Eu Acho que Amo Você
Epílogo
Em 2004, a revista do Daily Telegraph m e pediu que entrevistasse David Cassidy. Enquanto m e preparava para viaj ar para a Flórida para conhecer o ídolo da m inha adolescência, várias em oções inesperadas foram se acum ulando. Pânico sobre o que vestir estava no topo da lista. Deveria ir vestida com o a fã que o tinha venerado de form a tão ardente nos velhos tem pos, ou com o a m ãe de dois filhos que era agora? Senti com o se estivesse fazendo um a viagem no tem po. Se David ainda tinha 24 anos no m eu coração, quantos anos eu teria?
Enquanto eu fazia e desfazia a m ala, m eu m arido se sentou na cam a e cantou um a versão totalm ente desafinada de “Could It Be Forever”.
– Por que é que você queria conhecê-lo? – ele perguntou. – David Cassidy era desafinado e, sem brincadeira, parecia um a m enina.
Defendi David, exatam ente com o fazia 30 anos antes, das gozações dos m eninos da escola. Sem pre o defenderia.
David m orava em Fort Lauderdale com a esposa, Sue, e o filho, Beau. No táxi até sua casa, tudo o que vinha sentindo se resum iu em um único pensam ento: “Por favor, não deixe que eu sinta pena dele.”
Percebi que suportaria qualquer tipo de estranheza, constrangim ento ou decepção, m as nunca, j am ais queria sentir pena do hom em que tem pos atrás transpôs m eu m undo com o um colosso, vestido com um m acacão branco com tachinhas prateadas.
David Cassidy estava perto de fazer 54 anos. Ele parecia pelo m enos dez anos m ais j ovem , e m esm o assim ainda era 20 anos m ais velho do que aquele garoto por quem m ilhões de m eninas, com o eu, acreditavam estar apaixonadas. A com paração era claram ente um m otivo de desconforto para ele. Ele que outrora m exeu com m etade do m undo, agora estava destinado a decepcionar. Ele não era Peter Pan, nem queria ser. David estava prestes a em barcar em outra turnê de despedida pelo Reino Unido. As fãs, agora j á na faixa dos 40 e 50 anos, e com filhos, ainda se reuniam para vê-lo em núm eros im pressionantes, m as percebi nele um grande desgaste por precisar explorar, por causa do dinheiro, um período de sua vida que, de diferentes m aneiras, tinha lhe custado caro. Sua am argura com as gravadoras e o pessoal de publicidade, que deram um j eito de fazer desaparecer os m ilhões de dólares que seus discos e sua im agem geraram , era totalm ente j ustificada.
Enquanto David posava para o fotógrafo, disse a ele para ter cuidado para a câm era não pegar sua alm a.
– Minha alm a foi roubada há m uito tem po – ele respondeu. Com o ator e filho de atores, ele pode ter certa tendência a frases dram áticas; ainda assim , se alguém nesse planeta pode alegar ter tido a alm a roubada, essa pessoa é David Bruce Cassidy .
A entrevista acabou sendo m ais fascinante e em ocionante do que eu poderia im aginar. David foi atencioso, inteligente e extrem am ente honesto nas suas respostas. Em alguns m om entos ele ficou com raiva, em outros esteve perto de chorar. Rim os m uito quando recordam os a experiência estranha e cativante que com partilham os, em bora separados pela idade, gênero e m ilhares de quilôm etros. Ele foi generoso o suficiente para gritar por m im , da m esm a m aneira com o eu havia gritado por ele naquele tem po, o que provou que é um verdadeiro cavalheiro. Poder lem brar David da letra de um a de suas m úsicas, que eu sabia m elhor que ele (naturalm ente), foi um m om ento de paraíso para um fã.
O David Cassidy que m ilhões de nós am ávam os não existiu, não de verdade; ele foi um a brilhante criação de m arketing. Entretanto, o hom em que teve o prazer e o m artírio de carregar seu nom e não decepcionou. Pelo contrário.
Quero agradecer a David por m e conceder essa fantástica entrevista e por m e aj udar a recapturar com o éram os. Nenhum a garota poderia querer um ídolo m elhor. Aí vai a transcrição:
Allison Pearson: David, seu agente m e contou que alguns dos fãs m ais agressivos ainda se aproxim am de você com o se fosse um prato de com ida. Com o você se sente com relação às fãs agora?
David Cassidy: É um privilégio as fãs ainda se im portarem com igo. Nunca pensei de outra form a.
