Eu Acho que Amo Você

Allison Pearson · Capítulo 23 de 27

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Eu Acho que Amo Você

Capítulo 20

20

 

Quando Petra e Sharon tinham 13 anos, fizeram um a prom essa. Se ainda não tivessem se casado quando fossem m ais velhas e tivessem ficado pra titia – digam os, lá pelos 29 ou 30 –, prom eteram que iriam m orar j untas para nunca ficarem sozinhas.

– Com o aquelas duas senhoras de Llangollen, que fugiram j untas da Irlanda, em 1778, para não terem que fazer casam entos arranj ados – Sharon disse. Ela estava em frente ao espelho do banheiro, m aquiando os olhos. Depois de todos aqueles anos, ela ainda tinha preferência por m áscara azul nos cílios.

– Achava que era com um , até um dia ver Lady Diana usando. Você acha que Lady Di leu na revista Jackie a dica de com o aum entar os olhos usando m áscara azul nos cílios?

– Claro que sim – Petra concordou.

– Inclusive as m ulheres sofisticadas?

– Todas as m ulheres. – Petra colocou sua cam isa por dentro da saia depois de tentá-la solta por fora. Em 20 m inutos elas iriam se encontrar com David, e as garotas, ou m elhor, as m ulheres, estavam ansiosas por causar um a boa im pressão.

– Blusa m aravilhosa – Sharon elogiou.

– Era da m inha m ãe. Deve ter uns 20 anos de idade. Não ficou ultrapassada, ficou? – Ela decidira usar a blusa de seda branca e as pérolas de Greta. Parecia certo. Nas sem anas após ter encontrado a carta da revista Tudo sobre David Cassidy no guarda-roupa, sua atitude em relação à sua m ãe se alterara. Não estava m ais zangada com ela. Com o m uitas m ães de sua geração, Greta possuía um a dureza que parecia pertencer a um a época perdida e m ais brutal. Era com o se partículas de aço, flutuando no ar de sua cidade galesa, tivessem entrado em sua corrente sanguínea. Greta vinha tentando preparar a filha para um a vida m elhor, um a vida que oferecia m ais do que a existência lim itada e feia que ela tanto odiava. Petra via isso agora. Querer im pedir sua filha de com eter os m esm os erros que você com eteu. Da m esm a form a que fazia com Molly .

– Meu Deus, Pet, não se olhe nesse espelho.

– O quê?

– Ele aum enta e ilum ina. – Sharon se inclinou para frente. – Tenho m ais poros abertos do que Marte. Se eu entrar em com a, por favor, vá m e ver com um a pinça e tire esses pelos do m eu queixo.

– Só se você tirar os m eus.

– É claro que sim – Sharon concordou, feliz. – Não quero que Mal vej a m inha barba. Tem de haver algum mistério em um relacionam ento, é o que dizem .

– Vam os lá – Petra disse –, está na hora.

– Vou descer em um m inuto. Preciso fazer xixi, ou você sabe o que pode acontecer quando eu der de cara com David, não sabe?

– Vou descer para encontrar com Bill e vej o você lá em baixo.

 

No elevador que descia para o saguão do hotel, ela contou dez Petras nas paredes espelhadas.

– Até que você não está m al para um a m ulher da sua idade – ela disse para seus reflexos. O passado e o presente estavam tão próxim os agora que praticam ente respiravam o m esm o ar. O que as outras m eninas do grupo de Gillian pensariam se soubessem que Petra e Sharon estavam a um passo de conhecer David Cassidy ?

Na noite passada, depois do sorvete, do vulcão, e Bill, Sharon j á bastante sonolenta m encionara que Carol j á era avó. Ry an, um garoto lindo. Um pouco difícil, com o a mangu dele. Carol o trazia sem pre que ela e Sharon se encontravam para tom ar um café no lugar novo, onde antes era o Kardom ah. Agora elas tom avam chá de ervas lá. Carol ficou grávida aos 16 anos e acabou atrás da caixa registradora no m ercado.

– Ela tem tanto orgulho de você, Pet. Bom , todas nós tem os. Você é nossa estrela, não é?

Angela voltara para a Inglaterra, ninguém sabia exatam ente onde. Olga se saiu de form a brilhante em ciências da com putação e estava trabalhando nos Estados Unidos, no Vale do Silício. Acabou se casando com um engenheiro de software cham ado Todd e tem dois filhos. Os dois são autistas. Um a tragédia, realm ente, m as Olga os am a dem ais. Agora estava grávida novam ente e estavam rezando para que o terceiro fosse um a m enina.

