Eu Acho que Amo Você

Allison Pearson · Capítulo 22 de 27

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Eu Acho que Amo Você

Capítulo 19

19

 

Ele está cinco m inutos atrasado. Cinco m inutos e 24 anos. As galesas, pela segunda vez na vida, estão rodeadas pelas rivais no am or de David. Não é um a m ultidão com o a de White City, talvez por volta de 200 ou 300 pessoas, e não há gritos dessa vez, só algum guincho ocasional, com o se alguém tivesse visto um rato, seguido por ondas de risos fem ininos. Olhando a plateia, Petra está surpresa por se sentir tão em ocionada. A diferença de fuso horário pode estar fazendo com que se sinta um pouco chorosa, porém é m ais que isso. Muitas das m ulheres ali parecem ser sobreviventes. Ela pôde ver pelo m enos duas m ulheres cuj a calvície m ostra que tiveram câncer, e provavelm ente ainda têm . Todas as fãs de Cassidy entraram na idade da dor, quando as perdas da vida com eçam a em pilhar. Poucas serão poupadas. Considere-se sortuda se você chegou aos 35 sem conhecer a m orte, o divórcio ou outras form as de sofrim ento.

Algum as fãs trouxeram suas filhas, e Petra subitam ente desej ou que Molly estivesse ao seu lado. Quando falaram ao telefone m ais cedo, Mol contou feliz da vida que Carrie fizera waffles e xarope de m aple para ela de café da m anhã. Ela gosta de qualquer coisa am ericana, pois a aproxim a de Leonardo DiCaprio.

– Eu te am o, m ãe – Molly disse. Valeu a pena viaj ar m ilhares de quilôm etros só para ouvir isso. Petra pensa nas em oções relem bradas com tranquilidade, de todas as m ulheres nesse auditório, com o ela, que estão olhando para trás e vendo a si próprias com 13 anos de idade, com a pressão de todo aquele desej o. De querer dem ais ser am ada. Aquele era o grande m otor da vida naquela época, acelerando. Se elas apenas soubessem disso. E quantas estão pensando no que aconteceu, e no que não aconteceu, nos anos entre aqueles tem pos e agora? Por acaso, é um álbum de David. Bom título. Then and Now, Naquele Tem po e Agora.

– Onde ele está? – ela pergunta. – Por que ainda não entrou?

– Ele vai entrar – Sharon assegura. – Não se preocupe.

– Não estou preocupada. Ele é adulto, pode tom ar conta de si m esm o. Você acha que algum dos hom ens é realm ente adulto?

Sharon pensa um pouco.

– Bom , eu achava que m eu pai era, m as eu o peguei j ogando Play Station com David...

– Seu David. Não este.

– Meu David, sim . David Cassidy não aparece com m uita frequência para j ogar Donkey Kong. Engraçado isso.

– Marcus nunca foi a nenhum dos m eus recitais. O que ele estava fazendo da vida? O que tanto fazia que não podia ouvir um a galesa de 30 anos de idade tocando Debussy em um a terça-feira, no horário do alm oço? Estava em um a caverna subterrânea?

– Ocupado dem ais com seu Donkey Kong, foi o que ouvi. – Um a das m elhores coisas em Sharon, Petra sem pre achou, era que ela sinceram ente achava suas piadas m ais engraçadas que as piadas dos outros. Não havia nenhum a m á intenção com relação à outra pessoa, nenhum traço de egoísm o; aos seus olhos, ela era sim plesm ente m ais engraçada. Ela ria agora, e o som de sua risada – nítida com o um sino e m aliciosa com o um j ogo de rúgbi – fazia cabeças se virarem ao longo de toda a fileira.

– Shh, estão todos olhando para nós – Petra pediu.

– Pet, isso aqui é Las Vegas. Há leões no lobby. Leões de verdade. Ninguém vai olhar para nós, vai?

– Os leões não estão dentro do lobby . Pelo m enos não conversando com o concierge.

– Não, m as você os viu naquele lugar com o telhado de vidro? Foi o m aior choque da m inha vida quando olhei para cim a. Parecia aquele program a da TV com anim ais, o Daktari.

– É porque é MGM.

