Eu Acho que Amo Você
Capítulo 2
2
Uau! Acabei de perceber o quanto j á escrevi – e essa era para ser um a m ensagem curta! Acho que tinha tantas coisas para contar para VOCÊ que m e deixei levar.
Viu o efeito que isso tem sobre m im ? Nunca gostei de escrever cartas e tinha que
fazer um esforço para escrever sete ou oito linhas. Agora m al posso esperar para entrar em contato de novo no m ês que vem . Até lá!
Com todo am or,
Muito am or,
Am o m t vcs,
Am -
– Quanta besteira! – Bill puxou o papel da m áquina de escrever com a m aior força que pôde. A m áquina fez o som que ele sem pre pensava com o o “Assobio do Escritor”, algo entre o rasgar e o fechar de um zíper. Ele fez um a bola com o papel e a arrem essou no cesto de lixo, ou m elhor, na caixa de papelão, que era o que o escritório podia ter. A caixa tinha os dizeres “Wagon Wheels 184 pacotes” na lateral. A pontaria de Bill não era das m elhores, com o m uitas coisas nele, e seu m íssil bateu em Zelda a m eio cam inho do lixo. Ela se virou bem devagar, e sua túnica ondulou com o a vela de um barco.
– Calm a, William . Não se desespere. O hom em tem de sofrer por sua arte – Zelda disse. Bill nunca entendera a palavra casquinar até ouvir o ruído que sua editora fazia quando estava se divertindo, principalm ente com a desgraça alheia.
– O que isso tem a ver com arte? Estou inventando besteiras para colocar na boca de um garoto bonitinho cretino que não sabe cantar, provavelm ente não tem nem barba ainda e com certeza não conseguiria escrever um a carta nem para salvar sua própria avó.
– O que você faz é um a ram ificação respeitável da ficção – Zelda afirm ou, im perturbável.
Bill às vezes pensava o que ela faria se ele subisse em cim a de sua m esa, tirasse a gravata e se enforcasse no m eio de um dia de trabalho, o que lhe parecia cada vez m ais possível. Prim eiro ela lavaria as xícaras de chá, depois esvaziaria o apontador de lápis fixado na beira de sua m esa, e finalm ente, com tudo em ordem , ela pensaria em ligar para a polícia para pedir que retirassem o cadáver.
– Vej a Cy rano de Bergerac – ela continuou. – Ele escrevia cartas de am or para um tolo, para que conseguisse ganhar o coração de um a honrada donzela. O tolo, quero dizer.
– Eu sei quem é Cy rano de Bergerac, Zelda. E o ponto é que ele am ava a donzela, m as achava que ela não o am aria por causa de seu enorm e nariz. Seu público-alvo era um só. Roxanne era um a pérola. Enquanto eu estou escrevendo para um m ilhão de garotas que ficam m olhadas em qualquer oportunidade. E sei que não vai acreditar nisso, m as não sinto um am or platônico por elas. Nenhum a delas. E sabe por que não gosto de nenhum a delas? Porque elas são tão inteligentes quanto essa caixa de papelão. E com o eu sei? Porque elas acreditam seriam ente que o lixo que eu produzo aqui em m inha m áquina de escrever representa os dizeres sagrados do Santo David Cassidy . É assim que elas são. Elas são com o cam ponesas do século XIV. Você dá a elas um pedaço do crânio de um texugo e diz que é um osso esquisito da Abençoada Virgem Maria, e elas cairão desm aiadas e darão tudo o que possuem , incluindo a vaca. Estou escrevendo para cam ponesas.
Houve um a pausa. Zelda sorriu, com o faria com um a criança que estava chegando ao fim de um chilique.
– Isso significa m uito para as m eninas – ela disse em voz baixa. – Nós prestam os um serviço. Estam os fazendo as m eninas felizes.
– Mas eu não quero que elas sej am felizes. Quero que elas caiam no túnel das escavações de um a m ina.
