Eu Acho que Amo Você
Capítulo 9
9
A palavra período não quer dizer período m enstrual, com o você pode estar pensando. No inglês am ericano, significa “ponto final”. É preciso ter cuidado com essas coisas se um dia você for para Los Angeles.
– LA – disse, experim entando os sons na m inha boca. Él-êi.
Certa vez expliquei a Sharon que nos Estados Unidos eles dizem período, em vez de dizer ponto final.
– Você está m e gozando, Petra. Isso é ridículo. Será que eles não sabem o que significa?
Tive o m eu prim eiro período m enstrual – o período britânico – um dia antes de irm os para White City. Foi cruel, a últim a coisa que precisava, além de todo o resto que estava acontecendo. Talvez a excitação tenha provocado isso, ou o m edo. Para falar a verdade, estava m orta de m edo. Am ar David m e dava tanta energia e certeza de que um dia teríam os um encontro no m undo real, em vez dos encontros am orosos cada vez m ais insatisfatórios im aginados na colcha m arrom bordada da m inha cam a. Agora que o m om ento estava próxim o, sentia com o se eu fosse um a daquelas personagens de desenho anim ado que corre tanto que não vê a beira do penhasco e, de repente, olha para baixo e percebe que está pedalando em pleno ar sobre um abism o. Eu continuava pedalando, m as não sabia por quanto tem po aguentaria sem cair.
Até então, o m ais longe que j á tinha ido fora até Cardiff, que ficava a 61 quilôm etros de distância. Minha m ãe m e levara com ela para aj udá-la a com prar um a roupa nova para o casam ento de m eu prim o Nonny . O vestido era francês, azul-m arinho, com pregas: escolhido, eu acho, para m ostrar com o ela se sentia tranquila com relação a um casam ento forçado que seria feito no cartório. Minha m ãe anunciara que Deus não estaria presente no cartório. Eu disse que pensava que Deus deveria estar em todo lugar. (Que Deus estej a na m inha cabeça e na m inha com preensão. Deus estej a em m eus olhos e no m eu olhar, ou assim dizia o hino que o coral de nossa capela cantava.)
Mas m inha m ãe m urm urou de um a m aneira am eaçadora que o teto do cartório era baixo dem ais.
– Desde quando as obras de Deus são restringidas pela altura, Greta? – Meu pai riu. – Por acaso agora Ele é um estacionam ento com vários andares?
Depois de com prar na Cardiff, tivem os tem po para tom ar um chá com crem e na Howells e ainda pegam os o trem das 5h de volta. Aquilo foi o m ais longe de casa que j á estivera. Portanto, um a viagem para Londres durante cinco horas no trem , e centenas de quilôm etros de distância, seguida de m ais um a viagem atravessando a cidade grande, soava tão natural quanto um a viagem para Vênus.
Ainda por cim a tinha o problem a da m enstruação para lidar. O m ais triste é que eu deveria ter ficado anim ada com isso: há tanto tem po queria a prova de que era um a m ulher. Eu até m entira para Carol quando ela estava m atando tem po no vestiário usando um a caixa de Tam pax com o um fantoche apoiado nos dedos. Disse a ela que j á tinha ficado m enstruada, e na verdade não tinha. É m uito ridículo, eu sei, m as não pude encarar o fato de ser a últim a a usar sutiã e a últim a a ficar m enstruada.
Minha m ãe pegara o que seria necessário no arm ário debaixo da pia do banheiro e, pelo m enos um a vez, fiquei grata pelo pouco-caso que ela fez de m im . Quando coloquei o absorvente pela prim eira vez, achei tão largo e volum oso entre m inhas pernas que pensei que qualquer um perceberia que estava usando um . Aquele volum e nos fazia andar de m aneira estranha, com o um daqueles caubóis nos film es de faroeste am ericano, com as pernas separadas, balançando os quadris. Coloco dois absorventes extras para ir para Londres, para evitar os acidentes que j á ouvi outras pessoas com entando.
Tam bém estava achando incrivelm ente difícil lem brar de todas as m entiras que havia dito para m inha m ãe. Quando ela dizia coisas do tipo: “A m ãe de Sharon não vai se im portar em pegá-las na estação de trem tão tarde? A que horas o concerto com eça?”, eu tinha que pensar cuidadosam ente e repassar os horários que tinha na cabeça para o show de David e O Messias. Um dia, no café da m anhã, eu disse Londres em vez de Cardiff, por engano, e im ediatam ente com ecei a cantar bem alto “Every valley shall be exalted” para despistá-la.
