Eu Acho que Amo Você
Capítulo 12
12
No dia que sua m ãe m orreu, ela ficou sabendo que seu m arido estava indo em bora. Com certeza isso fez com que o enterro ficasse bastante interessante.
Petra estava na prim eira fileira da capela usando um chapéu preto de abas largas. Seu m arido estava sentado ao seu lado, chorando. Um dia ainda vai haver um detetive de lágrim as. É sobre isso que Petra está pensando. Ela havia lido recentem ente em um a revista que cientistas descobriram que as lágrim as de verdade, lágrim as de sofrim ento genuíno, vindas do coração, possuem um a com posição quím ica diferente daquelas que as pessoas choram quando estão assistindo a um film e triste. Ou daquelas que caem quando alguém é pego fazendo am or com um a pessoa que não deveria. Um a m ulher que não é sua esposa, por exem plo. Existem oceanos de lágrim as falsas por aí, e agora há um a m aneira de descobrirm os.
Petra acha que o detetive iria sugerir um a m aneira de pegar as lágrim as de seu m arido. Talvez em um lenço de papel que você lhe entregasse enquanto ele explica o quanto odeia pensar em deixar você e sua filha de 13 anos.
– Vocês são m eu m undo. Posso estar ausente fisicam ente, m as em ocionalm ente ainda estou aqui – o m arido diria, exatam ente com o Marcus dissera para Petra, enxugando os olhos.
Ela gentilm ente pegaria o lenço dele, colocando-o em um saco plástico. Mais tarde, o detetive levaria o lencinho de papel até um laboratório, onde os técnicos vestidos de j aleco branco reconstituiriam as lágrim as secas em um tubo de ensaio. Um relatório com os resultados chegaria depois de um a sem ana. Então você saberia. De um a form a ou de outra, você ficaria sabendo o que as lágrim as de seu m arido significaram . A proporção exata de sofrim ento e culpa, de arrependim ento e alívio, de sal e água. Bem m e quer, m al m e quer...
Petra ouve as ondas lá fora estourando contra os seixos da praia. A capela fica em frente à praia, do outro lado da rua. Lá fora faz um belo dia de verão, fato que m al é registrado do lado de dentro da construção m arrom , que parece ter sido proj etada para m anter a escuridão e a um idade. Ela pode ouvir as vozes e gritos dos turistas, captados por seus ouvidos m ais com o gritos de dor que de prazer.
Petra tenta fazer sua m ente parar de vagar. Esse é o enterro de m inha m ãe, ela diz a si m esm a. Minha m ãe está m orta. Im possível. Minha m ãe está naquele caixão. Greta ocupou um espaço tão grande em sua vida que será preciso m ais que um enterro e um atestado de óbito para convencer Petra de que ela se foi.
Ela tem consciência de que Marcus está ao seu lado no banco. Hom ens não choram com a m esm a facilidade que as m ulheres. Eles não derram am lágrim as sem um a briga. Os om bros de seu m arido sacodem sutilm ente debaixo de seu casaco cinza com lapelas de veludo, o que ela escolheu antes de ele fazer um a série de recitais na Alem anha e Áustria no ano passado. Petra m al se lem bra de tê-lo visto chorar, pelo m enos não desde que Molly nasceu. Nesse últim o m ês, entretanto, Marcus chorou tantas vezes que Petra perdeu a conta. Desde aquela tarde de sábado em que ela chegou em casa de surpresa depois de ter feito um a palestra em um workshop em Chiswick e o telefone da cozinha tocou duas vezes, parou por alguns segundos e tocou novam ente. Petra atendeu esperando ouvir a voz de sua m ãe. Em vez disso, um a garota disse: “Você não m e conhece.”
Petra sente o im pulso conj ugal de consolar Marcus, um instinto poderoso, m as fica surpresa ao observar que sua m ão se recusa term inantem ente a obedecer à instrução que o cérebro está m andando. Seus dedos se flexionam dentro das luvas pretas com pradas em um a barraca no m ercado do centro da cidade há m enos de duas horas. Ela só pensara no últim o m inuto que sua m ãe ficaria decepcionada se ela não usasse luvas. As luvas lhe dão a sensação de ter m em branas entre os dedos. Ela pensa nos pés pretos de plástico do ganso-do-norte. Pela prim eira vez lhe ocorre que agora ela é fonte de infelicidade para o hom em com quem passou a m aior parte de sua vida adulta, um obstáculo à sua felicidade. Marcus provavelm ente desej a que fosse ela no caixão.
Petra fecha rapidam ente os olhos para cortar esse pensam ento e olha ao redor para o aglom erado de pessoas. Até que para um a m ulher idosa, bastante reservada e que durante a infância de Petra desencoraj ava os visitantes ignorando a cam painha da porta da frente e atendendo som ente aqueles que perseveravam indo até a porta dos fundos, sua m ãe havia reunido um a m ultidão razoável. Havia funcionários e frequentadores da capela, duas senhoras im aculadas da loj a de departam entos onde sua m ãe havia trabalhado por algum tem po na seção de chapéus, luvas e bolsas, e algum as presenças surpreendentes da fam ília de seu pai, a m aioria das quais sua m ãe detestava por trabalharem com as m ãos. Provavelm ente estavam ali para ouvir a fam osa violoncelista.
