Eu Acho que Amo Você
Capítulo 6
6
– É você. Você é David Cassidy .
Zelda estava de pé ao lado da m esa de Bill, segurando um suéter. Não tinha m angas e foi tricotado com lã, form ando listras verm elhas e brancas, com um a fileira de botões na parte da frente que pareciam prateados com a luz. Em volta da bainha havia um a faixa de um azul estranho, com estrelinhas brancas m al desenhadas.
– E olhe as costas. – Ela o virou para m ostrar a letra D m aiúscula feita com um tecido prata acetinado, costurada entre os om bros. – Levante-se – disse Zelda, e Bill, sentindo-se com 10 anos de idade, pôs-se de pé sem hesitar. Que poder aquela m ulher m aj estosa tinha sobre ele, pensou, que fazia ele se levantar com um cham ado dela? Ela pressionou o suéter sobre seu peito. Bill estava com o segundo botão de sua cam isa desabotoado, com o os hom ens nos com erciais de loção pós-barba, e por um segundo ele pôde sentir os pelos de seu peito grudando na letra D prateada. Não foi um a sensação agradável.
– E serve, Billy ! – ela continuou. – Com o eu disse, é você! – Com o assim , Billy ? Ninguém nunca o cham ara de Billy, a não ser um garoto cham ado Newsom e, no terceiro ano, que tinha acabado com o nariz sangrando.
– Não m e cham e de Billy – ele disse em voz baixa. – Por favor. – Ele podia ver Pete Espinhento, no fundo da sala, preparando um sorriso zom beteiro.
– Desculpe, William querido – disse Zelda. Tudo a sobressaltava, incluindo desfeitas e m ágoas de qualquer aspecto, fossem elas dadas ou recebidas. Ela sacudiu o suéter. – Olhe para o brilho disso. E você percebeu que as estrelas e as listras foram feitas para lem brar a bandeira am er...
– Sim , eu notei. Mas parece estar de cabeça para baixo. – Juntos, eles se m aravilharam com o im pressionante obj eto. Ali, finalm ente, estava a prova de que o tricô podia arruinar seus olhos. Chegara naquela m anhã em um a caixa m arrom cheia de selos baratos. A caixa agora estava aos pés dela. – Quem enviou?
– Clare Possit. – Zelda colocou o suéter sobre a m esa e pegou um envelope rosa-choque de um bolso oculto de seu vestido cor de tangerina que ia até o chão, parecendo ter vindo de Marrakesh, e balançava quando ela se m ovim entava. – Clare Possit, 47 Lucknow Road, Shrewsbury . Catorze anos, cabelos castanhos, 27 pôsteres, um coelho cham ado Partridge.
– Caram ba!
– Sim , vam os ver. Ela gosta de sanduíches feitos na chapa e tam bém gosta de tricô. Por isso, aí está este lindo suéter. Gostaria de se tornar a sra. David Cassidy quando crescer.
– Se ela crescer. E se ele crescer.
– Ora, ora. Clare teve bastante trabalho, saiba disso. Além do suéter, ela m anda um gorro de lã para ser usado em Manchester.
– Claro. Em m aio, no verão.
– E tam bém um par de m eias. – Zelda investigou a caixa e segurou cautelosam ente, longe dela, com o faria com um par de lagartas venenosas. Bill chegou m ais perto, sinceram ente interessado.
– Nessa m eia aqui está escrito “CHE” – ele disse. – Com o Guevara. Será que Claire é m arxista? O pai dela sabe disso? Existe apoio à Revolução Cubana em Shrewsbury ? Eu nunca soube disso. – Ele fez um a pausa e sua expressão m urchou. – Ah, entendi. – Zelda estava segurando a triste irm ã gêm ea da m eia. Ela trazia escrito “RISH”. Cherish, o nom e de um álbum de David.
– Juntas – Zelda disse com anim ação – elas form am ...
– Sim , j á sei. – Bill exam inou as m eias. Para sua surpresa, ele ainda não havia parado de se espantar com as loucuras pelo am or a Cassidy. David ainda era basicam ente um a criança e a probabilidade de algum dia ser autorizado a se tornar hom em parecia m ínim a; ou ele seria feito em pedaços por suas fãs, com o um cervo em m eio aos cães de caça, ou congelado para a j uventude eterna, daquele j eito que os californianos ricos arm azenavam seus corpos em gelo seco. Além do m ais, ele não sabe cantar; não com o Mick Jagger, David Bowie ou qualquer um desses deuses adultos. Perto de Cassidy, até Marc Bolan podia ser considerado hom em adulto, e olha que ele usava m aquiagem , pelo am or de Deus! E um a echarpe de plum as. Mas – só de pensar nisso Bill ficava irritado, e a irritação não ia em bora – Cassidy m erecia aplausos: ele conseguia provocar am or. Era com o um a bruxa com um caldeirão. Bill achava que tinha conhecido um pouco sobre o am or quando estava na faculdade – não aquele am or que vem do coração (Deus o livre), m as a tática que poetas e pintores usavam , um a estratégia artística para levar as m ulheres para a cam a, ou ser levado para a cam a delas. Porém esse garoto, esse am ericano veadinho, conseguia produzir em oção do nada, de lugar nenhum , com prim indo-a em um a canção, com o Clare Possit com prim indo as m eias naquela caixa m arrom . E quando as m eninas a desem brulhavam na outra ponta – quando escutavam a m úsica, sozinhas em seus quartos –, elas não apenas acreditavam naquilo, m as acreditavam que ele acreditava tam bém ; elas achavam que a m úsica havia sido feita para elas.