E Gillian? A últim a coisa que Sharon e Carol ficaram sabendo é que havia se separado do m arido e m ontado um a agência de relacionam entos em Maidenhead. A agência não era para qualquer coração solitário sim plesm ente. A pessoa tinha de ter boa aparência e um a boa rede de relacionam entos. Gillian é que j ulgava.

Só porque ela podia.

 

– A cor favorita dele era m arrom .

– Com o é? – Bill levantou os olhos das vitrines que havia no saguão do hotel. Ele estava inspecionando as j oias e fazendo contas. Você poderia pegar um avião até aqui, tirar a sorte grande, ganhar 150 m il dólares nas roletas, dar um a chegadinha até o saguão para com prar um relógio de ouro branco e platina com o m ostrador incrustado com tantos diam antes que m al dava para discernir os ponteiros – na realidade, não dava para saber as horas, o que m ais ou m enos roubava o obj etivo do relógio – e ainda ficar com dois dólares e cinquenta centavos de troco, o suficiente para dois sucos de fruta de caixinha para levar para casa. Nem m ais rico nem m ais pobre. Seria um fim de sem ana legal e bem -balanceado.

– Eu falei que a cor preferida dele é m arrom . A de David. – Petra olhou enquanto ele se endireitava. Então ela viu a expressão em seu rosto. – Ah, m eu Deus, não m e diga que você inventou isso tam bém .

– Infelizm ente, sim . Pelo m enos acho que sim . – Para profundo alívio de Bill, Petra balançou a cabeça e riu. A essa hora, ontem , ele pensou, ela teria m e dado um chute. Ou deveria.

– Existe algum a coisa sobre ele que é verdadeira? Algum a coisa que não tenha sido inventada por você? Estou com eçando a acreditar que ele não existe. Nunca existiu. Você inventou o garoto que eu am ava. É todo seu.

– Não, não. – Agora era Bill quem balançava a cabeça. – Não, isso j á é exagero. Para com eço de conversa, você o viu ontem .

– Hologram a.

– E o ouviu.

– CD.

– E você chorou. Ou Sharon chorou.

– Fraqueza. Mulher galesa.

Bill parou um pouco para pensar.

– Certo, e aquele cara que eu vi em 1974 na coletiva de im prensa? Aquele que...

– Você o viu? – Petra voltou a ter 13 anos novam ente, em um instante; os anos foram voltando e lá estava ela.

– Eu o conheci. Fui até seu quarto no hotel tam bém , e nós nos sentam os e...

– Você foi até o quarto dele? – Ela estava com a boca aberta, com o um peixinho-dourado. – Só um de nós pôde ir ao quarto dele, e foi você? Por que não eu? Eu o conhecia m elhor que você. – Petra teve que se acalm ar, ela estava perdendo o espírito esportivo. Bill percebeu, e gentilm ente a socorreu.

– Bom , isso é verdade – ele cedeu. – Minha coleção de pôsteres de David era de dar pena. Você beij ava os seus pôsteres na parede?

– Bom , fazia isso na casa de Sharon. Minha m ãe, fã radical de Wagner e de m úsica clássica, não gostava de artistas pop. Sendo assim , pôsteres não entravam na nossa casa. Mas Sharon tinha um santuário para David e nós nos aj oelhávam os e o beij ávam os.

– Vej a bem , com o regra, os m eninos não saem beij ando paredes. Nós as derrubam os, com um tanque de guerra, se tiverm os algum , m as beij ar, nunca. Era com o acontecia com as m úsicas. Só ouvia os discos quando queria roubar um trecho para a revista. – Ele fez um a pausa. – E quem vai saber? Talvez a cor favorita dele sej a m arrom . – Ele deu de om bros e acrescentou: – Isso eu não posso saber.

– O que você quer dizer? – Petra perguntou.

– Bom ... – Bill percebeu que havia arm ado um a cilada para si m esm o e agora estava enfiado nela até os j oelhos. – É que eu sou daltônico.

– Não.

– Sim .

– Então você nem sabe com o é o m arrom .

– Bom , para m im é verde.

– Você quer dizer que o m undo é cheio de vacas com endo gram a m arrom .

– A gram a tão m arrom de casa – Bill respondeu. – Acho que sim .

– Isso é a coisa m ais triste que j á ouvi. – Petra parecia triste por ele, m ais do que ele poderia esperar. Ela perguntou: – De que cor são m eus olhos?

Bill se aproxim ou e olhou dentro deles. Ela não piscou.

– Eles são perfeitos.

– Você está falando igual à Cachinhos Dourados.

– E são dois. Eles com binam .

