Eu Acho que Amo Você
Capítulo 14
14
– É, então, qual a pior opção possível? Ou você se encontrará com o cara que venerava e adorava, ou ele será tipo um Liberace, aquele pianista e apresentador de TV, só que chapado.
Carrie pesca os saquinhos de chá das canecas e os deixa cair dentro da pia.
– Quer leite?
– E açúcar, por favor.
– Leite no chá até posso suportar. Açúcar é contra m inha religião, sou de San Francisco – Carrie diz, pegando a caixa de chá que está encharcada por ter ficado tanto tem po no escorredor de pratos. – Um a pedra ou duas de diabetes tipo 2?
Petra não responde. É o com eço de um a sem ana de trabalho e ela está brincando com seu arco. Pega um pouco de resina e passa o arco por ela, sacudindo um pouco no início e no final. Puxa o violoncelo para si e produz o som m ais alto que consegue. Ultim am ente, por algum m otivo, com eçou a tocar alguns com passos de Led Zeppelin para aquecer. Quando estava no sexto ano da escola, Led Zeppelin era o que todos os garotos que não sabiam tocar guitarra tocavam na guitarra. Não fica tão bem no violoncelo, m as ela acha a explosão de agressão estranham ente tranquilizante.
A chuva está batendo em ritm o furioso nas j anelas do m eio. Do lado de dentro, elas se sentem tão esprem idas com o se estivessem na cabine de um barco m inúsculo ilum inado por lam parinas a óleo. Quanto m ais severas forem as condições lá fora, m ais profundo é o contentam ento delas. Carrie e Petra têm m uitas indicações de clientes dos hospitais locais e dos serviços sociais; crianças vindas de lares onde a brutalidade é inacreditável e que com frequência têm um a resposta furiosa à terapia, pelo m enos no início.
– Cala a boca, m ulher – um garoto lhe disse várias vezes.
Karl, com um corpo grande dem ais para a sua idade, estraçalhou um núm ero im pressionante de instrum entos de percussão, incluindo um a bateria que, literalm ente, deveria ser indestrutível. Casos assim não a chocavam m ais. Se você nunca soube o que é ter harm onia em sua curta vida, e se seus dias não têm nenhum ritm o porque seus pais viciados em drogas têm os horários m ais estranhos, por que não destruir um a bateria? Muitas das crianças que Petra aj uda têm dificuldades severas de aprendizagem .
– Os seus doidos. – Era assim que Marcus os cham ava. – Pelo am or de Deus, Petra, por que você está desperdiçando seu talento com esses loucos?
Deixe-m e entrar, deixe-m e entrar, a chuva bate com irritação na j anela. A sala dos funcionários dava para um pequeno parque, um tapete de gram a para um piquenique, que na realidade servia com o banheiro para os cachorros da vizinhança. Quando as pessoas em Londres falam sobre espaços verdes, Petra tem vontade de rir. Se você é do País de Gales, a gram a do vizinho inglês nunca é m ais verdinha; é sem pre am arela ou m arrom , da cor de m erda. Conform e vai ficando m ais velha, Petra acha que sofre cada vez m ais de hiraeth, um a palavra que poderia ser traduzida com o saudades de casa. Ela j á viveu m ais tem po em Londres do que no País de Gales, m ais da m etade de sua vida; contudo, um a parte teim osa dela a im pede de considerar Londres com o sua casa. A hiraeth parece ser um m úsculo a m ais do coração que se contrai de dor sem pre que pensa nas colinas e na chuva caindo com o um a cortina sobre o m ar.
Deveria ser verão, m as o Sul da Inglaterra tem sido castigado por inundações incom uns. Em Londres tem chovido tanto que você só nota o dilúvio nas raras ocasiões em que ele para. O Parque de Cocô de Cachorro se tornou um lago de lam a.
Carrie passa para Petra sua caneca de chá e um pacote de biscoitos com recheio de figo, que se tornou um a piada secreta entre as duas m ulheres e seu vício público. Petra pega dois e quebra um na m etade antes de m order o recheio de figo.
– Ei, desde que voltou do País de Gales você vem ingerindo doce à beça?
A fala pausada de Carrie sobe rapidam ente no fim de cada frase, transform ando toda afirm ação em pergunta. É um a entonação que a galesa e a californiana têm em com um .
– Estresse – Petra responde com displicência. – Morte, divórcio, e qual é a terceira coisa que consideram com o sendo um a das m ais estressantes da vida?
– David? – pergunta Carrie.
– Você está com invej a!
– Invej a? Por você ir para Las Vegas conhecer David Cassidy? – Carrie sacode a cabeça grisalha e seus brincos de argola balançam com um a j ovialidade prateada. – Para com isso, eu não daria a David nem um a lam bida do m eu sorvete. Eu era louca pelo Bobby Sherm an.
– Quem é Bobby Sherm an?
– Ah! Ele era só o m ais fofo, com o sorriso m ais sensacional e o m ais sexy que j á existiu na face da Terra, só isso.
– Bobby Sherman? – Petra pronuncia o nom e com a condescendência que o crente fiel reserva para qualquer ídolo adolescente que não sej a o dele próprio. – Quantos fãs ele tinha na época?
– Só 30 m ilhões, m ais eu e a Marge Sim pson – diz Carrie.
Petra coloca seu arco de lado e checa o relógio. Está quase no horário da sua próxim a sessão. Ela precisa ir ao banheiro prim eiro; nunca se deve sair de um a aula no m eio, quebra o encanto.
– Marge Sim pson era apaixonada por Bobby Sherm an? Pensei que ela fosse um personagem de desenho anim ado.
– Todos eles são personagens de desenho anim ado, Petra querida, esse é o ponto. Bobby era m inha terapia de bolso, com o David era a sua.
– Bolso o quê?
Antes de se especializar em m usicoterapia e vir com Don, seu m arido, para a Inglaterra, prim eiro para Oxford e depois para Londres, Carrie estudou para ser analista j ungiana. Em geral, ela fala o inglês norm al, m as às vezes deixa escapar um dos seus term os psicanalíticos na conversa. Petra observa sua am iga com carinho. Percebe que Carrie está para com eçar um a daquelas explicações m elodiosas que saem de seus lábios com o um a cachoeira. Alta, m agra e atlética, Carrie parece ter nascido com um bronzeado dourado e tênis para cam inhada. Com olhos azuis e sardas da cor de canela no nariz e nas bochechas, Carrie poderia ser irm ã de Robert Redford. Abençoada com um a espessa cabeleira grisalha que de algum m odo parece chique, em vez de deixá-la m ais velha, ela parece não envelhecer e possui um a calm a invej ável. Nos fins de sem ana, adora escalar penhascos, e tam bém é ágil para encontrar a força m ental necessária para conduzir as pessoas por um cam inho difícil. Carrie tem duas filhas crescidas, um a é m édica residente e a outra está em perm anente ano sabático. Carrie tem sido um a luz para Petra em sua tentativa de navegar entre as tem pestades da adolescência de Molly. As m eninas com eçam cedo hoj e em dia. Ela sabe que estaria perdida sem as certezas relaxadas da am iga m ais velha de que as fases am argas e os silêncios selvagens são igualm ente e com pletam ente norm ais. Ultim am ente, um a ou duas vezes Molly fez Petra chorar.
