Eu Acho que Amo Você
Capítulo 4
4
Eram 17:40 e Bill estava olhando fixam ente para sua segunda cervej a. Eles tinham acabado de chegar ao bar, ele e Pete, há sete m inutos apenas, e ele j á havia pedido e consum ido o copo grande e m anchado da m esm a cervej a de sem pre. Ele não sabia qual era a bebida de sem pre: sua verdadeira bebida usual era uísque, quando tinha dinheiro para isso, ou um a cervej a Guinness quando estava com pouca grana, e até um gim -tônica, num a noite m ais quente de prim avera, com seus óculos escuros, quando não havia nenhum conhecido do sexo m asculino dentro de um raio de pelo m enos 15 quilôm etros. Mas agora, no bar Desenlatado, não querendo parecer diferente, ou não querendo ser confundido com um m auricinho, ele prestou atenção ao que Pete pedira e seguiu à risca o m esm o pedido. E a “de sem pre” acabou sendo nada usual: um a cervej a pálida e salgada que m ais parecia ser água do canal com espum a de suj eira industrial por cim a. Ele forçara aquilo abaixo, e depois um pouco m ais para tirar o gosto. Cada um pagou a sua; Pete não pagou a cervej a de Bill, e Bill, que facilm ente se deixava levar pela avareza, retribuiu a falta de gentileza. Bill, no entanto, havia com prado um pacote de batatas fritas, que estava agora entre eles e onde Pete, sem cerim ônia, enfiava a m ão. Ele parecia zangado com algum a coisa.
– É tanta besteira. É besteira dem ais.
Ele fez um a pausa para dar efeito ao que dizia. Bill, que estava com a cabeça em outro lugar, im aginou se deveria dar apoio.
– É, com certeza – ele com eçou.
– Certeza. Absoluta. E o pior é que elas nem sabem que estão fazendo isso. – Seus dedos m oviam -se com rapidez entre as batatas. – Você acha que isso é coisa de m enina?
– É, pode ser...
– Só pode ser. Elas se prendem a um detalhezinho e ficam com pletam ente doidas com aquilo. Hom em não faz esse tipo de coisa, pode crer. – Pete tirou os dedos das batatas e lam beu o sal. Ele tinha ido ao banheiro logo que entraram no bar, um a passagem rápida dem ais para ter dado tem po de lavar as m ãos, Bill pensou.
– Ah, não, não – Bill disse, e tinha resolvido concordar com tudo o que seu novo am igo dizia. Com o estratégia para criar em patia não era nada funcional, m as dava para o gasto até que ele viesse com algum a coisa m elhor. Eles fizeram um a pausa para beber em uníssono. Pete ofereceu a Bill as batatas, m as Bill recusou. Não havia sobrado quase nenhum a.
– Você tem razão – Pete continuou, com o se eles estivessem no m eio de um a discussão construtiva. – É coisa de m enina. Elas pegam um disco e o tocam um m ilhão de vezes, então o pai entra e m anda desligar, e quando ele bate a porta do quarto, a agulha da vitrola pula e um risco enorm e aparece na faixa, sei lá, “Could it be forever” que quer dizer “Pode ser para sem pre” ou algo do tipo...
– Poderia.
– Poderia o quê?
– “Poderia ser para sem pre.” É isso que significa o nom e da m úsica. – Bill estava em terreno firm e. Por um a fração de segundo ficou chocado por descobrir em si próprio um pouco de orgulho: o orgulho j usto de um hom em que conhece um assunto e não tem m edo de corrigir alguém que não saiba. Com grande afobação, esvaziou seu copo quase até a últim a gota.
– Cai fora! – Pete disparou, sem rancor, ou quase sem . – De qualquer m aneira, por uns 15 dias elas ficam totalm ente piradas, com o se alguém tivesse m orrido, odeiam os pais e não com em nada. E então, essa é a pior, elas se sentam com as am igas, que são com o elas ou piores, e incitam um as às outras até que a fera pega.
– Bicho.
– Com o?
– O bicho pega – disse Bill. – “Até que o bicho pega” ou “elas ficam um a fera”. São expressões diferentes. – Enquanto falava, podia ouvir sua voz dim inuindo e com eçando a m orrer. Pete deve ter ouvido, pois chegou um pouco m ais perto e disse:
– Então é verdade.