Do outro lado do corredor, a tia de Petra, Mair, j á debilitada e com um a perna cheia de curativos, dá a Marcus o sorriso que as pessoas sorriem para aqueles que viram na TV: m uito fam iliar e incerto. Em resposta, Marcus confere a tia Mair o sorriso que se esperaria – sim pático o suficiente para não parecer vaidoso ou arrogante, m as suficientem ente frio e distante para sugerir que qualquer tentativa de aproxim ação não seria prudente. Petra quase sente pena dele. Um enterro deve ser um lugar cruel e em baraçoso para se estar quando sua sogra está no caixão e sua única filha acabou de descobrir que você está apaixonado por outra pessoa.
Depois de encerrar a ligação com a garota, o telefone tocou de novo, quase que im ediatam ente, e Petra o apanhou de repente, pronta para dizer tudo o que ficara engasgado por estar chocada dem ais para dizer na hora. Ela pegou o fone desaj eitadam ente, e ele se soltou da parede e ficou pendurado pelo fio a alguns centím etros de distância da tigela de com ida do gato. Quando Petra finalm ente conseguiu segurar o telefone no ouvido, descobriu que não era a garota, era Gleny s, a vizinha de sua m ãe.
– Eu sinto m uito, ela se foi – Gleny s disse.
– O quê? Quem se foi? Oh, Deus!
Nenhum a notícia poderia ser tão terrível, m as Gleny s queria ser a prim eira a dá-la.
Petra sentiu necessidade de ligar para alguém . A luz benéfica de j unho que entrava sorrateiram ente pela veneziana verde-m açã era a m esm a de segundos atrás. As inocentes escovas de lavar louça estavam a postos em seu balde m etálico, a fotografia de Molly no m ural próxim o ao telefone, sorridente e sardenta no Dia Mundial do Livro, usando sua fantasia de Pippi Meialonga, um personagem de livros infantis. Sua m ãe era genial para fazer tranças, um talento que parecia estar no DNA alem ão. Ela costum ava pentear os cabelos vigorosam ente até ficarem brilhando, depois puxá-los bem apertado desde a raiz, até o couro cabeludo de Petra im plorar por clem ência.
Ela experim enta a ideia de pensar em sua m ãe no passado, m as não, seu cérebro não perm ite. E aquela garota, am ante de Marcus? Com certeza deveria ser possível cham ar algum tipo de serviço de em ergência e dizer: “Olha só, sinto m uitíssim o, m as não sou capaz de processar essas duas bom bas pavorosas ao m esm o tem po. Podem os dar um j eito de tirar um a delas da frente?”
Na capela, na tarde sonolenta, com seu púlpito reluzente ornam entado com asas de águia e suas j anelas altas sem visão, dois tipos de tristeza estão trançadas de m aneira rígida no coração de Petra: a tristeza pela m ãe e a tristeza pelo casam ento. E talvez, para com pletar a trança, um a terceira: um a dor sem nom e que lentam ente vai tom ando form a em sua m ente.
– Vam os orar – ela ouve o m inistro dizer ao longe.
Quando m arido e m ulher se aj oelham , um odor de m ofo é exalado da tapeçaria do genuflexório, que, para Petra, sem pre tivera o cheiro de Deus e da chuva. Ela deve conhecer cada alm ofada daquele lugar. Sua m ãe bordou várias delas até com eçar a am aldiçoar sua vista ruim . Os problem as de vista, Petra herdou. Aos 38 anos, tem problem as para enxergar de perto e de longe. Descobriu há pouco tem po que estava no grupo daqueles que no superm ercado trazem as latas até o nariz e depois esticam os braços para tentar ler o rótulo. Hoj e, m esm o com as lentes de contato, ela precisa apertar os olhos para conseguir ler as palavras dos hinos.
Com o a capela é bem próxim a ao m ar, praticam ente dentro da água, quando a m aré está alta, os livros de oração sem pre foram salgados pela um idade. Nos dom ingos de inverno durante sua infância, ela se lem bra de desgrudar as páginas para encontrar o salm o. As páginas eram tão frágeis que se pareciam m ais com pele do que com papel. Sem pre que cantavam “Aqueles em Perigo no Mar”, o coro encarava um a luta desigual com as gaivotas que guinchavam no telhado e seu pai dizia sem pre a m esm a coisa: “Maravilha! Tem os efeitos especiais!”
“Maravilha” era a palavra que seu pai usava para expressar tudo o que som ava à felicidade hum ana, e a exclam ação vinha sem pre acom panhada de um alegre esfregar de m ãos, com o se ele fosse um escoteiro tentando acender o fogo.
– Maravilha, Petra fach.
As pessoas reclam am que os velhos sem pre repetem as m esm as histórias, m uitas e m uitas vezes, e fazem isso m esm o, ah, com o fazem , m as Petra aprendeu da m aneira m ais difícil que toda a irritação é instantaneam ente perdoada quando os velhos não estão m ais por aqui para contar a história m ais um a vez. Ela daria tudo para ter seu pai de volta aqui com ela, m esm o que fosse por cinco m inutos, e ouvi-lo fazer a brincadeira sem graça das gaivotas cantoras. O organista que o substituiu, no m om ento tentando tocar com afinco no m ezanino no fundo da capela, não chega nem aos pés de papai. Depois de seis anos, ela ainda acha que Eric é novo na igrej a. Ele tem problem as com os pedais. Cada verso term ina de um a a duas batidas depois do canto, com um chiado brônquico, com o que pedindo desculpas. Petra faz um a careta; ela consegue aguentar qualquer coisa: olhos ruins, tem po ruim , m arido ruim , m as m úsica ruim ela j am ais será capaz de suportar.
“Pai Eterno, Salvador,
Cuj os braços detêm as ondas em torpor,
Ofereceu-nos o oceano, poderoso e profundo
E seus lim ites designou.