– O quê?

– Com o o leão que ruge no com eço dos film es, sabe? É por isso que há leões aqui.

– Ah, você tem razão – Sharon disse. – Vou lhe dizer um a coisa: tem os sorte de não ser J. Arthur Rank, o dono daquela em presa que tinha o Hom em -Gongo com o sím bolo, lem bra? Ao olhar para cim a, veríam os um cara sem inu tocando o gongo.

– Tenho certeza de que isso pode ser arranj ado, m adam e.

– Senhoras e senhores, o MGM Grand Las Vegas tem o prazer de apresentar... – Assim que a voz ressoou, as luzes dim inuíram .

– Onde ele está? – Petra perguntou novam ente

– Está vindo, não está? Deve estar vestindo seu m acacão. Provavelm ente deve estar um pouco apertado atualm ente. Precisa de um a calçadeira.

– Não ele. Onde está Bill?

Sharon observou sua am iga através da escuridão.

– Entendi.

 

Bill estava perdido. Isso o deixava um degrau abaixo da m aioria das pessoas ao seu redor, que estavam m eram ente perdendo. Alguns estavam perdendo suas econom ias, suas hipotecas e planos para o futuro; outros estavam perdendo 20 dólares e encerrando a noite, em bora noite e dia não tivessem diferença nesse lugar, nenhum significado. Alguns estavam apenas perdendo a cam isa, e era preciso dizer que a m aioria das cam isas poderia ser perdida sem dó.

“Do tam anho de quatro cam pos de futebol”, dizia o folheto, e, realm ente, o gram ado de feltro verde das m esas do cassino se estendia a um horizonte fora do alcance da visão; será que em algum lugar por ali haveria um cara solitário j ogando dados pacificam ente contra um a parede? Pelo m enos no futebol havia a restrição do tem po, m as ali não havia fim de j ogo; não havia m eio de cam po nem defesa, nada m ais que a ilusão de um a vitória, apenas um a m aldita derrota após a outra. Todos estavam se divertindo.

Para aum entar a confusão, Bill havia deixado seu relógio no quarto. Ele m arcara de encontrar Petra e Sharon às 19:30, horário do início do show. Elas fizeram o check-in, deixaram as m alas no quarto e saíram logo em seguida. Sharon anunciou que com eria fora o bastante, nos dois dias seguintes, para o resto da vida, e que, coberta de razão, não desperdiçaria um segundo do seu tem po, com certeza não em coisas chatas e sem sentido, com o dorm ir. Bill, enquanto isso, caiu na cam a e ficou deitado ali, com os braços ao lado do corpo e os olhos fechados, com o se estivesse em um necrotério de luxo.

O voo o deixara exaurido, m as era m ais que isso. Ele não entendera exatam ente que m otivos o levaram a em barcar nessa viagem ; não havia necessidade de estar ali, ele não tinha de escrever a m atéria, j á havia um escritor apropriado para isso. Agora ele sabia os m otivos. Você é levado, disse a si m esm o, para a estagnação dos quarenta e poucos anos, com um em prego que gosta, m as que j am ais am ará; com um casam ento detestável e perturbador no seu passado, um casam ento que se desgastava; um caderninho de endereços de nam oradas antigas para quem ocasionalm ente pensa em ligar, m as que, sendo bem honesto, dificilm ente pensam em você (preste atenção nas vozes delas quando ouvem a sua: surpresas, m as sem anim ação); com tudo para continuar a viver, m as poucas coisas de valor pelo que viver; com m ais da vida, em resum o, do que m ilhões têm , e dizer o contrário seria ingratidão, m as ainda... não era a vida, não acha, pela qual esperou e sobre a qual as velhas canções cantavam ? E então, do nada...

– Com licença, senhor. Passando! – Um a garçonete avançou com um a bandej a de bebidas. Bill a parou:

– Desculpe, por acaso você tem horas?

– O senhor é britânico? O senhor é muito britânico. – Ela disse com bom hum or, sem tom de gozação, apesar de tê-lo identificado com o um a piada. E a Inglaterra era um a piada, não era? Esportes que duravam cinco dias sem um resultado, torneiras sem m isturador, hotéis sem leões...

