Eu Acho que Amo Você
Capítulo 1
1
Marrom era a sua cor favorita. Marrom é um a cor tão chique, um a cor tranquila e m odesta. Não é com o roxo, a cor favorita de Donny. Não uso roxo nem m orta. Nem aquela boina de Donny. É preciso gostar m uito de um m enino para sair com ele com aquela boina roxa ridícula na cabeça.
É incrível o quanto você pode saber sobre um a pessoa que não conhece. Eu sei o dia em que ele nasceu: 12 de abril de 1950. Ele é um ariano típico, m as sem a teim osia de Áries. Eu sabia seu peso, sua altura e sua bebida favorita, 7-Up. Sabia o nom e de seus pais e de sua m adrasta, um a estrela da Broadway. Sabia tudo sobre a adoração dele por cavalos, o que fazia todo sentido para m im , pois quando um a pessoa é fam osa deve ser um consolo estar perto de alguém que não sabe ou não se im porta com o quanto você é fam oso. Sei qual era o instrum ento que ele aprendeu a tocar quando estava se sentindo sozinho. Bateria. Sei o nom e do cachorro que ele abandonou quando teve de se m udar de New Jersey. Sei que quando ele era garoto, era baixinho para sua idade, tam bém tinha estrabism o e teve que usar tam pão de olho e óculos corretivos, o que deve ter sido difícil. Mais difícil do que para um a m enina. Em bora não enxergasse bem , sem pre que possível eu não colocava os óculos, o que algum as vezes m e trouxe problem as na rua, por sorrir para estranhos que confundia com pessoas da m inha fam ília. Só usava na sala de aula para enxergar o quadro-negro. Alguns anos depois, quando com ecei a usar lentes de contato, fiquei chocada com as árvores. Elas tinham folhas, m ilhões de folhas com as pontas tão finas e definidas que parecia que Deus tinha feito cada um a com um cortador de m assa. Basicam ente, antes dos m eus 16 anos, o m undo era um a grande pintura im pressionista, a m enos que eu apertasse m uito m eus olhos para trazer as im agens para um foco. Algum as coisas, descobri m ais tarde, ficavam m elhores desfocadas.
Naquela época eu não estava interessada no m undo real. Não de verdade. Respondia às perguntas de m eus pais, dava a entender que fazia m eus deveres de casa, carregava m eu violoncelo nas costas até a escola, ia ao centro da cidade aos sábados à tarde com garotas que às vezes pareciam m inhas am igas e às vezes não; m as eu vivia para Ele. Toda noite espalhava m eus cabelos longos e escuros sobre o travesseiro e m e forçava a dorm ir de barriga para cim a para que m eu rosto estivesse pronto para receber um beij o se ele aparecesse de m adrugada. As chances eram pequenas, é óbvio, porque eu m orava no País de Gales e ele na Califórnia, que fica a 8 m il quilôm etros de distância. Além do m ais, ele nem tinha m eu endereço, em bora eu tenha enviado um poem a para ele por interm édio de um a revista. Escolher a cor certa do papel de carta levou m ais tem po do que escrever o poem a em si. Decidi pelo am arelo porque m e pareceu m ais m aduro que o rosa. Achei que todas as outras garotas fossem escolher rosa, e fazia parte do m eu am or por ele encontrar novas m aneiras de deixá-lo feliz, assim ele saberia o quanto eu m e im portava. Não existe papel de carta m arrom , ou eu teria usado, porque essa era sua cor favorita. Algum tem po depois – três sem anas e quatro dias, para ser m ais precisa – chegou um a resposta pelo correio. Tinha 17 palavras, incluindo m eu nom e. Não m e im portei com o fato de na carta haver um pedido de desculpas por não publicarem m eu poem a. O m ais im portante é que eu sentia com o se finalm ente tivesse feito contato com ele. Alguém im portante em Londres, alguém que j á esteve na m esm a sala que ele, havia tocado o m esm o papel de carta am arelo que eu tocara, datilografou m eu nom e em um envelope e colou o selo. Nenhum bilhete de recusa j am ais foi tão apreciado, com um lugar de honra no m eu livro de recortes.
