Eu Acho que Amo Você
Capítulo 18
18
– Você está sozinho? – Petra perguntou. – É só você? Pensei que fosse haver m ais pessoas.
– Eu tam bém – disse Bill.
Eles estavam de pé em frente à m áquina de café no saguão da British Airway s. Já fazia um bom tem po que Petra não viaj ava de avião e tinha se esquecido da quantidade de viaj antes nos balcões do check-in, das longas filas de ansiedade trêm ula, todos prestes a reclam ar. Abrindo cam inho, ela descobriu que o desej o por um café, aqui do outro lado, era praticam ente incontrolável. Café e um lugar para se sentar. Sharon, por outro lado, que havia viaj ado de avião só duas vezes e nunca tinha estado em um a sala de espera de aeroporto, estava no céu. Estava com endo um a fatia de queij o crem oso em um biscoito cream cracker, estudando com devoção os rótulos de três m arcas diferentes, com o um a historiadora da arte exam inando litografias. Eram nove horas da m anhã.
Bill esperou até estarem sentados. Mexeu seu chá, bebeu e dirigiu-se a Petra enquanto ela erguia sua xícara até os lábios:
– Sim , eu ia m andar um dos nossos escritores para cobri-la.
Petra quase engasgou, e um a parte do café respingou no pires.
– Desculpe – Bill disse. – Vou com eçar de novo. O que estava tentando dizer é que pedi a um escritor da nossa equipe, um cara m uito inteligente cham ado Jake, para vir com você e escrever a história. É o cara ideal, fez um a cobertura m uito boa para nós no m ês passado sobre Em m y lou Harris.
– A m ulher m ais bonita do m undo – disse Petra.
– Oh, sim . A m aior parte das m usas sobreviventes daquela época parece, com o posso colocar... um pouco acabada. E ela parece ter passado pela vida sem nenhum arranhão. E sua voz tam bém . Incrível. Bom , m as, quando eu falei sobre você, e, e... toda aquela coisa com David Cassidy , ele aceitou na hora. Disse que era um a ideia brilhante.
– Então onde ele está?
– Ele acabou pulando fora. Eu m encionei que estava pensando em fazer, bom ... o aprofundam ento por trás da m atéria. Com o ponto de vista do m ais velho. Ele disse: então vai fundo, chefe, faça a m atéria toda.
– Eles cham am m esm o você de chefe?
Bill fez um a careta. Ele quebrou um biscoito em dois e m ergulhou m etade no seu chá. Petra ficou feliz por sua m ãe não estar ali para ver isso.
– Infelizm ente, sim , e isso sem pre m e faz sentir com o se fosse rugir para eles a qualquer m inuto. Porque na realidade sou o chefe m enos... m andão que existe. Sei que é um pesadelo trabalhar com igo, m as eu não grito, atiro coisas ou am eaço. Eu só faço m uitos rabiscos enquanto penso, e m udo de ideia. Se bem que gram peei m eu polegar em um bloco de folhas A4 na sem ana passada.
– Ai!
– Doeu m esm o. E você?
– Eu o quê?
– Você é do tipo m andona? Você não parece, m as...
– Bom , eu sou organizada.
– Não é a m esm a coisa. Quem você organiza?
– Minha filha – disse Petra. – E eu. Quero dizer, m eus dias. Eu costum ava organizar m eu m arido, m as ele se organizou em encontrar outra pessoa.
– Idiota. – Bill deixou escapar.
– Quem , eu?
– Não, ele.
– Nem todos os hom ens são idiotas, sabe, só porque deixam as m ulheres. – Petra se serviu de m ais café.
– Bom , eu deixei – Bill confessou. – Porque não sabia pelo que ficar. Ou por quem , para falar a verdade.
– Pelo m enos você não saiu para m orar em um barco com um a pessoa que tem a m etade da sua idade.
– Caram ba, foi isso que ele fez? Ele é m esm o um idiota.
– Então não teve barco para você.
– Não, e não tinha outra pessoa tam bém . Eu sim plesm ente fui. Minha habilidade em organizar a louça na m áquina estava se tornando a coisa m ais interessante em m im . Pensei em m e profissionalizar.
– Eu tam bém .
– Em m áquina de lavar louça?
– Não, violoncelo.
– Ah, violoncelo, m uito m ais fácil. Você não precisa de sabão.
Petra sorriu.
– Não, usam os resina. – Ela olhou para Sharon, que estava m ais adiante, ocupada colocando um chocolate KitKat em sua bolsa.
– Por que desistiu?
– Oh, por causa do m eu m arido, eu acho.