– O que você esperava? Ela é adolescente. Faça o teste na prática sobre a teoria de que o am or m aterno consegue aguentar qualquer m erda.
Petra invej a Carrie; ou m elhor, ela desej a ser a am iga, saber com o é viver em um corpo e m ente com aquela certeza e verdade. Com parada a Carrie, Petra sente que ainda é um a aprendiz em ocional. A m orte de sua m ãe foi um choque enorm e. Não pelo fato de Greta m orrer. Ficou óbvio durante m eses que nem m esm o sua m ãe poderia encarar o câncer, que m igrou, sem perdão, de um órgão para outro com o um exército avançando. Não, foi o fato de que Petra não esperava se sentir órfã. Não com 38 anos de idade. Ainda assim , é com o ela se sente. A tristeza por seu pai ressurgiu da sepultura que ele agora divide com sua m ãe. Ela tenta se contentar com o fato de nenhum de seus pais terem vivido para ver o rom pim ento de seu casam ento. Desde que Marcus foi em bora, Petra gosta de se sentar perto de Carrie na sala dos professores, do m esm o m odo que os anim ais se deitam um ao lado do outro no estábulo.
– Terapia de bolso – Carrie elabora. – É aquele lugar onde você coloca todas as suas necessidades e desej os.
Petra franze as sobrancelhas.
– Isso não se cham a am or?
– Não, isso é pura fantasia. Muito com um , m as tam bém é incorrigível e inapropriado.
– Para m im , parece ser am or – Petra insiste, pegando seu violoncelo e o m anej ando dentro do estoj o. – Incorrigível e inapropriada no am or. Eu m e graduei nisso.
Na porta, ela se lem bra de algo e volta-se para Carrie, que está ocupada polindo um a xícara com um a escova.
– Por que você teve de dizer aquilo sobre Liberace? Você sabe que só vou conseguir pensar nisso quando for ver David. Você deveria m e apoiar. Com o am iga.
– Com o am iga – Carrie diz –, não estou aqui para fazer com que se sinta m elhor. Estou aqui para sentir invej a, com petir e sutilm ente enfraquecê-la enquanto finj o ser solidária.
– Ah, obrigada. Sua, sua... – Petra gaguej a – sua terapeuta – ela finalm ente deixa sair. A risada faz com que se sinta m elhor. Seu om bro tem doído ultim am ente e ela se contrai quando ergue o violoncelo para passar pela entrada.
Sua sala de trabalho fica duas portas adiante no corredor. É vazia e tranquila, com um piso de m adeira clara, barulhento, e j anelas arredondadas no teto. Depois de retirar os instrum entos da parede e colocá-los sobre a m esa ao centro, Petra se senta ao teclado e com eça a tocar alguns acordes. No telhado reto em cim a dela, a chuva produz um chiado com o o dos instrum entos de percussão; parece m ais a estática no rádio do que água. Por que a chuva é tão reconfortante quando você está infeliz e tão irritante quando está feliz?
Conform e seus dedos caem sobre as teclas para form ar os acordes em m eio à estática, a voz de um a m ulher chega até Petra, um a das vozes m ais bonitas que j á ouvira. Não é preciso nenhum esforço para recordar a m úsica que a m ulher está cantando, nenhum m esm o. Petra cantarola a introdução e ouve a m ulher chegar a um im possível Si Bem ol grave, um a nota para os hom ens, com toda certeza. As m ulheres não são capazes de cantar graves tão bem assim :
– Talking to myself and feeling old.
Ela e Sharon costum avam cantar essa canção dos Carpenter j untas. As duas aprenderam a letra dessa m úsica ainda m uito novas, praticam ente bebês. Não tinham com o saber. Com o poderiam ? O que as m eninas de 13 anos sabem sobre se sentir velha?
“Rainy Day s and Monday s.” Deleitando-se com a tristeza da canção, Petra se surpreende lançando-se com entusiasm o repentino ao solo do saxofone. Aquele disparo de m etal em m eio a um a m elodia tão m elancólica não deveria funcionar, m as de algum m odo dá certo. Respeitosam ente, ela tira seu chapéu m usical para Richard Carpenter. Ela se lem bra tão bem da capa m arrom chocolate do álbum e as letras em estilo rococó. Será que eram m esm o de ouro? Ela aprendeu bem depois, durante a faculdade, que os Carpenters eram considerados brega, um gosto duvidoso para você guardar para si, m as suas m elodias sobreviveram a quase todos os contem porâneos considerados m elhores. As harm onias eram bem m ais com plexas, com letras que pareciam brotar naturalm ente da m elodia.
Ela e Sharon adoravam cantar “Close to You”. Petra pegava o tom e Sha fazia todas as partes do waaaa-aah-ahhh.
Karen Carpenter perdeu a vida para a anorexia com ... o quê, 32 anos? Que desperdício. Petra vê aquele rosto bonito em oldurado por cachos castanhos radiantes. Os críticos diziam que o rosto de Karen era de querubim , então a pobre coitada resolveu passar fom e. Suas bochechas eram apenas saudáveis, só isso. A voz de Karen fluía sem esforço pelas notas, não se percebia a m udança de m archa. Sua voz ia do grave ao agudo com o se viaj asse pelo m eio líquido, e não pelo ar. Quem m ais poderia fazer isso? Ella Fitzgerald, Barbra Streisand. Não m uitas cantoras pop, com certeza.
Ela desej ara m uito um vestido que viu Karen Carpenter usando na revista Jackie. Petra se lem bra dele agora, m elhor até do que da m aioria das roupas que ela própria teve. Era longo, esvoaçante, de gaze de algodão na cor areia. Era o vestido que as irm ãs da série de TV Os Pioneiros usavam nas cenas em que estavam sonhando. Katharine Ross não usava o m esm o vestido na bicicleta, com Paul Newm an, em Butch Cassidy?
Usando um chapéu-coco. Paul Newm an, não Katharine Ross. Agora ela está confusa. A m em ória faz dessas coisas com a gente. Ela não tem m ais certeza se está lem brando das coisas com o eram ou com o gostaria que fossem .