Sabia exatam ente onde ele m orava na Califórnia. Em um cânion. O cânion era com o um dos nossos vales, só que m uito m aior. Nós, britânicos, dizem os much bigger para m uito m aior. David diz way. Way bigger. Way é a palavra am ericana para “m uito”. Os Estados Unidos são tão grandes que os am ericanos viaj am 160 quilôm etros só para j antar com outra pessoa e não acham que é dem ais. Nos Estados Unidos, way to go é quando você faz algo bom ou bem -feito. Way to go, baby! Os am ericanos falam gas para gasolina; no País de Gales falam os petrol.
Outras palavras que aprendi foram : cool (legal), mad (louco) e bathroom (banheiro). É preciso tom ar cuidado porque nos Estados Unidos banheiro não é o lugar onde se tom a banho. O que cham am os de banheiro para eles é o vaso sanitário, ou o toalete.
– Os am ericanos são pessoas m uito educadas e não suportam vulgaridade – disse m inha m ãe, que é alem ã, bonita e desaprova m uitas coisas. Pode-se dizer que m inha m ãe lutou a vida toda para m anter o vulgar e o feio a distância. Em nossa cidade, ela encontrou o inim igo perfeito. Sem pre gostei de aprender palavras am ericanas porque elas m e faziam ficar m ais próxim a de David. Quando nós nos conhecêssem os, seria im portante preservar m inha personalidade, que é um a das prim eiras coisas que ele procura em um a garota.
Em todas as entrevistas que li, David dizia que preferia que um a garota fosse ela m esm a. Mas, para ser honesta, não tinha certeza de quem eu era ou se tinha um a personalidade, m as tinha um a fé inabalável de que esse “eu” ainda desconhecido e não descoberto seria extrem am ente interessante para David quando finalm ente nos conhecêssem os. Com o eu tinha certeza? A com preensão nos olhos dele m e disse. (Ah, aqueles olhos! Eram com o piscinas verdes onde você podia derram ar todos os seus desej os.) Ainda assim , sabia que conhecer David j á seria bem estranho m esm o não havendo nenhum a confusão, por isso fazia tudo o que estava ao m eu alcance para aprender o inglês am ericano. Seria com o um a pegadinha ir ao banheiro na casa dele em Los Angeles, por exem plo, e descobrir que não havia chuveiro, não é? Ou im agine se eu dissesse que alguém está furioso (mad). David iria achar que eu disse que a pessoa está m aluca (crazy) . Mad significa m aluco, louco nos Estados Unidos e furioso no País de Gales. Naquela época, eu não conseguia im aginar que David poderia ficar furioso; ele era tão gentil e sensível. Desculpe, estou parecendo m aluca?
– Aquele cantor, Donny Osm ond, é um idiota – Sharon disse com firm eza. Ela estava aj oelhada no chão, tirando, com a unha do dedo m indinho, os gram pos de gram peador do pôster de página dupla de um a revista, tentando libertar um tronco m asculino. O corpo esguio, sem cabeça, estava nu até a cintura e praticam ente sem pelos, exceto por um a fina faixa dourada que descia até a altura do cinto, que ostentava um a pesada fivela dourada. A fivela parecia um a argola de m etal daquelas que se vê nas portas dos tem plos astecas. Sharon retirou os gram pos de m etal do pôster e ele agora descansava sobre suas m ãos, trem ulando um pouco com o ar quente que soprava do aquecedor atrás dela. O quarto de Sharon era pequeno, pintado com um rosa claro enj oativo que lem brava cor de pom ada de bebê e fedia a cabelo queim ado, um cheiro ruim de algodão-doce que entrava nas nossas narinas e perm anecia ali. Sharon secara seus cabelos em frente ao aquecedor e alguns fios ficaram presos na parte de trás do aparelho, m as na verdade não notam os o cheiro, de tão absorvidas que estávam os com nosso trabalho.
– Pra falar a verdade, não acho que Donny sej a um idiota – respondi, cautelosa.
– Todos na fam ília Osm ond são idiotas. Li em um a revista – ela insistiu, sem tirar os olhos do pôster. Sharon era perita em restauração. A m elhor artista da classe. Quando fosse m ais velha, provavelm ente poderia trabalhar em um m useu ou galeria de arte. Adorava vê-la trabalhar. O m odo com o ela enrolava a língua fazendo um pequeno túnel quando estava concentrada, dedicando atenção aos m inúsculos furinhos na barriga de David, alisando o papel am assado com as pontas dos dedos até a pele parecer selada.
– Pronto, am orzinho – ela disse, e deu um beij o barulhento no um bigo da foto do pôster, adicionando m ais esse à pilha.