Oh, Senhor, que nosso cham ado Tu possas escutar Em socorro aos que estão em perigo no m ar.”
As palavras em inglês não soam fam iliares. Ela percebe que só conhece o hino em galês. A tradução deve ser para Marcus. É exatam ente o tipo de detalhe no qual sua m ãe se ligava, sem pre se preocupando se iriam parecer provincianos e com uns perante a fam ília de Marcus, que m orava em um m oinho convertido em Costwolds e que fazia grandes esforços para que os William s se sentissem à vontade. Com o se Greta conseguisse relaxar perto de um a m ulher cham ada Arabella, que iniciava um a conversa sobre com binações de cores. Sua m ãe não gostou de Arabella à prim eira vista, e nenhum a das duas m ulheres sabia que era porque a m ãe de Marcus deixava claro para Greta que ela tinha feito um casam ento abaixo da sua classe social.
Depois do prim eiro verso, Petra não conseguia m ais cantar, em bora sua boca continuasse a m ím ica das palavras em galês.
Você não me conhece, a garota disse.
Não conhecia? Não pessoalm ente, talvez, m as Petra acha que em um nível m ais anim al, um nível m olecular da quím ica corporal, ela conhecia exatam ente. Não sabia quem a garota era, m as sabia de sua existência. Não havia nenhum a das dicas óbvias. Marcus era detalhista dem ais para deixar que batom no colarinho ou um recibo de floricultura suspeito fosse visto. Longe de agir de form a culpada ou de estar avoado com o os hom ens que têm casos costum am ficar, ele parecia cheio de energia e atencioso; inclusive com eçou a levar Molly na casa de am igas para dorm ir e para as aulas de piano, o que deixou Petra encantada, pois ela sem pre foi a m otorista da fam ília, apesar de sua falta de confiança atrás do volante. Entretanto, algum as coisas estavam diferentes. Quando estavam fazendo sexo, Marcus tinha dificuldade para term inar e pegou o hábito de virá-la de bruços para conseguir. Quando ela lhe perguntou sobre isso, depois de algum as taças de vinho e m antendo o tom intencionalm ente casual, ele deu aquele sorriso arrependido dele dizendo que aquilo o excitava. Ela ficou aliviada com aquela explicação, ao m esm o tem po que não se convenceu. A verdade, pensou, era que ele não conseguia gozar se estivesse olhando para o rosto dela. Era m uito m ais fácil im aginar outro rosto se sua esposa estivesse com a cara enterrada no travesseiro. De volta de um concerto em Oxford certa noite, ele rolou sobre a cam a e disse: “Quero foder sua boca.” Aquela não era um a fala que pertencia à vida conj ugal deles – aquele era um roteiro totalm ente diferente –, e assim que ele disse aquilo ela deveria ter entendido o que significava, m as preferiu trancar o acontecido na gaveta do casam ento cham ada de “Particular”, e esqueceu.
O pai de Petra nunca teve m uita certeza sobre Marcus. Sem pre dizia “Mark” e depois fazia um a pausa antes do “us”, com o um cavalo relinchando diante de um a cerca difícil, um tique que deixava sua m ãe furiosa, pois adorava seu genro sem reservas. A com binação do talento de Marcus, sua sensibilidade apurada, seu tem peram ento explosivo e arrogância eram fascinantes para Greta, pois ela acreditava que eram os ingredientes do tem peram ento de um gênio. Muito poderia ser perdoado de um hom em assim . Hom ens gentis e fracassados devotados, com o o pai de Petra, não poderiam ser tolerados. Será que sua m ãe pensava que foder com um a violinista de 25 anos era m ais um benefício da condição de artista?
Não, não era fodendo. “Flertando”, Petra corrigiu-se, vendo o olhar frio de desaprovação de sua m ãe.
Greta não tolerava palavras de baixo calão de nenhum tipo. Ela parou de ler The Times depois que o j ornal com eçou a escrever “sexo” no lugar de “relacionam ento sexual”. Você j am ais ouviria “bastardo” saindo de seus lábios, som ente “ilegítim o”. Muito tem po depois de a palavra ter perdido seu estigm a, sua m ãe apontava para aquele bebê lindo dentro do carrinho, com bochechas rosadas, e m urm urava secretam ente: “Esse é o bebê ilegítim o da Kerry.” Sua m ãe estava presa no passado. A palavra “bastardo” tinha agora um sentido totalm ente diferente.
Com o o m arido de Petra, por exem plo. Enquanto Marcus se retira de seu banco na igrej a e cam inha com segurança à frente da capela, Petra é capaz de observar seu parceiro de quase 15 anos de casam ento com o os outros na congregação provavelm ente o veem . A idade não o afetou; para falar a verdade, o envelhecim ento está lutando para colocar um dedo nesse hom em . “Bonito e sensível. E ainda por cim a é hom em que não acaba m ais! Com o você é sortuda”, um a am iga dissera nos velhos tem pos, fazendo Petra corar; era com o se a am iga os tivesse visto dorm ir e acordar. Com o se tivesse observado Petra sendo envolvida por aqueles braços e pernas preguiçosos e nem um pouco desengonçados. Marcus não tinha nada da palidez tradicional dos artistas. Sua saúde é inabalável, sem pre foi, com um a estrutura forte que j am ais o deixaria ficar abatido ou – e isso, Petra observou, é um destino com um e terrível entre os hom ens de m eia-idade – gordo, ou cair em declínio até que a beleza do j ovem sej a transform ada num cavalheiro gorducho de bochechas verm elhas. Marcus não. Olhe só para ele. Fez 40 anos no ano passado, m as ainda tem um a vasta cabeleira escura e ondulada pela qual, de vez em quando, ele passa a m ão distraidam ente, m ais para despentear do que pentear. Ele tem um quê do Ted Hughes, alguém disse, e é verdade. Sob a decência, e apesar do requinte, há algo selvagem não m uito abaixo da superfície. Algo em que não se pode confiar.