AP: Sério, quer dizer que não tem sido um fardo para você?
DC: Ah, sim , tem sido um fardo, m as tam bém nunca pensei que não era um a bênção ou lisonj eiro. Sim , em m uitos aspectos tem sido extrem am ente difícil lidar com isso. Se alterou m inha vida? Radicalm ente. Mudou m eu j eito de ser? Sim , m uito. Mas é extraordinário se você olhar para isso de form a obj etiva.
AP: Sua últim a turnê, de despedida, foi em 1974.
DC: Sim , e eu disse: chega. As pessoas falaram : “Ah, ele vai voltar no ano que vem .” Antes de com eçar a turnê, anunciei para o m undo: “Essa vai ser a últim a.” Minha últim a turnê. Em estádios do m undo todo. Com ecei na Nova Zelândia, Austrália, Japão, Europa, Reino Unido (ele ronca de brincadeira, fingindo estar entediado) – nove m eses ao todo.
AP: Alguém foi m orto no seu últim o show em Londres, não foi?
DC: Perto do últim o show. Um a garota m orreu, não foi m orta. Ela morreu. Esclareça isso. Não houve nenhum a violência, havia um incrível em purra-em purra. Ela estava bem no fundo. Tinha um problem a no coração. Morreu. Foi m uito triste, m as, é claro, a im prensa fez com que parecesse, sabe – isso vende j ornal, certo? Liguei para os pais dela, falei com eles e disse que, por causa da m ídia que atraio aonde quer que eu vá, por respeito à sua filha, não iria ao enterro. Mandei flores. Você sabe que não tive responsabilidade. Havia 45 m il pessoas ali, não sabia onde ela estava. Ela estava a uns 800 m etros de distância. Não tinha ideia de que havia m orrido.
AP: Deve ter sido chocante.
DC: Foi m uito triste porque, para m im , era um a celebração e estava perto do últim o dia, que foi na cidade de Manchester, eu m e lem bro.
AP: Algum a vez ficou com m edo?
DC: Por elas?
AP: Por você.
DC: Não posso dizer que nunca fiquei com m edo. Aconteceu tantas vezes naqueles cinco anos. Quando eu estava no carro, as garotas subiam nele. Ficava tudo preto. Um a escuridão... sufocante. Era preciso garantir que o m otorista fosse m uito bom , porque era um a m ultidão. Um a m ultidão. Tem sua própria consciência, sua própria m ente. Em vez de um a, duas ou três, são 50, 100, e elas com eçam a se em pilhar um a em cim a da outra, a coisa vira um a loucura.
AP: Você se lem bra da prim eira vez que isso aconteceu?
DC: Foi em 1970, logo depois que A Família Dó-Ré-Mi foi ao ar nos Estados Unidos. Fui para Cleveland – o program a tinha ido ao ar dez vezes. Eu seria hom enageado no Desfile Militar de Cleveland. Estava em um carro do Corpo de Bom beiros, de 1950 m ais ou m enos. Os repórteres disseram que nunca tinham visto nada com o aquilo antes. Havia 40 m il crianças m e seguindo pelas ruas de Cleveland e estava frio. Frio com o em Glasgow. Para descer e entrar em algum lugar seguro, havia um segurança com igo. Nunca tinha tido um segurança antes. Isso foi só o com eço. Fui do topo do carro do Corpo de Bom beiros para dentro de um carro. A polícia não tinha o controle da situação. O carro foi instantaneam ente encoberto. Foi caótico. Elas agarraram m eu cabelo e m inhas roupas. Não foi agradável.
AP: Se conseguissem pegá-lo, o que acha que elas fariam ?
DC: Bem , acho que elas queriam tirar um pedaço de m im para ter ao lado da cam a ou algo do tipo. Com o um escalpo para ser colocado na parede.
AP: Aquilo lhe pareceu prim itivo?
DC: É m uito prim itivo. Tive bastante tem po para pensar sobre isso. Tenho observado j ovens em eventos desde então, com o eventos de líderes de torcida; quando elas ficam em polgadas, a voz delas atinge um agudo alto, j unto com as em oções. Isso se torna, bem , im agine o nível de intensidade no auge daquilo que é m ais em ocionante para elas, a coisa m ais excitante, e que tam bém é o auge de 40 ou 50 m il pessoas. Qual é a sensação de ter tudo isso vocalm ente direcionado a você – é um a arm a poderosa, um a experiência muito, muito poderosa. Lem bro de dizer que gostaria que todos pudessem estar no m eu lugar por apenas cinco segundos para saber com o é essa sensação, pois é a expressão m áxim a do am or. Mas falado desse m odo, aos gritos – EU TE AMO –, intensifica dez m il vezes m ais. Im agine com o é isso. É avassalador.