Fiquei com um nó na garganta, com o se tivesse um pedaço de lã entalado. Queria m uito corrigir Sharon com relação aos Osm onds serem idiotas, m as nossa am izade era nova dem ais para arriscar um desentendim ento. Gostávam os um a da outra porque nos entendíam os. Nós nos entendíam os porque achávam os que David Cassidy era o garoto m ais incrível da face da Terra, talvez de toda a história da hum anidade. Com 13 anos de idade, eu não podia nem im aginar o luxo de ter um a am iga de quem pudesse discordar. Se discordasse dela, estaria ferrada. E, antes que pudesse perceber, estaria no pátio da escola sozinha, suspirando e olhando o relógio a cada dois segundos para indicar que estava esperando alguém para passar o recreio e não era o tipo de pessoa triste e sem am igos que tinha de fingir que estava esperando alguém que não existe.
Pior ainda era m e im aginar negociando com algum a outra renegada na aula de educação física só para não ter que fazer par com Susan Davies, ou Susan Fedida, que tinha um a doença de pele que ninguém sabia sequer pronunciar. Seu rosto, braços e pernas eram cheios de buracos com o a superfície da Lua, só que em alguns dias os buracos eram preenchidos com um a loção de calam ina. Sabíam os exatam ente o que era porque nossas m ães nos untaram com essa loção quando tivem os catapora. Os pontos inflam ados coçavam e eram com o pequenos vulcões, ao redor dos quais o líquido calm ante rosa endurecia, parecendo um a crosta de lava. Não coce, vej a bem , ou a ferida deixará um a cicatriz. A pior coisa em Susan Davis, além de sentirm os pena dela e m esm o assim não fazerm os nada para aj udá-la, era o fedor. A pobre Susan cheirava tão m al que fazia as pessoas sentirem ânsia de vôm ito quando ela passava pelo corredor, apesar de ela sem pre andar ao lado das j anelas.
– Sabia que o Donny é mórmon? Acho que é um a religião fundada em Utah – disse com cuidado.
Sabia exatam ente o que os m órm ons eram . Estudar Donny fazia parte da m inha pesquisa aprofundada sobre o histórico de David. Sabia tudo sobre os outros Osm onds tam bém , só para m e garantir, até m esm o sobre Way ne. Se necessário, poderia dizer o signo de cada um dos m em bros do Jackson Five e os detalhes sobre a difícil criação deles, que contrastava com sua m úsica despreocupada e alegre. Com o o “Twiddly diddly dee, twiddly diddly dee. Twiddly diddly dee. Dee dee!”, da canção “Rockin’ Robin”.
Sabe, nunca consigo ouvir o coro de abertura de “Rockin’ Robin” sem sentir um a pontada de tristeza pelo que aconteceu com aquele garoto incrível e toda sua doçura.
Mesm o quando era criança, sem pre tive um gosto exagerado por biografias trágicas, um tipo de radar interno que estrem ece com o sofrim ento. Acho que fui a única que não ficou nem um pouco surpresa quando Michael Jackson com eçou a fazer tratam entos dolorosos e pouco a pouco foi abandonando seu adorável rosto negro. Sei m uito bem o que é detestar a própria aparência e querer fazer desaparecer a criança que deixou os pais zangados ou desapontados. Quando você cresce, cham am isso de em patia. Quando você tem 13 anos, isso apenas faz você sentir que não está tão sozinho.
– Você sabe que todos os m órm ons têm de usar roxo porque é a cor favorita de Donny ? – perguntei.
Sharon deu um a risadinha.
– Sai pra lá, Petra, você é um a figura!
Pensávam os que éram os histericam ente engraçadas. Ríam os de tudo, m as ultim am ente os garotos tinham se tornado o alvo principal de nossas observações espirituosas. Ríam os deles antes que eles pudessem rir de nós, ou nos ignorassem , o que curiosam ente parecia m achucar ainda m ais do que ser provocada ou insultada. Sabe, sem pre gostei m ais da risada de Sharon do que da m inha. Minha risada soava com o um a tosse nervosa, que só consegue sair tarde dem ais, depois que a piada j á passou. Sharon fazia aquele som feliz, soluçante, igual ao de um a boneca quando você puxa a cordinha. Minha m ais nova, quem sabe, am iga parecia um pouco com um a boneca. Tinha o rosto redondo, com covinhas, e seus olhos eram de um azul incrível, da cor da cam pânula, debaixo de cílios pálidos, quase im perceptíveis. Seus cabelos eram loiros quase brancos, do tipo que brota em profusão, com o um dente-de-leão. Quando nos sentávam os um a ao lado da outra na aula de quím ica, seus cabelos flutuavam para os lados com a corrente invisível de ar quente que saía do Bico de Bunsen e grudava em m eu m acacão. Se eu tentasse tirar os fios, levava um choque com a estática e m eu braço form igava.