– Obrigada. – Ela m anteve o olhar sob o dele. Com certo esforço, pareceu, ela levantou o olhar sobre os om bros dele e disse: – Lá vem encrenca.

Sharon vinha na direção deles na ponta dos pés, com o se o lobby estivesse cheio de pessoas dorm indo que ela tentava não acordar.

– Meus saltos estão m e m atando de dor de cabeça – ela disse, sem preâm bulos. – Eles fazem m uito barulho. – Ela estava usando os m aiores óculos que Petra j á vira. Jacqueline Onassis poderia ter vivido atrás de um desses, incógnita, durante m eses.

– Sha, o que é isso? Parece que você tem duas telas de TV am arradas no rosto. E a etiqueta ainda está pendurada aqui do lado.

– São lindos, não são? – Sharon disse, saboreando os elogios. – Georgie Versace. – Ela se virou para Bill. – Bom -dia, David.

– Eu...

– Para com isso, sabem os que você é ele, na verdade.

Petra entrou na conversa:

– Foi o que acabei de dizer. E ele não pode provar o contrário. Vam os subir até a suíte de David em um m inuto, quando seu agente, ou sej a lá quem for, vier aqui nos buscar, e não vai haver David Cassidy coisa nenhum a. Será ele. – Ela olhou para Bill. – Melhor ir andando. Por que você não pega o elevador de serviço e chega um pouco na frente? Precisa vestir seu m acacão branco antes de chegarm os. – Ela franziu a testa para ele. – Não vam os aceitar nada m enos que isso, entendeu?

– Isso m esm o – Sharon concordou. – Ou talvez o fraque verm elho que ele usou em White City . Ficaria bem em você.

– É possível – Bill adm itiu. – Quer dizer, eu o coloquei na m ala, m as por fim pensei: “Não, é um pouco sim ples para a ocasião, não tem o brilho suficiente para o tipo de im pacto que quero causar.” Além disso – com pletou com tristeza –, esqueci a gravata-borboleta.

– Bem , é claro que não tem graça sem a gravata cintilante – Petra concordou. Sharon, ao seu lado, sacudiu a cabeça afirm ativam ente, com o se estivesse convencida de que aquilo iria acontecer. – De qualquer m aneira, você fez um a boa pesquisa.

– Com o assim ?

– Lem brar da gravata-borboleta. Tem os as fotos para provar isso. Você tinha de recortar as fotos e colocá-las na sua revista, não é?

– Ah, não – Bill disse. – Eu fui no show.

– O quê? – Petra e Sharon falaram j untas, em coro.

– Eu estive em White City. A noite terrível em que a garota foi esm agada. Eu estava lá. Vi a gravata brilhante e tudo o m ais. Foi um a loucura, com o um a guerra.

– Mas nós estávam os lá – Petra afirm ou. – Nós duas estávam os. Fom os com Gillian e Carol. E Olga e Angela.

– Elas eram legais?

– Carol era m uito adorá-vel – essa foi Sharon, seu sotaque ficava m ais forte com a m em ória voltando à cabeça –, m as Gillian era um a m aldita vaca, não era, Pet?

– Mas era bonita – disse Petra, distante. Ela olhou para Bill novam ente. – Você estava m esm o lá? Você ficou até a parte onde tudo aquilo entrou em colapso?

– Minha nossa, sim , estava na área reservada para a im prensa, ao lado da barreira. Tive de aj udar um as m eninas a passar. Algum as pareciam m uito m achucadas, lem bro bem disso. Engraçado, grande parte do que aconteceu é um borrão agora. Deve ser m inha idade avançada.

– É claro.

– Um a coisa que m e lem bro é de um sapato. Não sei por quê. Só aquele sapato pesado, m arrom -averm elhado. Fiquei dando voltas com ele na m ão, tentando descobrir quem o perdera. Com o se aquilo im portasse, quando havia garotas sendo esm agadas. Im agine o idiota aqui, tentando encontrar um pé para calçar um sapato.

– O príncipe da Cinderela – Sharon brincou. Seus óculos escuros estavam escorregando.

Petra estava m uito rígida, olhando fixam ente para o passado. Passando as im agens um a a um a, congelando-as e tentando dar um zoom . A sensação da m ão de Sharon escorregando da sua. A destruição causada pela m ultidão m onstruosa, ela descendo entre m ilhares de pernas, finalm ente avistando a am iga. Um bracelete de cabelos brilhantes. Agarrando o cabelo, puxando-a com toda sua força. E Carol em purrando a m ultidão para trás com o um a pilar cam peã no rúgbi. Então ela disse:

– Eu perdi um sapato.