– O que é verdade? – Bill sorriu, tentando am enizar as coisas. Ele se serviu de um a batata.
– O que dizem , que você é um desses babacas da universidade.
– Quem disse? – Bill perguntou com um a curiosidade ingênua, m as Pete só torceu o nariz. A batata estava úm ida. Ele tinha sal nas gengivas. Não era a prim eira vez que ele sentia o terror de ser inglês: sentar-se em um bar, beber com alguém que não tem nada a ver com você, sendo questionado sobre sua classe social. Ele se perguntou, não pela prim eira vez, com o seria para David m orar na Califórnia. Mesm o que não fosse nem um décim o tão bom quanto ele fazia parecer em suas canções, m esm o que não fosse tão ensolarado e relaxado com o parecia nos film es, com certeza era m elhor do que isso.
Ele pegou sua cervej a, tom ou o que ainda havia no fundo, usando o líquido para enxaguar a boca. Enquanto fazia isso, sacudiu a cabeça com o se estivesse tentando se livrar de um pensam ento, com o um a vaca com m oscas nos olhos. Aqui estou, refletiu, form ado, m ais ou m enos adulto e com invej a de David Cassidy. Em seus três prim eiros m eses de trabalho na editora, Bill devotara a m aior parte de suas horas acordado para estudar a vida e o estilo de David Bruce Cassidy – ou, com o Bill o descrevera a Pete, “aquele filho da puta sortudo”. O xingam ento soava forçado na boca de Bill, ele sabia. Ele tinha que falar m ais rápido, com o um cavalo tentando saltar um obstáculo de quatro varas.
Filhodaputa.
É preciso produzir um som anasalado, com o em Dirty Harry ou The Dirty Dozen – dirty qualquer coisa – para conseguir o efeito desej ado, e a versão anasalada de Bill era péssim a. Ele nunca conseguira im itar sotaques, e seu sotaque am ericano era sim plesm ente patético; ele soava, e tam bém parecia, com um hom em tentando deslocar um pedaço de carne de trás dos dentes com a língua. Mas, por tudo isso, e apesar do m edo de parecer ridículo dem ais, ele adorava falar “filhodaputa”. Ele gostava de pronunciar essas palavras porque, pelo m enos por um segundo, m esm o que isso não o fizesse parecer am ericano, fazia com que ele se sentisse am ericano. E isso era obviam ente m elhor do que ser um babaca do bairro residencial de Tolworth, duas estações de trem depois de Wim bledon.
– Desculpe, continue o que você estava dizendo sobre o disco – tentou recom eçar. Ele podia ver Pete se debatendo entre a vontade de contar sua história e a necessidade desinteressante de com eçar um a briga. Por fim Pete suspirou, j ogou despreocupadam ente o pacote vazio de batatinhas no chão e continuou. A briga podia esperar.
– Com o estava dizendo, o disco está riscado e elas decidem que isso é um sinal. Com o se quisesse dizer algum a coisa. As pessoas não costum avam olhar para tripas de um anim al para prever o futuro? Os gregos e outros?
– Com certeza – disse Bill, deixando o pescoço balançar de m odo que sua cabeça pesada subia e descia com o a dos cachorros de brinquedo que ficam no lado de dentro do vidro dos carros. Quem teria forças para brigar em um a sexta-feira à noite, com o espírito exaurido depois de um a sem ana de trabalho árduo na revista para as fãs de David Cassidy ? Pete poderia ter negado que o hom em foi à Lua ou o Holocausto, e Bill teria concordado.
– Então elas decidem que o risco, que foi sim plesm ente causado pelo pai, é um a m ensagem de Cassidy. – Pete acharia m elhor ter quebrado seu copo e m astigado os cacos do que cham ar um pop star, qualquer um , pelo seu prim eiro nom e. Eles não eram am igos, ele e Cassidy . Ele não conhecia o canalha. Nunca tom ara café, ou o que quer que fosse, com ele. E não era só com pop stars e veadinhos do tipo. Era com qualquer hom em . Preferia usar os sobrenom es. Para Pete, a tragédia de Jam es Bond acontecera no ano anterior, quando Sean Connery dera lugar a Roger Moore. O australiano não contava.