Ela precisa contar a Carrie; é quase certo que ela irá detectar algum significado oculto naquele vestido longo cor de areia, com um traço de castidade nupcial. Quando se conheceram , Petra ficara silenciosam ente atem orizada com o hábito am ericano de tratá-la com o um quebra-cabeça que precisava ser resolvido. Ela era galesa dem ais para se sentir totalm ente à vontade com a m aneira com o Carrie exam inava m eticulosam ente até os m ínim os detalhes de sua vida, procurando pistas. As dores de cabeça de Petra eram sim plesm ente enxaquecas, pelo am or de Deus, e não sinal de um a incapacidade paralisante de ser assertiva em seu casam ento, com o Carrie sugerira. Certo dia, durante o alm oço na lanchonete do trabalho, Petra m encionou um a carta de agradecim ento que sua m ãe m andara naquela m anhã. Vindo de Greta, estava m ais para um a carta dizendo “não, obrigada”. Só m esm o sua m ãe conseguia expressar gratidão soando não estar nem um pouco agradecida. Lendo a carta pela segunda vez, Petra sentiu suas pequenas reservas de confiança sendo esvaziadas, com o se houvesse um pequeno furo em sua alm a.
– Bom , o que você esperava? Sua m ãe é terrível – Carrie disse suavem ente, espetando um pepino com o palito.
Foi com o um tiro sendo disparado. O volum e do m undo m udou. O garfo que um a m ulher pousou na m esa ao lado reverberou com o a seção de tím panos de um a orquestra.
Quem ousou cham ar sua m ãe de terrível? Nunca lhe ocorrera que ela, Petra, podia j ulgar Greta. Era Greta quem j ulgava Petra e a achava carente, e não o contrário.
– O que você acha? Que precisa ser a m enina boazinha para sem pre? – Carrie questionou enquanto pagava a conta. Ela dava gorj etas tão generosas que os garçons a olhavam desconfiados. Petra não respondeu. Por alguns segundos, não m ais que isso, ela perm itiu que a sugestão de Carrie se acom odasse em seu cérebro, e depois a baniu, com o um lim pador de para-brisa lim pando o vidro do carro.
Petra vira Karen Carpenter som ente um a vez em um program a de entrevistas; deve ter sido poucos m eses antes de ela m orrer. A cantora riu da pergunta sobre sua perda de peso. Negou com charm e, com aquele seu sorriso de “a m ais sim pática da escola”. Depois da entrevista, ela atravessou o estúdio e cantou. Mesm o estando com o corpo frágil e os braços que m ais pareciam galhos finos, sua voz era com o leite sendo derram ado de um a j arra. Sua voz não sabia que estava habitando o corpo de um a criança fam inta, e talvez Karen Carpenter não soubesse tam bém . Algum as coisas sobre nós m esm os não conseguim os saber até que sej a tarde dem ais.
Petra pega o m etalofone. Com seu som m etálico e invernal, é o instrum ento predileto de Sam . Com as baquetas, ele toca a m úsica que sem pre adotam com o cum prim ento na chegada.
Sam j á deveria ter chegado. O garoto tem problem as com relação a pisar em poças ou em rachaduras no chão; suas pernas ficam rígidas e ele as levanta bem alto, com o os soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Petra suspira. Sua m ãe deve estar tendo um trabalho dos diabos para trazê-lo nessa chuva.
Há tantos tem ores depois de colocar um a criança no m undo. Toda noite Petra dá um beij o em Molly quando ela j á está dorm indo e sente um a enorm e gratidão e alívio por sua bebê ter sobrevivido. A anorexia, que m atou Karen Carpenter, é o m aior m edo com relação a Molly. Petra não se lem bra disso ser grande coisa quando estava na escola. Agora, a m agreza extrem a se tornou m ais um a m aneira de com petirem um as com as outras. Pode apostar que, se pudessem , as garotas entrariam em um concurso para se fazerem sum ir. Ela não quer que Molly desperdice sua vida odiando seu corpo. Muita energia fem inina é colocada em ser m enor, em vez de m aior e m ais coraj osas. Petra desliga o teclado e m assageia seu om bro inchado. Ela sem pre foi cruelm ente rigorosa com relação ao seu corpo, m esm o quando não havia defeito nenhum para ser encontrado. Agora que há m uito com o que se desesperar, Petra relem bra com sincero assom bro a garota que se escondia debaixo de m alhas de lã longas e folgadas, até m esm o quando os term ôm etros no verão m arcavam 26ºC, pois achava que suas coxas eram gordas. Que droga, por que ela não andava pela rua acenando com um a placa, inform ando: “TENHO UMA CINTURA DE 60 CENTÍMETROS”? Era o que deveria ter feito.
Ouve-se o som de duas m ãos espancando a porta e o latido anim ado do cachorrinho de Sam . Petra se vira para dar as boas-vindas ao seu cliente.
Ela quase não tem lem brança de ter ligado para a revista. É um pequeno consolo em um m ar de constrangim entos. Culpar o álcool poderia ser sua m elhor opção, m as eram apenas 8h da m anhã quando ela fez a ligação. As coisas tinham ficado bastante ruins para Petra ultim am ente, principalm ente no terrível horário das 3h da m adrugada, quando ela desperta e encontra todos os seus m edos reunidos ao pé da cam a, oferecendo-se para passar um trailer dos desastres que estão para acontecer. Talvez ela perca a casa. Talvez Molly adore a nova nam orada do pai e ache a casa flutuante um lugar m ais legal para ficar do que a casa com aquecim ento central de sua m ãe, no subúrbio. Ela sabe que Marcus, alegando estar quebrado dem ais para pagar sua pensão, de algum m odo consegue dinheiro para pagar m im os luxuosos para Molly . O m ilkshake e bolo que pai e filha apreciaram na luxuosa loj a Fortnum & Mason durante um feriado deve custar cerca de um terço de seu orçam ento sem anal com alim entação; esse pensam ento provoca a m esm a sensação de ter um dente quebrado. O m esm o acontece com o fato de que, com o Mol deixou escapar, Marcus a faz j urar segredo, fazendo de Molly sua alegre coconspiradora contra a m ãe m alvada e avarenta. Apesar disso, Petra não tem desculpas para ligar para um lugar que não existe às 8h da m anhã com o um a m aluca.
Dizer que foi um a atitude nem um pouco característica dela não explica bem a m udança de personalidade necessária para que Petra conseguisse ligar para a editora. Pelo com putador, ela descobriu que, no final da década de 1980, a Nightingale com prou a editora Worldwind, que, quase um quarto de século atrás, declarou-a vencedora do Superteste sobre David Cassidy .
“Quantos anos você disse que tem ?”, a m oça da editora perguntara.