Sharon era bonita de um j eito que todos no nosso grupo concordavam , sem se sentir m al com isso. Era um m istério. Seu peso parecia agir com o um tipo de colete de proteção contra a invej a. Quando ela perdeu suas gordurinhas, todos nós percebem os que poderia ser um a história diferente. Nesse m eio-tem po, ela não representava am eaça para Gillian, que foi quem nos apresentou e era a estrela do grupo. Não, não era bem assim . Gillian era nosso sol. Todas nós girávam os em torno dela e faríam os qualquer coisa, qualquer coisa m esm o, coisas realm ente hum ilhantes e vergonhosas na esperança de que ela brilhasse sobre nós por alguns m inutos, pois o calor da atenção de Gillian fazia com que você se sentisse instantaneam ente m ais bonita e fascinante.
Quanto a m im , o corpo de j urados ainda estava decidindo sobre m inha aparência. Eu era tão m agra que perto de Sharon m ais parecia a garotinha do conto de fadas A pequena vendedora de fósforos. E não pense “Ah, isso não cola, quem não gosta de ser m agra?”. Ser m agricela não é o m esm o que ser m agra, de j eito nenhum . A m agricela é um a das últim as garotas a usar sutiã porque não tem nada em cim a. Deus do céu, eu odiava essa expressão. Em cima. Ela não tem quase nada em cima, né?
Onde m orávam os, as garotas tinham “em cim a” e “lá em baixo”. Você não pode deixar um garoto ir “lá em baixo”, m as às vezes você deixa ele ir “em cim a” se não tiver nada ali.
A m agricela está sem pre atrasada para a educação física e os professores a m andam dar cinco voltas ao redor da quadra porque ela não tira a blusa até que todas as garotas tenham saído do vestiário para que assim ninguém vej a seu sutiã ridículo de m enininha, com um botão de rosa na frente.
As revistas nos dizem para identificar nossos pontos fortes. O m eu era os olhos. Grandes e azul-acinzentados, m as às vezes verde-azulados salpicados de âm bar, com o um lago com pedras ilum inado pelo sol. Mas m eus olhos tam bém tinham um as olheiras que não havia pepino em fatias ou sono de beleza que dessem j eito. Mesm o assim , nunca parei de tentar.
– As olheiras de Petra são tão grandes que ela poderia ir a um baile de m áscaras e nem precisaria de um a m áscara. – Gillian cutucou e todos riram , inclusive eu. Principalm ente eu. Tenha cuidado para não dem onstrar aquilo que realm ente a m agoa, caso contrário ela saberá exatam ente onde colocar a faca da próxim a vez.
Meus pontos fracos eram todo o resto. Detestava m eus j oelhos, m eu nariz, m inhas orelhas, basicam ente qualquer coisa que se destacasse. Tinha a pele pálida que parecia ainda m ais pálida por causa de m eu cabelo escuro. Se estivesse em um bom dia, eu era com o a Branca de Neve no seu caixão de vidro.
Especialista no assunto, m inha m ãe pegou m eu rosto com um a das m ãos, m eu queixo pinçado entre seu polegar e o indicador, inclinando-o acentuadam ente na direção da luz do banheiro. Ela o apertou tanto que m inha m andíbula doeu.
– Você não é sem grraça, Petra – m inha m ãe disse com frieza. – Sua estrutura física é m uito boa. Se tirar as sobrancelhas quando for m ais velha, aqui e aqui, assim , revelando m ais os olhos. Sabe, você não é tán sem grraça assim .
– É tão sem graça, m ãe. Eu não sou tão sem graça.
– É exatam ente o que estou dizendo, Petra. Relaxe, por favor. Você não é tán sem grraça para um a garrota da sua idade.