Meu pai, sabendo que Handel não era o com positor que eu m ais gostava, levantou um a sobrancelha, m as eu m e abaixei atrás da em balagem de cereais. Acho que m eu pai sabia que algo estava acontecendo. Quando m inha m ãe não estava olhando, ele colocou um a nota de 10 pratas na m inha m ão, que era todo o dinheiro que ele tinha para gastar em um a sem ana, e disse que era para ser usado no caso de um a em ergência. Era dem ais, eu disse, não podia pegar, m as ele m e fez dobrar a nota e guardá-la dentro do com partim ento com zíper da m inha bolsa. Quis contar a ele que finalm ente estava indo ver David. Queria com partilhar todo o am or que vinha sentindo e o desej o enorm e por aquele m om ento.
No entanto, contar a m eu pai o faria cúm plice do crim e e, se algo desse errado, m inha m ãe o m ataria. Ela m ataria os dois.
E ainda havia Sharon. Ela estava tão orgulhosa e em polgada com o teste. Nunca a vira tão feliz. Era horrível.
Incrivelm ente, parece que conseguim os j untas encontrar a resposta para as duas im possíveis perguntas finais. No canto m ais distante da vasta biblioteca sobre David que guardava no m eu cérebro, consegui lem brar o nom e do cachorro que foi deixado para trás em New Jersey, quando David e sua m ãe se m udaram para a Califórnia depois do divórcio.
– Tips? Tem certeza? – Sharon perguntou com hesitação.
– Não tenho 100 por cento de certeza – disse –, m as 99 por cento. Tenho certeza de que Bullsey e e Sheesh são os dois outros cães que David teve recentem ente, e Tips é o único nom e de cachorro que m e lem bro.
Resolvem os arriscar e decidim os pelo nom e Tips. Três dias tensos, antes do prazo final para a entrega dos testes, Sharon achou um recorte de revista atrás de sua cam a que respondia à pergunta sobre o anel. O pai de David lhe dera o anel quando ele estava com 15 anos, e David o daria para seu filho quando este com pletasse a m esm a idade.
Era um a ótim a resposta, a resposta para todas as nossas preces, ainda que eu a tenha escrito no form ulário em silêncio, enquanto Sharon caprichava na letra 3-D para fazer um a borda ao redor da m argem . Pensar em David tendo um filho era difícil para nós. Significava que ele tam bém teria de ter um a esposa, e a futura esposa, bem , poderia não ser nenhum a de nós. Mas o papel de David com o pai parecia estar em um futuro distante e não valia a pena se preocupar no m om ento.
O que eu realm ente precisava m e preocupar com urgência era com Sharon. Sua alegre convicção de que nós iríam os vencer o teste e logo estaríam os com David nos estúdios de A Família Dó-Ré- Mi era um torm ento diário. Continuava esperando um a oportunidade para contar o que havia acontecido naquela noite na casa de Gillian. A artim anha usada por ela para que eu pusesse seu nom e j unto com o m eu no teste. Às vezes, por um m inuto com pleto, conseguia não pensar no que fizera. Mantinha-m e ocupada. Ficava preocupada com m inha m ãe e arrum ava m eu quarto. Praticava Bach até m eus om bros ficarem doloridos e as pontas dos dedos ficarem averm elhadas e inchadas com o fram boesas. Descia a ladeira correndo até a beira-m ar: a brisa do m ar sem pre levava os pensam entos ruins em bora, o que aconteceu por um tem po. Da vez seguinte em que vi Sharon, ela estava usando seu cardigã rosa transpassado na frente, do balé, abraçando a si m esm a de em polgação. Senti um frio na barriga e m eu estôm ago encolheu.
– Ei, Pet, se você quiser, pode usar no show o outro cachecol do David que eu tenho. Ele vai nos ver e dizer: “Ei, cara, quem são aquelas duas galesas fabulosas? Cham e-as para vir ao cam arim m e conhecer.”
A natureza confiante de Sharon fazia com que eu m e sentisse m ais m iserável do que a crueldade casual de Gillian. O sofrim ento infligido por nós m esm os é o m ais doloroso, com o estava aprendendo, porque, j unto com a dor, é preciso carregar a culpa.
Quando seria o m elhor m om ento para revelar à sua m elhor am iga que você disse a outra garota que ela poderia ficar com m etade do crédito pelo proj eto especial em que vocês duas vêm trabalhando j untas?
Nunca. Essa seria a m elhor hora.