– Não, ele não obrigou você a fazer isso, né? Ninguém faz isso hoj e. Não estam os em 1913.
– Não, m as ele é violoncelista tam bém . E é m elhor que eu.
Bill suspirou:
– A m odéstia não vai levá-la a lugar algum .
– Mas é verdade. Ele é um astro, e eu... Quer dizer, ele é com o um planeta e eu sou a lua, girando em volta. Então desisti e fui para m usicoterapia, onde ainda uso, você sabe...
– Seus dons.
– Eu ia dizer habilidades. Ele tem um dom , eu tenho habilidade. De qualquer m aneira, não é possível ter dois solistas em um a casa. As pessoas pensavam que nós fazíam os dueto o tem po todo, tocando m úsicas lindas e tal, m as não é assim . Quer dizer, não era. Era m ais com o... com o... – Petra, não querendo continuar, ficou aliviada de ver Sharon se aproxim ando, puxando sua bagagem de m ão. Ela estava acenando com um folheto.
– Pet, podem os fazer um a m assagem no voo. De graça. – Ela afundou em um a das cadeiras e bufou, com o se estivesse no fim de um longo dia, e não no com eço. – Não consigo decidir se faço um a m assagem no pescoço ou a facial com ervas arom áticas. Olha só, aqui diz: “lim pa e refresca com óleos sutis de lavanda e sálvia para rej une, renuj ...”
– Rej uvenescer?
– Isso, brilhante, “rej uvenescer e ilum inar sua aparência, perm itindo que você chegue no seu destino pronta para curtir”. É perfeito para nós, não é? Não sei você, m as eu não dou um trato na m inha aparência desde 1981. No casam ento real. Só que na época eu fiz um m aldito tratam ento para o rosto apenas para assistir à TV. – Ela olhou para Petra, depois para Bill. – Sobre o que vocês dois tanto conversam , hein?
– Música – disse Bill.
– Que m úsica, a de David?
– Não, a de Petra. Ela estava dizendo que não tem talento.
– Eu... – Petra com eçou.
– Ah, não dê ouvidos a ela. Ou m elhor, dê ouvidos a ela quando ela estiver tocando, m as quando ela com eça a falar com o se fosse pouca coisa... Você não m uda, não é, Pet? Ela nunca faz propaganda de si m esm a.
– Então ela é tão boa com o penso que é?
– Ela é brilhante, é m esm o. Melhor do que o m aldito m arido, isso eu garanto.
Petra ficou sentada, o rubor subindo por seu rosto. Ela detestava ser o assunto da conversa, m esm o sendo elogiada, principalm ente quando estava presente. Quem gosta disso? Artistas, talvez, m as não um a pessoa norm al.
Anunciaram o voo deles. Sharon e Petra se levantaram na m esm a hora e com eçaram a j untar seus pertences. Bill ficou onde estava.
– Eu esperaria alguns m inutos se fosse vocês – ele disse. – Estão tentando nos arrebanhar. Só vão abrir os portões daqui a uns 25 m inutos.
– Não quero perder o avião – disse Sharon, seriam ente preocupada.
– Não vam os perder, prom eto. De qualquer m aneira, estam os perto do portão.
– Bom , a com ida aqui é de prim eira – Sharon concordou, sentando-se novam ente.
– Tudo incluso, m adam e – Bill brincou, com seu sotaque am ericano ruim . Petra se sentou tam bém , incerta.
– Você sem pre viaj a de avião? – Sharon perguntou. Se outra pessoa tivesse feito a m esm a pergunta, Petra pensou, haveria um a ponta de ressentim ento, com o um a m ancha, m as Sha não tinha ressentim ento na alm a. Não agora, nem 25 anos antes. Ela levava o m undo à sua própria m aneira, rindo alto do que lhe parecia estupidez, esperando pacientem ente pelas alegrias que pudessem surgir. Sem pre, em qualquer fase da vida, que Petra ouvia a expressão “ver o lado bom das coisas”, pensava em Sharon com 13 anos, aj oelhada no tapete da sala de casa, esvaziando um pacote de balas sobre um a página da TV Times, fazendo a divisão: um a pra você, um a pra m im ...
– Eu viaj o bastante de avião, sim , a trabalho.
– Você deve ficar entediado, não fica?
Petra observou Bill. Ele sorriu para Sharon e disse:
– Sabe de um a coisa? Não. Algum as pessoas ficam , e é claro que não é tão bom ficar confinado em um a lata de m etal, m as ainda sou um pouco garoto para achar que entrar em um a lata de um lado e sair do outro, em Nova York, oito horas depois, é m eio que um truque de m ágica.