AP: Mas isso era algo que as fãs proj etavam nessa figura cham ada David Cassidy, porque não conheciam você. Eu era um a das que gritavam , por falar nisso.
DC [risos]: Se você estava gritando, Allison, então sabe com o eram esses agudos para você. Para m im era tipo uau! Era sim plesm ente fantástico sentir as pessoas liberando em oções e m e deixando saber que toquei suas vidas de um a m aneira especial, que sou im portante para elas. É o m aior elogio que alguém que faz o que eu faço pode receber.
AP: OK, com o j á gritei por você, David Cassidy , é j usto que você tam bém grite por m im .
DC [risos e gritos]: EU AMO você – desculpe, não consigo alcançar o m esm o agudo.
AP: Não, está m uito bom , obrigada. Deu para ver por que você logo se acostum ou a isso. É com o se as fãs estivessem perto de um sentim ento pré-sexual. O sexo está im plícito nisso, m as talvez não sej a sexual, não é?
DC: É com pletam ente sexual, m as porque é ingênuo, extrem am ente rom ântico e lida com a fantasia, é sexo antes de se tornar abertam ente sexual. Você pode defini-lo m elhor que eu porque eu nunca estive em um corpo fem inino. Intelectualm ente, agora entendo, m as na época não conseguia perceber.
AP: O que você pensava na época?
DC: Pensava que era sim plesm ente histeria. Com o se elas estivessem m e vendo com o um sem ideus. Eu era apenas um cara que tocava guitarra.
AP: Você se sentia com o um sem ideus?
DC: Não, nunca.
AP: Ah, nem quando tinha todas aquelas garotas gritando por você?
DC: Você acredita em m im ou acha que estou inventando?
AP: Apenas acho que não seria hum ano se não se sentisse m uito satisfeito consigo m esm o com tantas garotas se atirando em cim a de você.
DC: Não posso dizer que não m e sentia feliz com igo m esm o. Tam bém não seria honesto dizer que não sabia que as pessoas m e achavam atraente. Mas nunca m e senti um ídolo sexual. Quer dizer, eu era um cara sexual, m as nunca pensei em m im m esm o com o sendo sexy , entende?
AP: Sim , m as acho que em parte era porque você era atraente, m as não era...
DC: Am eaçador?
AP: Não havia nada de am eaçador ou agressivam ente m asculino em você.
DC: Viu? Mas acho que você não sabia disso naquela época. Eu tam bém não sabia.
AP: Com certeza eu não pensava “Ei, lá vem David Cassidy , m eu obj eto de transição no am or”. DC: Certo, é um fenôm eno. Eu era m uito m asculino, m as havia um a parte andrógina. Quando vej o fotos m inhas, eu era m agrelo, m eu cabelo era com prido, eu parecia m eio fem inino. Não era o tipo de cara que intim idava. Garotas entre 7 e 17 anos iam aos m eus shows. Nos Estados Unidos, a plateia era 80 por cento de m eninas e 20 por cento de m eninos. Acho que no Reino Unido não era legal para os m eninos adm itir que gostavam de m im .
AP: Não, você era um a fada.
DC: Um a fada? [Ele ri, um pouco incerto.] Sabia que os m eninos tinham ciúm es. Sabia o que diziam . Sabia que eles desenhavam bigodes nas m inhas fotos e pintavam m eus dentes de preto. Eu entendia. Eu teria m e sentido da m esm a m aneira.
AP: Se eu tivesse conhecido você 30 anos atrás...
DC: Você não teria conseguido falar. Isso aconteceu com igo várias vezes. Era carinhoso da parte delas. Elas ficavam ali paradas, com eçavam a chorar, era em ocionante. Duas sem anas atrás eu estava fazendo um show beneficente em um estúdio de TV. Atrás do palco, um a das diretoras do departam ento, que deveria ter uns 37 anos, entrou no cam arim , segurou m inha m ão e com eçou a chorar. Ela disse: “Você não entende.” E eu respondi: “Claro que eu entendo. Acredite, entendo e agradeço. Fico feliz por ainda significar algum a coisa para você.”