Ela disse ser a editora de um a revista – Teenworld? – e fora educada, m ais do que educada, na realidade, m as Petra pôde perceber o tom extrem am ente paciente com que falava, com o se estivesse abordando alguém velha dem ais ou nova dem ais, provavelm ente pensando que Petra fosse um a lunática passando o tem po. Um a visão com a qual Petra teve considerável solidariedade. Ainda assim , teim osa com o um a criança, ela bateu o pé. “Eu venci”, explicou.
Quando adolescente, ela não foi capaz de ver as coisas distantes. Recentem ente, as coisas m uito próxim as tam bém com eçaram a se transform ar em um borrão. Os óculos perderam o estigm a dos quatro olhos que tiveram quando era criança. Molly alega que óculos são sexy, chegam a ser m aneiros. Petra não consegue acom panhar o que está na m oda. No entanto, ela vem de um a geração que não consegue se livrar da im pressão de que os óculos deixam as pessoas m enos atraentes. Os óculos de leitura, m esm o com um a arm ação escura delicada que Carrie j ura que faz Petra ficar parecida com Ali McGraw em Love Story – Uma história de amor, são a evidência indesej ável de que o corpo está trabalhando para traí-la. Sendo bem honesta, existe tam bém um a pequena preocupação com relação a um a vida que não entrou no foco, e talvez nunca entre.
– O que aconteceu com ela, então? – Sharon questionou sobre a m enina dos velhos tem pos quando elas se falaram depois do enterro de sua m ãe.
O que aconteceu com igo?, Petra pensou, m as não disse nada. Ela tem pensado m uito nisso ultim am ente. Petra William s, que diabos aconteceu com ela?
A sensação que tinha era de que a infância duraria para sem pre. Um dia de descanso era com o um m ês repleto de dom ingos. Quando saiu de casa para estudar m úsica em Londres, com eçou a tom ar suas decisões, casou-se com Marcus, as coisas aceleraram . Os anos se passaram com o água através de seus dedos, principalm ente depois de ter um a filha e com eçar a viver para outra pessoa. Naquele tem po, outro Natal parecia chegar quando ela acabava de guardar a decoração do ano anterior no sótão. Seu pai m orreu aos 64 anos; ela j á havia passado da m etade dessa idade e m al com eçara a viver. Se ela e Sharon tivessem feito aquela viagem para Los Angeles, em 1974, e conhecido David, a vida poderia ter tom ado um rum o diferente. Havia outra pessoa por aí a quem ela estava destinada, e j am ais conheceu essa pessoa porque sua m ãe não lhe entregou o envelope rosa. Então Petra engoliu seu orgulho, ligou para a revista e educadam ente pediu seu prêm io.
Agora ela fecha as m ãos em punhos sobre os olhos, até que a tela escura da visão se encha de estrelinhas. Petra j á fez m uitas coisas em baraçosas antes, m as nunca tinha feito um papel ridículo assim . Seus sonhos de escape, e houve m uitos, ficaram trancados a sete chaves dentro da sua cabeça. Ela j á fora ao cinem a e vira hom ens na tela pelos quais se apaixonou, e, algum as vezes, levou esses hom ens para sua cam a. Era um consolo tão grande, quando seus problem as só aum entavam , ser capaz de largá-los todos nos braços de Jeff Bridges.
– Ei, não se preocupe, am or – Jeff diria com um m ovim ento daquela cabeça leonina para depois m andar seus problem as em bora com um beij o. Mas os Jeffs eram ilusões criadas pelo desej o. Você não iria querer realm ente que Jeff Bridges a acom panhasse ao superm ercado para escolher frutas e verduras, não é?
Agora ela iria conhecer David Cassidy, a ilusão das ilusões, repentinam ente transform ado em carne e osso, anos depois de ter aberto m ão desse fantasm a. Carrie disse que a m orte e o sofrim ento podem ter um efeito desinibidor. A perda fez com que você ficasse m ais cara de pau.
Cara de palhaça, Petra pensa. O que a fez dar aquele telefonem a? Será que era por Marcus finalm ente estar indo em bora, o que estava doendo com o um a cólica m enstrual? Ou era o fato de poder se esparram ar com o um a estrela-do-m ar, deslum brada, na sua cam a de casal, em vez de se encolher na posição fetal que adotara toda noite, durante 15 anos, para dar ao m arido o espaço de que precisava? Era m edo de ninguém m ais querer fazer sexo com ela novam ente; ou, pior ainda, a ansiedade porque j am ais suportaria se despir na frente de um hom em que não fosse seu m arido? Ela não poderia im aginar ser olhada sem a proteção indiferente da fam iliaridade. Um dia após o enterro de sua m ãe, Petra foi até o m ercado descendo a rua de seus pais e Gwennie, atrás da caixa registradora, espreitou-a pelo que pareceu serem longos dez m inutos antes de dizer, reconhecendo-a depois de um estalo:
– Ah, é você. Você era a am iguinha de Gillian Edwards, não era?
Talvez ela tivesse sido “inha”, m as ninguém ia cham á-la am iga de Gillian. Os anos haviam dim inuído e suavizado m uitas feridas, m as o nom e Gillian – m esm o quando dito por um a m ulher incrivelm ente sim pática – ainda fazia seu estôm ago revirar de desgosto. Era inj usta a m aneira com o um nom e não conseguia ficar com pletam ente lim po da m ancha de um ódio anterior. Por toda sua vida, Petra se aproxim ava de qualquer Gillian com o se fosse um a especialista em desarm ar bom bas, preparada para o pior.
Ela foi tão bem -sucedida em reprim ir a lem brança daquele telefonem a bobo que ficou sinceram ente surpresa quando um a m oça cham ada Wendy ligou da revista Women’s Lives para dizer que queria fazer um a m atéria com Petra indo conhecer seu ídolo da adolescência. Hoj e em dia David Cassidy fazia shows em Las Vegas. A Nightingale levaria Petra de avião para lá, com todas as despesas pagas, e, finalm ente, ela teria a oportunidade de conhecer seu herói. Ah, e sua am iga poderia ir tam bém , aquela com a qual se inscreveu no concurso. Será que as duas se im portariam em ir à editora para um a produção, antes da viagem ? Corte de cabelo novo, m aquiagem . Renovar sua im agem , Wendy disse. O visual de qualquer um torna-se cansativo, não é? A m aioria das leitoras achava aquele um dia divertido e aprendiam m uitas dicas úteis de beleza.
Petra, que parou de escutar depois da parte de “todas as despesas pagas”, agradeceu, seria m aravilhoso. Recolocando o fone no gancho sobre a tigela do gato, sentiu-se inundada por um sentim ento de possibilidades.
Nem todos com partilharam de seu entusiasm o.