Tolas, inúm eras tolas. Shakespeare teve sua Dam a Negra dos sonetos, talvez até um a am ante nas horas vagas, m as quantas garotas David conseguia ganhar com apenas um verso, um uivo daquela voz aguada, um a j ogada de quadril para o lado? Milhões, bilhões de Clares, Judiths e Christines, todas totalm ente convencidas de que ele gostava delas, de que estão apaixonadas, estej am elas na cidade de Shrewsbury, Wigan ou Weston-super-Mare; do m esm o m odo, tam bém estão convencidas de que são am adas. O pop dom ina o m undo. Poetas são coisa do passado.
– O m elhor tratam ento para espinhas.
Ele saiu do seu devaneio com um pulo. Por um instante, sua cabeça rodopiou. Pete estava ao seu lado, colocando um a foto em seu cam po de visão. Onde estava Zelda? Enquanto Bill estava sonhando ela deve ter saído de fininho.
– Olhe para isso. – Pete apontou para algum a coisa com seu dedo acinzentado de grafite; suas unhas tam bém tinham m anchas brancas, o que a avó de Bill costum ava dizer que era evidência de um a alim entação ruim . Bom , ela estava certa. Dois dias atrás, Bill vira Pete forçar um KitKat para dentro do buraco vazio de um enroladinho feito com m assa de m ilho, e depois com er aquilo tudo. Será que ele j á tinha com ido o recheio de carne e legum es de dentro, ou sim plesm ente os tirou com seus dedos estreitos e os j ogou fora? E ali estava ele, inclinado, m ostrando a Bill um a fotografia. Não, eram duas fotos.
– Antes e depois – ele disse. – Com o nos anúncios im becis de perda de peso. – Ele fungou e esfregou o nariz com a articulação de um dedo. – Norm alm ente eu não faria um a cópia, sacou? Eu só trabalharia a original. Mas essa ficou tão boa que pensei que você deveria ver o original antes de eu com eçar a trabalhar. Porque você é novo.
Pelo que Bill entendeu, aquela deveria ser um a oferta gentil, um a aj uda de alguém m ais experiente, m as de algum m odo soou com o um insulto. Tudo o que saía da boca de Pete era assim .
– Prim eiro o “depois”.
Era um a fotografia em preto e branco de David Cassidy. Ele estava de costas para a câm era, m as tinha se virado de um m odo falsam ente m odesto, olhando sobre o om bro para dizer às m ulheres do m undo para gozarem de sua com panhia. Ou, se quisessem , apenas gozarem . O sexo deve entrar em algum lugar. Seus cílios, com um a curvatura graciosa, eram absurdam ente longos, e sua pele era perfeita com o um a tigela cheia de leite.
– Certo, e daí? É um m enino-m enina.
– Agora olhe para ela. – Pete deu um sorriso terrível, e deslizou a outra im agem para frente. – O “antes”. – Bill olhou.
– Meu Deus!
Todo adolescente tem espinhas, m as aquele cara tinha um problem a sério. Suas bochechas em erupção e esburacadas poderiam ter despertado a curiosidade de um vulcanologista.
– Meu Deus – Bill repetiu. – É com o olhar para a lua. – Então, percebendo que um elogio seria de bom tom , ele se voltou para Pete. – Ótim o trabalho, cara. Você fez m ágica. Cassidy não o conhece, m as ele precisa m uito de você.
– Vai se ferrar! – Pete disse, para indicar que estava contente.
– Com o você fez isso?
– Tinta, branqueador, pequenos pincéis. Lápis e borracha, às vezes. É com o... dar um retoque nas im perfeições.
Sem com oção, cauteloso para falar de sua arte ou qualquer coisa que pudesse dar a im pressão de arte, ele puxou as im agens da m ão de Bill e saiu andando. Ele viera para exibir seu trabalho e recebeu o devido crédito, porém foi em bora m ais zangado do que quando chegou. Com o m uitos funcionários do escritório, Pete agia com o um a criança m al-hum orada e m im ada. Isso seria falta de gerenciam ento, Bill se perguntava, ou era apenas o trabalho: o resultado inevitável de ficar até o pescoço rodeado por sonhos adolescentes de outras pessoas?