– São 20:15 – disse, apontando para o relógio grande que estava a uns nove m etros de distância, acim a da cabeça do carteador. Ela não entendeu com o Bill não o notara; esse britânico estava tentando cantá-la? Ele até que era bonito. Tipo Jeff Bridges antes de esconder aquele rosto lindo atrás de barbas estranhas. Outra época. Bill agradeceu a ela, ela agradeceu de volta, e prosseguiu.

Minha nossa, estava atrasado. Para onde o tem po foi? Era possível com prar m uitas coisas nessa cidade; talvez fosse possível com prar o tem po de volta ali, arriscando tudo o que se tem para recuperar aqueles 20 m inutos im portantes... Você podia se casar em 20 m inutos ali, e ficar arrependido pelos próxim os 20 anos. Ou nunca se arrepender. Ele se virou e correu, não m uito rápido, não queria ser pego pelo colarinho por roubar batatas fritas. Um segurança bloqueou sua passagem :

– Senhor? Posso aj udá-lo?

– Sim , desculpe. O show de Cassidy, estou atrasado. Vou encontrar m inha, m inhas am igas lá. É longe?

– Certo, o senhor vai passar pelo Kà.

– Passar pelo carro?

– Kà, senhor. Nossa fam osa apresentação do Cirque du Soleil, exclusiva para o MGM Grand.

– Ótim o, onde é o... carro? – Bill achava difícil falar em m om entos com o esse.

– Vire à esquerda depois daquelas portas, depois desça uns 100 m etros, passando o Kà, com o eu disse, e depois é só seguir as placas. Nosso cam inho autom ático o aj udará...

– Obrigadotchau – Bill agradeceu com um a única respiração, e decolou. Encontrou a entrada do show, m as lhe disseram para esperar até o próxim o intervalo entre as m úsicas. Depois do brilho ofuscante do andar dos j ogos e da luz perm anente do m eio-dia nos corredores do hotel, ali dentro parecia m eia-noite, e Bill ficou feliz com o resto, sem querer sair tateando pelo escuro com o se tivesse acabado de ficar cego. David estava no palco, debaixo de dois holofotes, com um a banda sem iescondida atrás dele. Ele estava cantando um a m úsica que Bill, intencionalm ente, não escutara nos últim os 24 anos:

“You don’t know how many times I wished that I could hold you. You don’t know how many times I wished that I could mould you…” (Você não sabe quantas vezes desej ei poder abraçá-la. Você não sabe quantas vezes desej ei poder m oldá-la...)

Nada m al. A voz estava em boa form a. Baixou um ou dois tons na m elodia, talvez, para não arriscar um esforço no pico de “hold y ou, m ould y ou”. Jam ais será a m elhor rim a do m undo: fazia com que as garotas parecessem vasos de barro. Bill olhou para a plateia de David. Quantos hom ens havia ali? Cerca de duas dúzias, entre centenas de m ulheres? Que bando era aquele que aterrissara em um a ilha habitada apenas por m ulheres? Em algum recanto escondido da m em ória de Bill, a palavra “Argonautas” irrom peu. Era isso: segundo a lenda grega, Jasão e seus com panheiros aportaram na ilha de Lem nos; superados em núm ero pelo sexo oposto e sem condições de ficar por ali, tiveram de seguir adiante. Havia um velo de ouro para encontrar... Quantos caras j á haviam acom panhado m ulheres para ver David Cassidy, durante todos esses anos, com a leve esperança de que um pouco daquele am or poderia sobrar para eles? Migalhas caídas da m esa do deus. Não há problem a algum em esperar por m igalhas, se você estiver fam into.