Zelda olhou para o j ovem de barba desm azelada. Ele estava inclinado para trás o m áxim o que sua cadeira perm itia, com um par de botas que pareciam as de um m inerador de carvão em cim a de sua m esa transbordando de papéis. Ele deveria ter o quê – uns 22, 23 anos? Ela não conseguia se lem brar do que Bill colocara no form ulário de solicitação de em prego, m as lem brava que seu currículo sugeria que ele conseguia inventar coisas a partir de um m aterial bruto não prom issor, o que se encaixaria perfeitam ente ao em prego. Roy disse que ele era um veadinho arrogante e não queria contratá-lo. Jornalista das escolas m ais antigas, Roy era o proprietário da editora Worldwind e recom endou ao candidato que fizesse um a visita ao barbeiro para cortar vários centím etros do cabelo. Ele caía com o um a cortina loira e suj a, escondendo seu rosto. Zelda achou que ele tinha um rosto m aravilhoso, m as j am ais teria dito isso. Na verdade, quando ele se esquecia de ser cético e pessim ista, Bill possuía um charm e travesso e um sorriso que faziam Zelda se lem brar de um rapaz encantador que ela vira na sem ana passada em um film e no Cine Odeon: O último golpe. De qualquer m aneira, Zelda insistiu que deveriam dar um a chance a Bill e estava certa. Nos três m eses que ele trabalhou com o chefe, na realidade com o o único redator da revista Tudo sobre David Cassidy, William Finn m ostrou verdadeiro talento para o trabalho. As leitoras pareciam am á-lo. As vendas do “Kit do Am or de David Cassidy ” subiram ao teto desde que Bill aj ustara o anúncio com observações bem escolhidas e com oventes sobre as várias m aneiras que um a fã poderia dem onstrar sua devoção.
A m atéria exclusiva sobre as duas fãs em Manchester que atearam fogo no próprio corpo depois de saber que a turnê de David fora cancelada foi genial, em bora Zelda adm itisse que certa licença poética havia sido adotada para um incidente que envolvera um único pôster e um a caixa de fósforos. No entanto, a m ala do correio estava tão pesada que o pobre Chas não conseguia m ais subir as escadas levando tudo de um a só vez. Havia qualidades em Bill que faziam com que as garotas realm ente acreditassem que ele tivesse um a conexão direta com David. Não, ela não queria m esm o perder a sua galinha dos ovos de ouro, então Zelda tentou novam ente, usando sua m elhor voz suave de professora do j ardim de infância:
– Calm a, William . Você não quer de verdade j ogar suas lindas leitoras no túnel de escavação de um a m ina, não é?
Ele a recom pensou com um sorriso de cessar-fogo.
– Tudo bem , quero que elas cresçam fortes e sãs para perceber que desperdiçaram a m elhor parte da j uventude tendo sonhos inúteis com um babaca que usa cam isa de gaze de algodão.
– Todas as garotas fazem coisas desse tipo, William . Elas não seriam garotas se não passassem por isso. Fantasia é um a parte im portante do crescim ento. Não podem os ficar sentados só lendo Shakespeare, sabe.
– Pelo m enos Shakespeare escreveu Shakespeare.
– Se você está dizendo. – Zelda estreitou os olhos, com o alguém que está refletindo sobre um rum or m isterioso.
– Ah, pelo am or de Deus. – Bill encarou Zelda. – Você não está falando sério. Você não...
– Bacon!
– Ah, corta essa, Zelda, só porque...
– Com torrada branca, por favor! E bastante m olho. E vej a se eles têm um pacote de salgadinhos Twiglets. Obrigada, Chas!
Zelda cantarolou suas instruções para o office-boy do escritório, que fazia o que lhe m andavam fazer, m as com tanta m á vontade que acabavam quase desej ando que ele dissesse não.
– Bill? – Ele gem eu o nom e da estreita passagem para as escadas.
– Hum m , peito de peru com m aionese, se tiverem . Você sabe qual é, aquele que parece vôm ito. Valeu, Chas. Use o troco de ontem . E um a bebida.
– Cherry ade? Já desistiu da Corona Fizzical?
– Cai fora.
Chas se virou e desceu as escadas pesadam ente. Parecia um piano sendo m ovim entado.
Zelda se voltou com vivacidade para Bill.
– Onde estávam os?
– Você estava prestes a fazer um ...
– Obrigada, William . Estava tentando dizer que essas garotas com as quais você é tão rude têm certos sonhos e desej os que som os capazes de realizar. Esse é o nosso negócio. Realizar desej os. Muitas pessoas criativas dariam pulos de alegria com um a chance dessas.
– Criativas. – Bill baixou a cabeça, envergonhado, e olhou fixam ente para suas botas.
– Com certeza. E sei que você não aceitaria um elogio, sendo bom dem ais para nós, sr. Pretensioso Bacharel de Artes pela Universidade de Suffolk...
– É Sussex.