Minha m ãe achava que falava um inglês perfeito e m eu pai sem pre dizia que não era o m om ento de contar a ela. Já m encionei que m inha m ãe é linda? Tinha um rosto perfeito, em form ato de coração, e olhos bem abertos e sonolentos ao m esm o tem po. Nunca tinha visto alguém parecido com m inha m ãe até um sábado à noite, quando estava na casa de Sharon e um program a passava na TV. Um a m ulher estava sentada em um banquinho alto com um vestido feito de algo que brilhava com o um m etal, com um casaco de pele branco drapeado na altura dos om bros. Ela parecia glam ourosa e im placável, m as sua voz era um ronronar suave.
– Isto sim é um a m ulher com pleta – o pai de Sharon disse, o que m e fez im aginar o que o restante das m ulheres era. Eram m etades ou quartos? Marlene Dietrich não parecia ter filhos, m as m inha m ãe tam bém não. Se colocarem m inha m ãe, loira, ao lado dos parentes de m eu pai que são do País de Gales, ela irá parecer um cavalo Palom ino entre um m onte de pôneis de carga. Adivinha qual lado da fam ília eu puxei?
– Achei! Sabia que estava em algum lugar. – Sharon sorriu, triunfante. Ela encontrara as pernas que se encaixavam naquele tronco. A revista Jackie estava trazendo pôsteres de David em tam anho natural, m as vinham em três partes, um a cada sem ana. Na prim eira sem ana, foi o pôster com o j eans e as botas de caubói, desta vez foi o tronco. Eles sem pre deixavam a cabeça por últim o.
– Assim você continua com prando a revista, não é? Será que eles pensam que som os burras ou algo do tipo?
Não conseguia ver o rosto de Sharon, m as sabia que ela estava franzindo as sobrancelhas e afunilando a língua enquanto alinhava a barriga de David com a calça j eans. Aquela era a parte m ais difícil. Quando ela os colocou na posição, dobrou as páginas lustrosas e eu lhe entreguei um pedaço de fita adesiva, sem pre a enferm eira prestativa para o cirurgião. Am bas nos levantam os para dar um a olhada m elhor em nosso trabalho. Não era um a pose típica de David. Entre os 30 ou m ais pôsteres na parede de Sharon não havia algum com o esse. Seus polegares estavam enfiados dentro do cós da calça. O botão de cim a estava aberto e a barra da cintura da calça estava dobrada, portanto dava para ver de relance o V invertido de pelos que o zíper norm alm ente escondia. Tentei pensar em algum a coisa engraçada para dizer, m as m inha boca ficou seca e pastosa. A ausência de sua cabeça era definitivam ente um problem a. Precisávam os urgentem ente do rosto sorridente de David para term os certeza do que estava acontecendo em baixo. Senti algo trem ular, com o se um pequeno farol estivesse sendo ligado dentro de m im , e um líquido quente se espalhou pelo m eu estôm ago, escorrendo até m inhas coxas.
Sharon j á tinha visto um pênis, m as foi o de seu irm ão, então não contava. Carol era a única no nosso grupo que j á havia tocado um de verdade. Foi o de Chris Morgan, na casa da árvore onde os garotos iam para olhar revistas pornográficas. Carol disse que o pênis era parecido com tocar a pele da pálpebra. Será que era isso? Sem anas depois de ela ter nos contado isso, eu esfregava um dedo sobre a pele acim a do m eu olho e ficava m aravilhada por algum a coisa de um m enino ser tão m acia e fina com o um lenço de papel.
Quando olhávam os as revistas, Sharon e eu sem pre passávam os batidas pelos m eninos m aus. Mick Jagger e aquele David Bowie, ele era estranho. Percebíam os instintivam ente que eles não eram para nós. Eles poderiam querer descer do pôster na parede e fazer algum a coisa. Exatam ente o que eles fariam nós não sabíam os, m as nossas m ães não aprovariam .
– É m uito bizarro – Sharon disse, contem plando aquele David sem cabeça e sem inu.
– Bizarro – concordei.
Essa era a nossa palavra predileta ultim am ente, m as m e incom odava não conseguirm os falar direito. Quando David a falava no program a que fazia na TV, era diferente. Nosso sotaque colocava a entonação na sílaba errada. Por m ais que eu tentasse, ainda soava m al. No violoncelo, eu conseguia tocar a nota que quisesse. Sabia se estava errado da m esm a m aneira que sabia se estava com frio ou fom e, m as controlar os sons que saíam da m inha própria boca era diferente. O engraçado é que eu nunca tinha reparado no m eu sotaque galês. Não até o ano em que fizem os um passeio com a escola até o Bristol Zoo e um as m eninas inglesas, em um restaurante da estrada, im itaram nosso j eito de pedir com ida:
– Legum -es.