O telefone tocou. Ele era bege e todo feito de ângulos, em vez de curvas, leve dem ais para se m anter no lugar. Bill pegou o fone e o aparelho, reagindo ao seu puxão, caiu da beirada da m esa.
– Merda! – disse Bill, bem alto. Zelda, que estava passando, lançou-lhe um olhar severo. Outras pessoas apenas apertariam os lábios, m as ela sabia fazer isso com o rosto todo.
– Não xingue – disse a voz do outro lado da linha.
– Quem é? – Bill perguntou. – Ah, Ruth, oi. Não, desculpe, eu deixei cair o... espere um m om ento, só um m inuto.
Ele pegou o aparelho e tentou equilibrá-lo em um a pilha de cartas.
– Não, eu posso falar. Eu só... Sim . Sim , tudo bem . Com o?
Zelda havia parado agora e o observava lutar com o telefone. De repente, ela colocou a língua para fora.
– Cristo – disse Bill. – Desculpe... não, am or. É só a Zelda fazendo um a coisa com a língua. Não, a língua. Zelda. Ela é m inha. O que você disse? Não, é m inha chefe...
Zelda colocara um dedo na boca, fingiu lam bê-lo, depois o usou para fazer pequenos m ovim entos em espiral no ar. Bill não sabia para onde olhar. Por que sua superior im ediata estava escolhendo esse m om ento, entre tantos, para oferecer o que pareciam serviços sexuais íntim os? Será que ela não gostava de Ruth? Nenhum a das duas coisas fazia sentido. Na sem ana anterior, afinal, Zelda tinha se recusado a aceitar um chocolate Cadbury alegando que o anúncio era “um pouco grosseiro”.
– Não, am or, eu estou, estou, estou ocupado com ... program ações da turnê, m arcando entrevistas. Sim . Com quem ? Ah, você sabe, grandes nom es. Não, não tão grande. Quero dizer, não por enquanto.
Ele estava consciente de que estava com eçando a se contorcer. Zelda estava olhando para ele de m aneira estranha, ainda fazendo algo insondável com a m ão.
– Não, nossa, seria m uito legal. Ou Jim m y Page, eu sei. Você sabia que censuraram o últim o álbum deles na Espanha? Por causa das crianças na capa? Sim , eu sei...
Bill observou enquanto Zelda pegava o telefone e o tirava da pilha de papéis. A carta de cim a tinha os dizeres “EU ODEIO JIMMY OSMOND” colados na parte de baixo com fita adesiva azul. Zelda lam beu o dedo novam ente, virou o telefone e usou a ponta da unha para um edecer os pés de borracha da base. Finalm ente ela abriu um espaço na m esa de Bill e colocou ruidosam ente o aparelho sobre a m esa, pressionando-o até fixá-lo.
– Aí está – ela disse com orgulho e se foi, cantando, com sua voz grave e vibrante: – Stair-air-way to heah-uh-ven. – Bill colocou a cabeça nas m ãos, o fone ainda contra o crânio. Percebeu vagam ente que Ruth ainda estava falando. A voz dela zunia em sua cabeça.
– Hum , é. Bom , eu vou sair com o pessoal depois do trabalho. O quê? Você sabe, os outros caras.
Ele baixou a cabeça, arriscou um olhar ao redor, afundando sua voz em um sussurro:
– A banda. O quê? Eu estou falando alto. Eu disse a banda. – Alguém , duas m esas adiante, levantou o olhar. Ninguém que ele conhecesse, um novato segurando um gram peador gigante; ainda assim , ele não estava sendo cuidadoso o suficiente.
– Não, acaba por volta das 21:30, 22h – Bill continuou, com a voz norm al agora. – Sim , o Grapes, o pub. Vej o você depois. Preciso desligar. Ah, você sabe. O rock nunca dorm e. É. Tudo bem , tchau.
Bill inclinou a cabeça para trás e pensou em Ruth por um instante. Do lado de fora, a luz do sol em palidecera e a chuva batia na j anela. O escritório estava ficando m ais escuro, m as as luzes ainda não tinham sido acesas. Não por causa da nota que circulara na sem ana anterior, alertando sobre os custos da energia elétrica, m as porque ninguém se incom odava em ir até o interruptor. Alguns, com o Chas, preferiam abertam ente a escuridão.