– O que eu acho, William , é que você tem um talento especial para escrever as cartas de David Cassidy . Diria que você tem m ais do que um talento especial. Diria que é um dom .
– Dom . – Sua cabeça afundou. Seu nariz estava na altura do um bigo. As calças tinham um a m ancha do form ato da Venezuela.
– Um dom , sim , com toda certeza. Eu daria tudo para ter um dom com o esse. No entanto, sou colocada para fazer o lay out da revista e a diagram ação dos textos, providenciar créditos de im agens e outras coisas que você acharia abaixo das suas capacidades.
– Eu nunca...
– Ah, não estou reclam ando. Gosto do m eu trabalho, o que estou dizendo é que você provou ser incrivelm ente bom em fingir ser alguém que não é. Você poderia ser ator. Ou espião.
– Ou um concorrente.
– O que você disse?
– Nada. – Bill se ergueu na cadeira, levantou o olhar para Zelda e sorriu. – Desculpe. Sei que deveria m e sentir agradecido. Mas francam ente, Zelda... é com o eu disse, não é só o que escrevo. É para quem estou escrevendo. – Ele enfiou a m ão dentro da pilha de papéis na sua m esa e puxou um a folha de papel A4 rosa-claro, m anchado com o que ele esperava que fossem lágrim as. Um cheiro m etálico envelhecido, m as agressivam ente doce, subiu para as narinas de Zelda.
– Charlie – ela disse.
– Quem é Charlie?
– Charlie, o perfum e. As que realm ente gostam dele derram am gotas do seu perfum e favorito nas cartas. Um a garota de Truro escreve oito cartas para cada edição...
– Minha nossa...
– Sim , suponho que ela estej a tentando nos vencer pela m era força dos núm eros.
– Com o um bom bardeio.
– Mais ou m enos, só que não funciona.
– Com o um bom bardeio.
– O quê? – Zelda torceu o nariz. O grande m undo era ofensivo para ela, com o um dreno entupido.
– Esquece. E então essa garota da Cornualha teve sua carta publicada?
– Um a vez, e foi o suficiente. Erro m eu. Isso só a encoraj ou. Ela m andou m ais 16 cartas na sem ana seguinte. E as cartas dela fedem . Litros da colônia Old Spice. Acho que ela pega do pai.
– Poderia ser pior. Poderia ser Hai Karate.
– Ou Tabac.
– Não – Bill discordou solenem ente. – Esse queim aria o papel. – Ele pareceu se perder em seus pensam entos por um m om ento, com o se estivesse seguindo a m em ória dos arom as. Então balançou a cabeça para clareá-la e segurou a carta rosa. Ele tossiu e a leu em voz alta:
“Preciso dizer que te quero.
Sentim ento difícil de suportar.
Vej o suas fotos e te espero,
Mas no pôster da parede você nunca vai estar. Penso em você noite e dia
E rezo sem parar
Para que term ine essa agonia
E seus olhos, David, eu possa encontrar.
Dizem que na verdade você não tem espinhas E que m eus peitos não desej a tocar.”
Zelda engasgou, em choque, e protegeu seus próprios seios fartos com um a das m ãos. Ela ficou da cor da carta.
– Inventei esse últim o verso – Bill disse, com um orgulho m odesto.
– Hum m , às vezes – ela disse por fim , engasgando com as palavras. – Fico pensando se...
– Será que essas garotas m alucas não percebem que eu não tenho cam isa de gaze de linho, m uito m enos um colar feito de conchas? Olhe para m im . Estou usando a parte de baixo de um terno m arrom que custa 11 pratas. Eu não quero usar terno, m as você vive m e dizendo que esse é um em prego decente. Quero usar j eans, a única coisa é que m eus j eans não são com o os de David Cassidy . Eu não desabotoo a parte de cim a para que você possa ver m eus pe...
– William !
– Bem , eu não faço isso. Eu abotoo m inhas calças direito. E nem sei se tenho cílios, m uito m enos cílios longos. Ele parece um bezerro. E tam bém não uso óculos escuros espelhados porque eu iria parecer um com pleto paspalho e porque está sem pre escuro aqui, de qualquer m aneira, ao contrário da m aldita e ensolarada Califórnia, e tam bém porque as pessoas iriam olhar nos óculos espelhados para tentar pentear seus cabelos. A única coisa que sei fazer igual a David Cassidy é cantar. Estava no coro da escola e fiz um solo na m úsica “Morning Has Broken”. Minha tia m e fez cantar em um gravador depois. Deus do céu!