“Não consigo suportar o pensam ento de com o isso tudo vai acabar”, escrevi no m eu diário. A única pessoa no m undo que confio o suficiente para contar o que fiz é Sharon, e não posso contar a ela, pois foi ela quem eu traí, só que ela não sabe ainda.
Algum as lem branças ainda conseguem nos fazer estrem ecer de vergonha anos depois, m as eu não precisei que o tem po passasse para que sentisse a pontada de vergonha por trair Sharon. Ainda carregava esse sentim ento um a noite, antes de irm os para White City, sentada na cam a de seu quarto rosa cor de pom ada de bebê, enquanto m inha m elhor am iga rem exia em suas coisas para m e aj udar a m e produzir com m inhas escassas posses. Gillian sem pre fora o assunto principal das nossas conversas. Cada m ovim ento dela era de um fascínio sem fim . Fofocar sobre Gillian com Sharon, contudo, não era m ais um prazer para m im porque, quando se tratava do conhecim ento sobre Gillian, Sharon e eu não estávam os m ais em patadas.
Naquela noite, o irm ão de Sha, Michael, que estava no m esm o ano de Stuart Morris na escola, entrou com tudo no quarto para nos contar que Stuart estava traindo Gillian com Debbie Guest. Gillian descobrira, m as Stuart term inou com ela antes que ela term inasse com ele.
Qualquer satisfação que eu pudesse ter com a hum ilhação de Gillian foi anulada pelo sentim ento de que eu, assim com o Stuart, tam bém era culpada por infidelidade. Eu traíra Sharon com Gillian.
Muitas vezes, quando estava na casa de Sharon, sua m ãe nos deixava levar bolachas de água e sal e queij o para o quarto enquanto cantávam os versões fragm entadas das m úsicas de David, espalhando m igalhas sobre o carpete. Naquela noite, um a ao lado da outra na cam a, cantam os todas as nossas favoritas, preparando-nos para o dia seguinte. Sharon pegava o tom de “Cherish” enquanto eu a acom panhava.
– And I do-ooo. I cherish youu-ooo. – Nessa parte eu não aguentei. Eu tinha apenas 13 anos, m as sentia com o se carregasse dentro de m im a dor de alguém que j á vivera m uito m ais.
– Ei, Pet, por que você está chorando? Não chore, bach – Sharon disse, acariciando m eu cabelo. – Nós vam os vê-lo am anhã. Nós vam os ver David.
As coisas aconteceram m uito rápido naquele dia. Rápido dem ais. Talvez se tivéssem os tido m ais tem po as coisas não tivessem tom ado o rum o que tom aram .
Com binam os que Michael nos levaria, Sharon, eu, Gillian e Olga, de carro até a estação, que ficava bem no fim da rua principal. Quando apareci na casa de Sharon, troquei rapidam ente o vestido tipo j ardineira de florzinhas e a blusa branca de baixo, a roupa que m inha m ãe acreditava que eu fosse usar no concerto em Cardiff. Dobrei m inhas roupas e deixei-as organizadas em um a pilha sobre a cam a, vestindo as roupas para o show de David que havia escondido na gaveta de Sharon na noite anterior. Um vestido m arrom de m angas curtas e capuz sobre um a cam isa crem e de gola alta, aj ustado na cintura por um cinto de couro – estava m uito bem , pensei –, m eias longas m arrons e a produção toda realçada pelos m eus sapatos plataform a novos. As plataform as de Judas. Aquelas que Gillian m e dera. E, por cim a, um a j aqueta m arrom de couro com um distintivo de David e a echarpe de seda branca que Sharon m e doara com DAVID escrito em letras garrafais. Quando fiquei pronta, desci para a sala para dar um oi à m ãe de Sharon e vi um a figura fam iliar esparram ada no sofá m ostarda. Ele deu um pulo e ficou de pé. Steven William s.
Era coisa dem ais para processar. Aquele era m eu dia com David. A colisão dos dois garotos que eu gostava soava com o dois Natais consecutivos. Steven disse que ele e Michael estavam indo j ogar em Bridgend, e então pensou em pedir carona.
– Será que tem lugar para um baixinho? – disse ele com o sorriso tím ido que reconheci daquela tarde em que ele fez o ponto m ágico.
O Mini Cooper de Michael Lewis j á estava perto do chão antes de nós quatro entrarm os. Sharon, Steven e eu nos esprem em os no banco de trás. Ia deixar Sha no m eio, m as ela entrou na frente de propósito, então fiquei ao lado de Steven, tudo bem , m as ela não precisava piscar tão devagar para m im . Steven e Michael viram e deram risada.
