceitei m eu papel. Gillian tinha três espelhos para se ver, e agora tinha quatro.

Fui m e arrastando, constrangida, para fora da cam a e fui até a estante de discos ao lado do aparelho de som , tentando ficar invisível. O prim eiro disco que peguei, um single, tinha o centro laranj a vivo. Era “Without You”, de Harry Nilsson. Eu m e lem brava de quando essa canção havia sido a núm ero um durante cinco sem anas inteiras. Cinco noites de dom ingo, noite das m ais pedidas, quando o acorde desesperançoso do piano saía da j anela de todas as casas, em todas as ruas do m undo todo. Na quinta sem ana, ficam os enj oados e com eçam os a pensar que a m úsica era lam uriosa e até um pouco chata. Toquei os acordes em m inha cabeça e m e lem brei o quanto era legal.

Aquele “não” do com eço era perfeito. Com o se Harry estivesse no m eio de um a conversa consigo m esm o e com eçasse a cantar em voz alta. Pensei na srta. Fairfax. Nunca toque o m esm o com passo da m esm a m aneira.

A risada de Gillian atravessou m inhas lem branças da m úsica e olhei para ela. Ela estava reclinando contra a cabeceira acolchoada da cam a, rodando o fio ondulado do telefone no dedo indicador, cuj a unha estava pintada com esm alte rosa-claro. Tudo nela era sofisticado. Ela parecia ser o tipo m ais caro de garota que j á existiu. Com o um m anequim de porcelana. Com paradas à Gillian, as outras garotas pareciam m al-acabadas e disform es, com o se todas nós tivéssem os sido feitas por algum ceram ista am ador do curso noturno.

De qualquer m aneira que se olhasse para ela, Gillian pontuava m ais alto – na nota para aparência, para porte, nota por sim plesm ente existir. Quando Gillian corava, parecia um ato de extrem a delicadeza, com o o desm aio de um a heroína de um a história rom ântica. Quando eu corava, era quente, verm elho e hum ilhante. Até o fato de seus seios não serem nada dem ais – eles ainda ficavam na faixa entre um a picada de abelha e um a m açã –, de algum m odo fazia com que ela parecesse m isteriosa e desej ável. O inchaço gracioso debaixo da blusa branca do uniform e de Gillian m e lem brava a plum agem de um cisne.

Ninguém ousaria cham ar Gillian Edwards de vaca de peito achatado, que foi o que Ian Roberts gritou para m im no inverno passado, quando corri atrasada para o cam po de hóquei. Um com entário que doeu com o um a ferroada, doeu m ais que o vento de inverno cruel do hóquei, que esfola nossas bochechas e j oelhos. Não im porta o quanto tentasse, não conseguia esquecer, pois toda vez que eu forçava o com entário para trás da m inha m ente ele surgia novam ente com o o brinquedo do palhaço com m olas que pula para fora da caixa. Vaca de peito achatado. Um com entário que m e fez perceber o quanto era solitária, antes de ser am iga de Sharon, pois não havia um a única garota com quem eu ousasse dividir aquilo. Nenhum a am iga que aj udasse a rir daquela grosseria e j untar-se a m im para especular sobre as trágicas proporções do m inúsculo e insignificante pênis de Ian Robert.

É m ais fácil ser bonita. Não é m ais profundo, não é m elhor, apenas m ais fácil. Descobri isso com o passar dos m eses durante aquele ano de 1974, quando consegui exam inar Gillian m ais de perto. A beleza a fazia preguiçosa, com o um cachorrinho m im ado no sofá que só é alim entado com a com ida m ais selecionada. As pessoas vinham prestar hom enagens à sua beleza e ela os aceitava com o se aquilo lhe fosse devido. Os m eninos faziam papel de bobo na frente dela. Calm am ente ela os assistia com seus belos olhos azuis.