Marcus se senta, puxa o violoncelo e passa o arco pelas cordas com um único m ovim ento. Quem disse que a m úsica foi inventada para confirm ar a solidão hum ana obviam ente nunca ouviu seu m arido tocar. Quando ele tocou o Edward Elgar no Bristol, ano passado, um dos críticos disse que a perform ance dele era “ao m esm o tem po vigorosa e sensível de m aneira sublim e”. Certo, e quem ficou com a m aior parte desse vigor?
Conform e o arco se m ovia e a m úsica crescia, a raiva dela ia e vinha. Mesm o se o detetive de lágrim as pudesse pegar um a am ostra das lágrim as de seu m arido, Petra não tinha certeza se iria querer saber se eram verdadeiras. Quando ele disse que ainda a am ava, será que queria dizer isso m esm o? Vivem os em tem pos estranhos, Petra pensa. A ciência está resolvendo todos os segredos da hum anidade, um por um – predisposições a doenças, a quím ica do cérebro de crim inosos, testes de DNA para com provar paternidade, o m otivo pelo qual as m ulheres preferem acasalar com hom ens do tipo alfa e viver com hom ens do tipo beta. Acontece que a natureza hum ana não está dando conta de toda essa inform ação. Não de um a vez só. Às vezes não saber é o que se pode suportar.
Petra sente um súbito desej o por ele. Não pelo hom em fraco e evasivo que vem fazendo terapia de casal com ela enquanto está indo m orar com um a violinista que se parece de m aneira ultraj ante com Petra quando tinha a m esm a idade. Marcus, o hom em que sem pre desprezou clichês de traições burguesas, m ontou um lar com sua j ovem am ante em um a casa flutuante perto de Teddington.
– Um a casa flutuante – Petra repetira de m aneira aborrecida. Será que havia algum ninho de am or nos anais do adultério m ais bem -planej ado para fazer você ter vontade de cham ar um subm arino nuclear?
– Mam ãe, está tudo bem . Vai ficar tudo bem .
Molly está de pé ao lado dela, acariciando seu braço, falando gentilm ente. Som ente quando sua filha coloca um lenço de papel em sua m ão enluvada é que Petra percebe que é ela quem está chorando. As lágrim as estão correndo sobre seu rosto em tal profusão que dão a sensação de estarem form ando um laço feito com água debaixo de seu queixo. Ela sente a um idade se infiltrando sob o colarinho de sua nova cam isa preta de linho. Era duas vezes m ais cara do que qualquer peça do seu guarda-roupa, m as ela não poderia decepcionar sua m ãe nesse dia im portante.
– Petra, tenha controle de suas em oções, por favor – diz sua m ãe, e autom aticam ente ela sente seu queixo se erguer e a espinha ficar ereta.
A postura pode fazer m uito por um a m ulher, sua m ãe sem pre foi m uito específica quanto a isso. Se você tem a postura correta, se contrai a barriga usando os m úsculos do corpo com o sua própria cinta, ficar cheinha na m eia-idade não é algo inevitável com o alguns gostam de fingir que é. Durante toda sua vida de casada, sua m ãe se orgulhava do fato de ter exatam ente o m esm o peso que tinha no dia do seu casam ento. Greta seguia a filosofia de Helena Rubinstein: não existem m ulheres feias, só preguiçosas.
De um dia de verão distante vem o din-don da van vendendo sorvete. A m úsica com posta por Henrique VIII para sua futura rainha acabou se transform ando em um a m elodia de sinos para cham ar a atenção de turistas em um resort à beira-m ar no País de Gales. Quais eram as chances?
– Mãe?
– Estou bem – Petra sussurra de volta, e coloca a m ão no cabelo de sua filha. Molly é tão m ais bonita que Petra, abençoada com as cores de sua avó e o m esm o rosto angelical em form ato de coração.
– Mamgu iria adorar saber que papai está tocando Bach para ela – diz Molly, e Petra dá um sorriso m olhado de confirm ação.
Molly tem só 13 anos e j á está de luto por sua avó. Um luto com passivo e descom plicado. Aquele era um bônus inesperado da m aternidade, o m odo com o a m ãe e a filha de Petra se am avam incondicionalm ente, capazes de dem onstrar esse am or de um a m aneira que ela achava tão difícil fazer com Greta. Na rara ocasião em que Greta colocou a m ão no braço de Petra, ela o sentiu quase com o um choque elétrico.
A m úsica chega ao seu final solene, com o um a vida bem vivida, e Marcus levanta o arco e j oga a cabeça para trás com o se estivesse se sacudindo de um transe. É perceptível que a congregação quer aplaudir, m as algum a lei não escrita diz que não se pode aplaudir na igrej a. Será que pensam que Deus ficará com ciúm e do talento de Sua própria criação?