“Quando você decola, é m uito, sei lá, libertador, deixar toda a rotina para trás. Você sabe que nas próxim as horas ninguém vai bater à sua porta, perguntar sobre o esboço da capa da revista ou te chatear por não ter feito um a ligação. A única coisa chata, acho, é não com partilhar essa libertação. Norm alm ente, sou só eu. Um a vez tive de ir a Hong Kong, esqueci m eu livro no trem e tive de correr para pegar o avião. Passei 15 horas lendo a revista de com pras do voo. Agora não sei nada sobre Ray m ond Carver, m as sei tudo o que é preciso saber sobre alm ofadas do 747 e qual a diferença entre Diorissim o e Miss Dior.
– E então, qual é a diferença?
– Hum m , um vem com um vaporizador fácil de usar, um a borrifada j á é o suficiente...
Sharon caiu na risada, pegando a m etade do biscoito de Bill que não fora m ergulhada no chá.
– Bom , agora você tem a nós, certo? Então não vai ficar entediado.
– Exatam ente.
– Aí vai sua libertação.
– Exatam ente. Muito obrigado.
Petra observava os dois se divertindo. Parecia tão fácil quanto um j ogo de pingue-pongue: indo e vindo, fácil, sem rancores, quase sem sentim entos... Por que era sem pre m ais difícil para ela – cautelosa, forçada, e com dificuldade para fazer um a boa conversa fluir? Por que ela nunca conseguia j ogar o j ogo? E não havia passado despercebido para Petra a habilidade com que Bill evitara o perigo. Se ele tivesse adm itido que sim , ficava entediado com as viagens (e devia ficar, com o todos os executivos), teria interferido no prazer que Sharon estava tendo nesse dia. Não que Sha fosse se im portar, ou m esm o notar, m as para ela a viagem era algo especial, um acontecim ento único e hilário. A coisa certa a fazer, o m elhor, seria respeitar seus sentim entos e fingir que estava tudo perfeito. Foi o que Bill fizera e, pela segunda vez nas últim as sem anas, Petra se viu pensando: gosto dele.
– Qual era o livro que você esqueceu no trem ? Carver algum a coisa – ela perguntou.
– Ray m ond Carver. Contos. O m elhor. Perfeito para ser esquecido no trem .
– Acho que li alguns contos dele em um a coletânea. Sou tão inútil, se gosto de algum a coisa lem bro da história, dos personagens e de detalhes bobos, com o a cor do batom de alguém , m as esqueço quem escreveu.
– É o que m enos im porta. Batons são m uito m ais im portantes.
– Qual era o título? Do livro que você perdeu.
– Iniciantes. Mas o nom e original é What We Talk About When We Talk About Love [Sobre o que falam os quando falam os sobre am or].
– Ah, isso eu posso dizer – Sharon afirm ou, pegando um a m açã de um a tigela sobre a m esa e esfregando-a na m anga da sua blusa. – As pessoas apaixonadas não ficam por aí conversando sobre o am or, tipo “oooh, estam os tão apaixonados”, ficam ? Isso é perda de tem po. Conheci um garoto um a vez, e tudo o que conversávam os era sobre o que ele detestava na escola e que tipo de sorvete com binava com que refeição; por exem plo, se você com e frango assado, tem que tom ar sorvete de rum com uva-passa, certo?
Bill gostava de ouvir o m odo com o a voz de Sharon subia ao fim de cada frase.
– Um a vez passam os a tarde toda falando sobre com o poderíam os viver no espaço. Eu perguntava com o faríam os para fazer a agulha ficar no disco em um lugar onde não havia gravidade, se quiséssem os ouvir um a m úsica. Ele estava preocupado sobre com o dar a descarga, sabe o que isso significa, não é? Todo o xixi flutuando. – Bill e Petra se entreolharam , tentando não rir. – Então term inam os, certo, e só depois pensei, um dia, quando estava no correio: “ooh, ele era m aravilhoso, aquele Gareth.” Acho que eu o am ava e nunca disse isso. Nunca soube. Nem ele, pobrezinho. Tudo o que fazíam os era conversar. Não sei o que aconteceu com ele. Provavelm ente está fazendo xixi no espaço. Quem sabe o encontram os hoj e se olharm os pela j anela, hein, Pet? Vam os dar um tchauzinho.
Petra sacudiu a cabeça, adm irada.
– Seu cérebro, Sharon fach...
– Essa é a últim a cham ada para os passageiros do voo BA174...
– Som os nós. – Sharon deu um pulo e ficou de pé.