– E porque o risco é naquela m úsica, algum a coisa “Forever” – ele prosseguiu –, significa que Cassidy está percebendo, ou algum a porcaria do tipo, está m udando de opinião. Em vez de “Pode ser” – ele olhou de relance para Bill, desafiando-o –, o risco significa: dane-se a possibilidade. Será. Você será m inha. Vocês, m eninas, sentadas com suas calças roxas da m oda e seus bichinhos de pelúcia ridículos. – Para Pete aquilo j á tinha sido oratória suficiente, e fez um m ovim ento de varredura, passando um a das m ãos sobre o rosto com o se estivesse varrendo a culpa. – Li isso – ele explicou. – Naquela porcaria de revista que fazem os.
– E Am sterdã – Bill disparou de volta. – Ele estava usando um as coisas verm elhas em toda a borda do casaco. – Ele achou que seria um a boa ideia copiar um pouco a indignação de Peter, m esm o não sentindo o m esm o. O que Pete considerava um insulto para a Inglaterra, para a m asculinidade, para seu certo conhecim ento sobre as m ulheres, Bill tratava com certa curiosidade. Mas ele não iria adm itir a tal ponto, portanto fingia concordar e dava corda. – Ele estava usando um macacão branco (Pete reagiu à palavra com um a dem onstração vigorosa no ar sim ulando um a m asturbação, a outra m ão segurava seu copo), e tinha uns enfeites verm elhos nas bordas. E, j uro, chegaram m ais cartas sobre aquilo... com o é que se cham a m esm o? Abotoam ento duplo?
Finalm ente os dois tinham algo para rir. Bill estava pegando o j eito, surpreendendo a si m esm o no processo, e continuou:
– E as cartas explicavam o significado do verm elho. Um a garota tirara a foto que tínham os e a delineou sobre um papel parafinado e enviou o traçado para inform ar que ele, na realidade, estava tentando escrever o nom e dela com os detalhes em verm elho.
– Cristo! – Pete se inclinou por algum m otivo, com o se estivesse sofrendo por toda essa bobagem fem inina. Seu nariz quase tocava o apoio dos copos.
– E outra pensou que o abotoam ento duplo, aquela coisa no casaco de Cassidy, era um dragão.
– O quê?
– Ela achou que o desenho parecia a cabeça de um dragão.
– O quê?
– E que significava o dragão galês.
– O quê?
– E ela é de Ponty pool, no País de Gales, por isso pensou que o m acacão de Cassidy havia sido feito para ela. – Bill esperou que Pete respondesse, com o alguém rebatendo um a bola de tênis, m as até Pete ficou em silêncio profundo. Rapidam ente ele term inou sua bebida, desceu da banqueta e foi em direção à porta. Bill deu de om bros e o seguiu. Ficaram parados do lado de fora do bar, em um a rua estreita de um a m ão só, onde o ar não era m uito m elhor do que o de dentro. A fum aça dos carros que vinha da rua encontrava o bafo da cervej a. Bill m al podia se m exer.
– Olá, com panheiros.
Um a figura corcunda estava de repente ao lado deles, sorrindo. Era Chas, o office-boy sem idade definida, apressado e falando entre os dentes. Ele parecia um velho elfo inglês da capa de um disco de rock progressivo.
– Estavam no Travado?
Esse era o apelido do escritório para o bar Desenlatado, derivado de um a rim a. Bill ficara sem entender por algum tem po, e Pete teve que soletrar para ele, aborrecido, com o se estivesse explicando um a som a para um a criança.
– Desenlatado, acabado, travado. Caram ba, pensei que fossem vocês os cérebros aqui.
Chas estava quase se dobrando agora, em m eio à ferm entação do anoitecer.
– Beberam todas?
– Sim , bebem os – Pete confirm ou. Ele tinha ainda m enos vontade de pagar um a cervej a para Chas do que para Bill. Ele não teria pago um a bebida a Chas nem depois de um m ês no deserto.
– Oi, Chas – disse Bill, baixando o olhar para ele.
– Já sabem da novidade?
– Não, o quê? – Bill tinha um fraco por catástrofes. – Caiu um avião? A rainha foi baleada?
– Que nada, não tem os tanta sorte – disse Chas, em itindo um breve ronco. – Notícia fresquinha. Está agendado. Parece que nosso sr. Cassidy estará exibindo seus m ilagres por aqui. White City , 26 de m aio.