Marcus volta a se reunir com os outros no banco da igrej a e olha de relance para ver seu triunfo refletido nos olhos de sua esposa. Ela não olha para ele. Ora, meu amor, você me interpreta mal me descartando dessa forma tão grosseira. Petra estuda seus dedos palm ados enquanto os hom ens que carregam o caixão o levantam sobre os om bros. Qual seria o conselho de sua m ãe enquanto vai para seu túm ulo? Ela diria a Petra para reconquistar Marcus, sem dúvida. Greta não deixaria um hom em desse calibre ir em bora sem lutar. “Prim eiríssim a linha”, era assim que ela cham ava Marcus. A fam ília de Marcus não fazia parte dessa prim eiríssim a linha. Doeu em Petra ouvi-la dizer isso; o m odo com o sua m ãe, um a aristocrata por natureza, ficava tão im pressionada pela classe na qual sua filha se casara.
A fam ília segue o caixão até o lado de fora. No fundo da capela, em um a fileira na lateral, Petra nota um a loira bonita e gordinha m ais ou m enos da idade dela. Ela retribui o sorriso da m ulher. Som ente quando estão do lado de fora, ao lado do portão, e o caixão está sendo colocado dentro do carro fúnebre, é que Petra volta à realidade e percebe que ela não conseguiu registrar um rosto que conhecia com o o dela própria.
Sharon.
Elas m antiveram contato. Em aniversários e Natais, atualizando-se sobre as novidades, inevitavelm ente sobre as crianças, conform e os anos foram se passando. A m enina de Petra, os dois m eninos de Sharon, David e Gareth. Todo m ês de dezem bro, cartões de Natal viaj avam do País de Gales para Londres, e vice-versa, cartões em que am bas expressavam o desej o de que aquele fosse o ano em que finalm ente se encontrariam . Depois de algum tem po, Petra não sabia exatam ente quanto, ela com eçou a esquecer de anotar o aniversário de Sha e, alguns anos depois, ficou chocada ao descobrir que ela não conseguia m ais se lem brar do dia exato. Em 3 ou 5 de j ulho? Quando foi para o País de Gales para o enterro de sua professora de violoncelo, a srta. Fairfax, levou o núm ero novo do telefone de Sharon. A em presa elétrica de Mal havia prosperado e a fam ília se m udara para um a casa um pouco m ais acim a da costa, para um condom ínio de casas afastadas um as das outras, com abrigo para carros e vista para o m ar. O vizinho de um lado era diretor de escola, o do outro lado era um fam oso j ogador galês de rúgbi que m orava com a esposa com pletam ente reform ada por um cirurgião plástico.
É um lugar elegante, Sharon tinha escrito no cartão de Natal.
Petra não ligou para a am iga naquela visita ao País de Gales. Tinha pouco tem po, ela disse a si m esm a, m as era a distância entre elas que parecia grande dem ais. No m ercado, com prando flores para o túm ulo da srta. Fairfax, Petra avistou um a figura fam iliar com um a coroa de cabelos loiros de bebê usando um a capa de chuva roxa, e levantou a m ão instintivam ente para acenar – É você! –, m as então se escondeu atrás de um pilar. Petra não sabia se era de si m esm a que estava se escondendo. Ficou envergonhada por estar evitando a sua m elhor am iga de infância, m as Sharon teria lido sua dor e sua decepção com apenas um olhar. Petra não estava preparada para enfrentar Sharon olhando para ela.
A am izade delas sobreviveu ao fato de Sha ter deixado a escola aos 16 anos para ir para um curso técnico aprender taquigrafia e datilografia, enquanto Petra ficou para atingir os níveis A, além de trabalhar aos sábados em um a loj a da rede de farm ácias Boots. Elas ainda riam m uito j untas, com o ninguém . Experim entavam todos os lançam entos de produtos de beleza da loj a onde Petra trabalhava, incluindo um a m áquina de bronzeam ento de rosto que solicitava o uso de óculos com o os de natação enquanto você estivesse sentado em frente a ela. Elas entenderam m al as instruções, é claro, e o rosto de Sharon foi tostado até ficar da cor de terracota flam ej ante, com exceção das áreas brancas ao redor dos olhos. Durante várias sem anas ela parecia um a aviadora de antigam ente.
Antes de sair da escola, no proj eto final de artes, Sharon pintou m eninas divertidas de olhos negros puxados em caixas de papelão. Elas estavam vestidas com cores incríveis, enfeitadas com brilhos, sem pre em um am biente onde o m ar era visível através de um a j anela.
Petra ficou boquiaberta.
– São incríveis. Com o Matisse.
– Quem é esse? – Sharon riu. – Para com isso, Petra. Tudo tem que ser parecido com algum a coisa para você, não é? Algum as coisas são sim plesm ente elas m esm as, sabe.
Sharon deveria ter ido para a faculdade de artes plásticas, algum a faculdade boa, m as, apesar de ter um a im ensa capacidade natural, faltava-lhe o reconhecim ento do seu talento. Modéstia e hum or gentil estavam entre as virtudes m ais adoráveis de sua fam ília, m as eram tam bém sua m aldição.
– Posso pintar em casa sem pre que quiser, não posso? – Mas ela não pintava.
O casam ento de Petra e Marcus foi o divisor de águas. Depois disso, as coisas nunca m ais foram as m esm as entre as duas. Sharon estava fazendo os vestidos das m adrinhas, m as os aj ustes foram um problem a porque Petra havia concordado em fazer tudo em Gloucestershire, a vila de Marcus, porque, bem , porque eles iriam m ontar um a tenda no j ardim , a igrej a era tão antiga e tão bonita e seus am igos de Londres poderiam chegar m ais facilm ente em vez de fazerem um a viagem pela Severn Bridge até o País de Gales, o que seria custoso, em vários sentidos.