Bill se inclinou sobre a m áquina de escrever novam ente e tornou-se outra pessoa. Escreveu sobre sua adoração ao sol e sobre sua dificuldade de viver sem seus instrum entos (“se alguém quisesse m e torturar, era só m e tirar a bateria e a guitarra”), e se desculpou por seus garranchos. Então parou e contou quantas palavras tinha até o m om ento. Mil cento e trinta palavras. Perfeito. Será que deveria ficar orgulhoso com o j ornalista, ou envergonhado, com o hom em , criando coisas desse tipo – no prazo, no tam anho certo, preciso? Ainda tinha espaço suficiente para o fecham ento: “Não se exqueça... Deixe um lugar especial para mim no seu coração para quando eu chegar. Até lá. Com amor, ...”
Ele percebeu um a som bra m ovendo-se na sua frente, ao redor e às suas costas, m as ele estava tão arrebatado no ato da personificação que nem se incom odou em olhar. Estava tão entretido que levou um choque quando as palavras foram pronunciadas ao lado da sua nuca, em um rosnado baixo:
– Chegue logo.
Bill deu um pulo, ficou m etade em pé, m etade para trás, tentando interrom per o giro em sua m ente.
– Uau! – ele disse.
– Desculpe, am igão – disse Roy, m uito satisfeito com o efeito que sua interrupção provocou. O editor veio intim ar.
– Não, desculpe, foi culpa m inha – disse Bill, tentando ficar de pé, com o um velho em um bar sendo apresentado a um a garota. Por que o dia de hoj e, que não com eçara tão m al, term inou em um m onte de desculpas? – Desculpe, você estava dizendo...
– Eu estava di-zeeen-ndo – Roy prosseguiu, com o tom sagaz que guardava para os funcionários m ais lentos e m ais j ovens – que você não viu nada, filho. Seu belo garotinho aí, sr. Cassidy, é m uito certinho, m as dizem as m eninas que espiam por entre as grades do seu portão que a coisa é diferente.
– Com certeza não. Ele não é assim – Bill respondeu, soando inesperadam ente com o sua avó.
– De qualquer m aneira, agora você terá um a chance de descobrir, não é? Porque o sr. Certinho está vindo para a velha Inglaterra...
– Sim , eu sei. Tem os ingressos.
– Ah, m as você tem ingressos para o show, m eu rapaz. Estou falando sobre a entrevista coletiva antes. E não apenas isso. Estou falando de você e o sr. Verão, cara a cara, em carne e osso, só os dois durante 15 adoráveis m inutos. Você e Cassidy, j untos em um quarto de hotel. Há garotas nesse país, vou lhe dizer, há garotas no polo Norte que dariam suas calcinhas de pele de anim al por um m inuto com esse veadinho em um quarto de hotel. E você vai ter um quarto de hora, m eu rapaz. Não o desperdice. Você não é gay , é?
– Eu...
– Bom . Porque não vou m andar um veado para ver o boiola quando todas as nossas leitoras querem beij á-lo, não é? Não quero que você ponha suas luvas encardidas por baixo da roupa m arrom dele, certo?
– Sai fora, senhor...
– Tudo bem , tudo bem . Você tem feito um excelente trabalho. Nasceu para isso. Só não pergunte o que ele pensa, nem nada daquele besteirol artístico. Nada que tenha a ver com a alm a. De qualquer m aneira, duvido que o bocó tenha tem po para isso.
– Tem po para quê?
– Para a alm a. Ele é apenas um a voz dentro de um a cam isa, não é? E não vai se dar ao trabalho de fechar os botões até em cim a. Com o algum as pessoas que eu conheço.
Com isso, Roy saiu andando, fazendo um ruído de m astigação. Bill discretam ente levou a m ão ao peito e abotoou um dos botões. Ele sabia o que o chefe pensava dele. Bill sabia m uito bem que Roy olhava para ele e via um fedelho esnobe: um m etido a esperto com um a cam isa gay e um diplom a (com o se esse servisse para algum a coisa), um assalariado com m edo dem ais da vida para entrar de cabeça nela, inocente dem ais para adm itir o que acontece quando, na frase preferida e m uito repetida por Roy , “a m erda é j ogada no ventilador”.
Provavelm ente ele estava certo. Apesar de tudo, Bill não sabia em que acreditar sobre um a pessoa com o David Cassidy ; ele não sabia no que queria acreditar. Nos m om entos ociosos, talvez com Ruth dorm indo ao seu lado, ele im aginava o que acontecia quando um hom em de 24 anos se achava na situação de receber adoração em m assa; o que literalm ente acontecia, não na cabeça do cara, m as na sua cam a e aos seus pés, em hotéis, piscinas, nos cam arins dos estádios e program as de TV. Quando as fãs encontravam o garoto-deus, qual era o resultado provável? Elas desm aiavam ou ficavam tím idas, com o as heroínas das ficções rom ânticas, incapazes de suportar a fantasia se tornando realidade; ou os atos não rom ânticos tiravam o m elhor delas, forçando-as a ficar de j oelhos?