AP: Mas houve um vácuo, não foi? O David Cassidy pelo qual estava apaixonada não era você, era?
DC: Se você lia as revistas e com prava as lem branças, aquele não era eu. Era um personagem com um roteiro. Em A Família Dó-Ré- Mi, não m e deixaram tocar [do Jim i Hendrix] “Voodoo Chile”. Pode acreditar, era o que eu tocava em casa. Tocava B.B. King.
AP: Algum a vez você se sentiu desconfortável com aquela roupa de veludo que tinha de usar?
DC: Era terrível. Terrível. Eu era m uito m ais velho e m ais descolado que Keith Partridge. Estava saindo com m ulheres que j á tinham bem m ais de 20 anos.
AP [rindo]: Oh, que velho!
DC [rindo também]: É, m uuuuito velho...
AP: Lem bro de quando fiquei sabendo que você j á estava com vinte e poucos anos... para m im , era m uito adulto.
DC: Quando fiz a turnê em 1974, eu tinha 24 anos. Im agine alguém que j á havia vivido três vidas aos 24 anos. Que tipo de cara eu era, com parado a qualquer ideia preconcebida que você tivesse? A linha era m uito obscura. Para m im , não estava atuando no palco. Eu estava fazendo o papel do m úsico. Sem pre m e im portei com isso, m esm o que ninguém escutasse. Aquele era eu. Era a única parte do dia que eu gostava.
AP: Acho que para as fãs havia o aspecto de saber algo sobre seu passado; havia o sentim ento de você ter sofrido na infância que o diferenciava dos outros ídolos teen.
DC: Bem , eu sofri. Não tinha pensado nisso. Essa é nova. Você está dissecando o m otivo da m inha existência, Allison. Acho que você está certa. Acho que preciso sofrer m uito de novo. Se quer que as garotas gostem de você, sofra, im becil!
AP: Não é a história de Michael Jackson?
DC: Você não im agina quanto talento foi destruído e desperdiçado ali. Estou falando de Off the Wall, o m elhor álbum j á feito. Encontrei Michael Jackson algum as vezes. Tudo deu im ensam ente errado.
AP: Isso o faz sentir arrepio?
DC: Faz e não faz, vou lhe dizer por quê. Ele não tinha um a perspectiva interna que o fizesse optar por parar. “Até m ais, fui!” Eu apertei o botão de ej etar. Ele com prou o sonho de Elvis, com o cinturão sobre a cam a. Eu disse isso há dez anos sobre Michael Jackson: “Você não tem ideia da tragédia que isso vai ser.” Tive a chance de dizer “chega, não quero com prar esse sonho, é um sonho infeliz”. É um a existência triste, vazia, solitária, superficial, egocêntrica e narcisista. Se Michael Jackson não é o ponto m áxim o do narcisism o – é só olhar para o rosto dele, parece anoréxico – , ele quis continuar com o um a criança. Fazer plástica para ficar com o a Diana Ross? Isso é m uito trágico, e é um a escolha difícil de ser feita. Vam os ver: fam a, dinheiro, baj ulação, ser Deus ou ser feliz. Hum m m . Essa coisa de ser Deus, isso é m uito sedutor. Eu pensei: tenho que tentar pegar a estrada da felicidade.
AP: Mas você não sabia que seria feliz.
DC: Ah, sabia. Sabia que a única m aneira de sobreviver e voltar a ser hum ano novam ente era não vivendo m ais daquele j eito. Vivi em um vácuo, com o Elvis, John, Paul, George e Ringo, por cinco anos.
AP: Adoro aquela história em que você canta as m úsicas de John Lennon para ele porque ele estava bêbado e não conseguia lem brá-las.
DC: Estava relem brando John e as letras dos Beatles. Seria m ais ou m enos com o você tocar m inhas m úsicas para m im .
AP: Eu provavelm ente sei as letras das suas m úsicas m elhor que você.
DC: Provavelm ente sim , eu esqueço as letras o tem po todo. Na verdade, em algum as eu ficava confuso.
AP: Você poderia, por favor, cantar “I Am a Clown”, com o um favor especial para m im ?
DC [Confuso]: “I Am a Clown”? Nunca consigo m e lem brar... são todas parecidas.
AP: Você disse que caiu fora, m as o sucesso de um ídolo teen não term ina em um piscar de olhos?
DC: Bom , o m eu durou m uito m ais do que isso e poderia ter continuado por um tem po indefinido. Não para sem pre. Eu vi que poderia sair no auge. Não havia nada m ais para ser vivido. Tive o m aior fã-clube da história. O que m ais podia fazer? Não estava feliz. Estava solitário e...