O m otivo verdadeiro era Greta. Entretenim ento de qualquer tipo e, em particular, o m edo do fracasso social sem pre fizeram com que a m ãe de Petra ficasse zangada. Greta seria obrigada a partir para o ataque, com eçando por com bater qualquer crítica ou hum ilhação perceptível. Além do m ais, Petra nem podia im aginar colocar toda a fam ília de Marcus na capela m arrom e fria com as irm ãs de seu pai e um m inistro batista que, com toda certeza, m encionaria pecado pelo m enos duas vezes, e talvez até fornicação. A Igrej a de Londres, que não via pecado que não pudesse ser perdoado e, de qualquer m aneira, era cortês dem ais para m encionar qualquer coisa, era um local m uito m ais relaxante.
Na noite anterior ao casam ento, Sharon chegou na casa do m oinho em Costwold com seu antigo Mini Cooper, todo enferruj ado e explodindo de vestidos em balados em sacolas de lavagem a seco. Feito com um cetim da cor de bronze que ela encontrara no m ercado Llanelli, os vestidos das m adrinhas tinham um corte belíssim o, quase escultural, com um decote profundo com delicadas pedrinhas reluzentes na borda. A irm ã de Marcus, Georgina, foi a prim eira a experim entar seu vestido.
– Que estranho – Georgie disse. – Eu poderia ir a um a balada com esse vestido.
A m ãe de Marcus entrou e deu um a olhada para Sharon e seus vestidos.
– Oh, que estranho. Acho que podem os achar um corpete para deixar o vestido um pouco m ais respeitável, você não acha?
Petra deveria ter ido em bora dali naquela hora. Deveria ter pulado na lata-velha com Sha e pisado fundo no acelerador para a gram a verde de casa. Contudo, sua paixão cega por Marcus a tinha roubado; ela se sentia superior por ser escolhida por aquele inglês em ocionalm ente indisponível de prim eiríssim a linha. Será que ela não desconfiava que estava se casando com o hom em dos sonhos de sua m ãe? Não conscientem ente. O gosto do triunfo era tão forte que m ascarava todas as outras sensações.
No altar, ela se virou para entregar seu buquê para a m adrinha principal e viu lágrim as nos olhos sorridentes de Sharon. Por um segundo, não m ais, Petra sentiu que estava caindo, caindo, enquanto os laços de sua m elhor e m ais antiga am izade com eçavam a se desfazer.
No dia seguinte ao funeral, Petra vai até a casa para com eçar a separar algum as coisas. Marcus levou Molly para um passeio na praia e depois iriam com er algum a coisa no novo café que havia sido inaugurado, com vista panorâm ica para a baía. O café serve as m esm as saladas e sanduíches em baguetes dos cafés de Londres. Marcus sem pre reclam ava de com o a com ida era horrível por ali; ele aperta seu peito e diz que aquilo é o “Program a de Dieta para a Morte”, que é o m esm o que dizer que as pessoas buscam consolo na com ida. Pessoalm ente, Petra acha que se você se vê m orando em um a cidade que extrai m inério e ferro durante o período que os historiadores sociais cham am de Declínio Pós-Industrial, com certeza m erece um pouco de consolo. (O porto que j á foi o orgulho da cidade poderia agora m udar seu nom e para Extinto: seu futuro estava totalm ente no passado.) Certam ente não é coincidência que, no final do século XX, os ricos sej am os m ais bem -sucedidos em serem m agros; eles não precisam de consolo, tendo j á um a vida bastante confortável. Andando pela rua, ela nota que as pessoas se tornaram gordas de um a form a chocante e lastim osa. Quando ela era criança, se você fosse pobre, era m agro.
– Pele e osso. Não sobrou nada dele – suas tias costum avam relatar com um contentam ento sinistro de um vizinho que perdera o em prego na m ina.
Ela está feliz por Marcus e Molly não estarem com ela. Quando ela abre a porta da frente, o odor da últim a doença de sua m ãe desce as escadas para cum prim entá-la. Obviam ente, Greta se recusara term inantem ente a ficar doente. Nas últim as sem anas, quando seu equilíbrio “não estava tão bom ”, com o até ela teve de adm itir, ela ainda insistia em subir as escadas sozinha, m esm o Petra tendo arrum ado o sofá na sala de estar. Greta lutou a últim a batalha com suas arm as preferidas: a austeridade alem ã e o perfum e Blue Grass, de Estée Lauder.
Petra em purra a porta de vidro que dá para a cozinha. Os arm ários, da cor de dam asco com puxadores de anéis de m etal e a pia rechonchuda têm a idade da construção da casa, m ais de 70 anos. Ela abre a geladeira e registra seu conteúdo: três fatias de presunto em brulhadas em papel alum ínio, m etade de um iogurte com a tam pa, três tom ates e algum as ervilhas da horta, ainda na vagem . Seus pais cresceram durante a guerra – sua m ãe na Alem anha, seu pai em um a fazenda local. Para aquela geração, ela acha, não era apenas a com ida que era racionada. Os sentim entos eram racionados tam bém . Eles eram m ais com edidos nas em oções, sem pre m antendo algo na reserva.
Há m uito tem po, ela se lem bra de sua m ãe entrando furiosa nessa cozinha depois de Petra ter peram bulado enquanto fazia a revisão para um a prova e distraidam ente se servira de um pedaço grande de queij o.
– Quando eu tinha a sua idade, teria feito esse pedaço durar um a sem ana – sua m ãe disparou, arrancando a vasilha de Tupperware da m ão de Petra e batendo a porta da geladeira com força.
Naquela m esm a noite, seu pai, o pacífico, parado ao pé de sua cam a, disse:
– O que você precisa entender, cariad fach, é que as pessoas que j á passaram fom e, m uita fom e, vej a bem , não são iguais às pessoas que não sabem o que é isso.