– Tudo isso prova o quanto você é bom im itador. Que era m esm o o que eu estava dizendo, para com eçar. – Zelda recuperara a com postura. – Qualquer um que faça um a garota escrever um poem a sincero assim deve estar fazendo algo certo.
– Sincero? Zelda, elas não têm coração. Elas têm um buquê de horm ônios enfurecidos e precisam seguir o que suas am igas estão fazendo para não ficar para trás, sej a porque querem ou não. Elas pensam que estão apaixonadas, m as é apenas um a proj eção. Elas são com o... com o ilusionistas, enganando a si próprias.
Zelda não tinha argum entos agora. Ela sentiu a conversa sair do prum o e do seu controle para áreas nas quais não tinha experiência e que não gostaria de adentrar. Quase três décadas trabalhando com editoras ensinou a ela o que funciona, e era isso. No ano em que Zelda com eçou com o datilógrafa no Picture Post, m ilhares de adolescentes usando m eia-soquete no teatro Param ount, em Nova York, ficaram doidas por um garoto novato cham ado Frank Sinatra. As m eninas se recusavam a sair dos seus lugares durante o intervalo, até m esm o para ir ao banheiro. “Não há um assento seco na casa”, um repórter brincou. Aquela frase ficou na m ente de Zelda, um a fala espirituosa, porém estranham ente anim al e desagradável. O que isso dizia sobre as j ovens m ulheres é que elas estavam preparadas para fazer xixi na calça com o obj etivo de negar à outra garota a chance de chegar perto de seu herói? O pobre William era um pseudointelectual. Ele ainda não acordara para o poder do que estava lidando. Ela teria que m andá-lo para um show de David Cassidy para que pudesse ver de perto as leoazinhas quando sua presa aparecia. Os shows de fevereiro haviam sido cancelados porque David fez um a cirurgia. Roy ficou furioso, é claro, por ter um a van cheia de obj etos para descarregar. Agora ele teria que arm azená-los em um guarda-m óveis na York Way até a prim avera, quando então haveria dois shows j á m arcados. Um em Manchester e outro em Wem bley .
Zelda sorriu. Im agine William de pé, com o um Gulliver, com todas aquelas adolescentes brotando em volta dele. Ela adorava a ideia do falso David ficar cara a cara com o verdadeiro. Para falar a verdade, não acharia nem um pouco ruim estar lá.
– Chas chegará daqui a pouco com o lanche – ela declarou, afastando-se de m aneira altiva e dirigindo-se para o refúgio de sua m esa, que indicava sua superioridade com relação aos restantes com um a divisória feita de vasos de plantas. Na sua gaveta de baixo havia um m aço de cigarros John Play er Specials e m etade de um a barra de chocolate, para depois do sanduíche de bacon. E um a bela xícara de Nescafé. Tudo ficaria bem .
Bill não queria o em prego na editora Worldwind, m as quando Roy Palm er lhe fez a oferta ele não teve escolha. Onze m eses depois de sair da faculdade com um a form ação que estava abaixo de suas capacidades, m as ainda m uito acim a do que m erecia – tendo em vista que passara o últim o ano afiando suas habilidades em pinball na loj a de j ogos eletrônicos no Brighton Pier –, Bill havia chegado ao fim da estrada. Dessa estrada longa e reluzente cham ada Oportunidades dos Graduados. Depois disso, tropeçou no cam inho esburacado e poeirento onde os não escolhidos têm de aceitar que, no lugar de um a carreira, terão sorte se tiverem um salário.
O m ais próxim o que Bill chegou de um cargo digno de seu potencial foi estar entre os candidatos finalistas para um estágio em um a das principais agências de publicidade de Londres. Ele resistiu a um processo de seleção de dois dias em um hotel em Costwolds com 15 individualistas im placáveis, todos com petindo para m ostrar o quanto trabalhavam bem em equipe. Bill se destacou no teste para redator, m as durante a abordagem de venda do produto ficou extrem am ente irritado com um a m enina cham ada Susie. Dava para perceber os diretores da agência em polgados e escrevendo adj etivos com o “m otivada” e “sim pática”.
Depois de um exercício de reconhecim ento da m arca de um a bebida com um sabor novo terrível, um dos diretores disse com um entusiasm o m al disfarçado:
– Susie m e parece ser um a pessoa de verdade.
Era a prim eira vez que Bill ouvia aquela expressão e a abom inou de cara. Que outro tipo de pessoa havia? Um a pessoa de m entira?