– Trágico – foi com o Molly reagiu, retirando m om entaneam ente o fone de ouvido do Discm an Sony ao qual estava ligada com o a um cordão um bilical. Petra explicou com hesitação que a revista havia entrado em contato m arcando a data para a “produção”. Ela se viu segurando aquela palavra na ponta dos dedos, com o se fosse um a pinça. Tinha apenas um a vaga ideia do que essa “produção” envolveria. Com o passar dos anos, ela vira m ilhares de fotos de “Antes e Depois” nas revistas e, às vezes, se perguntava com o as m ulheres se com portavam quando iam para casa encontrar os m aridos com seus cabelos rem odelados e brilhantes, seus pontos fortes ressaltados e as m açãs do rosto redescobertas. O que a “Nova Mulher” faz com o velho hom em , e vice-versa?
– Isso é triste, m ãe, triiiiste – disse Molly. – Você foi apaixonada por ele quando tinha a m inha idade. A m aioria das m eninas não gosta do m esm o garoto depois de três sem anas. E isso j á foi, sei lá, há m ais de 20 anos.
Em frente ao balcão da cozinha, preparando a m assa favorita de Molly, Petra bate no ralador de queij o com a faca para que o parm esão caia no prato, com o polens deslizando. Enquanto transfere o queij o ralado para um a tigela e o coloca na m esa, tenta explicar que não se trata de um a paixão adolescente. Provavelm ente nem m esm o se trata de David Cassidy, não de verdade. A urgência em pedir seu prêm io bobo é tão intensa quanto engolir ou urinar. Ela quer desesperadam ente encontrar um m odo de dizer isso a Molly, m as a garota j á colocou seu fone de volta, ouvindo Destiny ’s Child ou Robbie William s, voltando ao universo m usical particular onde é feliz e seus pais não estão se divorciando.
“Constrangedor e brega” foi o veredicto de seu m arido quando veio buscar Molly. Eles estavam parados à porta da frente, Petra do lado de dentro da casa, revirando o trinco, Marcus rodeando sobre o tapete, querendo sair dali o m ais rápido possível. Nessa nova Guerra Fria, a soleira da porta com seu capacho de sisal encardido se transform ou no lugar onde Molly era entregue ao outro lado. Toda vez Petra sente a profunda artificialidade dessa troca e se pergunta quanto tem po levará para sentir que será norm al dividir sua filha, repartindo-a com o se faz com um a torta. O acordo civilizado, o sugerido pelas revistas reluzentes, é difícil de ser conciliado com o im pulso prim itivo que vem das entranhas dizendo-lhe para não entregar sua filha, além do desej o violento de arrancá-la do pai.
À m enção do nom e de David Cassidy, Marcus relinchou pesaroso, com o um puro-sangue que percebe ter entrado por engano em um a corrida de j um entos. Mau gosto de qualquer tipo era fonte de um desconforto quase físico para ele. Marcus com partilhava do desprezo de Greta pela m úsica pop e sua capacidade para estragar o cérebro. Secretam ente, ele tinha lá suas suspeitas de que a viagem de Petra até a rua das m em órias era um a tentativa de descontar nele o fato de ter ido m orar no barco com Susie, um ato tão sim ultaneam ente doloroso e destrutivo que alguém m ais teria que ser punido.
– Minha nossa, Petra, você está passando por algum tipo de crise da m eia-idade? – disse Marcus.
O suj o falando do m al lavado, pensou Petra. Quem está tendo crise da m eia-idade, bonitão?
Sua m ãe a havia im pedido de conhecer David há quase um quarto de século. Agora seu m arido a desdenhava por isso e sua filha dizia que ela era triste, o que queria dizer trágica, que significava patética ou côm ica, e não triste, em bora triste fosse o que na verdade Petra era.
– Então você vai, certo? – Carrie concluiu rapidam ente durante um dos intervalos para o café. Carrie lhe entrega o últim o biscoito de figo do pacote e ressalta que a viagem para Las Vegas tem todos os ingredientes de um a rebelião m uito prom issora.
– Essas rebeliões não são coisa de adolescente? – Petra pergunta de m aneira duvidosa.
Carrie balançou a cabeça.
– Escute, flor, as rebeliões são um desperdício nos j ovens. Que m alditos m otivos eles têm para se rebelar? Você e eu, por outro lado, tem os um a vasta gam a de frustrações, decepções e ressentim entos acum ulados cuidadosam ente durante décadas. Em m inha opinião, o m ínim o que m erecem os é um a pequena catarse.
Petra ri alto, porém sem convicção. Por que ela não se rebelou contra sua m ãe? Por m edo, é claro. Pavor. Mas era m ais que isso; ela se sentira paralisada, incapaz de se im por. Incapaz de localizar um “eu” para im por, foi isso. Petra sentira algo com o ódio pelo tem peram ento explosivo de sua m ãe com seu pai, percebera a terrível inj ustiça de seu pai ser punido, não pelo que era, m as pelo que não era. E não havia nada que ela pudesse fazer para aj udá-lo, ou para aj udar a si própria, que não fizesse as coisas dez vezes pior. Então ela se recolheu em sua m úsica, que abafava os sons distantes da batalha.
Hoj e, em sua própria casa, quando Molly grita do topo das escadas exigindo algum item sum ido da lavanderia ou diz à sua m ãe que ela sim plesm ente não entende, Petra tenta ficar feliz.
Você tem um a filha que pode cham á-la de idiota e dizer que a odeia, segura por saber que ainda será am ada, Petra diz a si m esm a.
Parece um progresso, de certo m odo.
Em seu casam ento, Petra tinha um papel secundário em relação ao m arido, o que é engraçado quando para para pensar a respeito. Era com o se ela fosse o segundo violino de um a orquestra. Tecnicam ente, com o violoncelista, ela era igualm ente boa. Na faculdade, com petiam pelos m esm os prêm ios, em bora Marcus sem pre fosse m elhor com relação a im pulso e am bição. De qualquer m aneira, isso não tinha im portância porque ela o venerava e ficava im pressionada por ser correspondida em seu am or por um hom em com o aquele, um ótim o partido. Um genro que fez sua m ãe praticam ente desfalecer de aprovação. No casam ento, foi Greta quem sussurrou “sim ” prim eiro.
Petra ouviu Marcus antes de o ver. Explorando o subsolo da faculdade, durante seu prim eiro sem estre, enquanto procurava pela m áquina de café, ela se viu em um longo corredor cheio de salas para prática de instrum entos, que tinham pequenos orifícios, com o j anelinhas, na parte de cim a das escuras portas de m adeira. Enquanto esperava que o líquido fino, m arrom -am arelado, enchesse o copo de plástico, o som de um violoncelo veio da sala em frente. Ela ficou paralisada, buscando localizá-lo. Sim . Chopin. Introdução e Polonaise, o início de Chopin. “Isso é coisa para sala de visitas, para entreter visitas”, um colega arrogante dissera certa vez para ela, j ogando o cabelo para o lado, e ela pensara: “Não na m inha sala de visitas, am igo.” Gostaria de ter dito na cara dele. Ele não teria entendido; ele não poderia im aginar um m undo onde não houvesse sala de vistas. Com o o m undo dela.