Tudo na casa continua exatam ente com o Petra se lem bra. O piano que ficava na sala de estar tem um prelúdio de Chopin aberto no apoio para partituras; Petra tenta algum as notas, m as ouvir o piano de seu pai traz um a agonia inesperada, com o cortar um dedo bem fundo. Depois que seu pai m orreu, sua m ãe com eçou a gostar dele e a valorizá-lo; ela poliu a m em ória do hom em que foi sem pre o zangão de sua abelha-rainha enquanto vivo.
De volta ao hall de entrada, o telefone na m esa de vim e é o m esm o que seus pais instalaram 30 anos atrás. Houve um surto de anim ação quando ele foi instalado. Era tão raro terem visitas que o técnico que fez a instalação causou um a im pressão duradoura. Um hom em alegre de m acacão azul, ele aqueceu a casa alguns graus só de entrar nela.
– A senhora tem um a casa encantadora, sra. William s. Muito bem , então.
Petra adorou o telefone novo: trouxe um pouco de glam our futurista para um a casa que poderia estar na Prússia do século XIX. O telefone era verde-abacate com o disco de um tom verde m ais escuro. Petra se lem bra de ter feito ligações naquele telefone que pareciam tão urgentes que o disco parecia levar anos para voltar. “Três, dois, cinco, oito”, sua m ãe respondia, bem depois que esse tipo de form alidade com eçou a soar artificial e ligeiram ente côm ica, e o núm ero em si foi sendo aum entado diversas vezes por com panhias telefônicas, sem pre m udando.
Nem sem pre é fácil reconhecer os m om entos significativos da vida enquanto você os está vivendo, m as Petra sabe que este é um deles. Estar ali, na entrada da casa, e com preender que nenhum de seus pais atenderá o telefone novam ente. E que ela não discará m ais o núm ero deles. A m orte é algo grande dem ais para processar, ela percebe isso; a perda nos chega em infinitas pequenas parcelas que não serão recuperadas.
No andar de cim a, no quarto de seus pais, ela fecha as pesadas cortinas. A pequena horta que fica em baixo, sem pre tão bonita quando seu pai era vivo, agora está em plena rebelião, com o se, ao se verem livres do olhar reprovador de sua m ãe, as plantas subitam ente tivessem resolvido fazer um a festa selvagem . Subindo pela parede de tij olos aparentes e cheia de fuligem , a profusão de flores das ervilhas-de-cheiro está definhando com a própria abundância. As ervilhas-de-cheiro precisam ser colhidas para que as flores continuem brotando. Sua m ãe lhe ensinara isso. Petra cuidará disso depois.
Prim eiro, o arm ário de sua m ãe, que dom ina o quarto do casal. É um arm ário de duas portas, de m ogno, tem um espelho de corpo inteiro com um a bela m oldura chanfrada que brilha com o diam ante quando capta a luz. Coisas pesadas assim saíram de m oda. Móveis escuros, assim são cham ados hoj e. Na casa de Petra em Londres, Molly guarda seus j eans skinny e suas roupas da Topshop em um arm ário portátil de lona fechado por um zíper. Ele se parece com algo que os cientistas da perícia forense erguem na cena do crim e. A pequena tenda passa a m ensagem de que as roupas são j oviais, baratas e descartáveis. Não o arm ário de Greta, que m ais parece um a capela construída para celebrar a eterna fem inilidade. Petra gira a chave de m etal e ouve um satisfatório clique.
O interior poderia fazer parte de um a m atéria de revista sobre “Com o Um a Mulher Deve Cuidar de Suas Roupas”. Prateleiras de sapatos e botas m uito organizadas na parte de baixo. As fôrm as de sapatos sobressalentes parecem um pouco sinistras, com o fantoches sem os fios. Não se veem suéteres em bolados com o os que Petra deixa em suas prateleiras quando está com pressa. Ela acaricia um blazer de lã acinturado, cuj a gola parece ser de visom . Poderia ter sido usado pela atriz Eva Marie Saint no film e Intriga internacional, de 1959. Um blazer tão m aravilhoso exige que Cary Grant, no m ínim o, escale apressadam ente a face de um penhasco para m ostrar adm iração pela peça de roupa. Petra enterra o rosto no denso tecido caram elo onde ainda consegue sentir o cheiro de sua m ãe. Echt Kolnisch Wasser Nº. 4.711. Eau de cologne Nº. 4.711, o fantasm a penetrante de gim e frésias. Nesse m om ento, ela com eça a chorar com o se deve. Chorar pelos lugares que o blazer encantador nunca viaj ou, pela bela m ulher que teria am ado esses lugares, se tivesse tido a chance. Nas gavetas de um lado do guarda-roupa, ela encontra cachecóis, dobrados e passados no form ado de perfeitas m iniaturas de velas de um barco.
Sua m ãe acreditava no que agora são cham adas de peças de investim ento: suéteres de lã em cores neutras atem porais, envoltos em papéis de seda que crepitavam quando tocados, duas boas cam isas brancas de algodão em cabides acolchoados. Petra planej ava guardar algum as coisas para si e para Molly, e carregar o carro com o restante das coisas para levar à igrej a, m as essas não eram roupas de segunda m ão, eram vintage. Sua m ãe m erecia um m useu de roupas, não um brechó.