Quando um a garota não é bonita, as pessoas dizem “Ah, você tem cabelos lindos, você tem olhos lindos, pernas m aravilhosas”. Toda m ulher quer um pedacinho de beleza para cham ar de seu; um tornozelo bem torneado que ela possa adm irar enquanto experim enta sapatos novos ou um a pele acetinada que os am igos elogiam ; m as a beleza de Gillian era com pleta, absolutam ente correta e por inteiro: tudo se encaixava. Ela não tinha olhos lindos, pernas lindas, cabelos lindos: ela era linda.

Na categoria personalidade, era visível que as notas de Gillian não eram as m elhores, nem de longe. Mas, com o aluna aplicada de testes de m últipla escolha, sabia m uito bem que a categoria da personalidade era prêm io de consolação, algo que ficava para as garotas que ninguém queria beij ar. Sentada naquele quarto, ouvindo Gillian se derreter ao telefone com Stuart e sentindo-m e com o um a boba, tão bebezinha sem um nam orado, percebi que queria m uito ser beij ada. Não queria estar na plateia. Queria ver o m esm o olhar do capitão Von Trapp e m A noviça rebelde, quando ele leva Julie Andrews para o terraço durante o baile, e sabe, apenas sabe. Ela desanda a tagarelar sem parar, nervosa com o ela só, pois tam bém sabe e pensa: Se eu mantiver minha boca em movimento, ele não conseguirá me beijar.

E ele com eça a cantar para ela, dizendo que ele deve ter feito algo de bom na vida, porque Julie Andrews, que consegue vestir seus sete filhos com as cortinas do quarto, sim plesm ente o adora.

Hom ens orgulhosos e arrogantes, hum ilhados por am or, presos debaixo da influência intoxicante desse sentim ento. Ah, sim , eu sem pre ficarei caidinha por esses. Esperava que ainda pudesse haver algum a chance com David; eu o veria pela prim eira vez, em pessoa, em apenas quatro dias em White City. Tinha certeza de que sem pre o am aria, m as não queria m ais beij ar o santuário de Sharon. O papel era grudento e frio. Queria um garoto de verdade que m e puxasse para ele e dissesse “Venha aqui, você”.

– O que você acha desse? – Gillian tinha finalm ente desligado o telefone depois de reatar com seu nam orado e estava inspecionando dentro do arm ário branco que cobria toda a extensão da parede oposta à j anela. Ela veio com um sorriso. O sorriso de Gillian fazia raras aparições, por isso fiquei im pressionada ao ver o quanto seus dentes eram pequenos e brancos, com o os dentes de um bebê.

– Aqui está – ela disse. – Experim ente esses, Petra. Seu tam anho é o 34, o m esm o que o m eu, não é?

Era um par de sapatos plataform a, m aravilhoso, em um tom de m arrom -averm elhado, o m esm o que vinha adm irando há pelo m enos dois m eses na vitrine da loj a Freem an Hardy Willis. Honestam ente, havia m ais chance de eu m e tornar esposa de David Cassidy do que m inha m ãe m e com prar sapatos com o aqueles, de saltos altos e m odernos. (Em bora ela sem pre usasse saltos altos, m inha m ãe preferia m e m anter com o tipo baixo e arredondado na frente, que m ais pareciam em panadas, m uito usados por m ulheres idosas com andadores.)

– Pode ficar com eles – disse Gillian, assim , com o se um par de sapatos que custava tão caro fosse apenas troco. Ela escancarou outra porta e com eçou a puxar para fora blusas e saias. Fiquei espantada em ver um pôster de um a form a de vida alienígena pendurado na parte de dentro do arm ário.

– Não sabia que você gostava do Bay City Rollers – disse, incapaz de disfarçar m eu espanto.

Gillian soltou um a risada.

– É m elhor estar preparada. Estej a aberta para outras opções quando se trata de garotos para am ar – ela disse. – David está de saída, não está? Ele será carta fora do baralho até o Natal. Os outros Rollers são m eio escrotos, m as Les McKeown, o vocalista principal, até que é bonitinho, não é? De qualquer j eito – continuou –, gosto de “Shang-A-Lang”.