– E daí? – Esse era Pete, com toda a am argura que conseguia reunir.
– E daí que tem os de anim ar ainda m ais as m ocinhas, é isso.
– O que você quer dizer com ainda m ais? Elas não precisam que ninguém as anim e, elas precisam é de um a m angueira para apagar o fogo delas – disse Pete. – Eu e Bill estávam os falando sobre isso. Você pode pedir qualquer coisa a elas, qualquer coisa m esm o, e elas darão, só para dar um a últim a olhada no seu adorado... – ele parou, irritado, seu corpo todo expressava desprezo – ... Daaaaay vid.
– Mas isso não é só um a olhada – disse Chas. – É Londres.
– White City ? – Pete ecoou. – O que ele vai fazer naquela espelunca?
– Quantas pessoas cabem em White City ? – Bill perguntou. – Vinte m il?
– Que nada, 30 m il, fácil, fácil – respondeu Chas.
– Com aquelas m enininhas, 35 m il – Pete em endou. – Aperte-as bem , esprem a as lindinhas até elas quebrarem . Elas vão adorar.
– E nós terem os alguns ingressos para oferecer com o prêm io? É essa a ideia?
– É isso.
Os três hom ens estavam parados na beira da calçada, sendo em purrados pelos bêbados e transeuntes.
– Pode im aginar? – Bill perguntou afinal.
– Não m uito – adm itiu Chas.
– Im agine ser um a dessas garotas. As que ganham nossos ingressos.
Os outros dois olharam com curiosidade para ele, sem saber ao certo se tinham gostado daquela ideia, que dirá de sua im aginação.
– Com o é? – Chas estava torcendo e esfregando a ponta do nariz. Estava ficando com sede, quase chegando ao ponto de usar o próprio dinheiro.
– Elas passam o dia todo em cidades com o Hartlepool, Worthing ou, ou...
– Fife. Já recebem os cartas de um as doidas de Fife.
– Então, um dia, elas são escolhidas para ver o cara em pessoa. Quer dizer, essas garotas j á se sentem “as escolhidas”, de qualquer j eito. Sentem que ele está esperando por elas. – Bill olhou para seus colegas. – Acreditem , eu sei, eu leio as m alditas cartas que elas escrevem . Esse é o m eu trabalho, não é? E agora elas vão ser escolhidas. Algum a garota poderá contar qual é a cor favorita de Cassidy, qual é a cor dos seus olhos, o que ele com e no café da m anhã, se ele tem sardas...
– Ele não tem . – Pete soou m ais firm e que o norm al, com o um advogado de defesa negando as acusações na corte. – Ele não tem sardas. Ele tem m anchas. Um m onte delas. Pode acreditar, cara, eu sei, eu apago todas elas. Esse é o m eu trabalho. – Ele olhou de relance para Chas, que riu na m esm a hora.
– Touché – disse Bill.
– Para quê?
– Não im porta. O ponto é que, se eu soubesse o signo do suj eito e pudesse ler m eu futuro em suas estrelas e aquela bobaj ada toda, abriria m eu envelope enviado pela revista, lam bido e selado por Chas – que nesse m om ento colocou a língua para fora –, e iria, sei lá, desm aiar. Ou m orrer.
Por um instante nenhum dos dois falou. Então Pete perguntou:
– Qual é, por falar nisso?
– Qual é o quê?
– O signo dele.
– Áries, m as não é isso que im porta. O que estou tentando...
– Á-ri-es? Você é m esm o um babaca! Eu sabia! – disse Pete.
A exultação de Chas era tanta que ele j untou os pulsos m agros e batia um contra o outro com o um m acaco tocando pratos. Eles tinham um colega de trabalho que sabia o signo de um pop star hom em : você podia se sentar do lado de alguém por cinco anos e não encontrar nada tão com prom etedor. Era com o ter descoberto que Bill dorm e com um ursinho de pelúcia ou penteia o cabelo de sua boneca.
Bill deixou que a alegria deles chegasse ao auge e depois dim inuir. Não havia m ais nada que ele pudesse fazer; eles iriam guardar aquela confissão e usá-la no futuro, sem pre que quisessem envergonhá-lo. A qualquer hora.