Petra estava apalpando para ver se havia algum a coisa atrás dos casacos quando encontra algo. Não está procurando aquilo. Não busca nada em particular. Está apanhando um par de sapatos de verniz pretos, de saltos altos, ainda brilhando depois de 30 anos, quando seus dedos encostam em algum a coisa m ais fria que o couro. Ela retira o obj eto. É um a lata com o desenho de um lago e m ontanhas na tam pa. Um presente de Natal da Áustria. Dentro da lata há cartões-postais, fotos em preto e branco de seus pais ainda j ovens e um m aço de cartas am arradas com um a fita verm elha.
O envelope rosa está fora do lugar. Tem várias carinhas sorrindo e um arco-íris na parte da frente. Seu coração dispara quando percebe que está endereçado a ela, m as há algo de estranho naquela caligrafia. Leva algum tem po para que ela reconheça que aquela caligrafia é a sua. Não era sua letra de agora, m as com o escrevia m uito tem po atrás, com voltinhas e floreios. O envelope fora aberto, então foi fácil puxar a carta. Lê a carta pela prim eira vez, e depois um a vez m ais para ter certeza.
Ela se levanta, anda pelo corredor e em purra a porta de seu antigo quarto. O edredom m arrom bordado ainda está sobre a cam a, levem ente úm ido ao toque, em bora os 25 anos de luz entrando pelos caixilhos da j anela tenham desbotado a cor chocolate e a transform ado em um am arelo m ofado. Ela se aj oelha, estica o braço para debaixo da cam a e coloca o dedo na abertura entre as tábuas de m adeira, levantando um a delas e puxando um a pilha de revistas e um rádio transistor cinza. Gira o botão.
Ridículo. Com pletam ente insano. Ela m eio que esperava ouvir a voz dele.
“Cherish is the word I use to describe,
All the feelings that I have hiding here for you inside.” (Am or é a palavra que uso para descrever
Todos os sentim entos que venho guardando para você.)
Mas não há nada. Ela abre a tam pa da parte de trás do rádio com a unha e torce o nariz; havia ácido vertido pelas pilhas e o plástico estava corroído.
Petra tira os sapatos que usou no enterro e se deita na cam a, apertando a carta e as revistas contra o peito. Com o sua m ãe pôde esconder isso dela? Ela deveria saber o que aquelas palavras significavam . “Você, Petra William s, é a vencedora do Superteste de David Cassidy.” A revista tem enorm e prazer em dizer que ela ganhou a viagem da vida dela para viaj ar com sua am iga, Sharon Lewis, para conhecer David pessoalm ente nos estúdios de A Família Dó-Ré-Mi em Los Angeles.
Na parte de baixo da carta, um nom e foi datilografado com tanto entusiasm o que perfurou o papel. Zelda Franklin. A data era 22 de j ulho de 1974, quase 24 anos atrás. Esta nova perda, tão boba e insignificante, se com parada às outras, tão grandes e devastadoras, irrom pe dentro dela. Seus pulm ões parecem estar sendo lam bidos por um a cham a que clam a por j ustiça. Petra, um a m enina tão boazinha por tanto tem po, queim a com essa inj ustiça. A felicidade chegara em um envelope cor-de-rosa e isso lhe fora roubado. Eu venci, pensa, fascinada. Eu sou a vencedora.
Com o ela pôde fazer isso? Com o pôde? A tristeza que sente por Greta não tem a ver apenas com a m orte; m ãe e filha se perderam um a da outra m uito antes de a m ulher ter escapado com graciosa firm eza da plataform a de desem barque. Misturado com a ferida do sofrim ento está o desgosto em saber que sua m ãe na verdade escolheu esconder esse prazer dela. Greta via a m úsica pop com o um fungo no rosto da civilização e, pior, um a praga no futuro de sua filha com o artista. Petra corre os dedos para cim a e para baixo da trilha felpuda da colcha, sentindo a força deles.
– É preciso praticar todos os dias, se você quer ser a m elhor – sua m ãe dissera, e ela nunca desobedecera.
Greta tinha razão. A prática levava à perfeição, m as o que 30 anos de prática fizeram com Petra? Deixaram -na perfeitam ente triste. Ela não sabe ao certo durante quanto tem po ficou deitada ali, ou quando um plano com eçou a tom ar form a em sua m ente.
Sentando-se, recoloca os sapatos e recolhe as revistas que desenterrou de seu velho esconderij o. Quem sabe elas fariam Molly dar boas risadas? No espelho acim a da prateleira, com sua fileira de livros da inglesa Enid Bly tons, Petra se olha no espelho. É seu pai quem vê olhando para ela. Papai j am ais teria escondido um sonho realizado em um a caixa, guardando-o com o se fosse um segredo crim inoso.
Descendo as escadas com a carta enfiada em segurança no bolso, ela im agina o que aconteceria se ligasse para a revista e dissesse: posso receber m eu prêm io agora? Que bobo. Não há m ais ninguém para ligar. Nenhum a revista, nenhum a Zelda Franklin, nenhum a Família Dó-Ré-Mi. Petra pega a revista que está no topo da pilha para olhar direito para o rosto da capa. Aqueles olhos. Piscinas verdes onde derram ávam os todos os nossos desej os. Ele era fascinante, até hoj e. Ele havia sido o m undo dela. E ela ganhou a oportunidade de lhe dizer isso. Aquele m om ento foi perdido para sem pre, com o m ilhões de outros m om entos de um a vida hum ana. Passando pela m esa de vim e do hall de entrada, a cam inho da porta da frente, Petra coloca o dedo em um dos buracos do telefone verde, puxando o disco e o soltando, ouvindo o som fam iliar enquanto o disco retorna à posição. Mesm o se houvesse pessoas para ligar, o que pensariam dela?