Ela e Bill eram com o m ergulhadores agora, tateando as profundezas; am bos acenando na escuridão, esperando se encontrar. Um garoto com um sapato e um a m enina sem : poderia ser um a cena de um conto de fadas. Eles estiveram tão perto um a vez, e agora estavam próxim os de novo. A razão lhes dizia que era pura coincidência; não tão surpreendente, se fosse verdade – um artista pop os colocara no m esm o estádio, então por que ele não esperaria 20 anos ou m ais e os colocaria no m esm o hotel? Mas a razão se acovarda diante do rom ance. Para o rom ance, não havia coincidências. Isso era o que os não am antes falavam , alm as tristes no m undo banal, para explicar as m anobras do destino.

Nós tínham os de estar aqui, Petra e Bill pensaram ao m esm o tem po. Som os dois. E com binam os.

– Eu lhe disse – afirm ou Sharon, que havia deixado a razão lá na cidade de Gower, com seu m arido e filhos, e não tinha pressa em voltar. – Príncipe Bill. – Ela em purrou seus óculos enorm es acim a do nariz. – Isso é m ágica!

– Sr. Finn?

Um j ovem extrem am ente alegre veio saltitando na direção deles, com a m ão estendida. Seu sorriso era tão brilhante que com petia com a vitrine de j oias.

– Oi, sou Edouard. – Ele pronunciou seu nom e com sotaque francês, Edou-arrrd, em bora nem Petra nem Bill j am ais tivessem visto um am ericano m ais com pleto.

– E você deve ser Petra – ele disse a Sharon, que chacoalhou sua m ão com um a gargalhada vinda diretam ente dos vales.

– Vou te dar só m ais um a grande e gorda chance – ela respondeu graciosam ente, e por m eio segundo Bill achou que o sorriso de Edouard iria se desfazer. Duas das prim eiras palavras de Sharon fizeram disparar o alarm e na cabeça do rapaz. Talvez nada grande, e certam ente nada gordo, havia cruzado o cam inho dele em m uitos, m uitos anos. Mas, com profissionalism o, ele se saiu bem .

– Então você deve ser Sha-ron! – exclam ou, enfatizando a segunda sílaba com o se ela fizesse parte da Terra Santa, ou fosse um general israelense. Sharon gritou. Sua alegria foi liberada.

– Sha-ron-ron-ron-ron – ela cantou de volta.

O anfitrião, derrotado sem saber pelo que, virou-se para Petra.

– Estam os m uito honrados de tê-la aqui – disse, não arriscando dizer seu nom e e segurando m uito forte sua m ão, com o se buscasse proteção da m aluca ao seu lado. – David está m uito anim ado. Ele está lá em cim a agora e, se estiverem prontos, podem os subir.

Eles foram andando na direção dos elevadores. Petra educadam ente perguntou:

– O sr. Cassidy ... hum m ... sabe por que estam os...?

– Claro, totalm ente – Edouard confirm ou, sem pre feliz quando solicitado a confirm ar algo que sabia, ou acreditava, ser verdade. – Ele adorou a história de vocês. Um a história sensacional. Das duas – continuou, com um sorriso nervoso para Sharon. – Ele adora vocês.

Sharon com eçou a cantar novam ente. Bill e Petra estavam ao lado um do outro, esperando, olhando silenciosam ente para seus sapatos.

 

Sharon estava aj oelhada no chão do quarto. David estava sorrindo para ela.

– Não, é m elhor assim – ela disse. – Encaixa m elhor. O que você acha, Pet?

Petra refletiu:

– Não, m elhor no m eio. Assim ele fica com nós duas, j untas.

Elas estavam com um m aço de fotos e Sharon quis fazer o álbum naquela hora, antes m esm o de entrarem no avião. Havia um fotógrafo profissional lá, quando foram com Bill para conhecer David. Um hom em forte e sorridente de um a em presa local cham ada Cy clone Im ages, com a foto de um tornado nas costas da cam iseta.

– Com o vai? – Sharon cum prim entou, dando-lhe a m ão.

– Oi, m eu nom e é Ci – ele disse.

– Meu Deus, com o o clone! – ela gritou. Ci ficou confuso. Ele foi ao trabalho, arrum ando o tripé e as luzes; assim , quando David viesse, eles estariam , com o ele disse, preparados para deixar rolar.