Onde ela estava? Ele não conseguia achar Petra. Petra e Sharon, m elhor dizendo. Elas deviam estar ali em algum lugar. Elas não se atrasariam com o ele, não depois de esperarem tanto tem po. Por fim , ele as viu ao lado de cinco senhoras grandes vestindo cam isetas verdes. Ele desceu alguns m etros pelo corredor lateral para conseguir um ângulo m elhor, assim poderia ver Petra de lado. Ela olhava fixam ente para o palco com um brilho nos olhos, as m ãos no colo, balançando sutilm ente. Ele não conseguia ver seus pés, m as im aginou que acom panhavam o ritm o da m úsica. Muito provavelm ente os de Sharon tam bém , m as ela estava inclinada para a frente, m etade dela para fora do assento, com as m ãos j untas no peito, com o um a m enina na sua prim eira com unhão. Tinha um sorriso de êxtase no rosto. Quando a m úsica term inou, as duas e o resto da m ultidão ficaram de pé, com o se m olas as tivessem im pulsionado para cim a – com as m ãos sobre a cabeça, um som indistinto de palm as por todo o auditório. O cantor as recebia bem , com um a gratidão espontânea, sem ansiedade; com o a expressão de David estava naquele exato m om ento? Era parecida com a de Sharon.

A funcionária do auditório fez um aceno de cabeça e Bill seguiu na direção do seu assento. Passou por aplausos, avançando com dificuldade pelo corredor, entre ondas de m ulheres apaixonadas; nenhum a delas olhava para ele ou sequer percebiam que ele estava passando; ainda assim , por um a fração de segundo, ele teve um a breve sensação de com o deveria ser – com o seria estar entre as pessoas m ais desej adas do m undo. As únicas pessoas que desprezam esse entusiasm o, ele achava, são as que j á o tiveram e o perderam , ou ficaram velhas dem ais e cansadas para apreciá-lo; ou ainda alm as tím idas que se encolhem com o pensam ento de serem conhecidas por m ais pessoas do que conhecem . Aqueles de quem você nunca ouviu falar eram os que estavam no centro dos aplausos, as que poderiam ter lhe dito, não com o olhar no passado ou com esperança, m as cara a cara, com os fãs indo à loucura: olhe para m im sendo am ado. Sej a honesto: diga que não gostaria de ter essa loucura direcionada a você.

Ele encontrou a fileira e foi avançando, passando pelas senhoras grandes, alinhadas com o garrafas verdes. “FÃ-CLUBE OFICIAL DE DAVID CASSIDY NA IRLANDA”, diziam as cam isetas.

– Com licença, com licença.

Petra ainda não o tinha visto, apesar de ele estar a poucos m etros de distância; o olhar dela ainda estava fixo no palco. As luzes foram acesas para os aplausos, m as agora dim inuíram m ais um a vez, enquanto a plateia voltava a se sentar, e Bill ficou confuso por um instante por causa da escuridão. Ele tropeçou nas pernas de alguém e com eçou a cam balear, tentando parar e se equilibrar, prestes a cair. A m ão de alguém pegou a sua com precisão e encaixe perfeitos, puxando-o para cim a, com o dançarinos puxam um ao outro para perto. Ele não caiu, apenas deslizou para seu assento, com um a coordenação que j am ais teve antes na vida. Petra sorriu para ele e não o soltou, m esm o j á estando a salvo em seu lugar.

– Obrigado – ele sussurrou.

Sharon inclinou-se para frente, cum prim entando-o com um aceno exagerado, com o se estivesse a 50 m etros de distância.

De cim a do palco, David se desculpava. Sabia que todos queriam as m úsicas de antes, m as, um a vez apenas, ele queria tentar algo m ais novo, um pouco m ais atual, um a m úsica que explicasse com o ele estava se sentindo agora, nesse m om ento fantástico de sua vida, com todas aquelas pessoas excelentes ao seu redor. As pessoas excelentes se deslocaram um pouco; era possível senti-las cheias de boa vontade (não tinha com o culpar o cara por querer se libertar um pouco do passado; vam os lhe dar um a chance, né?), m as tam bém cientes de que qualquer entusiasm o que tentassem m ostrar com essa m úsica desconhecida seria um pouco forçado – haveria reconhecim ento pelo esforço, não exatam ente vindo do coração. O ídolo no palco respirou e cantou suavem ente no m icrofone:

– How can I be sure...

Obviam ente, o lugar veio abaixo... As m ais antigas eram realmente as m elhores, essa era a questão! O passado nunca m orre! Não enquanto elas estiverem vivas. David, o David delas, estava dizendo isso para elas! Sharon estava trem endo, rindo, m as se alguém tivesse tirado um a foto dela naquele m om ento e a olhasse na m anhã seguinte, poderia j urar que ela estava chorando. Ela se virou para Petra e Bill, e gritou:

– Ah, ele é um m aldito sedutooooor, é isso o que ele é!