AP: Em entrevistas naquela época, você disse...
DC [ficando bravo agora]: Essas entrevistas não eram confiáveis. Li coisas que nunca disse.
AP: Então quer dizer que m uitas das coisas que li sobre você eram inventadas por outras pessoas?
DC: Tudo. Praticam ente tudo. Eles escrevem 10 m il histórias em 100 revistas criadas para o m ercado de j ovens adolescentes; então, no com eço do ano, costum avam vir para m e fazer perguntas durante m ais ou m enos um a hora. Eles m e faziam um m onte de perguntas m uito bobas, tipo: qual é a sua cor favorita? Qual é a sua bebida favorita? Depois de algum tem po, com ecei a inventar coisas. O que você com e no café da m anhã? “Ah, ketchup e sorvete.” Você pode im aginar não conseguia m ais fazer esse tipo de baboseira.
AP: É difícil se recuperar disso?
DC: Você não se recupera. O ponto é com o você com preende a situação, enfrenta e segue adiante. Sem pre fica um a cicatriz, m as, quando a pressiono, não dói tanto. Se você trabalha em um a em presa, norm alm ente sobe posições e chega à diretoria. Na m inha profissão, ninguém ganha relógio de ouro. Você é um deus que ninguém m ais quer em pregar porque ficou velho dem ais. Isso é a coisa que acho m ais triste quando assisto à prem iação do Oscar e vej o pessoas que idolatram os serem tratadas dessa form a porque estão velhas.
AP: Com o foi depois que parou?
DC: Eu disse que não gravaria m ais para a TV. É m uito som brio. É com o se eu tivesse caído em um abism o, é m uito estranho. Fiquei m uito dentro de casa, no m eu pequeno condom ínio. Eu não era um cam pista m uito feliz na época e estava m eio perdido.
AP: Quando venho aqui para conhecê-lo depois desse tem po todo...
DC: Sou um cara cinquentão. Você não está nem aí.
AP: Pelo contrário. Todos estam os ficando m ais velhos. Um dia, daqui a m uitos anos, vou estar na cozinha de casa, vou ligar o rádio e vão dizer que David Cassidy, o ídolo dos anos 1970, m orreu. Será um m om ento totalm ente com ovente e relevante para m im e m ilhões de outras m ulheres no m undo todo. Você é um a das referências de nossas vidas.
DC: Um a parte pequena de você m orre com igo?
AP: Acredito que sim .
DC: É por isso que nunca fazia as coisas de form a leviana. Acho que tem significado.
AP: Você se sente parado no tem po? Deve haver m om entos em que as pessoas o incom odam com as m úsicas antigas. Você não seria hum ano se não quisesse seguir em frente.
DC: Eu passei dez anos falando: não, não, não vou fazer isso porque não quero que as pessoas pensem que ainda estou vivendo o passado. Não estou lá. Não quero ficar lá só para fazer com que você se sinta bem . Tenho que viver o presente, caso contrário, eu seria apenas um a relíquia. E j am ais serei um a relíquia. É por isso que não estarei em um show de artistas antigos, nunca farei isso. Cantarei m eus sucessos? Gostaria de cantá-los, são m úsicas ótim as, m as não conseguiria cantá-las se não estivesse vivendo m eu presente, entende? Para m im , isso significa o que faço agora, essa apresentação que pode não ter o m esm o im pacto do que eu fazia antes, m as j am ais vai causar aquele im pacto porque você j am ais vai ter 13 anos de novo. Eu não vou ter m ais 20 anos de novo.
AP: Se você cantar “Could It Be Forever” agora, estará se reconectando com o David Cassidy j ovem ou estará cantando com a sensibilidade de um adulto?
DC: Entre 1974 e 1985, eu não toquei em m om ento algum nenhum dos sucessos. Tive de reaprendê-los. É sério. Dois anos atrás, regravei todos os m eus sucessos do álbum Then and Now – indo para o estúdio e cantando m úsicas que não cantava havia 25 anos. O m esm o estúdio, o m esm o m icrofone, os m esm os m úsicos – foi em ocionante. Canto essas m úsicas com o um cara diferente. Eu não poderia nunca soar com o soava aos 23 ou 24 anos de idade. Tenho que parecer ter 50, 52 anos.
AP: Na verdade, sua voz não m udou tanto.