Bill sabia que a culpa era toda dele. Naquela m anhã, ele tinha term inado um a m atéria sobre signos com a cham ada: ESPELHO, ESPELHO MEU, QUEM É MELHOR ARIANO DO QUE EU? Bill desprezava astrologia, m as, para ser sincero, era difícil detestar algo que não existia. Era com o ler um a m atéria turística sobre os m elhores hotéis em Atlantis. Mas as garotas gostavam , ele tinha percebido; m esm o as form adas em filosofia ou história, que conseguiam destroçar a base da fé cristã enquanto com iam cam arão ao curry. Mesm o essas abriam a revista durante o traj eto de ônibus de volta para casa e pegavam um a caneta verm elha para fazer um círculo sobre a previsão que dizia que na próxim a terça-feira os sagitarianos sentiriam um a m elhora em sua vida pessoal, que poderia ser arriscada, m as que, se tratada com sabedoria, poderia produzir um a m udança im portante. Ruth, por exem plo, estava na transição entre Câncer e Leão, então ela lia o horóscopo dos dois e ficava com o que gostava m ais. Bill ficava espantado que o futuro do relacionam ento dependia de sua nam orada acordar se sentindo m ais com o um a leoa do que com o um caranguej o.
Nenhum a constelação se m ovim entava sobre a rua. Nenhum a estrela, m esm o que brilhante, conseguiria irradiar sua m ensagem de encoraj am ento e cuidado através do ar carregado de Londres. Bill se agitou.
– Bom , pessoal – ele disse –, j á chega. Vej o vocês na...
Mas ele nunca chegou a dizer o dia. Ele parou, na beira da calçada, olhando fixam ente atrás de Pete e sobre a cabeça de Chas: a vergonha era passado, seu foco estava em outro lugar. Descendo a rua vinha algo que não se via todo dia, pelo m enos não nas ruas estreitas que saíam da Tottenham Court Road, com um a brisa leve soprando páginas de esporte usadas na pista e chicletes grudados no m eio-fio. Era largo e plano e, enquanto passava, rosnava para as pessoas dos dois lados, que instintivam ente se inclinavam para trás para abrir passagem , erguendo seus copos na altura dos om bros. Para Bill, era com o se voltasse a ter 6 anos de idade, m ontado a cavalo, ao lado do fosso de um castelo, com um dragão vindo sobre a ponte, soltando fogo pela boca.
– Meu Deus – ele disse. – Um Lam borghini Espada.
Chas, que não estava im pressionado com a visão e tam bém não via m otivo algum para que todos estivessem , captou o som .
– Aí, viva, Lam borghini Espady a – ele cantou para ninguém em particular.
– Isso não é um carro – Pete finalm ente falou. – É um avião de carga. – Sua respiração saiu acelerada enquanto falava, e Bill percebeu que ele provavelm ente tinha ficado sem ar.
– É um S2 – Bill afirm ou.
– Pode até ser um S3. Dê um a olhada no volante quando ele passar. Foi atualizado no ano passado. – Pete e Bill vinham procurando algo que pudessem ter em com um há algum as sem anas, algo que pudesse levá-los além do hábito de criticar o trabalho, e Bill, que tem ia a falta de am igos m ais do que qualquer outra coisa, estava desesperado para estabelecer algum ponto de contato. Agora haviam encontrado.
– O que é toda essa asneira de S2, S3? – perguntou Chas.
– Bom , o m otor é quase o m esm o, m as m udaram algum as coisas desde 1968, e só é possível saber olhando por dentro – Bill disse.
– Quem são eles?
– Lam borghini. – Bill estava sinceram ente espantado. Ele pensava que aquela paixão era óbvia, infecciosa e com partilhada por todos os hom ens. – Você não reconhece o carro?
– Não enche.
Pôde ouvir risadas abafadas vindo detrás dele. Duas m ulheres com copos de gim -tônica na m ão estavam ouvindo. Quando Bill olhou para elas, desviaram o olhar.
– Olhe para isso. – Pete cham ou. – É tão baixo.