Foi ruim , obviam ente, que Bill tenha expressado esses pensam entos em voz alta, e pior ainda foi o silêncio, frio com o noite de inverno com chuva, que caiu sobre a sala de reunião. Portanto, foi inevitavelm ente m andado para casa m ais cedo, deixado sem cerim ônia algum a na estação Banbury com sua m ochila e um a garrafa de Jungle Qwash com o cortesia por não ter sido um a pessoa de verdade. No côm puto geral, Bill pensou que estava pronto para vender sua alm a, m as, no fim das contas, não estava preparado ainda para anular tudo que o fazia ser quem ele era para vender um a bebida de laranj a que queim ava o céu da boca e o deixava com m ais sede que um copo de alvej ante.
Não m uito tem po depois do fiasco da publicidade, houve um a entrevista prom issora para um a estação de rádio local. Ele se im aginou ao m icrofone, de preferência no horário da noite, tocando um a lista de m úsicas obscuras, porém viciantes, para ouvintes chorosos agradecidos. Ele usaria fones de ouvido do tam anho de luvas de boxe e se tornaria um m ito. Em vez disso, um gerente da rádio de nariz verm elho cham ado Dodge deixou bem claro que os dons de Bill seriam inteiram ente dedicados a arquivar – pegar discos na prateleira, não os de sua escolha, levar para a biblioteca de gravações da rádio, e recolocá-los cuidadosam ente no lugar depois de terem ido ao ar. O em prego lhe foi oferecido de im ediato, com cinco libras a m ais sobre o pagam ento sem anal “se você não se im portar em fazer um pouco de lim peza”, e ele certam ente se im portava. “O orgulho vem antes da queda”, sua m ãe costum ava dizer. Era um ditado que Bill j am ais entendera, m as, naquele m om ento em que recusava a oferta com naturalidade, sentiu-se tanto orgulhoso quanto dim inuído. Ele se recordava de ter olhado para a figura de Dodge parado na recepção, nem um pouco surpreso, assoando o nariz e olhando fixam ente para o conteúdo de seu lenço.
Houve algum as recom pensas. Com o passar das áridas sem anas de solicitações de em prego e rej eições, Bill teve tem po, ao m enos, para aperfeiçoar seu dedilhado no violão. Tam bém deixou crescer um a barba experim ental, que ele esperava que fosse interpretada, pelos que estão por dentro, com o um tributo afetuoso a Eric Clapton, m as que foi descrita por sua irm ã, Angie, com quem ele se encontrou por acaso na esquina da Denm ark Street, com o “m usgo grudado em um a rocha”.
Foi por volta dessa época que sua nam orada, Ruth, com eçou a perder a paciência com ele. Quando se conheceram , no últim o ano da faculdade, Ruth achou que tinha encontrado um bom partido. Pensou que tinha arrum ado um nam orado que chegaria a algum lugar nesse m undo, e esse lugar obviam ente não era a agência para pedir auxílio-desem prego.
Enquanto as sem anas se arrastavam , Bill teve tem po para desenvolver um a teoria sobre em pregos. Ele achava que era possível ter um a m edida exata do quanto sua busca por em prego tinha sido bem -sucedida pelo núm ero de lances de escada que você teria de subir para a entrevista. Os grandes em pregos vinham com elevadores. Fileiras de elevadores a postos, com seus botões prateados, com o os guardiões da fortaleza antiga de um a cidade. Elevadores que chegavam com o suspiro de um a gueixa e abriam com o agradável tilintar de dinheiro. Além dos elevadores havia as recepcionistas que lhe pediam para se sentar, que o sr. Porter logo o atenderia. Ele ainda sonhava com um a recepcionista, um a m orena parecida com Ali MacGraw, vestindo um a m alha de lã verm elha j usta e que oferecia com voz rouca: “Chá com dois cubinhos de açúcar, William ?”
Um por um , os em pregos com elevadores foram escorregando de suas m ãos. Ele atingira o subsolo do desespero quando, sentado com um bule de chá e um a torrada em um a lanchonete na região de Chalk Farm , em Londres, avistou um pequeno anúncio em um canto do j ornal. “Oportunidade em editora para recém -form ado. Conhecim ento de m úsica pop desej ável. Estilo vivaz de escrita essencial. Boa localização no centro de Londres. Benefícios.”