Petra riu de volta e gritou algo para Sharon que Bill não conseguiu escutar. Por fim o tum ulto acalm ou e a m úsica prosseguiu. Petra olhou para Bill e com eçou a cantar. Não era preciso forçar a m em ória para se lem brar da letra; as palavras eram derram adas por ela de onde ficaram guardadas por um quarto de século.

“Together we’ll see it much better.

I love you I love you forev-vah...”

(Juntos verem os tudo bem m elhor.

Eu te am o, eu te am o para sem pre...)

Bill indicou para o palco.

– Ele não sabe a letra.

– Eu sei a letra – ela disse. Sua m ão ainda estava na dele.

Estavam sentados em um banco, os três tom ando sorvete para aplacar o calor da noite. Bill pediu um m isto de chocolate e baunilha. Petra tom ou um de m orango com um a cobertura m arrom -alaranj ada, que não havia pedido e não conseguia identificar, m esm o depois de ter experim entado. Sharon tom ou um Atomic Test, um a especialidade da sorveteria que ela realm ente pedira; era preciso as duas m ãos para tom ar esse sorvete, pois vinha com casquinhas gêm eas e dois m ontes de sabor artificial, salpicados com m inúsculas bolinhas prateadas. Um a vela acesa de estrelinha acom panhava aquilo tudo, m as a vela j á se fora há tem pos. Agora ela estava sentada ali, segurando-o com firm eza, produzindo uns estalos estranhos.

– São balas explosivas – ela explicou para Bill. – E quando estiver quase term inando, você separa as duas casquinhas. Tem algo a ver com frisson, o m oço da sorveteria que disse.

– Fissão, eu acho. Fissão atôm ica. Havia testes por aqui antigam ente.

– Do quê, de sorvetes?

– Bom bas atôm icas.

– É a m esm a coisa, Bill bach, aqui do m eu lugar.

Por um m inuto eles ficaram em silêncio, felizes apenas com os sorvetes e as casquinhas. As ruas estavam superlotadas. Algum as pessoas estavam com crianças, m esm o j á sendo 22:50, e nenhum a criança pudesse chegar perto dos cassinos.

– É com o a Oxford Street – Petra com entou. – Durante o período de liquidações.

– Sim , m as da últim a vez em que estive lá – Bill disse –, a Oxford Street não tinha um vulcão ativo. Sem pre achei que faltava algum a coisa.

– Então onde está o vulcão? – Sharon perguntou, falando de boca cheia.

– Bom , estam os do lado de fora do Caesar Palace, dá para ver pelos j ardins com irrigação na frente. E o vulcão está no Mirage, acho, então deve estar em algum lugar... ali. – Bill apontou. – Fique por aqui e espere pelos filetes de vapor. Eles com eçam a sair quando ela está perto de explodir.

– Não fale assim da m inha am iga – Sharon disse.

– E não ligue para a minha am iga – Petra brincou. – Ela não consegue evitar, pobre criatura. Confinada em um a cidade pequena do País de Gales por décadas. Ficam doidinhas quando saem de lá. – Ela lam beu seus dedos cor-de-rosa. – É cham ar encrenca trazê-la para um lugar com o este.

– Sai dessa, estou querendo ficar por aqui – Sharon anunciou. – Vi um anúncio no folheto do program a do show de David. Dizia que você pode fazer um treinam ento para distribuir cartas em j ogos, o treinam ento tem a duração de um m ês, e depois você com eça. A grana é boa, pode crer. Ou posso tam bém servir bebidas no hotel. E ainda usar aquela roupa de deusa rom ana, vej a só, com m eus peitos em um a arm adura.

– Você acha que eles estão procurando por galesas loiras e baixinhas de 38 anos? – perguntou Petra.

– Trinta e sete, se não se im porta – Sharon retrucou. – Até a próxim a sexta-feira.

– O que vocês vão fazer no seu aniversário?

– Risólis, batatinhas, e escolho um film e na Blockbuster.