Então ali estava a m úsica novam ente, sem o acom panham ento do piano, despida, naquela m anhã úm ida de terça-feira, com chuva no ar do lado de fora. O tipo perfeito de m anhã, gritando para que Chopin viesse resgatá-la. Quem estaria tocando? Seus dedos form igaram . Reação estranha, não tão diferente de luxúria. Um acorde de sentim entos diferentes: adm iração, curiosidade, um leve toque de invej a. Os m elhores m úsicos respondem algo em você quando você nem ao m enos sabe a pergunta. Petra não pôde resistir. Foi até a porta e, na ponta dos pés, espiou pelo orifício da porta com o um passageiro de um navio procurando outro. Marcus estava sentado, parte dele voltado na direção de Petra, com a cabeça curvada, o arco se m ovim entando, os olhos sem icerrados ou cerrados, ela não sabia dizer. Quando term inou, Marcus os abriu e olhou direto para ela, com o se soubesse que ela estivera observando. Provavelm ente sabia, o dem ônio. Seus lábios estavam levem ente entreabertos e ele parecia estar sem fôlego. Quatro anos se passaram antes que ela sentisse os lábios dele nos seus. Quatro anos entre a introdução e a Polonaise. Dance com igo.
Nesse ínterim , Petra teve outros nam orados. Todos ingleses, todos fora do alcance. Prim eiríssim a linha. Divertiam -se com seu sotaque e, no barzinho, faziam im itações à m oda de desenhos anim ados de expressões que ela nunca ouvira falar.
– Bem , vej a você, isso é dem ais, boyo.
Boyo? Ninguém falava assim no País de Gales.
Filha orgulhosa de um batalhador, que fez um j uram ento sob o livro “Vale a pena aum entar seu vocabulário”, Petra nunca ouvira tal expressão e m uito m enos a dissera. Para seus ouvidos, essa m ím ica cantada não parecia galês, m as indiano; contudo, com o pessoa de bom hum or, ela ria m esm o assim e aceitava outra bebida. Aceitar o que outras pessoas pensavam de você parecia ser m ais fácil do que explicar quem você realm ente era. Quanto m ais ingleses, cultos e exóticos fossem os hom ens, m ais Petra os queria. Conseguir com que o em ocionalm ente indisponível aluno de escola pública se tornasse disponível para ela, a m enina de Gower, dava-lhe um sentim ento especial de anim ação, o sentim ento que tanto alm ej ava. Ela acum ulava declarações de am or com o outras garotas acum ulavam j oias. Qual era a graça de conquistar aqueles que a queriam ? Ela não entendia. Dor e alegria estavam entrelaçadas fortem ente, era isso o que Petra desej ava. E ninguém tocava essa canção m elhor que Marcus.
Ah, ele desafinara a dor de Petra com os dedos, e com o. Matou-a com sua m úsica.
– Bem , esse é um dos hom ens indisponíveis m ais desej ados – suspirou Jessica, a violinista em seu quarteto, quando Petra lhe m ostrou o anel que Marcus lhe dera em Florença. Um a esm eralda protegida por dois cium entos diam antes. A invej a das outras m ulheres selava sua felicidade. Ela nunca havia sido obj eto de invej a antes e notava com o aquilo a preenchia, à m aneira que as flores sedentas absorviam água. Com o ela, Petra, conseguira ganhar o hom em inatingível? Ela se sentia abençoada; m elhor ainda, ela se sentia escolhida. O resto não im portava. O segundo violoncelo foi o instrum ento que ela fora destinada a tocar, algum a voz interna a dizia isso. Além do m ais, era m ais prático. Não era possível ter dois violoncelistas profissionais em um a casa. Então Marcus construiu sua carreira nas apresentações públicas e, depois de algum as aparições solo bem -recebidas, Petra com eçou a se virar por outros m eios – concertos com o quarteto, gravações em estúdio, aulas. Ela fez várias apresentações lucrativas no acom panham ento m usical para Top of the Pops, tocando, conform e solicitado, com um a m inissaia preta para ficar m ais sexy, m as acabou parecendo m ais um exam e ginecológico quando segurou seu instrum ento entre os j oelhos abertos com o um leque.
Marcus fez um em préstim o bancário para pagar parte de um violoncelo m uito valioso para ser usado em recitais, e precisavam do dinheiro dela para as contas do dia a dia. As revistas que ela raram ente tinha tem po para ler naquele tem po tinham um term o chique para o que ela fazia – carreira portfólio –, m as Petra sabia o que ela era. Segundo violoncelo.
Tudo m udou quando Molly Isolde nasceu com 29 sem anas de gestação. Sua filha era do tam anho de um sapato. Era j unho e Petra teria de tocar no Wigm ore Hall no horário do alm oço. Borodin, Quarteto de Cordas nº. 2. Ela estava cantarolando o Nocturne enquanto corria para recuperar o tem po perdido em um trem que atrasou na ponte de Londres. O calor pegara a capital de surpresa, assim com o Londres era sem pre pega de surpresa, todo verão, pelo sol e, todo inverno, pelo frio.
Estava quente dem ais, e ela tinha de respirar por dois. O ar se esforçava para chegar aos cantos m ais longínquos dos pulm ões. Os alvéolos. Ela não pensara m ais nessa palavra desde suas aulas de biologia. Os pulm ões tinham a m esm a estrutura das árvores e os alvéolos eram com o pequenos botões no fim dos galhos. Eles desem penhavam um papel-chave na produção de oxigênio, ela não conseguia lem brar o quê, m as eles não estavam fazendo isso agora, pelo m enos não com a rapidez necessária. Petra sem pre ficava surpresa com o o presente e o passado conseguiam passar pela sua cabeça sim ultaneam ente, com o centenas de canais de TV atrás de seus olhos. Ali estava ela no centro pulsante de Londres, e tam bém no laboratório de biologia do País de Gales, que fedia à serragem usada para forração na gaiola dos roedores e a j arros de form aldeído.