“Shang-A-Lang”? Essa m úsica era terrível. Um a afronta para o rock’n’roll. Era essa a m esm a Gillian que um a vez se recusou a dorm ir na casa de Karen Jones porque Karen tinha um pôster de Donny Osm ond no teto do quarto e Gillian achava desleal dorm ir olhando para outro pop star?

Os heróis das outras pessoas eram sem pre um m istério. Mas trocar David por um grupo de garotos de rosto pálido e que usavam calça xadrez tão curta que parte da perna peluda e branca deles ficava à m ostra? Im possível. Enquanto ainda estava tentando processar sua traição, Gillian j ogou um m onte de roupas em m im . Havia um a j ardineira azul-celeste com o desenho de um a âncora verm elha na frente, dois vestidos psicodélicos com estam pas em form a de espiral, um laranj a e outro rosa; havia tam bém um cinto de corrente com anéis dourados e pedras preciosas falsas, um a j aqueta de seda rosa e um a gargantilha roxa com um broche de cam afeu. Era o tipo de roupa que as m odelos usavam na capa da revista Jackie. Era o tipo de roupa que você poderia cham ar de alta produção.

– Vista algum a coisa, rápido – ela ordenou –, Stuart está vindo com alguns dos garotos. Vão nos levar até a praia. Carol estará aqui em cinco m inutos.

Depois do alm oço na escola ainda não tínham os com ido nada; eu com era apenas um chocolate Twix porque estava econom izando dinheiro para o show. Estava desm aiando de fom e. A coisa m ais inteligente a fazer seria dizer que eu tinha de ir para casa, m as, aparentem ente sob algum tipo de feitiço, peguei o vestido rosa com estam pa em espiral e a j aqueta rosa, decidindo depois acrescentar o lenço para alongar m eu pescoço curto. No m aior espelho dos três, avistei um a figura desconhecida. Um a garota atraente com pernas finas com o varetas que term inavam em um par de plataform as sensacional. Eu m al a conhecia.

Gillian vestiu sua j aqueta e desligou a lâm pada que ficava ao lado da cam a. O quarto ficou escuro, com exceção de um a luz fraca que vinha do patam ar da escada, quando disse:

– Pet, estava pensando que podíam os entrar j untas para o teste de David Cassidy .

– O que você quer dizer?

– Bem , nós duas som os m ais inteligentes que as outras, de longe, e acho que faríam os um a ótim a dupla. Seria tão divertido se ganhássem os. Im agine nossa foto nos j ornais e tudo o m ais. O que você acha?

A sensação de ser querida por Gillian era tão nova e deliciosa que não a exam inara com atenção. A natureza daquele pedido m e pegou tão desprevenida que m e senti fisicam ente sem ar, com o no dia em que um a onda m onstro bateu no m eu peito e m e derrubou na praia de Three Cliffs Bay. Minha m ente estava zunindo. Fiquei tentando calcular em que m om ento ela planej ara aquilo. Senti a desolação de estar frente a frente com um oponente superior.

Ainda havia tem po, entretanto. Ali na m inha frente, ao m eu alcance, havia um galho com várias boas respostas penduradas. As respostas eram m ais ou m enos assim : “Não, não posso”, “Acho que vai ser im possível” e “Desculpe, m as Sharon e eu j á estam os j untas”.

Mais tarde, disse a m im m esm a que tentara alcançar o galho. A verdade é que a cilada fora tão rápida e ardilosa que a resistência soaria quase grosseira. Até isso não é bem a verdade. Por fim , com preendi que estava m ais apavorada de dizer não do que dizer sim . Há tanto tem po queria estar no lugar de Gillian. Agora estava am arrada a ela por um par de sandálias plataform a e condenada a dançar conform e sua m úsica.

– Não tenho certeza – disse, m eu tom de voz j á adm itindo a derrota. Foi tudo o que consegui em defesa das centenas de horas que Sharon e eu passam os m ontando nosso valioso arquivo e tentando resolver o Superteste de David Cassidy .

Por quanto você traiu sua adorável e gentil am iga, Petra?

Por um par de sapatos caros. Por causa de um a garota que acha que, depois do Natal, David Cassidy seria passado.