Quando term inaram as fotos e David estava conversando com Petra e Bill em um canto, Sharon perguntou a Ci – que atrevida, vej a só, sendo ele um profissional – se ele poderia tirar um as fotos extras com a câm era nova dela. Para sua coleção. E, por fim , tudo correu com o o planej ado: Ci fez o que lhe foi pedido, e David posou m ais algum as vezes com cada um a delas. Sharon beij ou o fotógrafo quando ele estava saindo, dizendo “Obrigada, Ci” o m ais alto que podia para ver se conseguia arrancar um a risadinha de Petra. E assim que se despediram de David, que precisava fazer a passagem de som para o show da noite, Sharon saiu – não, ela correu – do hotel até a loj a de câm eras fotográficas do outro lado da rua. Eles poderiam revelar as fotos em um a hora, m as era m ais caro. Ela pagou m ais, recusando a oferta de Petra para rachar as despesas. Parecia que se Sharon não pegasse as fotos naquele m om ento a lem brança daquela m anhã iria se apagar de sua m em ória, e com ela a prova de que aquilo realm ente tinha acontecido. Ela não teria nada para m ostrar que esteve aqui, com ele, frente a frente. Ele lhe dera um abraço. Três décadas esperando por um abraço.

– Meu Deus, ele é incrível, não é? Brilhante. Tudo foi incrível. – Sharon se sentou e adm irou sua obra.

– Sim – Petra concordou. Ela foi tom ada, por um segundo, por um a vertigem . Não um a vertigem pela altura, em bora o quarto fosse de núm ero 2.147, vigésim o andar, com vista para a Las Vegas Boulevard, a fam osa Strip; foi m ais um a vertigem pelo tem po. Petra sentiu um a queda súbita, que não estava esperando e com a qual não conseguia lidar m uito bem ; de volta no tem po, quase que violentam ente, para algo... parecido com o lugar onde estavam agora. Onde havia sido, e quando? Tem algum a coisa a ver com o carpete debaixo de seus dedos, agora, felpudo e áspero, enquanto ela se aj oelhava ao lado de Sharon. No ar – não nesse ar seco de Las Vegas com ar-condicionado, m as flutuando gentilm ente no ar do passado –, o cheiro m ais estranho. O cheiro de cabelo queim ado, de um secador de cabelos barato; um cheiro tão penetrante que fazia arder os olhos e o nariz, perm anecendo por um tem po, e tudo em você cam baleava.

– O que você disse? – ela perguntou para Sharon, que havia falado enquanto Petra estava sonhando.

– Hellooo, doidinha, eu disse que poderia m orrer feliz.

Petra sorriu.

– Viva feliz. É m elhor pra você, bach.

– É, você tem razão. E é m ais barato. E as batatinhas são m elhores. Não se conseguem batatas decentes quando se está m orto. Com o eles cham am aqui? Fritas.

Elas se inclinaram sobre as fotos novam ente.

– Gosto desta de nós duas – Sharon disse. – Olha só com o parecem os j ovens.

– A câm era nunca m ente.

– Eu gostei desta m inha com David e Bill, apesar de Bill estar com esse olhar m eio abobalhado. Nessa ele está m elhor, ao lado de David. Ah, essa está m elhor ainda. Você e Bill. Essa é a m elhor de todas.

Petra ficou em silêncio.

– Sabe o que David m e falou quando você e Bill estavam posando para o sr. Clone?

– Não fale.

– Ele disse... olhando para vocês dois... ele disse para m im ...

– O quê?

– Ele disse: “Acho que ela o am a.”

Petra riu.

– David Cassidy não disse isso.

Sharon hesitou, depois torceu o nariz e riu tam bém .

– Não, m as poderia ter dito, não poderia? Só porque eu inventei, não quer dizer que não sej a verdade, não é?

– Bom ....

– E é verdade, olha aí. Você o am a.

– Quem ? Quem eu am o?

– E David Cassidy j untou vocês dois. Isso é o... com o é que se diz? É o destino dele.

– De quem ? Agora estou confusa. Desculpe, tem m uito am or rolando por aqui.

Por fim , Sharon com eçou a cantar:

– There’s a whole lotta lovin’ going on in my heart... (Tem m uito am or rolando no m eu coração...) – Sharon deu um abraço em Petra. – Sobra m ais para m im – ela afirm ou.

Petra se afastou para olhar para a am iga.

– O que você quer dizer?

– Bom , agora que você tem o Bill...

– Desculpe, eu não tenho ninguém ...

– Agora que você tem , Pet, tem sim . David é todo m eu, não é? É j usto. Ele é todo m eu.

Petra abraçou a am iga, e enquanto o cabelo loiro e fino da m ulher m enor flutuou até encostar em sua blusa, ela sentiu um choque fam iliar.

– Ele é todo seu.