Bill ouvira rum ores sobre David, não podia evitá-los, ainda que algo nele escolhesse não ouvi-los: algo que não era apenas m oralism o excessivo e caretice, m as protetor dos direitos dos sonhadores de qualquer lugar.
Ele deve ter passado anos de sua vida, no fim das contas, pensando sobre Paul McCartney – não sobre ser Paul McCartney ou sobre se tornar Paul McCartney, m as se agarrando a um a im agem de Paul em algum lugar ali ao seu lado, brincalhão e anim ado, m ostrando-lhe o dedilhado de “I Wanna Hold Your Hand” e o encoraj ando: “Legal, cara, vai com calm a, sem pressa. Está ótim o, Bill, percebi que você tem praticado.”
E se Bill havia ficado ali, sonhando com essas tolices, e sabendo no seu íntim o que essas tolices faziam sentido, m ais sentido do que qualquer outra coisa; bem , então que direito tinha de zom bar das garotas tolas, que tricotavam suéteres com as iniciais DC e m andavam poem as e cachos de cabelo?
– Pise delicadam ente, William , pois está pisando nos sonhos delas. – As palavras de Zelda que, no m om ento em que foram proferidas, fizeram com que ele engasgasse com um a bala de m enta, voltaram para ele com a toda a gentileza zom beteira de quem as falou.
Ele olhou para o relógio. Quase três horas. Mais duas horas e vai cair fora. Dentro de três horas, se Zelda não tentar segurá-lo até tarde, se o m etrô não estiver entupido e se conseguir tom ar um uísque antes para acalm ar os nervos e os dedos – se tudo der certo, quando forem seis horas, o j ornalista de m úsica fará sua própria m úsica.
Bill tocava baixo em um a banda cham ada Spirit Level. Não era um a banda conhecida, nem m esm o para os fam iliares um pouco m ais distantes. Nunca ficariam conhecidos, a m enos que fossem acidentalm ente m antidos com o reféns em algum a tragédia ou fizessem o papel de heróis evacuando um pub durante um a am eaça de bom ba, ou ainda se eles m esm os fossem bom bardeados. Isso seria bem típico, não seria? Conquistar a im ortalidade, em vez da fam a, vendendo m ontanhas de discos por terem m orrido. Todas aquelas tietes vagando, deslum bradas, e ninguém com quem dorm ir.
Eles se form aram durante a escola.
– Vocês ainda são um bando de m oleques, não são? – Foi a observação de Ruth, na única ocasião com pletam ente im pensada em que ele a convidara para assistir a um a apresentação. Eles tocaram durante 20 m inutos em um pub cham ado Duke of York, no bairro de Acton, e Ruth ficou parada ali, com sua bebida na m ão, im óvel; j am ais um ser hum ano, Bill pensou, ficou tão sem ação diante das batidas tão profundas e libertadoras do rock popular britânico. Ela nem ao m enos piscou. Mais tarde, depois que lentam ente foram deixando o palco para dar espaço para os Space Hopper ou os Spikenard, ou sej a lá quem fosse o próxim o, ele deu um gole em sua cervej a e, reunindo coragem , perguntou o que ela havia achado.
– O que posso dizer? – perguntou ela de volta, com um sorriso largo dem ais, e aquela frase ficou em sua cabeça desde então, com o um a faca de dois gum es. Porém , ela estava certa sobre um a coisa: eles eram m oleques. Não eram adultos revivendo sua j uventude, o que j á teria sido triste o suficiente, considerando o que era a j uventude, m as adultos usando as arm as da j uventude – gritando, cantando, brigando, fazendo besteiras – para fingir que poderiam fugir das responsabilidades indesej áveis da vida adulta.
O vocalista cham ava-se David Crockett, igual àquele soldado e político fam oso. As pessoas iam até ele depois de um a apresentação e perguntavam :
– Com o é seu nom e m esm o?
E ele respondia:
– David Crockett.
– Não, seu nom e verdadeiro.
– É Crockett, sério. David Crockett. – E então, sem exceção, todos diziam :
– Ah, sai fora! – E iam em bora, sacudindo a cabeça.
Na escola tinha sido diferente; todos sabiam seu nom e, e a banda decidira não ocultar o fato, m as, espertam ente, fazer disso um ponto forte de publicidade.
– Vocês poderiam se cham ar “David Crockett e os Reis da Fronteira” – disse a m ãe de David quando estavam sentados à m esa da cozinha um a tarde. Ela sem pre insistia em cham á-lo de David, e não Davy, o que – Bill acreditava – fazia com que ficasse um pouco m ais difícil m anter a pose de pioneiros am ericanos. Tolworth, um a das áreas residenciais de Londres, era bem longe de Oklahom a. Faltava-lhes a Corrida do Ouro, para com eço de conversa. O bairro ficava na extrem idade sudoeste de Londres, agarrada à m argem da capital.