O carro estava quase ao lado deles agora, m ovendo-se com cautela entre as pessoas dos dois lados da rua. Eles quase ficaram em posição de sentido, com o se estivessem abrindo cam inho para um carro fúnebre. A capota m al chegava ao peito de Bill, e ele teve de se abaixar para olhar para dentro. Não conseguiu ver o volante, m as viu de relance um a costeleta e um suéter de gola rolê que com binava com o interior crem e. Chas, bem m ais baixo, tam bém o vira, e para ele estava decidido. Ele se esticou, fazendo beiço, e disse em voz alta: “Filhinho de papai.” Bill sabia que estava certo, m as não conseguia tirar os olhos do carro. Assim que a aglom eração se desfez, o carro ganhou velocidade, o ronco se transform ou em rugido, ele virou e não foi m ais visto.
– Nunca tinha visto um antes. – Pete ficou olhando para a rua vazia.
– Eu tam bém não – Bill ecoou.
– Então com o vocês sabem sobre o interior e toda aquela papagaiada?
– Li na revista Autocar. Eles fazem um a m atéria especial sobre a Lam borghini a cada dois m eses – Pete explicou.
– Cara, é m esm o, você viu aquela parte em que com param o Miura P400SV e a Ferrari Day tona?
– Incrível. Genial. Mas detestei quando tiraram os “cílios” dos faróis dianteiros do SV. Quer dizer, sei que tem um carburador m elhor, m as os cílios eram a m elhor parte.
– Eu sei. – Bill tinha m ais a dizer, m as enquanto estava falando ficou consciente de ter passado do lim ite. Pete não estava nem aí: no que lhe dizia respeito, ele tinha testem unhado um m ilagre, e ficaria à vontade para contar a todos sobre isso pelo resto dos seus dias, m as Bill tinha reparado nas duas m ulheres torcendo o nariz de perplexidade e desdém .
– Que m alditos cílios são esses? – Chas ainda estava ali, m udando o apoio de um pé para outro com o se precisasse fazer xixi, m as tudo o que precisava m esm o era de um a bebida. Bill estava desconfortável. Ele falava sem interesse, tentando obter de volta o favor perdido:
– Eh, é algo que tem em volta do farol do Miura. O m odelo anterior tinha essa coisa preta na parte de cim a e em baixo, sabe, quando as m ulheres pintam os olhos, e... – Ele baixou a voz. Chas não respondeu, pelo m enos não com algo que se parecesse com um a palavra. Ele contraiu a boca e fez um som de cuspe, com o alguém expulsando um caroço de m açã. Então ele abaixou a cabeça, virou-se e desapareceu no m eio da m ultidão perto da entrada do bar.
Pete tam bém estrem eceu, com o se estivesse saindo de um transe, e disse com entusiasm o:
– Bem , não posso ficar m ais. O j antar está na m esa. Até segunda-feira. – Pete subiu a rua na direção do m etrô. Depois de um m inuto ou m ais, Bill, que não se despediu, seguiu para o outro lado, procurando nos bolsos por um cigarro que ele sabia não ter. De repente ficou triste, m as não sabia dizer por quê. Era com o ser um a criança, incapaz, por um segundo, de encontrar seus pais na m ultidão. As duas m ulheres observaram quando ele saiu. Um a delas, a que tinha os cabelos preso no alto, retirou do fundo do copo um a fatia de lim ão e com eçou a m ordiscar.
– Com o eu disse – falou para a am iga. – Hom ens.
Ele deveria sair com Ruth nas noites de sexta-feira. As sextas eram as noites das nam oradas e curry, m as ele não fora capaz de encarar. Hoj e não. Ruth estava anim adíssim a com o novo em prego dele: j ornalista de rock. Bill não estava m ais desem pregado e não era m ais m otivo de constrangim entos, pegando com ida ilicitam ente da geladeira do apartam ento que Ruth dividia com Lesley e Judith, duas advogadas estagiárias, no quarteirão das m ansões no bairro de Bloom sbury. Além disso, Bill agora fazia algo que deixava Ruth orgulhosa. Para um a assistente de um m useu, que passava seus dias tirando cópias de desenhos de túm ulos anglosaxônicos enquanto sonhava com algum a coisa m enos m orta, era incrível poder dizer as palavras “nam orado” e “Mick Jagger” na m esm a frase. Bill nunca a vira tão orgulhosa e feliz. Era repugnante.