A boa localização no centro de Londres era o paredão da Tottenham Court Road, um a esquina onde as prostitutas com petiam por clientes com m otoristas de táxi sem licença. Os dois profissionais pareciam igualm ente surpreendidos se alguém aceitasse seus serviços.
Bill levou algum tem po para localizar o edifício alto e estreito, pois não havia núm ero, e a placa com o nom e editora Worldwind era um cartão de visitas grudado entre as placas Bunnyshop Serviços Pessoais e Kolossos: Importadores do Melhor Óleo de Cozinha Grego. Onde deveria haver um a im ponente porta estilo gregoriano havia agora um tapum e frágil com um a m açaneta im provisada feita com barbante. Bill em purrou a porta vagarosam ente, indo parar em um saguão escuro. Levou alguns segundos para que sua visão se aj ustasse à escuridão. Havia um a lâm pada no teto, um lustre de cristal do tam anho de um a tigela, m as a luz que saía dali era filtrada por um a cam ada de insetos m ortos. Conseguiu ver um a escada m ais ao longe e foi em sua direção, com o carpete abafando o ruído dos passos. Era com o andar sobre cogum elos. Quando Bill chegou ao sexto andar, seus ouvidos estavam estourando e os pulm ões quase explodindo no peito, exigindo sair im ediatam ente. Inacreditavelm ente, ainda havia outro lance de escadas. Subindo ao sétim o andar, o lance de escadas com eçava a dim inuir de um a m aneira que obrigava o indivíduo a girar o torso em um m ovim ento tipo saca-rolhas para dar a volta para passar; havia um a grande possibilidade de você acabar tocando o om bro esquerdo com a m ão direita.
Um a vez lá em cim a, antes de entrar no escritório propriam ente dito, era preciso se esprem er para passar por um a m uralha de caixas de papelão. Algum as caixas estavam abertas e um a quantidade enorm e de revistas transbordava delas. As revistas traziam cham adas diferentes, m as todas tinham a m esm a garota na capa. Definitivam ente, não era seu tipo. Um sorriso tím ido, cabelos na altura do om bro, de um loiro acinzentado, olhos castanho-claros, cílios que davam para lim par o vidro do carro. Bill ouviu alguém respirando com dificuldade. Era um tipo de officeboy que parecia ao m esm o tem po um adolescente envelhecido ou um aposentado j ovial, m as que não poderia ser nada entre um e outro, e que tinha vindo pairar a seu lado. Ele não poderia fazer nenhum m al, Bill pensou, para ser sim pático.
– Não é m eu tipo.
– Quem ?
– Essa fulana aqui, na capa.
O cam arada fez algo estranho, contorcendo-se e piando, culm inando em um a gargalhada.
– Ainda bem que não.
– O que você disse? – Dois m inutos ali e Bill j á estava em apuros.
– Porque esse aí é um garoto. – O duende estava se deliciando com aquilo, arm azenando tudo para repetir no bar da esquina: “Então esse veado vem para um a entrevista e pensa que David Cassidy é um a fulana...”
Bill inclinou-se para as caixas abertas.
– Caram ba! – Era um garoto, m as só. Não havia nada nele que Bill reconhecesse com o hom em . O tal garoto, fosse quem fosse, tinha um a cintura m ais fina que a de Ruth. Os ídolos m usicais de Bill eram Clapton, Jim i Hendrix e os Stones. Antes da entrevista ele vasculhou sua coleção de discos e fez um pouco de dever de casa. Nada m uito ostensivo. O suficiente para lhes m ostrar que conhecia as coisas. Se fosse convocado em sua prim eira sem ana para entrevistar, digam os, Keith Richards, estaria pronto. Vej a bem , havia um rum or sobre um j ornalista da revista NME, especializada em m úsica, que fora falar com Keith em m arço e não havia voltado até agosto.
O duende, que pelo que descobriu depois cham ava-se Chas, o acom panhou até o lugar que cham ou de “sanção interna”. Não havia ninguém ali. Bill se sentou por dez m inutos, olhando fixam ente para um a fotografia autografada de Tony Jacklin e duas garrafas de Johnnie Walker no topo de um fichário. Será que realm ente queria trabalhar para um alcoólatra am ante de golfe?
– Não pense que esquecem os de você, querido – disse um a m ulher grande e afobada, que obviam ente tinha se esquecido dele. Seus cabelos grisalhos longos eram presos em um coque com alguns fios soltos e ela usava roupas que poderiam ter sido confeccionadas em um a tenda indígena. Ela se apresentou com o Zelda. Depois dela veio um hom em usando os m aiores pares de óculos que Bill j á vira: eram com o duas telas de TV soldadas e am pliavam os olhos do hom em , que eram tão inexpressivos, pequenos e brilhantes com o os de um passarinho. Ele estendeu a m ão.