– Mal vai levá-la para j antar em algum lugar legal, não vai?

– Que nada, estam os econom izando uns trocados – disse Sharon. – David precisa de um a bicicleta nova.

Ela parecia ser capaz de trafegar de um lado para outro, pensou Bill, entre sua vida e suas fantasias, sem m udar de m archa, sem se importar dem ais. Se m ais pessoas no m undo fossem com o Sharon...

– E então, quando você se tornar um a gladiadora rom ana garçonete de bebidas – Bill perguntou –, o que seu m arido fará? Mal, não é? E seus m eninos?

– Ah, eles vão ficar bem . Você sabe com o os m eninos são. Contanto que lavem suas m eias e penteiem os cabelos. – Isso parecia resolver a questão. Bill sabia que Sharon preferiria m orrer 100 vezes a deixar sua fam ília, m as ela não precisava dizer isso.

– Então, chefe – ela quis saber –, o que você achou?

– De que parte?

– Do show.

– Ah, gostei m uito. Muito profissional. Um a boa plateia. Só um a coisa realm ente m e deixou com a pulga atrás da orelha.

– O quê? – Petra perguntou.

Bill ficou em silêncio.

– Não sei com o colocar isso... – Ele levantou o olhar para elas e franziu a testa. – Qual deles era David Cassidy ?

– Ah, para com isso – Sharon disse, em purrando-o para fora do banco.

 

– Está m uito cansado do voo? – Petra perguntou a Bill.

– Não consigo sentir nada abaixo dos j oelhos, e acho que m inha cabeça pode estar virada para o lado errado, m as, tirando isso, tudo bem . E você?

– Não sei, é estranho. Não sei se durm o ou se vou tom ar o café da m anhã.

– Não sej a burra – Sharon disse. – Vam os nessa, garota. A cidade nunca dorm e e tudo m ais.

– Isso é em Nova York – Bill disse.

– Bom , isso aqui é tudo Estados Unidos, não é?

Era tudo Estados Unidos. Depois da insistência de Sharon, cam inharam até o Harra’s Hotel e ficaram assistindo aos barm en preparando os drinques.

– São com o m alabaristas, olhem só para isso. – Sharon tentou encoraj á-los. Ela lera o guia de viagem de Petra e tentou resum ir suas descobertas: – Eles sacodem os coquetéis, m as com aquelas coisas pegando fogo, passando por cim a de suas cabeças.

Até que a descrição não fora ruim . Bill ficou de pé observando o m alabarism o e se pegou pensando no Dog & Cart, em Turnham Green. Ali, anos antes, depois que o Spirit Level tocou não tão m al, ele tentou oferecer um m artíni para um a m enina cham ada Serena Tom bs, a garota m ais sofisticada que ele conheceu. O velho barm an, zangado, ficou olhando para Bill por m uito tem po e, então, cuspiu nele. Agora ele estava ali, no deserto, e os barm en estavam em cham as.

– Outro m undo – ele disse.

– Com o? – Petra estava de pé ao seu lado.

– Só estou pensando. Desculpe.

– Não consigo ouvi-lo.

A m úsica e os gritos os encurralavam . Um a trem enda algazarra, com o diriam os pais de Bill. Não dá nem para ouvir seus pensam entos. Era assim que ele pensava tam bém , hoj e, para seu constrangim ento; será que a m eia-idade se reduzia a isso – um pedido irritado por paz? Ali na frente dos dois, am ericanos com m etade da idade deles dançavam com um contorcionism o superaquecido, com o bactérias sob um m icroscópio.

– Vam os sair daqui? – ele sugeriu a Petra. Bill tinha que se inclinar para ser ouvido, e sua boca quase encostava na orelha dela. Ele a sentia perto do seu rosto. Ela cheirava a laranj as.

Petra concordou.

– Vou avisar Sha. – Ela se inclinou para perto do ouvido da am iga e falou com ela, apontando para fora; Sharon assentiu com a cabeça. Pelo m enos foi o que pareceu, pois ela tam bém estava pulando, com o se estivesse em um tram polim invisível.