No cam inho para a estação, pegam os Olga. O pai de Carol iria levá-la de m oto, e Angela disse que nos encontraria em frente às catracas da entrada. Olga entrou atrás, portanto haveria lugar para Gillian na frente. Sharon estava achatada contra a j anela e Olga curvada no m eio. Quando Olga entrou, Steven m e levantou, sem qualquer estardalhado ou esforço, sentando-m e em seu colo. Fiquei em poleirada ali em um estado de delicioso terror, tentando deixar o “acolchoado” no m eio das m inhas pernas alguns centím etros acim a do seu j eans, onde achei que detectara um a com oção. Pelo m enos eu estava virada para frente, assim Stuart não poderia m e ver corando.
Quando estacionam os entre os pilares de pedra da entrada de carros da casa de Gillian, todos estavam rindo de um m odo m eio doido. As risadas aum entaram quando Gillian saiu de casa usando um a blusa de chiffon com babados e calça branca im aculada, e olhou com curiosidade para dentro do carro.
– Quantas fãs de David Cassidy podem caber em um Mini Cooper? – Sharon gritou, estridente, para dar as boas-vindas.
Gillian não respondeu. Pensei em m e oferecer para sair, m as teria levado anos e estava com eçando a relaxar na m inha posição no colo de Steven. O espaço lim itado o forçara a colocar seu braço esquerdo sobre m eu om bro e não queria perder a sensação nova de ser protegida, não ainda. Então Gillian teve de se sentar na frente sozinha. Bem , na verdade com Michael, que estava dirigindo. Com a visão de Gillian, Michael ficou de queixo caído, sentado ali sorrindo com o o Pateta, só que bem m enos inteligente. Gillian, por outro lado, deu um a olhada para Michael, com seu cabelo ruivo em aranhado e suas sardas verm elhas conflitantes, e afundou-se em um silêncio perturbador.
Fazendo força para ser ouvida acim a do m otor do carro, elogiei o cabelo de Gillian – sabia que ela ainda estaria perturbada por Stuart ter term inado com ela –, m as fiquei sem resposta.
O hum or de Gillian era com o o tem po: podia instantaneam ente deixar todos em volta com frio ou calor. Mas naquela m anhã não. Nossa felicidade por ver David era m ais forte que sua desaprovação.
Ao chegar à estação, saím os e esticam os as pernas.
– Até m ais, gata – Steven disse, e Gillian se virou para receber o tributo de costum e. Entretanto, foi em m inha bochecha que ele colocou sua m ão e acariciou. – Até m ais então, isso aí. – Era um a afirm ação, não um a pergunta. Gillian desceu as escadas batendo os pés e eu m e apressei para alcançá-la.
– Calm a, Petra, pra que tanta pressa! – Sharon m e cham ou.
Na estação, Olga entregou nossos ingressos. Estávam os tão felizes que parecia que havia um balão inflando nossos corações. Tudo parecia histericam ente engraçado. Um a pom ba gorda nos fez gargalhar, o m esm o aconteceu com um porteiro com a bagagem em pilhada sobre um carrinho.
– Aonde vão, m ocinhas? – gritou ele, enquanto as seis corriam sobre a ponte de ferro, m esm o havendo tem po de sobra até a chegada do trem . Na plataform a, com pram os batatas, chocolate e pipocas em um quiosque. Olga disse que tom ou um a garrafa térm ica inteira de chá com leite, o que disparou nossos uivos de alegria novam ente. Essa era a Olga. Quando o alto-falante despertou para a vida e anunciou o próxim o trem para Londres, j uro por Deus, nós pulam os com o se fosse o fim da guerra.
Gillian estava na sala de espera conversando com Carol. Elas m e olharam de relance e, por um segundo, tive a sensação de que m inha avó cham ava alguém andando sobre seu túm ulo. O que aquele ditado queria dizer? Para m im , naquela plataform a, significava um pressentim ento de que eu estava prestes a m orrer dolorosam ente, de um a m aneira ainda não identificada. O balão no m eu coração estourou, deixando-m e sufocada. Quando o trem chegou, um trem azul-escuro, ruidoso e m onstruoso, Gillian gritou para m im se eu poderia trazer a sacola que ela esquecera na sala de espera. Dizendo isso, ela desapareceu para dentro do trem .
Por que ela m esm a não podia pegar a sacola? Não ousei discutir. Talvez, se eu fizesse o que ela estava querendo agora, o dia pudesse m elhorar.