– Roy Palm er – disse, com o se estivesse fazendo um a am eaça.
O proprietário da Worldwind tinha os cabelos penteados para trás, pretos dem ais para serem da cor natural, e o rosto expressivo com o o de um com ediante, que im ediatam ente nos faz pensar que ele devia ser um cara sim pático e agradável. Nesse caso, era um engano. Apenas Roy se achava engraçado.
Bill deveria ter saído fora m inutos depois de descobrir que a revista para a qual estaria trabalhando era direcionada a garotas entre 11 e 16 anos. Ele j á tinha saído da puberdade e não se saíra m uito bem com essa fase. Não sabia absolutam ente nada sobre a puberdade fem inina, nem queria saber. Certa vez, em casa, procurando espum a de barbear no arm ário do banheiro, ele se deparou com um artigo higiênico que pertencia à sua irm ã. Algum tipo de cinto com presilhas e um a caixa de Tam pax. Havia um diagram a confuso de um a garota de pé em um a perna só, parecendo um a cegonha. Bill leu a palavra “inserção”, fechou a porta e nunca m ais a abriu.
– Pense na fase do ídolo teen com o um corredor entre a adolescência e a vida adulta – dissera Zelda. – O papel da nossa revista é guiar a garota nessa j ornada.
– Nosso lucro – Roy se interpôs – vem de direcionar a garota e seu dinheiro da fase de acariciar bichinhos de pelúcia para a fase das carícias m ais sérias, se é que você m e entende. – Quando riu, a boca de Roy revelou dentes que pareciam o sítio arqueológico de Stonehenge.
Enquanto Zelda exam inava seu currículo, Bill estudava os sapatos extrem am ente polidos que ele pedira em prestados ao seu am igo Sim on para usar na ocasião. Sim on é estagiário da área contábil em um a em presa com três elevadores. Bill tinha tom ado algum as liberdades no detalham ento de seu currículo e estava quase certo de que seria pego.
– Você parece ter se saído m uito bem no trabalho de conclusão de curso da faculdade, William . Posso lhe perguntar qual era o tem a?
Ele tossiu e cobriu a boca.
– Hum ... “O Rom ântico Sublim e – Voz e Desej o na Poesia de Am or Inglesa de 1790 a 1825”.
– Menos, por favor, m enos – irritou-se Roy .
Bill rapidam ente m udou de assunto:
– O que exatam ente eu faria aqui?
– Bem , querido, pense em um a garota de 13 anos em Manchester ou Cardiff – Zelda disse com vivacidade. – Quais são as coisas que ela quer saber enquanto está deitada na cam a e olha por longas horas os pôsteres de David na parede? É onde você entra com sua poesia rom ântica e escrita criativa.
Ele não escondeu seu espanto:
– Eu terei de inventar?
– Ah, não o tem po todo. A gravadora fornecerá algum m aterial, é claro. Se D.C. vier em pessoa, haverá um grande evento com a im prensa, você poderá ir, fazer algum as perguntas e trazer o m áxim o de fatos que conseguir. Para m anter algum estoque na despensa, com o se diz. Acho que você vai descobrir que a coisa engrena depois de algum tem po, quando você pegar o j eito da voz. E do desej o. – Zelda sorriu, encoraj ando-o.
– Terei oportunidade de falar com o senhor... David?
– Céus, não, querido, m as podem os conseguir todo tipo de inform ação através do seu pessoal de Los Angeles. Eles são m uito úteis, em bora você só possa ligar em horários estranhos do dia. Então vai depender de você. Todo tipo de inform ação que as garotas gostam de saber sobre os garotos, você sabe.
Bill assentiu com a cabeça. Ele não fazia ideia. O em prego era um insulto. Ele queria ser um j ornalista de rock, e não fingir ser um m enino com cara de m enina. De qualquer form a, havia algo de doentio em brincar com os sonhos das m enininhas. Era preciso ser um tipo de pervertido desesperado para levar isso em consideração. O salário era de 2.750 libras por ano, m ais vale-refeição.
Com eçou na segunda-feira seguinte.