A Oxford Street estava abarrotada, os com pradores m oviam -se lentam ente, lentos com o carpas em um lago superlotado. Petra estava com pressa, então cortou cam inho pela rua principal e pegou um atalho até a ruazinha em L ao lado do m etrô onde sem pre parava para com prar um a m anga na barraca de frutas. Ela sem pre pegava o cam inho para a praça por trás da loj a de departam entos John Lewis. Com er m anga, ela acreditava com toda convicção, tinha de ser um a atividade solitária por causa do gotej am ento e da incrível suj eira que causava. Petra subia lentam ente a Regent Street, m anobrando sua barriga e seu violoncelo com o a caixa de ferram entas de um encanador, quando, subitam ente, sentiu a água escorrendo por suas pernas. Não era um filete de água sim plesm ente, era o balde cheio que o palhaço j oga no circo.
Em prim eiro lugar veio o constrangim ento – ela era galesa, no fim das contas. Depois, o pânico. O m edo dem orou um pouco m ais para bater. Um segurança do lado de fora da Broadcasting House ficou com pena da m ulher grávida agachando-se sobre um a poça d’água sobre o chão. Um a am bulância foi cham ada e em poucos m inutos Petra estava no hospital. Um dos m elhores da cidade, felizm ente, com um a unidade especializada em bebês prem aturos. Quando foram adm itidas – definitivam ente eram elas, Petra j á pensava no bebê com o um a outra pessoa –, estavam cercadas por corpos quebrados, ensanguentados, cobertos de lágrim as.
O m édico enfiou-lhe um a agulha, um a inj eção de esteroide para estim ular os pulm ões do bebê a crescerem m ais rapidam ente. Pulm ões não desenvolvidos poderiam ser um problem a, ele estava dizendo. Alvéolos novam ente. Mas a bebê j á estava a cam inho, não havia com o im pedi-la.
“Se o Senhor permitir que ela viva, Deus, se o Senhor, por favor, deixá-la viver, eu prometo...”
Petra com eçou aquela frase m uitas vezes durante os prim eiros dias de vida de Molly, m as nunca a com pletava. Parecia estar além do pronunciável, além de qualquer palavra que ela conhecia, o que e o quanto estava preparada para prom eter se sua bebê conseguisse o m ilagre de sobreviver. Petra teria descartado sua própria vida em um instante para salvar aquela m inúscula estranha.
Ela não sabia que havia um lugar cham ado Unidade de Tratam ento Intensivo Neonatal. Muitas pessoas têm sorte por j am ais terem de conhecer algo assim . Quando você entra ali, o lugar se parece m uito com um m useu, com exceção de que o que está sendo exibido nos vidros está vivo, ou pelo m enos sendo m antido vivo pelas m áquinas, e pelas preces fervorosas de seus pais. Quando Petra chegou ali pela prim eira vez, na cadeira de rodas, ainda debilitada e confusa, usando a cam isola verde do hospital, viu um a caixa transparente após outra contendo esses esboços aflitivos de hum anidade. Um deles era sua filha.
Encolhida, com olhos azuis do tam anho de m oedas de cinco centavos, Molly não se parecia nem um pouco com um bebê. Sua cabeça não era m aior que um a lâm pada e, para Petra, os filam entos do cérebro ali dentro pareciam frágeis com o os de um a. O gorro que Greta tricotara para o lindo enxoval encobriu a bebê; por isso, no prim eiro m ês, Molly usava um a das m eias de lã com o gorro. (Petra ainda guarda aquela m eia da sorte na gaveta do seu criado-m udo; um pouco am arelada com o passar dos anos e espantosam ente pequena.)
Ela passou a m orar na UTI, dia e noite. A m úsica de fundo era fornecida pelo bipe e o suspirar das m áquinas. Toda vez que a m áquina respirava por ela, a garganta de Molly dava um pulinho, com o a de um sapo. Petra descobriu que poderia aprender m uito sobre si m esm a estando tão próxim a de tanta vulnerabilidade. Você aprende que quando está cansada dem ais consegue dorm ir sentada. Que o insuportável é perfeitam ente suportável se você viver um m inuto de cada vez, quando a perspectiva é talvez não ter m ais m inutos com sua preciosa filha.
Os m em bros de Molly foram colocados em um tipo de rosquinha de espum a para im pedir que raspassem no colchão. Qualquer pressão na pele de um prem aturo poderia ser doloroso, o enferm eiro disse. O enferm eiro era um garoto cham ado Andy, m al saído da adolescência, de cabelos espetados com gel, que se m ovia com o um dançarino em seus sapatos confortáveis. No início, Petra m al ousava tocar Molly. Contudo, se colocasse sua m ão perto do rosto do bebê, parecia acalm á-la. Petra tinha um im pulso avassalador de pegar seu violoncelo e tocar; a bebê ouvira o violoncelo todos os dias durante os sete m eses em que esteve no ventre, portanto deveria estar sentindo falta dele, com o sua m ãe estava. Em vez disso, Petra cantava para ela, cantarolando peças que am bas conheciam de cor, ela e a bebê. As suítes de Bach, Elgar e Barodin, nas quais ela vinha trabalhando. Petra j urava que Molly tentava virar a cabeça.
Naquelas prim eiras sem anas, Marcus vinha duas vezes por dia, trazendo sanduíches gostosos e notícias, e, o m elhor de tudo, o sim ples conforto anim al. Lá fora no corredor, Petra esticava as pernas e recarregava as energias enterrando-se em seus braços, sentindo o cheiro de Marcus em seu casaco. Ela via que ele estava perdendo peso, seus olhos azuis saltavam de orifícios escuros com o am eixas e ele não estava se barbeando, portanto com eçou a ficar com a aparência de um hom em santo que tem visões no topo de um a m ontanha.
Jam es, que havia sido padrinho de casam ento deles, fez um a visita em um dom ingo e contou a Petra que Marcus dissera que as duas m eninas da vida dele estavam sofrendo e ele não podia fazer absolutam ente nada. O sentim ento de im potência era terrível para um hom em que sem pre fora capaz de consertar tudo com suas m ãos.
Em um a tarde de outubro, quando Molly havia atingido o peso norm al de um recém -nascido, o m édico levou Marcus e Petra até um a sala do hospital. Na m esa baixa de pinho à frente deles havia um a sinistra caixa de lenços de papel. O m édico ofereceu água, que eles recusaram . Ele era um hom em grande, m as com olhos afetuosos, gordinho, cabelos encaracolados e o nariz pontudo. Petra pensou instantaneam ente em um daqueles ursinhos alem ães que encantam m ilhares de pessoas nos leilões. Se alguém apertasse a barriga do doutor, ele poderia rosnar.
O m édico disse que Molly estava indo bem . Estavam m uito satisfeitos com ela. Os possíveis efeitos da privação de oxigênio, que causaram preocupação, não eram m ais m otivos de tanta inquietação. Som ente o tem po diria com certeza. As pesquisas sugeriam que bebês prem aturos com o Molly, m esm o crescendo norm alm ente, poderiam sofrer com a falta de confiança na vida adulta. Parecia que o bebê guardava a lem brança do com eço difícil. Marcus e Petra deveriam saber, ele explicou, que Molly poderia vivenciar dificuldades de aprendizado.