– Não se preocupe – Bill a tranquilizou, levantando-se. – Não é preciso correr, a m enos que a cham em pelo nom e. – Ele pegou a bagagem de m ão de Sharon.
– Caram ba. O que você colocou aqui dentro? Quem você colocou aqui dentro?
– Gareth – Petra disse. – Todo am arrado.
– Engraçadinha – Sharon brincou. – E então, não havia outra pessoa vindo conosco? – Eles deixaram o saguão e com eçaram a andar em direção ao portão.
– Foi o que eu pensei – Petra com entou. – Mas o outro cara caiu fora. Som os apenas nós três. Bill fará a m atéria agora.
– E com o é isso para você? – Sharon ia perguntando, m as Petra respondeu prim eiro:
– É a área dele. Sabe, Professor sobre Estudos de Cassidy . Especialista m undial em senhoras m alucas que querem ter 14 anos de novo.
– Isso não é j usto – Bill disse.
– Para quem ?
– Hum m ... espere, à esquerda aqui. Portão 26. – Ele havia apressado o passo novam ente, fazendo Petra quase correr para acom panhá-lo, m as depois dim inuiu o ritm o outra vez. – Eu disse. Ainda falta m uito. – Havia um a pequena m ultidão em volta do portão, gradualm ente afunilando em um a fila única. – Vam os esperar até essas pessoas entrarem .
Ficaram ali enquanto Sharon procurava o cartão de em barque.
– Estava aqui em algum lugar. – Ela por fim o encontrou preso ao KitKat. – Está aqui. Então – ela prosseguiu, abordando Bill –, o que faz de você um especialista?
– No quê, em senhoras m alucas?
– Não, em David.
– Ah, você quer dizer j ovens m alucas. Bom , acredite ou não, eu escrevia, há 100 anos ou m ais, para um a revista cham ada Tudo sobre David Cassidy. E m eu...
– Nãaaaaaaao – Sharon e Petra gritaram j untas. Bill olhou espantado.
– Essa era nossa Bíblia! – Petra o fitou com um a intensidade que ele não tinha visto antes, apesar de não ter sido inesperada ou m esm o inadequada. Sharon ainda estava de boca aberta.
– O que isso quer dizer?
– Nós acreditávam os nela.
– Não em tudo.
– Cada palavra.
– Ainda acredito – Sharon confessou, recobrando o poder da palavra.
– Mas – Bill disse, ainda espantado com as últim as revelações –, m as se é com o a Bíblia... Nem tudo o que está na Bíblia é verdadeiro. Não literalm ente.
– É verdadeiro para seus seguidores – Petra retrucou.
– Sim , m as...
– Para eles – disse Sharon –, os fundi... com o eles se cham am ? Fundim entais.
– Fundam entalistas.
– Sim , são esses caras. Som os isso.
– Você quer dizer que vocês foram, quando crianças – Bill disse. – Não podem acreditar nisso ainda. Não hoj e. Se lessem aquilo agora, veriam que era tudo inventado.
– Olha só isso! – disse Sharon. A m ultidão estava ficando m enor agora, e eles estavam sendo cham ados para passar pelo portão. – Se você acredita em algo, precisa continuar acreditando, não é?
– Com o o quê?
– Sei lá. – Sharon entregou seu cartão de em barque e apresentou o passaporte. – Olhe só para isso – ela disse, m ostrando sua fotografia para Bill. – Pareço um a crim inosa procurada pela polícia ou algo do tipo.
Petra veio em seguida. Estava calada.
– E então – Sharon continuou enquanto percorriam o túnel que levava ao avião –, as cartas que ele escrevia. David. Você sabe, aquelas assinadas por ele todo m ês. Você não vai dizer que elas eram inventadas, vai? Nós sabíam os que aquelas cartas eram escritas por ele. Pareciam m uito ser dele. Nós sentíam os.
Bill parou.
– Mas era eu.
– O quê? – As duas m ulheres pararam . Os últim os passageiros passaram por eles. À frente, a tripulação da cabine m antinha a porta do avião aberta e sorria.
– Era o m eu trabalho. Eu escrevia aquelas cartas. Eu era David Cassidy .
Sem hesitar, Petra deu m eia-volta e com eçou a andar pelo cam inho que tinham vindo.
– Pet? – cham ou Sharon.
– Petra, volte! – disse Bill.
– Não vou m ais! – gritou Petra sobre o om bro, e continuou andando.
Sharon cutucou Bill com o cotovelo.
– Acho que ela gosta de você.