Eu pronuncio o “e”, m as os ingleses não. Eles dizem “legum -is”.
Por que eles põem um “e” ali se não vão pronunciá-lo? Para que pessoas, com o eu, fizessem papel de boba para eles darem risada.
Sharon e eu estávam os fazendo o que havia de m elhor para fazer num a tarde chuvosa de dom ingo, ouvindo o álbum Cherish de David e folheando revistas que m encionassem qualquer coisa sobre ele. Para ser sincera, depois da aula de religião, no dom ingo, que durava duas longas horas, não havia m uito m ais o que fazer na nossa cidade no dia de descanso. Todos obedeciam a algum a lei não escrita de que as pessoas deveriam ficar dentro de casa e em silêncio. Mesm o se você não fosse à capela, o que sem pre fazíam os porque m eu pai tocava órgão lá, parecia que a capela tinha vindo até você. Minha tia Mair nunca usava tesouras no dom ingo, pois Deus podia ver tudo, até a cera dos seus ouvidos e a suj eira debaixo das suas unhas. Era possível fazer nascer batatas ali em baixo. Eca! Noj ento. E não se podia pendurar as roupas no varal por conta do que os vizinhos poderiam pensar. O j ulgam ento dos vizinhos poderia não ser tão ruim quanto o do Senhor Nosso Deus, papai dizia, m as você saberia dele m ais rápido.
Os dom ingos faziam baixar a tem peratura das casas de pedras cinza com varanda, enfileiradas e pegadas à m ontanha que se erguia íngrem e na nossa baía; até o m ar ficava um pouco adorm ecido. Isso sem pre m e fazia pensar que seria um bom dia para Jesus andar sobre as águas. As pessoas trem iam de frio no dia de descanso, subiam para vestir um a m alha e desciam para assistir à luta na TV, m as sem pre com o som baixo, por respeito. Era m uito bizarro olhar pelas j anelas enquanto descíam os correndo a colina em direção à orla m arítim a, usando a parte de trás dos sapatos com o breque até sentirm os o cheiro da borracha, assistindo aos hom enzarrões com seus collants derrubando uns aos outros no chão, berrando silenciosam ente e batendo as botas no chão do ringue.
Ficar na casa de Sharon era com o um feriado para m im . Tinha um irm ão m ais velho, cham ado Michael, que im plicava com a gente, m as de um j eito engraçado, sabe, e um a irm ã m ais nova, Bethan, que tinha um a queda pelo pequeno Jim m y Osm ond, acredite se quiser. (Nós o cham ávam os de Jim m y Coelhinho, ele parecia um coelhinho, pois tinha traços bem pontudos, no m eio de seu rosto redondo com o um balão.) Sha tam bém tinha um irm ãozinho pequeno, cham ado Jonathan, que chupava um biscoito, no alto de sua cadeirinha, até ficar com um a crosta laranj a em volta da boca que podia ser retirada por inteiro quando endurecia. Só o lim pávam os quando apareciam visitas para bater papo e que ficavam bastante tem po, pois estavam ocupadas dem ais falando para perceber a hora. A m ãe de Sharon era um doce, não existia pessoa m ais legal. Ela batia à porta do quarto, m uito respeitosa, entrava e nos oferecia suco e biscoitos. Ela sem pre lem brava que eu preferia os de groselha, que vinham na em balagem roxa, não na laranj a. A sra. Lewis disse que gostava dos nossos pôsteres de David e contou que ainda tinha um a caixa de fósforos e um m exedor de bebidas da noite em que Paul McCartney apareceu em um clube na cidade de Cardiff. Foi em 1964. A m ãe de Sharon era doida por Paul. Ela contou que odiava Linda por ter se casado com Paul.
– Ele era m eu, sabe.
Sim , nós sabíam os.
O que m ais gostava era o santuário de David atrás da porta do quarto de Sharon. Ela o conseguiu na revista Tiger Beat, que sua tia Mary -Ann trouxe de Cincinnati, nos Estados Unidos. Eram quatro fotos presas na altura da boca para que Sharon pudesse beij á-lo quando estivesse saindo para a escola de m anhã. Com o se estivesse dizendo adeus para um nam orado de verdade. Na prim eira foto, David estava com um corte de cabelo desordenado e um sorriso m alicioso. A segunda tinha aquele olhar – você sabe. Na terceira, seus lábios estavam esperando um beij o e na quarta, bom , ele parecia m uito feliz e satisfeito consigo m esm o.