Estavam todos no andar de cim a da casa dos Crockett discutindo o quanto seria rápido o cam inho para a glória, agora que Derek, um vidente em form ação, e tam bém o m elhor guitarrista da escola, j untara-se a eles. Segundo o baterista, Colin Hobbs, o m elhor deles em m atem ática, a prim eira m úsica a atingir o topo nas paradas seria no com eço de abril de 1971. A sra. Crockett bateu à porta do quarto e, aparecendo com a cabeça detrás da porta, disse anim adam ente: “Chá e bolo quando vocês quiserem , m eninos!” Eles interrom peram a conversa sobre j atinhos particulares e m archaram para baixo obedientem ente, com o escoteiros.
Bill não sabia onde estavam os m em bros originais da banda hoj e em dia. Depois de term inada a escola, onde todos tinham m edo dele, Derek com eçara a ter problem as com alguns m eninos da escola – na verdade, rapazes – que eram tão ressentidos quanto ele, por m otivos que ninguém podia im aginar, quanto m ais resolver. No inverno de 1970, quando Bill estava com eçando a pensar no significado do beij o nas poesias de John Keats, Derek entrou em um a briga na estação Wim bledon. O outro garoto acabou nos trilhos, com m etade do queixo esfolado, escapando por pouco. Derek pegou 18 m eses de prisão em um lugar para m enores infratores e ninguém m ais ouviu falar dele. Bill às vezes se preocupava e ficava pensando nele, tarde da noite.
Até podia ter dois estiletes presos com fita adesiva na parte interna do estoj o da guitarra de Derek, no entanto, de todos os garotos que tentavam tocar o refrão choroso de George Harrison em “Som ething”, e erravam , Derek era o que errava m enos. Mas Derek sum iu da vida deles, e – o m ais im portante – abriu vaga na banda, deixando seu lugar para Colin Dougall, que fum ava m ais m aconha do que qualquer um que Bill j á conhecera, com frequência aparecendo do m eio de um tipo de nuvem , m as que tam bém era a única pessoa que ele conhecia que ainda ia à igrej a. A com binação parecia im provável, ou sim plesm ente equivocada, em bora Colin, o baterista, tivesse um a teoria com plexa sobre a frente quente da m aconha se encontrar com a um idade do ar do incenso, fazendo chover na nave da igrej a. O problem a de Colin Hobbs, além de ser inteligente, foi se cham ar Colin e, com o David observara, não se pode ter um a banda com dois Colins. Todos aceitaram a lógica desse argum ento, até m esm o Colin Hobbs, que se m andou para a cidade de Southam pton e se tornou, com o disse sua m ãe, “m uito envolvido com com putadores”. O lugar dele atrás da bateria foi para John Priscum be, que era j ovem dem ais, depois para Michael “Fedorento” Sturrock, que fedia, depois para um a criatura cham ada sim plesm ente Brillo, que durou um a sem ana e, finalm ente, para o alívio de todos, para um cara de Lancaster, Geoff Hy m es, que viera para Londres para fazer fortuna e acabou consertando geladeiras em Maida Vale. Ninguém poderia dizer que ele era um grande baterista, e ninguém disse, m as ele era sim pático e pontual, e o m elhor, a cada 15 dias ele tinha direito a usar um Ford Transit.
Nesse m eio-tem po, a banda m udou m ais de nom e do que de integrantes. Ninguém gostava de “Reis da Fronteira” e até a sra. Crockett desistiu desse nom e depois de um tem po. Então, sem m otivo algum , a banda virou Black Coffee (“o grupo m ais branco que conheço”, disse o DJ na apresentação da escola). E então Jetleg. Depois Eagle, um tributo ao m ódulo lunar logo após as aterrissagens na Lua. (“Se tivéssem os ficado com esse nom e”, David costum ava dizer praticam ente todos os m eses desde então, “poderíam os ter esperado até que os Eagles ficassem fam osos e processá-los por roubarem nosso nom e.” “Mas o deles é no plural”, Bill sem pre respondia. “É diferente. E o deles tem o ‘The’ antes do nom e.” Era a conversa m ais sem sentido de sua carreira, Bill pensava.) Foram tam bém Mandrake Root, quando o segundo Colin ainda estava na banda. Por um breve período foram Stitches. Agora eram Spirit Level e, com o Bill anunciava com algo m ais do que m odéstia, para quem quisesse ouvir, eles ainda eram tão ruins e dispersos com o quando a sra. Crockett lhes deu um a fatia de bolo e um garfo para cada um . Os nom es iam e vinham , o talento subia e descia, m as o Spirit Level era, e sem pre seria, decepcionante. A versão cover de “All Right Now”, repetida e sem pre m al-acabada, depois de tocada em m uitos casam entos com todos j á alcoolizados, ainda soava “com o um ônibus de dois andares passando por cim a de um a boiada”, com o Bill confidenciou a um am igo da faculdade. A banda era algo constante e confiável em sua vida, m as era m ais que isso. Ela era – apesar de que ele nunca adm itiria tanto para si próprio com o para Ruth – seu único am or verdadeiro.