– Não esperam os que ela sej a prim eira-m inistra – Marcus retrucou.
Até aquele m om ento, ela não sabia o quanto ele estava zangado.
Petra estudou m usicoterapia porque teve um a filha prem atura que poderia ter tido danos cerebrais? O que Petra sabia é que cantando para sua filha, um a recém -nascida que parecia ter m il anos de idade, ficou convencida de que tudo o que som os com eça com m úsica, e que talvez a m úsica tenha o poder de consertar coisas que não possam ser consertadas de outra form a. Ela cantava para Molly e acreditava que a filha ouvia sua canção, é só.
***
Poucos dias depois de Petra e a bebê terem voltado do hospital, Marcus disse-lhe que tinha ido para a cam a com outra pessoa enquanto ela estava no hospital. Ele passara por um a tensão terrível. Foi com um a garota de um a orquestra do Norte, quando teve que participar com o solista de últim a hora. A garota se apaixonara e se tornara pegaj osa. Não havia sido nada de m ais. Ele im plorou por perdão, e Petra o concedeu alegrem ente. Percebeu tarde dem ais que seu perdão fora m uito rápido. Perdão é algo que precisa ser conquistado e, dali para frente, Marcus pensou que ficaria barato. Petra, por outro lado, conseguiu perdoar, m as não esquecer.
Na sem ana seguinte, sua m ãe pegou o trem para ficar com ela. Ela tom ava conta das m am adeiras, roupas de cam a, com pras e cozinha. A casa logo tom ou ares de um hotel bem -organizado. Petra, ainda de cam isola durante períodos longos do dia, vazando leite, ficou im ensam ente grata. Greta estava na pia, enxaguando as m am adeiras, quando Petra lhe contou sobre Marcus e o caso. Talvez a chegada de Molly fosse a oportunidade de abrir um novo capítulo de intim idade com sua m ãe.
Greta ouviu atentam ente e, por fim , disse:
– Você terá de agradá-lo.
– Agradá-lo – Petra repetiu.
Sua m ãe com eçou a encaixar os bicos das m am adeiras nos plásticos arredondados com um estalo. Era um som desagradável, estranham ente punitivo.
– Um hom em não gosta de se sentir errado, Petra. Isso o faz infeliz – Greta disse, trabalhando m etodicam ente. – Se você quer continuar sendo esposa dele, terá de aj udá-lo a se perdoar. Sim , é o único j eito.
Aquele conselho parecia ter vindo de outra época, a época das lam parinas a gás. Isso não era o tipo de coisa que as m ulheres faziam em um a época em que não tinham escolha? Mas que escolha Petra realm ente tinha? Tinha um a bebê pequena e não tinha renda, ela e Molly eram totalm ente dependentes do sucesso de Marcus.
Aquilo não era am or, no entendim ento de Petra, nem casam ento, m as viu que o breve conselho de sua m ãe não era sim plesm ente hipocrisia, era econom ia nua e crua. Ela teria que recom pensar Marcus por tê-la traído.
Não seria a últim a vez. Em um m om ento inoportuno de insight, Petra percebeu que, para Marcus, seus casos realm ente m elhoravam o casam ento. Ele chegava atrasado, com o suor de sua am ante ainda no corpo, e inclinava-se carinhosam ente para beij ar sua filha fazendo a lição de casa à m esa da cozinha. Ele rom antizava a vulnerabilidade de Molly e Petra, a im potência de am bas diante da situação; isso o im pedia de se m udar, m as tam bém não ficava de verdade.
Muitos anos depois da UTI neonatal, Petra pegou um a revista na sala de espera do dentista e encontrou um teste de m últipla escolha com o título: “Quais são seus obj etivos com o m ãe?” Honestam ente, nunca ocorrera a Petra ter algo am bicioso com o um obj etivo para sua filha. Ter boa saúde, estar próxim a dela e perm anecer viva, era isso o que vinha sendo com Molly desde o com eço, e nunca m udou.
No geral, Molly derrubou todas as previsões obscuras dos m édicos com relação a desenvolvim ento atrasado, em bora ela nunca tenha aprendido a arrum ar seu quarto. Se tivesse algum obj etivo para m inha filha, Petra pensa, o que seria?
Gostar de seu próprio corpo e sentir prazer com isso. E não ficar passando calor e vergonha na praia, debaixo do guarda-sol, com um a toalha pinicando suas pernas. Ter bons am igos e um trabalho gratificante. Um hom em gentil que a am e e a respeite, que sej a um pai devotado para seus filhos. Não passar pela vida com o coração oprim ido.
O am or pode levar m uito tem po para m orrer. Você acha que o am or está m orto, acha que seu m arido j ogou fora todos os sentim entos que j á teve por ele. Um dia, ele lhe entrega lençóis suj os para serem lavados porque sua casa flutuante só tem água fria, e você fica com pena e os está j ogando na m áquina de lavar quando vê que os lençóis têm o desenho de um as ilhas enferruj adas, um arquipélago de sangue, o sangue m enstrual dela, m eu Deus, e você sente tanto ódio, fica tão hum ilhada por ele não ter tido o cuidado de poupá-la de um a dor dessas que cai de j oelhos e bate com a cabeça na porta da m áquina de lavar. Melhor m achucar a si m esm a do que deixar que ele a m achuque assim de novo.
Isso é o que se passa por lógica quando o am or não m orreu. Você lacrou o côm odo do coração onde o am or que tinha por ele costum ava viver, fechou-o com o se faz com o lixo nuclear, m as ainda há outro côm odo, m enor, onde o am or sobrevive. Teim oso, obstinado, porcaria de am or resistente.
Por que Petra acha tão difícil odiar Marcus quando odiá-lo a faria livre? É o saber am argo de que, se aceitar que Marcus é egoísta e cruel, o am or em si terá sido inútil. O am or que trouxe Molly ao m undo, o am or pelo qual abriu m ão da vida profissional com o m úsica. Um a criança am ada, um a estrutura de am igos em com um , obrigações, aniversários, feriados passados na costa de Pem brokeshire e nas ilhas gregas, tudo o que seu casam ento significa se tornaria tolo, absurdo e feio.
Então, com teim osia, Petra m antém o am or, recusa-se a desistir dele, m esm o quando o hom em que causava esse am or fizesse tudo o que estava ao seu alcance para apagá-lo.
A cam inho do trabalho, acotovelada em um ônibus lotado cuj o m otor rangia e choram ingava subindo a ladeira, a trilha sonora em sua cabeça era a de um a Joni Mitchell, ferida, cantando um a canção sobre um am or que acabou.