DC: Não, m as é im possível ter 19 anos de novo, ser inocente com o naquela época, tão aberto à dor, ao sofrim ento e aos relacionam entos. Tenho voz dem ais agora para conseguir encontrar essa pureza, com o sua pele aos 19 anos, você nunca m ais a terá de volta. Tentei ser verdadeiro ao m aterial, tentei ser m ais gentil.
AP: Que m úsicas do período você realm ente gosta?
DC: “How Can I Be Sure”, “Cherish”, “I Think I Love You”.
AP: Por que você não ganhou zilhões de dólares com todas as vendas de discos e produtos?
DC: As gravadoras roubam . E fazem isso em todas as fases, da em balagem à prom oção. É um negócio corrupto, sem pre foi. No histórico das gravadoras, elas j am ais com eteram um erro a favor do artista.
Elas lhe dizem : OK, pode nos auditar. Vai lhe custar de 150 a 200 m il dólares fazer essa auditoria. Isso se você tiver sorte. Então vam os chegar a um acordo de um m ontante X, em vez de prosseguirm os nesse pesadelo. Por fim , eles têm form as de roubar que você nem conhece. Estão ganhando dinheiro em tudo e você nunca sabe quanto foram as vendas reais...
AP: Eles tinham os direitos da sua im agem .
DC: Eu deveria ter ganho 100 m ilhões de dólares com a venda de produtos. Se as em presas tivessem consciência, fariam um cheque para m im hoj e, m as não recebi um centavo. Eu disse: “Tenho 11 álbuns com pilados aqui, e vocês tinham a perm issão de quatro no m eu contrato original.”
AP: Você pode processá-los?
DC [lastimando, triste]: Com o conseguir provar? Essa gravadora foi com prada por outra gravadora... Eu estava com três processos ao m esm o tem po. Eu só quero o que está escrito no papel. Não façam isso com igo...
AP: Você acha que ficar m ais velho é difícil porque as pessoas têm a lem brança do David Cassidy perfeito?
DC: Com certeza, acho que é m ais difícil. Não é “coitado de m im por causa do que possuo ou do que tenho que fazer...” [Ele com eça a m exer na guitarra, infeliz.] Sim , é difícil.
AP: As pessoas o j ulgam ?
DC: “Ei, você não vai deixar seu cabelo crescer? Nunca pensou em deixar seu cabelo crescer?” [Ele contrai o rosto.] Ouço isso o tem po todo. Acontece o m esm o com Farrah Fawcett, ícone da nossa geração. Esse é o problem a. As pessoas dizem : “Ah, vi um a foto dela recentem ente, é tãaao triste.” Não suporto a ideia de ouvir isso sobre m im . Ei, as pessoas ficam m ais velhas. As pessoas têm um a conexão com Robert Redford pelo m odo com o ele era em certa idade, quando j ovem . É a isso que ele é constantem ente com parado. Os 60 chegam . As pessoas fazem com entários m aldosos, e isso é cruel, é m á-fé. As pessoas adoram ficar chocadas e ver outras pessoas decaírem . “Você viu, ele não está m ais tão bonito [com o era]!”
AP: Acontece de conhecer pessoas e achar que elas ficaram desapontadas com você?
DC: Sim . “Por que você não parece m ais com o que m e lem brava de você aos 19 anos?” Bem , eu tento. Atrevo-m e a perguntar: quantos anos você tem ? Tenho fãs com fotos m inhas com elas nos anos 1970 – aquelas garotas m eigas e inocentes, 25 anos se passaram e elas não se parecem nem um pouco com o que eram . NADA. Eu j á m e tornei um adulto com pleto, am adurecido. Será que podem os ter a aparência que tivem os aos 20 com 50 anos?
AP: Tudo bem , só m ais um a coisa que preciso checar com você antes de ir em bora. É m uito im portante. David Cassidy , sua cor favorita algum dia foi m arrom ?
DC: Marrom ? Nunca. Não.
AP: Durante 18 m eses não usei nada que não fosse m arrom porque li em um a revista que era sua cor favorita.
DC [cai na risada]: Allison, foi tudo inventado!
AP [rindo também]: Aquela pobre garota ingênua do País de Gales... eu ficava horrível de m arrom . Deus m e aj ude, eu ficava amarela de m arrom .
DC: Nunca foi um a cor que m e favorecesse tam bém . Você m e im agina de m arrom ? Eu pareço um a pessoa que gosta de marrom?