Com o tem po, os quatro Davids foram ficando m anchados e borrados com a vaselina que Sharon usava para am aciar os lábios, um truque que copiam os de Gillian. Às vezes, ela m e deixava beij ar o David núm ero 3. Eu não podia ter pôsteres na m inha parede porque m inha m ãe achava que a m úsica popular poderia causar surdez, era m uito com um e, por isso, atraía apenas pessoas com o m eu pai, que trabalhava com fundição de aço e era um grande Dean Martin em segredo, m as essa é outra história que vou lhes contar outra hora.
No início daquele ano, várias coisas aconteceram . Gillian – ela nunca era apenas Gill – em prestou Sharon para ser m inha am iga especial. Fiquei m uito feliz, m as sentia que o em préstim o poderia acabar a qualquer m inuto se a paixão de Gillian por Angela, a m enina nova da Inglaterra, esfriasse. A incerteza m e dava um a sensação estranha no estôm ago, com o se estivesse em um a balsa ou algo do tipo, sem conseguir m e equilibrar. Acordei m uitas noites assustada, m inhas pernas chutando sob os lençóis com o se estivesse tentando não cair, não cair. Outra coisa é que o diretor da escola m e disse certa m anhã que eu iria tocar violoncelo para a princesa Margaret quando ela viesse inaugurar o prédio novo da escola. Ela era a irm ã da rainha, e o prefeito e algum as autoridades viriam . Mas a grande notícia era que David Cassidy adiara sua turnê na Grã-Bretanha depois de ter feito um a cirurgia para retirar a vesícula. Duas garotas em Manchester ficaram tão transtornadas que atearam fogo em si m esm as, segundo a revista.
Fogo! Meu Deus, ficam os sem anas com aquilo na cabeça, pensando na paixão e no sacrifício daquelas garotas. Não fizem os nada tão grande por ele. Pelo m enos por enquanto.
Outras duas fãs escreveram para David perguntando se poderiam ficar com um a pedra biliar cada um a com o recordação. Sharon e eu fingim os estar chocadas e enoj adas com a história da pedra biliar. Eca! Em segredo, não poderíam os ter ficado m ais encantadas. Que atrevim ento! Honestam ente, onde estavam seus m odos? Era de trem endo m au gosto e nada fem inino. David, com o toda verdadeira fã sabia, gostava que as m eninas fossem bem fem ininas. Balançam os a cabeça e cruzam os os braços, indignadas, com o havíam os visto nossas m ães fazerem , descansando os braços na protuberância invisível onde logo nossos seios estariam . Pedindo as pedras biliares de David!
Um dos prazeres m ais doces de ser um a fã, e talvez de ser do sexo fem inino em geral, era quando nos sentíam os superiores às nossas rivais.
Ficam os sabendo do cancelam ento e das pedras biliares pela revista Tudo sobre David Cassidy. Era um a revista brilhante, nossa Bíblia. A verdade sobre o deus. Custava 18 libras, bem m ais cara que qualquer outra revista.
– Superchique, vej a – Sharon disse. E era m esm o, com papel espesso e brilhante, fotos recentes deslum brantes e um a carta m ensal escrita pelo próprio David, dos estúdios de A Família Dó- Ré-Mi em Holly wood. Isso não tem preço, não é?
Colecionávam os acontecim entos das cartas de David com o esquilos fam intos, guardando-os para algum uso vital no futuro. Se alguém nos perguntasse o que faríam os com aquilo, não saberíam os dizer. Tudo o que sabíam os era que um dia aquilo se tornaria óbvio, com o num passe de m ágica, e estaríam os prontas.
– David escreve bonito – Sharon suspirou.
– David escreve bem – ouvi a voz de m inha m ãe corrigindo a fala de Sharon dentro da m inha cabeça. Ela olhava torto para as pessoas que não falavam corretam ente, ou sej a, todos, com exceção da senhora que trabalhava na biblioteca e os apresentadores da BBC.
– Não fale do j eito certo, fale o inglês da rainha, Petra – m inha m ãe repreendia sem pre que m e pegava falando com o todos na cidade falavam .