É claro que ele j am ais decepcionaria intencionalm ente a garota que deveria am ar, m as, quando Ruth pediu m ais detalhes sobre seu trabalho incrível, ele ficou fisicam ente incapacitado de pronunciar as palavras Tudo sobre David Cassidy. Até aquele m om ento, ele não percebera que a única coisa que tem ia em relação às m ulheres era decepcioná-las. Pior do que a raiva, pior ainda do que as lágrim as, a decepção fem inina tinha um poder dram ático para fazer os hom ens se sentirem inúteis.
Quando você perguntava o que havia de errado no dia do aniversário delas e a resposta era “nada não”, isso era grave. Por algum m otivo, “nada não” era m ais tem ível do que um sim ples “nada”. Um longo aprendizado com o irm ão m ais novo de duas garotas m ais velhas, que o tratavam com o um bichinho de estim ação ou o m andavam parar de encher o saco, não preparou Bill para um a nam orada que esperava que você lesse a m ente dela m esm o que, frequentem ente, parecesse que nem m esm o ela sabia o que tinha em m ente.
Ruth era bastante gentil por ficar feliz por ele com relação ao trabalho. Mas ele suspeitava que, m ais que tudo, ela finalm ente achava que tinha valido a pena investir em Bill com o seu nam orado. O bobalhão que ganhara o apelido de “Meia” de suas colegas de apartam ento por causa do rastro de chulé que ele deixava por onde passava subitam ente se transform ara em alguém a ser considerado. Lesley e Judith estavam noivas. Um a delas de um engenheiro civil, a outra de um com erciante de vinhos que trabalhava em um a região residencial nobre de Londres, Parsons Green. Ele vira Ruth se esforçando para ser educada durante o entusiasm o das colegas com o anel de noivado de Lesley – um anel de safira cravej ado por enorm es diam antes.
– É de ouro branco – contou ela. – Foi feito em Hatton Garden. Escolheram os diam antes e tudo o m ais. – Por isso, quando chegou a hora de contar a Ruth sobre seu trabalho, Bill preferiu usar as palavras “j ornalista” e “indústria da m úsica”. Não era m entira, m as tam bém não era exatam ente um a verdade.
Bill pensou que haveria tem po de sobra para lhe contar direito m ais tarde. Mas na noite em que aceitou a oferta de Roy Palm er, Ruth preparou para ele um a recepção de herói quando voltou ao apartam ento. Ela havia preparado um frango inteiro com batatas e, de sobrem esa, pêssegos assados. Ele só conhecia pêssegos fatiados com leite condensado. Depois de tudo, fizeram sexo com o j am ais haviam feito antes; se esse não era exatam ente o tipo de sexo que as estrelas de rock fazem , ou m esm o o tipo que ele pensou que faziam , então certam ente era o tipo que ele pensou que ela pensou que eles faziam . O que era estrela de rock o suficiente para ele. Ele se sentia m agnífico, estava nas nuvens. Então, depois disso, Bill não estava com tanta pressa em contar a Ruth com o estava passando seus dias. Quando seria o m elhor m om ento para revelar à sua nam orada que seu trabalho era escrever cartas flertando com garotas de 13 anos apaixonadas?
Nunca seria o m elhor m om ento.
As m entiras que Bill contava eram um a carga pesada sobre ele, m as pior ainda era pensar em todas as m entiras que ele teria que contar em um futuro próxim o, m entiras m aiores para encobrir as m enores. Bill estava coberto até o pescoço por cam adas e cam adas de falsidade, com o se estivesse em um dos túm ulos do trabalho de Ruth no m useu. Ele j á havia m entido sobre estar escrevendo sob um pseudônim o quando Ruth pediu para ver um a de suas críticas, que ele não havia escrito, para um a revista que ele não trabalhava. Além do m ais, havia a am eaça constante da descoberta. O m useu ficava a dez m inutos a pé da Worldwind. Ruth poderia facilm ente aparecer durante seu horário de alm oço. Som ente o retrato m onstruoso que ele havia pintado de Roy Palm er – um a m istura de Reggie Kray, um crim inoso e lorde Beaverbrook, escritor e político influente – havia m antido a nam orada afastada até agora.