Tudo bem , respire fundo, cam inhe confiante até a sala de espera, não deixe ela perceber que você está em pânico. Perceba que a sala de espera está praticam ente lotada, olhe debaixo das m esas e cadeiras, peça para a m ãe, por favor, m over o carrinho onde seu filho está dorm indo. Tentando controlar as lágrim as na voz, pergunte aos adultos se eles viram um a sacola da loj a Etam . Fique atenta; lá fora na plataform a o guarda com eçou a fechar as portas do trem . No m om ento em que você está pensando que Gillian m entiu, vej a a sacola no peitoril da j anela, agarre-a e corra para o trem , que agora só está com um a porta aberta e, graças a Deus, essa porta está bem na sua frente. Pule para dentro enquanto o guarda apita e a porta se fecha com um a pancada atrás de você. Aperte com força a sacola contra seu peito palpitante e perceba que ela está estranham ente leve. Espiando ali dentro, você vê o conteúdo – um a em balagem de chocolate vazia, um gram po de cabelo e três envelopes para revelação grátis de fotos. Você percebe tam bém , agora de m aneira bem clara, o que a espera quando você vai se sentar.
Levei vários m inutos para encontrá-las. O trem parecia tão com prido quanto cam inhar até a forca.
Elas estavam no fim da segunda classe. Minhas am igas estavam com a cabeça inclinada para baixo, com o se estivessem rezando. Som ente Gillian olhou para cim a.
– Ah, Petra, eu acabei de contar para Sharon que você m e inscreveu com você para o teste de David Cassidy .
– Não é verdade – afirm ei.
Sharon, que estava no assento da j anela ao lado de Gillian, não olhou para m im , m as pude ver que ela havia chorado. Ela havia colocado m áscara nos cílios, pela prim eira vez, antes de sairm os – cuspindo na pequena bandej a preta prim eiro, e depois passando o aplicador nos cílios, com o tínham os visto as m eninas m ais velhas fazerem no banheiro da escola. A m áscara de cílios escorrera e o borrão em sua bochecha a fazia parecer um bebê que havia brincado com carvão.
– Bem , você disse que iria m e inscrever – insistiu Gillian, soando com o se não tivesse culpa algum a naquele acordo inj usto.
– Bom , eu não inscrevi você.
– Então você é um a m entirosa e tam bém um a vaca, não é? – ela concluiu, triunfante.
Gillian estava sentada à m esa para quatro pessoas com Sharon, Angela e Olga. Carol estava sozinha, na m esa do outro lado do corredor. Senti vontade de sair correndo. Nenhum a delas m e queria ali, m as elas eram tudo o que eu tinha, m inhas únicas am igas. Apoiei m inha bolsa sobre a m esa de Carol e sentei do lado oposto. Suas sobrancelhas estavam desenhadas grosseiram ente com lápis m arrom ; suas narinas se expandiam levem ente. Ela estava feia e assustadora.
– Petra vai tocar em um concerto para a princesa Margaret com seu violoncelo – Gillian anunciou, em polgada, com o se fosse a diretora de escola lendo um a notícia em voz alta durante a reunião.
– Com o é abrir as pernas e ter algo tão grande no m eio? – Carol soltou um a risada de desdém . – Não que você entenda algum a coisa sobre isso, Petra.
Todas riram , m enos Sharon, que parecia ter encolhido pela m etade, ocupada puxando as franj as do seu casaco novo.
– Sharon, eu inscrevi nós duas no teste, eu j uro – disse. Era tarde dem ais agora, eu sabia, m as quis que m e escutasse dizendo isso.
Ela balançou a cabeça e se voltou para a j anela, onde nossos vales e m ontanhas estavam rapidam ente desaparecendo em um borrão verde desolador. Logo estaríam os na Inglaterra.
Escolhem os o tipo de am igos que querem os porque esperam os ser com o eles, e não com o som os. Para m elhorarm os nossa im agem , ficam os m ais burros e m enos gentis. Conform e os m eses se passavam , o acordo para fazer parte de um grupo com eçava a pesar dem ais. O bloqueio de um a parte vital de si m esm o, apenas para ser incluída na viagem de com pras à cidade, não ter de se sentar sozinha no alm oço ou ter com panhia para voltar para casa. Agora, entre am igas, estava com frequência m ais solitária do que antes. A hierarquia das m eninas era m uito m ais brutal do que a dos m eninos. Os m eninos brigavam por suprem acia no cam po e, depois, deixavam as diferenças no chuveiro. As m eninas j ogavam m ais suj o. Para as m eninas, não era som ente um j ogo.