Lá fora, o azul era tão puro que parecia efeito especial. Um pano de fundo falso, com certeza, Bill pensou, e não um céu de verdade. Petra, sentada ao seu lado, não olhou m uito. Não queria estar ali. A tripulação da cabine a cham ara de lado e explicara por que ela tinha de entrar, conversando calm am ente com ela sobre bagagem , segurança e horários de chegada e partida. Ainda assim ela poderia ter ido, deixado o aeroporto e voltado para casa. De certa form a quis, m as o absurdo do que estava fazendo de repente se abateu sobre ela. Não era ela, Petra, a m ulher de 38 anos, que estava decepcionada com a bom ba que Bill acabara de contar, m as a garota que havia dentro dela, a que ainda queria conhecer David, estava chocada. Toda sua vida ela tinha sido enganada com relação ao am or, e o hom em sentado ao lado dela, digitando em seu laptop, tinha com eçado isso.
– Por que fez isso? – perguntou ela, olhando para baixo.
– Alguém tinha que fazer.
– Mas por quê?
– Porque... porque havia m ilhares de pessoas com o você; quer dizer, não exatam ente com o você, m as m ilhares com o m esm o tipo de... não sei, o m esm o tipo de am or. A m esm a loucura. E não sabíam os o que fazer com vocês.
– O que você quer dizer com fazer conosco?
– Bom ... nós cham ávam os isso de alim entar as leoas. O apetite de vocês era, sei lá, não tinha fim . Vocês queriam m ais dele, toda sem ana, sobre todos os assuntos im agináveis, não havia com o dar conta. Já era m uito difícil para nós produzir tanto, então im aginar que David poderia ter escrito as cartas ele m esm o... Era im possível.
“E, com o é que se cham am m esm o... as sindicações? Ele escreve um a carta na Califórnia, ou onde quer que sej a, e a carta é im pressa em diferentes revistas no m undo todo. Não precisaria ter sido apenas na nossa revista, m as pelo m enos teria sido verdadeira.”
– Não é um a m á ideia. Deve m encionar isso a ele quando encontrá-lo na quarta-feira.
Petra não disse nada. Ela sabia que estava sendo ridícula, com o um a criança. Mas, no fim das contas, era isso o que estava em j ogo ali – o direito de defender a criança que se costum ava ser. A criança que estava experim entando o am or, o am or verdadeiro, pela prim eira vez. Ser traído no am or m ais tarde, bem , podia acontecer, acontecia com a m elhor das pessoas; aconteceu com ela há pouco tem po, no ano passado, e seu coração estava dilacerado. Mas ser traída na sua prim eira tentativa, por alguém tentando se fazer passar pela pessoa que você am a: que tipo de traição era essa?
A aerom oça passou com o carrinho de bebidas pela segunda vez. Petra havia recusado da prim eira. Agora pediu um a vodca com tônica, algo que nunca havia bebido na vida. Por que agora, então? Parecia um a ocasião tão boa quanto qualquer outra. A aerom oça lhe deu duas garrafas pequenas de vodca e duas latinhas de tônica. Petra as abriu e m isturou, m eio a m eio. Bill estava tom ando suco de tom ate. Ela im aginou com o ficaria se caísse sobre sua cam isa de linho branca.
Ele estava olhando fixam ente para seu copo de plástico, calado. Então disse:
– Desculpe. – Ele olhou para Petra com consideração e firm eza, adm itindo sua culpa, esperando ver um a cham a de hum or m isericordioso nos olhos dela. Os olhos de Petra eram de um castanho profundo.
Ele inspirou e prosseguiu:
– Mas o que você iria preferir, honestam ente? Ler as cartas de David, todo m ês, acreditar nelas e, sei lá, retirar forças daquelas cartas de algum m odo, ou nunca saber nada dele? Sentar-se no seu quarto, rir com suas am igas e ter um a síncope com as bobeiras que escrevi, e eram bobeiras, acredite, ou ficar sentada olhando para um espaço em branco na revista, com talvez algum as palavras de Zelda dizendo: “Sentim os profundam ente, m as o sr. Cassidy não teve tem po, vontade ou capacidade linguística para escrever a m ensagem que vocês queriam ouvir agora. Ele tam pouco terá tem po no futuro im ediato. Não até pararm os de am á-lo, quando então ele subitam ente terá todo o tem po do m undo.” Pense nisso, Petra. Você é um a m ulher brilhante, então m e diga. O que seria? A m entira feliz ou a triste realidade?
Petra tom ou m etade da sua bebida com um longo gole. Ela podia sentir a bebida subindo direto à cabeça, absorvida diretam ente pelo seu estôm ago. Ela estava piscando de m aneira estranha tam bém ; olhos efervescentes, um a de suas am igas disse quando saíram à noite pela prim eira vez.