Em um período de duas sem anas, Bill com eçara a se fam iliarizar com o histórico fam iliar de David Cassidy. Seu pai era um ator carism ático que, apesar do sorriso igual a um teclado de piano, parecia não estar inteiram ente em bevecido com o repentino estrelato do filho. David, Bill supunha, quis im pressionar o pai, que o havia abandonado quando criança, m as esse sucesso esm agador provavelm ente apenas fez as coisas piorarem . Bill pensou no relacionam ento distante que tinha com seu pai. Aos 22 anos, a idade que Bill tinha agora, Roger Finn não estava brigando com a m áquina de escrever para fazer passar um a fita nova pelos ganchos m inúsculos da Sm ith Corona. Ele passara seus dias sob o céu de South Davis lutando a Batalha da Bretanha contra a Luftwaffe. Deve haver hom ens m ais intim idadores do que um pai piloto de avião de guerra, m as, quando você está tentando rearm ar um a m áquina de escrever e não consegue, é difícil pensar em um . Um a vez, apenas um a, seu pai m encionou a guerra, levando Bill e suas irm ãs de trem para um m useu aéreo. Em um hangar, havia um avião Spitfire de verdade, suspenso por fios. Aquele avião havia se tornado tão heroico e invencível na im aginação do garoto que ele não pensou que veria algo tão frágil. Aquilo o fez ter vontade de chorar. Era com o um pardal feito de lata.
Em um im pulso desesperado para parecer profissional, Bill saiu em seu horário de alm oço e com prou três livros, um sobre a Califórnia, outro sobre o Havaí, onde o astro tinha um a casa, e o terceiro sobre cavalos, o hobby de David Cassidy. Bill descobriu que David tinha um problem a nos olhos quando criança e teve que fazer um a cirurgia para corrigir um estrabism o. Bill sofria por ser daltônico, confundindo invariavelm ente verde e m arrom . Deve ter sido duro ter de usar óculos corretivos e ainda um tapa-olho, principalm ente para um garoto que parecia um a m enina.
Honestam ente, é surpreendente as coisas que podem os saber sobre alguém que não conhecem os.
Você está destinada a David?
David am a cada um a de suas fãs, e adoraria conhecer e sair com cada um a delas. Mas com o isso levaria cerca de 50 anos, não seria um a boa ideia!
O tipo de garota que David ficaria caído precisa ter algum as qualidades especiais –
porque, afinal de contas, David é um cara especial! Aqui estão as qualidades principais que David procura em suas nam oradas. Quais delas você possui?
David nunca se liga em um a garota só porque ela é atraente, tem o cabelo bonito ou cham a a atenção. Ele sem pre busca m uito m ais do que isso: ele procura o tipo de coisa que só se pode encontrar quando se sabe com o a pessoa é por DENTRO. David adora garotas espontâneas e felizes, que sorriem e riem com facilidade e que sem pre enxergam o lado bom das coisas. É claro, se você for sair com David, terá m uitos m otivos para sorrir!
David gosta de garotas anim adas, independentes e sociáveis, que saibam ser engraçadas de vez em quando e tenham ótim o senso de hum or. Ele gosta de garotas que são elas m esm as e que não tentam ser outra pessoa. Acim a de tudo, ele gosta de garotas DIVERTIDAS!
David gosta de garotas saudáveis, esbanj ando energia, que curtem sair para o cam po e
fazer longas cam inhadas ao ar livre, que gostem de andar a cavalo ou bicicleta – m as não espera que elas sej am grandes especialistas ou atletas brilhantes! David não gosta de ver garotas usando m uita m aquiagem : prefere o visual natural. Não gosta de gastar seu tem po com m eninas que constantem ente se olham no espelho para passar m ais um pouco de som bra ou correm para pentear o cabelo depois de um a leve brisa.
David gosta de m eninas que sabem cozinhar! David gosta que as m eninas tenham opinião própria e j am ais esperaria que um a garota concordasse com tudo o que ele diz. E isso nos leva ao assunto das brigas – o tipo de discussões am igáveis que todo m undo tem de vez em quando. David não se im porta com discussões bem -hum oradas, m as sua garota ideal estaria sem pre pronta a “beij ar e fazer as pazes” assim que a discussão term inasse. Ficar de m au hum or e rem oendo m ágoas por horas sem fim é garantia de afastar David de qualquer garota! David gosta m ais das garotas que com partilham seu am or pela m úsica.
Bem , essas são algum as das qualidades que David está buscando em um a
nam orada. Essa descrição com bina com você? VOCÊ poderia ser a futura sra. Cassidy ?