Eles ficaram na calçada, do lado de fora do Harra’s. O ar estava quente e pesado, com o se estivessem dentro de um a lavanderia, m as ainda assim parecia refrescante se com parado com o bar pegando fogo. Aquilo era com o estar em cim a de um a churrasqueira.

– Não podem os sair daqui. Ela vai entrar em pânico.

– Com certeza. Só Deus sabe onde ela iria parar se não estivéssem os aqui.

– Ah, ela ficaria bem . Provavelm ente se divertiria m ais, sem os velhos aqui.

– Fale por você – Petra disse.

– Contanto que ela não descubra aquele escorregador que passa direto por um a piscina com tubarões.

– Meu Deus! Mas ela não trouxe roupa de banho – Petra disse.

– Se ela decidir que não se im porta em não ter m aiô, então nossos problem as vão com eçar de verdade.

– Os am ericanos são pessoas m uito educadas e que não suportam vulgaridade – Petra afirm ou. Ela j am ais pensaria que acabaria citando um a frase de sua m ãe, m uito m enos que concordaria com ela.

Eles se sentaram em frente ao Mirage. A cidade parecia oscilar dentro da cabeça de Petra. Droga de j et lag.

– Algum a coisa que você queira fazer? – ela perguntou.

– Muitas.

– Quis dizer aqui.

– Eu tam bém .

Petra tirou um a garrafa de água da bolsa, bebeu um pouco, lim pou a garrafa em sua cam isa e ofereceu a Bill. Ele a pegou e bebeu.

– É trágico, m as na verdade eu queria m uito ir a um lugar cham ado Auto Collections.

– Para alugar um carro? No m eio da noite?

– Não, para olhar os carros. São carros m uito antigos. Ouvi dizer que é a m elhor coleção dos Estados Unidos. É um a fraqueza m inha, m as em se tratando de fraquezas, até que não é das piores, pois nunca pude com prar nenhum desses carros.

– Mas você é um cara im portante.

– Nem tanto. Não sou dono da em presa, apenas toco o negócio. Não quero dirigir um Lam borghini Espada ou nenhum desses; na verdade, só gosto de adm irá-los. Quando eu era pequeno, queria dirigir um carro desses m ais do que tudo na vida. Levou algum tem po para perceber que o que im portava não era dirigir – não com todos aqueles idiotas nas ruas –, era o querer.

– Com o eu e David.

– Ah, m inha cara leitora, isso não é j usto. Você realm ente acreditava que ele era seu. Quer dizer, que ele estava no seu destino. Foi por isso que ficou tão zangada com igo ontem , no aeroporto. Porque parte dele não era ele.

– Sinto m uito por isso. Eu fui um a idiota.

Bill sorriu e olhou para ela. Algum a coisa balançou dentro dele. Ele decidiu não analisar o sentim ento, pelo m enos dessa vez, m as se deixar levar por ele.

– O que você achou dele, falando sério? – ela perguntou depois de algum tem po.

– Sinceram ente?

– Ahã.

– Para ser sincero, eu fiquei pensando... – Ele fez um a pausa. – Fiquei m e perguntando o que você estava achando. Dele.

Agora foi a vez de Petra sorrir.

– Bem , obviam ente eu estava apreensiva. Não pude evitar ficar preocupada por ele. Não queria que todas aquelas m ulheres o vissem e ficassem desapontadas. Eu estava com pena dele, sabe. Então ele entrou e com eçou a cantar, antes de você aparecer, e tudo m eio que se encaixou. Com o posso...

– Ter certeza?

– Não, é que ele... era ele e não era. A voz estava ali, m esm o ele estando m ais velho, a voz ainda é fantástica. Aquele sorriso lindo. Mas a aura, ou sei lá com o se cham a, não estava m ais lá.

– Mas era você quem criava aquela aura, e não ele – Bill afirm ou. – Era um a coisa sua, nos idos de 1974. Eu plagiava um a versão na revista, m as você fez algo real. Contava a história para si m esm a sobre um garoto que todas am avam , e fez isso de m aneira brilhante, de todo o coração, não se im portando se um dia se tornaria realidade. Tudo aquilo parecia verdade. – Bill tom ou um gole da água e passou a garrafa para ela. Ela tom ou um longo gole. – Desculpe, estou colocando de um m odo ruim – Bill prosseguiu.