– Quem é Zelda? – ela por fim perguntou. As consoantes soavam efervescentes agora tam bém .
– Ah, céus, ela era m inha chefe. Um a m ulher extraordinária, de certa form a. Era parecia um navio de guerra antigo. Todos se irritavam , m as eu gostava m uito dela. Ela m e ensinou a ser detalhista, entre outras coisas.
– Detalhista?
– Exigente com relação a ortografia, padronização, paginação, letras capitulares, índice de acordo com os conteúdos reais, créditos nas fotos. O trabalho chato. Fazer as citações direito.
– A m enos que você as tenha inventado – ela disse.
– Sim , e m esm o assim elas precisam fazer sentido, estar de acordo com o texto. Acredite ou não.
– Então ser detalhista é bom .
– É sem pre bom . Os poetas m ais loucos eram com pletam ente m eticulosos. Quanto m ais louco, m elhor. By ron, Baudelaire, todos os que com eçam com B, os garotos extravagantes. Saindo com prostitutas e bebendo, depois voltando às correções, pontos e vírgulas. Olha quem fala, você é violoncelista. Se não for detalhista, não há esperança, sabe disso.
– Sim – Petra concordou com tristeza. – Sei disso. – Ela pensou em sua m ãe, a Rainha do Detalhism o, e na srta. Fairfax, sua professora particular em detalhism o. O m undo parecia m enos seguro e rigoroso sem Jane Fairfax. O único consolo é que você poderia passar sua exigência adiante para os que viveriam depois de você para que eles, por sua vez, a passassem adiante. “Bach nunca perdeu um a única nota, Petra. Você tem que tocar todas as notas conscientem ente.”
Eles ficaram em silêncio durante algum tem po.
– O que aconteceu com ela?
– Quem ?
– Zelda. Vocês m antiveram contato?
– Ah, foi péssim o.
– O que aconteceu?
– Bom , nós perdem os contato depois que eu deixei o em prego. Você sabe com o são essas coisas. Quanto m ais prom etem os ficar em contato, m aior a certeza de que nunca m ais irem os ouvir falar um do outro. Fiquei esperando que ela ligasse, e ela provavelm ente esperava o m esm o de m im . Então, há uns dois anos, por m ero acaso, eu estava em Stratford. Não a de Shakespeare, a outra Stratford. Um cara franzino se aproxim a na rua, dá um tapinha no m eu braço e eu m e afasto um pouco. Ele tinha um a aparência estranha e cheirava m al. Ele diz: “Oi, Bill.” Olhei para ele, e j urava que não o conhecia. No fim das contas, ele era um suj eito cham ado Chas, que era nosso office-boy nos tem pos do Cassidy. Eu sem pre fui um pouco rude com Chas e tenho certeza de que ele m e odiava, achava que eu era esnobe, um m auricinho com diplom a de faculdade.
– E você era?
– Totalm ente. E o que acabou acontecendo foi que Chas foi quem m anteve contato com Zelda. Não eu, o garoto que prom etia, com um a grande carreira pela frente. Que bela porcaria eu era. Mas o office-boy que não tinha carreira nenhum a a seguir, a vida toda fazendo coisas tediosas para os outros, foi ele a alm a boa. Encontrava com Zelda três, quatro vezes por ano; durante um alm oço, no pub, para conversar sobre os velhos tem pos. Que obviam ente foram os m elhores anos da vida dela, segundo ela dizia. Então ela ficou doente e se recusava a deixar seu apartam ento. Era Chas quem fazia as com pras no m ercado, esquentava a sopa, esse tipo de coisa.
“Eu perguntei: ‘Com o ela está agora? Ainda está viva?’ Ele olhou para m im e disse: ‘Ah, não, m orreu há dez anos.’ Ele saiu de férias, sua prim eira viagem na vida, vinha econom izando para isso. Enquanto ele esteve fora, ela tom ou com prim idos para dorm ir. Ele voltou da Espanha e a encontrou na cam a. Ela j á estava assim há duas sem anas. Que coisa terrível. Im agine com o m e senti.
– Im agine com o ele se sentiu – corrigiu Petra. – Im agine com o ela deve ter se sentido.
– Sim . – Bill baixou o olhar para sua bebida. Essa m ulher parecia estar desnudando sua alm a. Era com o estar em um confessionário.
– O que Zelda diria – perguntou Petra, alguns m inutos depois – se soubesse que você estava indo encontrar David Cassidy ? E que você estava levando duas das suas leitoras j unto?
– Ah, ela ficaria com pletam ente alucinada, não tenho dúvida. Isso seria o paraíso para ela. Ter arranj ado tudo isso para que outras pessoas ficassem felizes.