– Exqueça.
– Com o?
– Exqueça. – Zelda ergueu o papel. Tinha passado por ali, viu Bill tom ando um café e puxou o papel da sua m áquina de escrever com um ruído alto.
– Erro de datilografia, perto do fim . Você escreveu “exqueça”, em vez de “esqueça”. E não assinou.
– Acho que vão saber de quem é.
– Não tenha tanta certeza – retrucou Zelda, que parecia que a qualquer m om ento iria apontar o dedo para ele. – O rapaz antes de você, não, dois antes de você, sem contar o pervertido, um a vez term inou um a carta de David e assinou “Brian”.
– Por quê?
– Porque esse era o nom e dele, bobinho. Ele estava tão... envolvido, com o vocês dizem , que se esqueceu de quem era quem .
– Com o Método.
– O que você disse? – Para Zelda, a palavra parecia suspeita, com o se estivesse relacionada com sexo.
– Nada – Bill disse. – Era ele o pervertido?
– Não, o perver... Olhe, não tenho tem po para esse tipo de... de... conversa fiada. – Zelda estava ruborizada. – Apenas faça as correções, por favor.
– Ele era pervertido com o quê?
– William , estou falando sério, tenho m uito que fazer... Se você pudesse só revisar isso m ais um a vez.
– Então está bom ?
– É um texto encantador, sim plesm ente encantador. – Zelda estava em terreno seguro agora. – Gosto particularm ente da parte em que ele é um m enestrel m edieval. Muito... criativo.
– Bem , ele disse algum a coisa sobre isso um a vez. Estou só seguindo seus passos. Não estou inventando. Estou? – Ele continuou, m ais com o um a súplica vazia do que por curiosidade.
– Você está fazendo um ótim o trabalho. Muito m elhor do que Brian, que, se tinha algum defeito, era deixar que tudo subisse à sua cabeça.
– De que form a? Ele com eçou a usar o kit?
– Com o assim ?
– Você entendeu, o m acacão j usto, o colar de conchas. Ele usava tudo isso aqui, na m esa? Em plena terça-feira?
Zelda preferiu não responder. Ela sim plesm ente pegou o tubo de corretivo e o entregou a Bill.
– Corrij a. – E foi em bora.
A tam pa do corretivo estava em perrada. Bill a girou, xingou e girou novam ente. O tubo voou e o líquido branco escapou, suj ando a m ão direita e o pulso de Bill. Chas, passando naquele exato m om ento, não deixou a piada para depois:
– Garoto obsceno. Bem aqui onde qualquer um pode ver.
– O quê?
Chas perdeu o fôlego e com eçou a gargalhar, com o fazem os aliados dos vilões, e fugiu para o banheiro m asculino. Bill ficou sentado ali, tentando lim par as m ãos. O telefone tocou e ele foi atender. Quando tirou o fone do gancho, o aparelho se soltou da m esa com um som fraco e abafado, caindo no chão.
– Merda! – disse Bill, bem alto. – Merda! – O telefone estava coberto com líquido corretivo, então ele disse apenas: – Desculpe – e deixou o fone cair no chão, onde ficou grasnando por um instante. Usando a m ão esquerda, ele recolocou o papel na m áquina de escrever, rolou-o para baixo e, com um único dedo, escreveu a palavra “David”. – E vá à m erda! – disse, novam ente em voz alta. – Idiota.
– Com quem você está falando? – disse o hom em que ele não conhecia, algum as m esas adiante.
– Ninguém .
O hom em deu um sorriso rápido e gozador.
– O rock nunca dorm e, não é?
Bill j á não tinha m ais forças para ficar bravo. Ele apenas ignorou e suspirou.
– Está m ais para o pop nunca acorda – disse o hom em . Ele riu de sua própria piada e baixou a cabeça para o seu trabalho. A chuva lá fora estava m ais grossa agora: zangada, porém sem ritm o, com o a bateria de Colin Hobbs. Subitam ente Bill não tinha m ais vontade de tocar com seus am igos. Queria ir para casa e dorm ir.
O grasnido não parava. Bill resgatou o telefone que estava debaixo de seus pés.
– Sim ?