– Não, eu nunca conseguiria colocar de um j eito m elhor – disse Petra. – É por isso que quando vi David hoj e não senti vontade de sum ir, não m e senti ridícula ou desapontada. Gostei de verdade de ouvir as m úsicas de novo, e David parecia bonito, sabe, equilibrado, considerando...

– Foi o que pensei.

– ... m as disse a m im m esm a: é isso aí, j ovem Petra, a história acabou, garota. E o m ais engraçado é que eu não m e im portei.

– E que história interessante essa.

– Sim . – Petra repetiu a frase, ouvindo o eco longínquo de um a canção que seu pai cantou durante tantos anos. – É de um a m úsica do Sinatra.

– Ah. Agora sim, desculpe, esse é um cantor de verdade. Foi por ele que vim até Las Vegas.

– Ele não está aqui?

– Infelizm ente não. Está m ais ou m enos vivo, m as não aqui. Im agine ter vindo aqui quando ele esteve. Você poderia ter se vestido com o Ava Gardner.

– A versão galesa com um vestido de liquidação.

– Nada disso. Seria exatam ente com o ela.

– E com o você teria vindo?

– Eu seria um crim inoso de um a gangue m alsucedida. Com um a arm a na cintura. Perderia todo o m eu dinheiro em questão de m inutos.

– Não seria o chefe?

– Não seria o chefe.

Petra olhou em volta, para a porta do Harra’s.

– Falando em perder dinheiro, onde está Sha?

– Quer que eu vá procurá-la?

– Não, podem os nos separar e será um desastre. Vam os esperar m ais alguns m inutos e depois voltam os para dentro j untos.

– Eles têm um bar com um caraoquê lá dentro, sabia?

– Céus!

– Provavelm ente ela está cantando “I Am a Clown” nesse m om ento.

– Com m aquiagem de palhaço. Se algum a am iga m inha consegue um nariz verm elho de palhaço, à m eia-noite, em um país estrangeiro, é ela.

– É m eia-noite? Que horas deve ser na Inglaterra agora?

Petra olhou para seu relógio.

– Sete da m anhã.

– Isso significa que estou acordado há exatam ente 24 horas. Acho que preciso ir para a cam a.

– Acho que sim .

Houve um a pausa. Bill, com o sem pre fazia quando ficava desconcertado, procurou refúgio brincando de ser form al:

– Sendo assim , m inha cara, obrigado pela adorável noite.

Ele fez um a m esura de cavalheiro.

– Senhor, foi um a grande honra.

Bill olhou para ela e disse:

– Voltando ao hotel, quando você o estava vendo. David. Quando você disse aquilo sobre ser ele e não ser ele...

– Desculpe, soa ridículo...

– Não, faz todo sentido. Da sua m aneira ridícula.

Ela riu.

– O que eu quero saber é – ele continuou –, foi o m esm o com você? Você se sentiu com o Petra Um e Petra Dois, antes e depois? O que aqueles gritos de adolescente têm a dizer para essa m usicoterapeuta fascinante, perfeita, adulta, com um pouco de sorvete de m orango na bochecha?

Petra levou a m ão ao rosto.

Bill perguntou:

– E então, para quem estou olhando agora: você ou não?

Petra, pela prim eira vez na vida, não teve dúvida.

– Para m im , com certeza – ela respondeu. – Só para um a de m im .

Bill se inclinou na direção dela. Ela inspirou e fechou os olhos.

Houve um som estrondoso. Um rugido percorreu a avenida principal de Los Angeles.

– Ah, não acredito – disse Bill, e apoiou a cabeça no om bro dela. Do outro lado, o vulcão explodira do lado de fora do hotel Mirage. Fum aça e fogos irrom piam da cratera. Um a falsa lava desceu pelas laterais.

Bill e Petra se inclinaram um contra o outro e riram , esperando não parar nunca m ais.

– Caraca! – Era Sharon, que saiu com o um roj ão das portas do Harra’s. Ela carregava um buquê de flores em um a das m ãos e um a ficha de pôquer na outra. – Fogos!