– Mesm o se ela não estivesse.
– Bom , ela estava feliz, à sua própria m aneira. É que em qualquer outro lugar ela parecia, não sei, abandonada.
– Não com o nossa garota ali – disse Petra, cutucando-o e olhando para Sharon. A aerom oça veio para perguntar o que ela ia querer de alm oço, e Sharon estava em um a conversa profunda. A aerom oça foi forçada a se aj oelhar ao seu lado e dar cada detalhe para que Sharon, que estava lendo o m enu do voo desde que decolaram , pudesse saborear todas as possibilidades antes de aterrissar na opção certa.
– Isso é crem e de verdade com o bolo de abacaxi? – ela estava dizendo.
– Tenho de lhe dizer um a coisa, Petra – Bill disse, solenem ente. – Estou apaixonado.
– Oh, por favor, sr. Finn. Nós acabam os de nos conhecer. Isso é m uito repentino.
– Pela sua am iga. Sinceram ente, acho que Sharon é a pessoa m ais adorável que j á conheci, qualquer um se apaixona por ela. É com o se essa fosse a vocação dela, ou algo do tipo. Tudo bem que a m aioria das pessoas com quem eu trabalho é babaca, então ela j á está em vantagem , m as m esm o assim .
– Bom , eu m e apaixonei por ela prim eiro, então sai fora – Petra brincou. – Mas você tem razão.
– Ela sem pre foi assim ?
– Sem pre. Desde quando ela era... bem , ela nunca foi exatam ente um a coisinha pequena, m as é assim desde que a conheço. Sem pre fiquei feliz por ela m e aguentar; ela é m uito m elhor que eu.
– Besteira. Com o pode saber isso?
– É verdade. Ela é m elhor e m ais feliz. – Petra tom ou um gole da sua vodca. – Melhor porque é m ais feliz.
– É assim que funciona?
– Ah, claro. As pessoas dizem “faça o bem e isso o fará feliz”, m as é o contrário, não acha? Pessoas felizes são m ais propensas a fazerem o bem , são m ais... equipadas para isso. Elas não precisam se esforçar para fazer o bem , acontece naturalm ente. Olhe só para ela. Olhe para eles.
A aerom oça fora em bora, profundam ente confusa pela discussão exaustiva sobre canapés de salm ão, e Sharon conversava, toda anim ada, com um casal do outro lado do corredor. O casal com binava: m aiores que o norm al, porém alegres, com seus volum es ultrapassando os lim ites dos assentos, m esm o os assentos m ais largos da classe executiva. Am bos usavam cam isas cham ativas, com o se j á estivessem em Las Vegas, e não a nove horas de lá. Os dois estavam tom ando pequenas garrafas de cham panhe, a segunda garrafa de cada. As m ãos livres, que não estavam segurando o copo, estavam entrelaçadas no braço da poltrona.
– Acho que são casados – Bill disse.
– Nãaaao! – a m ulher falou para Sharon. Ela se virou para o m arido. – Você ouviu isso, sr. J?
– Não disse? – Bill disse baixinho. – Ela é a sra. J. – Petra reprim iu um a risada.
– Adivinhe o que ela vai fazer em Las Vegas. Você nunca vai adivinhar.
– Vai j ogar – disse o sr. J, e balançou a cabeça, feliz com sua esperteza.
– Não, bobo, m uito m elhor que isso. Adivinhe quem ela vai conhecer, ela e seus am igos aqui.
– Desisto – disse o m arido.
– Apenas David Cassidy , não é? David Cassidy ! Adoro esse cara!
– Núm ero 53 – disse o sr. J.
– É m esm o? Cinquenta e três? Bom , ele está subindo novam ente.
Petra se inclinou para entrar na conversa.
– Desculpe, m as não pude deixar de ouvir. Quem é o núm ero 53?
– David. Desculpe, am or, isso soa um pouco m isterioso, não é? – A m ulher tinha um a plateia agora. Metade da cabine ouvia atentam ente, e a outra m etade não tinha opção. – Meu m arido, bom , ele trabalha no setor de toques. Para celulares, entende? “O Rei dos Toques”, com o o j ornal da cidade disse. E existe um a tabela com as canções que as pessoas estão escolhendo na sem ana para colocar em seus celulares. E o sr. J estava dizendo que o seu David Cassidy subiu para o 53º. lugar esta sem ana. Nada m au, hein? Levando em conta a idade que ele deve ter. Ele está envelhecendo bem , não acha?