– William , é Zelda. – Aquilo não era bom . O escritório de Zelda ficava a apenas 20 segundos de distância e, com o regra, ela gostava de se lançar no espaço entre as divisórias com vasos de plantas e navegar pelas m esas de seus colegas. Outro dia Bill apresentara a ela a expressão “dar um rolé”, com a qual ela nunca havia se deparado – o vocabulário de Zelda, e até m esm o seu m undo, parava logo após a fronteira das regiões leste e sudeste de Londres – e ela ficou pensando naquilo, experim entando as palavras, e por fim declarou: “Gostei.” Dali em diante, se pudesse dar um rolé, ela dava, e a única coisa que a im pedia eram notícias indesej áveis. Quando forçada a produzir ondas ruins, ela as m andava por telefone.
– William , sinto m uito. Acabam os de ter um a reunião no editorial – isso queria dizer que ela e Roy rasparam o fundo do vidro de Nescafé – e ficou decidido adiantar o teste para a próxim a edição. Com o você deve saber, estávam os planej ando fazê-lo para as leitoras no m eio do verão, m as agora que David anunciou as datas dos shows, acham os que chegou a hora...
– Que teste?
– Ah, não é nada de m ais. – Estava ficando pior do que Bill pensara.
– Que teste? – perguntou ele novam ente.
– Bem , vendo quantos fãs de David leem nossa revista, que com o você sabe é a principal publicação nesse assunto...
– Que teste?
– O Superteste de David Cassidy. Duas páginas, altam ente especializado, não para qualquer garota passando na rua. Coisas que som ente as fãs de verdade saberiam . Então Roy e eu pensam os, na verdade praticam ente decidim os, que você tem m ostrado tanta dedicação ao seu trabalho, e j á sabe tanto sobre David, que você seria obviam ente...
– Para quando?
– Segunda-feira.
– Não.
– Com o disse?
– Não dá tem po. É preciso pesquisar...
– Sim , bem , isso quer dizer fazer um trabalhinho extra, e sabem os perfeitam ente...
– Não consigo fazer no fim de sem ana.
– É por isso – Zelda prosseguiu, triunfante em sua lógica – que estou ligando para você agora. Para que você possa com eçar im ediatam ente. Eu ficarei até m ais tarde tam bém , e Peter, do Departam ento Fotográfico, tam bém .
– Até m ais tarde?
– E pensei que se tivéssem os term inado por volta das nove ou dez, poderíam os os três ir até o Ody ssei Grill. Por conta da em presa, cortesia do Roy . Muito generoso, acho que você concorda.
– É que essa noite era...
– Era o quê, querido? – Zelda fez um a pausa. Bill ficou m udo. – Bem , sej a lá o que for, estou certa de que você poderá rem anej ar. – Zelda falava com anim ação agora, passando pela pior parte e apressando-se para um fecham ento. – Muito obrigada. Sabíam os que poderíam os contar com você. O lay out vai passar daqui a pouco para um a conversa.
O telefone ficou m udo. Bill colocou o fone no gancho. Ele não sabia o que m ais tem ia: ligar para David Crockett para dizer que não conseguiria ir ao ensaio da banda ou com er um kebab m alfeito de carne de cabra com Pete Espinhento, tarde da noite. Tinha de fazer am bos, de qualquer form a; recusar a exigência de Zelda assim tão cedo na carreira na Worldwind poderia significar não ter carreira nenhum a. Mas não deixava de ser um pensam ento tentador. No entanto, estava econom izando para com prar um carro e fazer um a viagem à Grécia com Ruth. Em bora não pudesse dar nom e, form a ou feição ao seu futuro, sabia que queria ter futuro. Qualquer coisa era m elhor que ver o tem po se arrastando.
Bill procurou um lenço para assoar o nariz. Ele estendeu a m ão para pegar o telefone novam ente, m as o aparelho tocou assim que encostou nele. Ele pulou e agarrou o fone, um tanto irritado.
– O que foi?
– Desculpe, William , é Zelda novam ente. Esqueci de acrescentar o m ais im portante. Para ser colocado no topo. Se você pudesse, sabe, fazer algo cham ativo. De todos aqui, você é o m ais poético.
– Sim ? – Ele viu a si m esm o curvando-se para frente, com o se estivesse se preparando para um a briga.
– O prêm io m áxim o para esse seu teste. – Já havia se tornado o seu teste?
– Continue.
– Bem , geralm ente oferecem os discos, pôsteres ou ingressos e coisas do tipo, m as dessa vez, sendo o teste algo tão especial, a sortuda vencedora e um a am iga vão conhecer David em pessoa no estúdio onde é film ada a série de A Família Dó-Ré-Mi.
– Isso é ser sortuda?
– Claro. Im agine-se com o um a garota de 13 anos. Im agine com o você ficaria em polgado.
– Posso im aginar.
Apenas im aginar.