Mas ali, no quarto de Sharon, com o pequeno aquecedor preenchendo o am biente com um calor sonolento, e David na vitrola cantando “Day dream er”, podia ignorar a voz de m inha m ãe e com eçar a aprender com o ser m ulher por m im m esm a.
“Nothing in the world could bother m e
Cos I was living in a world of m ake believe...”
(Nada no m undo poderia m e incom odar
Porque estava vivendo no m undo do faz de conta...)
O cancelam ento da turnê de Cassidy no início de 1974 foi um golpe duro, m as tam bém um alívio. Isso m e dava m ais tem po para aperfeiçoar m eu plano para conhecer David quando ele viesse m ais para o final daquele ano. Talvez no outono. Ele diria “a estação” para outono, o que m e parecia perfeito. Sabia que de algum m odo teria de viaj ar para Londres ou Manchester, pois o País de Gales era pequeno dem ais e não havia nenhum local para shows grande o suficiente para com portar todos os fãs. Não sabia com o chegaria lá – sem dinheiro, sem transporte, m ãe que achava que qualquer cantor que não fosse Dietrich Fisher Dishcloth não deveria ser visto –, m as um a vez que estivesse lá e estivesse em segurança do lado de fora do local do show, sabia que tudo iria dar certo.
Seria atropelada por um carro. Não m e m achucaria a sério, claro, apenas o suficiente para ser levada para o hospital por um a am bulância. David ficaria sabendo do m eu acidente e correria até m eu leito. As coisas seriam estranhas no início, m as logo com eçaríam os a conversar e ele ficaria im pressionado pelo m eu profundo conhecim ento de seus discos, em especial os lados B. Eu perguntaria se ele estava curtindo o outono, se precisaria usar o banheiro. Não seria nem um pouco bizarro, seria maneiro. David ficaria im pressionado com m eu dom ínio do inglês am ericano. Nossa! Ele sorriria e m e convidaria para visitar sua casa no Havaí, onde eu iria conhecer seus sete cavalos, teríam os colares de flores no pescoço, nós nos beij aríam os e faríam os nosso casam ento na praia. Já estava preocupada com m eus chinelos.
Sim , era um a loucura. Não durou tanto tem po, não no contexto m aior de um a vida, m as, enquanto eu o am ava, ele era o m undo para m im .
No dia seguinte, teria escola. Eu detestava os dom ingos à noite, detestava a hora m elancólica de quando chegava em casa depois de passar algum tem po na casa calorosa e divertida de Sharon, e detestava ter de fazer a revisão para a prova de francês na segunda-feira de m anhã.
Eu am o, am arei, estava am ando, am ei, terei am ado. J’aurai aimé. Futuro perfeito.
A única coisa que fazia aquilo suportável era ler as revistas de David que guardava debaixo de um a tábua do assoalho ao lado da m inha cam a, ouvindo as 40 m úsicas m ais pedidas debaixo dos lençóis.
A voz de m inha m ãe era trazida pela escada acim a:
– Petra, term ine seu dever de casa de um a vez e depois estude o violoncelo.
– Estou fazendo m eu dever.
E estava m esm o. Deitada sobre a colcha m arrom bordada, lendo à luz do abaj ur da m esinha lateral, estudava as palavras da sem ana, guardando-as no coração.
Am ores,
Acho que sou com o todo m undo. Adoro receber cartas! Gosto de saber quem são vocês. É por isso que fico anim ado quando recebo um a carta SUA m e contando coisas sobre você: sua cor favorita ou onde m ora. De repente, sinto com o se fôssem os velhos am igos. Isso é m uito legal.
Acredito que devo retribuir esse favor. Bem , provavelm ente vocês j á sabem a
m inha aparência... Mas o m ais im portante é que estou sentado no m eu trailer entre um a gravação e outra de A Família Dó-Ré-Mi. O trailer é com o um lar para m im , com fotos da fam ília e m eus refrigerantes favoritos.
Uau! Acabei de perceber o quanto j á escrevi – e essa era para ser um a
m ensagem curta! Acho que tinha tantas coisas para contar para VOCÊ que m e deixei levar.
Viu o efeito que isso tem sobre m im ? Nunca gostei de escrever cartas e tinha que
fazer um esforço para escrever sete ou oito linhas. Agora m al posso esperar para entrar em contato de novo no m ês que vem . Até lá!
Am or,
David