– Espero que estej a envelhecendo m uito bem – disse Sharon, abrindo um pacote de pretzels. – Não estam os fazendo essa viagem longa para ver alguém que se parece com m eu avô, estam os?
– Qual é a m úsica? – Petra perguntou. – Na sua tabela.
– I Think I Love You. É óbvio – disse o sr. J.
– Com certeza – Petra concordou. – É ótim a. Nunca envelhece.
– Olha só – ele continuou –, alguém m e contou essa no escritório sem ana passada. Aconteceu com um a am iga da esposa. Ela era um a fã de David Cassidy desde os velhos tem pos. Bom , ela estava no m édico, OK? Não um m édico qualquer, Gine qualquer coisa.
– Sr. J!
– Então ela tira sua roupa, põe sua bolsa no chão, com o celular dentro, sem desligar, e o gine pega seu, com o se cham a aquilo? Especulação?
– Espéculo – corrigiu Petra, que conhecia bem o obj eto.
– Isso m esm o. Bom , ele pegou seu espéculo, certo, e o está colocando, com o se faz... Não, Marj orie, eles têm de ouvir isso, deixa eu term inar. E ele pergunta: “Está doendo? Espero que não estej a doendo”, todo educado, e nesse m om ento... – Sr. J fez um a pausa para enxugar os olhos, j á cheios de lágrim as. – Nesse exato m om ento o celular, o que está na bolsa dela, com eça “I think I love y ou”... – Sr. J cantou para eles com sua voz grave e forte. – E essa m oça, ela ouve o toque, certo, núm ero 53, e é tão inapropriada para o lugar onde está que ela com eça a rir m uito, m uito alto. E o pobre m édico é lançado para trás, com o um a rolha para fora da garrafa, seu espéculo sai voando tam bém , e ele bate com a cabeça na porta. A m oça diz, rápida com o um relâm pago: “Espero... – Sr. J estava descontrolado agora, sacudindo-se todo, e sua esposa ao seu lado fazendo o m esm o – “Espero que não estej a doendo.” Não dá, só rindo!
Sharon estava derrubando os pretzels no corredor. Petra voltou à posição norm al.
– Não sei se algum dia vou conseguir ouvir essa m úsica da m esm a m aneira de novo.
Bill olhou para ela e com entou:
– Considerando tudo, acho que não devíam os contar a David o que aconteceu com sua canção.
– Ah, não sei. Ele poderia ficar im pressionado. Ele sem pre quis estar perto das fãs. Só não dentro delas. – Petra term inou sua bebida, as duas garrafas. Sua língua estava solta. Ela chacoalhou o gelo. – Então, qual é a program ação quando chegarm os?
– Hoj e à noite, assim com o seu corpo vai querer dorm ir, seu espírito vai querer levantar e ver David cantar.
– Ah, acho que consigo dar um j eito nisso.
– E am anhã de m anhã, às 11:30, se conseguirm os arrancar Sharon de sua noitada j ogando blackjack, verem os David. Será encontrar, cum prim entar, tirar algum as fotos, autógrafos, esse tipo de coisa. Não terem os m uito tem po com ele, creio, m as ainda assim . A boa notícia é que ele ficará no m esm o hotel que nós.
Petra fecha os olhos. Há um quarto de século, a notícia de que ela passaria a noite no m esm o hotel de David Cassidy a teria feito cair para trás, desm aiada.
– Hoj e será um show especial – Bill continuou. – Um show de um hom em só, eu acho; só ele no palco cantando as m ais antigas e m elhores.
– Você quer dizer cantando para as m ais antigas e m elhores.
– Isso m esm o. Na m aioria das noites ele faz um show cham ado EFX.
– Effects?
– Não, E-F-X. Muito gelo seco, laser e m úsicas novas. Foi por isso que m arcam os a viagem para coincidir com o show que ele fará hoj e. Tem m ais a ver com vocês.
– Muito gentil da sua parte.
– Ah, não, foi puro egoísm o. Terei m ais sobre o que escrever.
Os pratos chegaram . Sharon j á tinha engolido m etade de um pãozinho e estava tentando abrir o sachê do m olho da salada.
– Protej a-se – disse Petra para Bill.
Do outro lado do corredor, o sr. e a sra. J estavam unindo suas taças e propondo um brinde ao grupo.
– Para David Cassidy .
– Para David Cassidy – Petra repetiu, erguendo seu copo vazio. – Bill?
Bill deu um longo suspiro, com o se sofrendo de um a velha ferida, e ergueu seu suco de tom ate.
– Para David Cassidy – disse. – E Zelda, que descansa no Paraíso.
Petra sorriu e encostou seu copo no dele.
– À Zelda.