Hom ens que levam um a vida dupla devem sentir satisfação com isso; caso contrário, por que arriscariam ? Essa era a teoria, m as Bill era a triste exceção: sua vida dupla tinha todos os perigos de ser descoberta, m as nenhum dos prazeres práticos. Poderia haver coisa m ais hum ilhante do que ter David Cassidy com o sua am ante?
“You don’t know how m any tim es I wished that
I had told y ou.
You don’t know how m any tim es I wished that
I could hold y ou.”
(Você não sabe quantas vezes desej ei ter te contado. Você não sabe quantas vezes desej ei ter te abraçado.)
Bill se viu cantando baixinho. Caram ba. Era esse o problem a com as m úsicas de Cassidy. Um a vez que entravam na sua cabeça, eram com o chiclete. Só m uito depois de ter esquecido toda a poesia de Tenny son e Keats é que ele seria capaz de dar um a chance à canção “How Can I Be Sure”.
Houve um m om ento desagradável, duas sem anas atrás, quando ele fora ao apartam ento de Ruth para pegá-la para ir a um a festa, e dessa vez – o que é incom um no caso dela, pois Ruth é bem m ais pontual que ele – ela não estava pronta.
– Me dê cinco m inutos – dissera ela, o que queria dizer 15. Então ele m atou o tem po na sala de estar das m eninas, leu a lom bada dos livros que estavam na prateleira, zom bou de alguns títulos e depois se sentiu culpado pela zom baria. Por que um a m ulher não poderia ler Jonathan Livingston Seagull se quisesse? Era um país livre, certo? Contanto que não fosse sua m ulher. Por favor, Deus, Ruth não. Ruth, isso não.
Então, de um dos quartos, um a voz com eçou a cantarolar: “I’m ... j ust... a...” As notas subiram e, quando chegaram ao m áxim o, um a segunda voz j untou-se à prim eira, vinda do banheiro. Eram vozes distraídas, de cantoras alegrem ente ocupadas com algum a outra coisa, colocando um brinco na frente do espelho, nada m ais que um cantarolar despretensioso. Lesley e Judith tam bém estavam se aprontando para sair, para um a noite de orgias com o engenheiro civil. E no m eio da cantoria um a terceira voz cortou, bem fora de tom :
– A pessoa que está cantando essa m aldita m úsica pode fazer o favor de parar agora?
Bill ficou paralisado de horror, ouvindo Ruth com o se nunca a tivesse ouvido gritar antes, com o se m al a conhecesse.
– Posso aguentar quase tudo. Posso aguentar Brotherhood of Man. Ou Terry Jacks em “Seasons in the Sun”, e suporto até Dem is Roussos, se você m e com prar um kebab. Mas não vou aguentar David Cassidy no m eu próprio apartam ento, m uito obrigada. Mesm o.
Isso se seguiu, obviam ente, de estrondosas gargalhadas das outras garotas, em polgadas por terem descoberto um ponto fraco na am iga. Bill, entretanto, não deu risada. Ele não viu graça na explosão contra David. Olhou para o futuro e cobriu os olhos.
VOCÊ PODERIA SER A ESPOSA DE DAVID?
David é o prim eiro a adm itir que possui hábitos incom uns, coisas que ele gosta e que não gosta, que certam ente levariam algum tem po para alguém se acostum ar! Sim , aquela que se casar com David terá de gostar de m uitas coisas que ele gosta, ou ao m enos entender algum as coisas que ele faz – e que podem ser um pouco estranhas!
Por exem plo, não é raro David estar quase pronto para ir para a cam a quando
de repente veste suas roupas de novo! Por quê? Para um passeio à m eia-noite, é claro!
Os encontros habituais de David podem ser considerados estranhos. Pode ser
com um para David ligar para você às 6h da m anhã, m uito entusiasm ado. Vam os pescar!
Portanto, se você se tornar a sra. David Bruce Cassidy, pode ser acordada às
3h da m anhã com o som da guitarra.
David tam bém é detalhista em relação ao m odo com o sua garota se veste ou
se arrum a para ele. Ele não suporta spray para cabelos – gosta de deslizar as m ãos sobre seus cabelos sem aquela sensação grudenta. E quando ele pensa na esposa que terá um dia, ele a im agina entrando na cam a com um roupão felpudo, o rosto recém -lavado e um lindo sorriso – NÃO pij am as de flanela, com a cabeça cheia de bobes e o rosto coberto de crem e!