Eu Acho que Amo Você
Capítulo 10
10
19:50. Ele se sentia com o Gulliver. Ao seu redor era um form igueiro de pessoinhas. A m aioria delas batia na altura do seu peito. Outras batiam na cintura. Algum as ele m al podia ver, apenas as sentia passando com suas cotoveladas, seus berros e gritinhos abafados. O que os liliputianos fizeram com Gulliver? Am arraram o hom enzarrão pelos cabelos, pregando-o ao chão e j ogando cordas m inúsculas sobre seus m em bros gigantes. A probabilidade de isso acontecer hoj e, Bill pensou, aum entava a cada m inuto. Ele fora até lá para trabalhar e dar algum as risadas. Só agora percebia que a questão era sair dali vivo.
Não era preciso dizer que ele era o único hom em . Aquela com unidade de liliputianos era totalm ente fem inina, e os hom ens, com exceção de um , não eram necessários nem bem -vindos. Bill avistara ao longe, ou achou que tinha visto, a cabeça careca do hom em da am bulância, que perdera seu quepe, sua calm a e sua com postura, tudo de um a vez só; m as até ele desaparecera na m ultidão, talvez para sem pre. Pobre hom em . Na m aioria das vezes, ele recolhia ciclistas com a clavícula quebrada ou despej ava água na garganta dos corredores; nada na sua experiência, ou na sua boa-fé, poderia tê-lo preparado para 35 m il adolescentes, enfurecidas com o abelhas na colm eia de White City em um dom ingo à noite. Céus, que barulho!
Bill com etera um erro, e j á estava pagando por ele.
– Fique ali no m eio das m enininhas – Roy dissera, esfregando as m ãos de um m odo desagradável. – Chegue cedo, leve um lanche, um a barraca, m uita água, boné. Infiltre-se no m eio delas e pergunte o que estão fazendo ali.
– Elas estão indo ver seu artista favorito – Bill respondeu, desconcertado.
– Eu sei, bobão. Mas vá e pergunte na cara delas, vej a que tipo de besteira elas falam . Pegue um daqueles aparelhos que m edem o som , com o se cham am m esm o? Nível de débil-béis?
– Decibéis.
– Esse m esm o. Vej a se consegue fazer a leitura dos gritos. Poderíam os fazer um a tabela, dar um prêm io para aquela que grita m ais alto, esse tipo de asneira. Ester, a histérica. Grace, aos gritos.
– Mas eu pensei que haveria um a área reservada para a im prensa.
– Sim , se você for veado. – Roy lhe deu o m esm o olhar que dava a qualquer um que usasse o cinto de segurança no carro.
– Mas é m ais perto do palco – Bill continuou, prolongando um a discussão que não seria vencida.
– E daí? Para você poder ver a calça roxa dele de cim a? Escuta, cam arada, não é sem pre que tem os a chance de ver nossas leitoras em carne e osso, então, pelo am or de Deus, vá e faça a reportagem . Esprem a-se entre elas e m e conte tudo depois. Tudo bem ?
Bill obedecera, em parte. Ele havia conseguido um ingresso especial para a im prensa depois de nove ligações para o escritório do prom otor do show. Isso significaria ficar confinado com o um m acaco, ele suspeitava, atrás de algum tipo de gaiola, em bora sua suspeita m aior fosse de que a atividade hum ana do lado de fora seria a m ais anim al de todas. As m eninas iriam enlouquecer, e ele ficaria agradecido por estar protegido pelas grades. Por outro lado, por algum tem po faria o que seu chefe havia pedido: chegar bem antes do show, m isturando-se com elas enquanto a anim ação crescia, pegar algum as falas e depois seguir para o refúgio seguro dos seus colegas j ornalistas antes do show principal com eçar. O segredo seria calcular o tem po direito. Um cotovelo o acertou abaixo das costelas e ele ficou sem ar, vendo estrelas. Ele se inclinou para frente, acertando seu queixo na cabeça da garota à frente.
– Ei – ela disse, virando a cabeça para trás –, cuidado aí, tá? – Tinha os cabelos curtos e usava óculos, e por um segundo Bill achou, com um a estranha pontada de sentim ento de solidariedade, que era um m enino. Mas o que um m enino estaria fazendo ali com um a echarpe do David Cassidy ?
– Desculpe – Bill disse, ou tentou dizer. Ele ainda estava tentando recuperar o fôlego da pancada nas costelas e a palavra saiu torta.
A m enina estava com um a am iga, que deu um a risadinha. Ela tinha o rosto redondo e rosado, e usava um sobretudo am arelo.
– O que você faz por aqui?
– Ehh, escrevendo. Sou escritor.
– O que você escreve, poem as?
– Não, escrevo para revistas – Bill respondeu, caindo fácil e m entirosam ente para o plural. O som de conversas e ruídos por todo lado era ensurdecedor, m as os três estavam tão esprem idos que praticam ente estavam falando diretam ente um na orelha do outro. Bill inclinou a cabeça até a altura delas.
– Você escreve para revistas pop? – a garota cheinha perguntou.
Ele tossiu, ainda respirando com um pouco de dificuldade.
– Ah-hã, eu cubro boa parte do cenário m usical, na verdade. Rock, j azz. Um pouco de pop.
– Você faz entrevistas?
– Às vezes. Se o editor achar que devo.
– É o que você veio fazer aqui, então?
– Acho que sim .
– Então por que nós é que estam os fazendo as perguntas?
Bill não tinha resposta. Ele livrou sua cara, com o sem pre fazia, aum entando o nível das m entiras.
– Bem , às vezes entrevistar não é só perguntar e responder, sabe. É com o, com o um a conversa. Com o você faria com um am igo... – As m eninas estavam franzindo as sobrancelhas. Elas eram novas, m as podiam sentir o cheiro de enrolação. Sabiam quando um garoto – ou, nesse caso, um adulto – estava tentando parecer o que não era.
A outra garota de repente falou, aquela em que ele bateu a cabeça. Um a haste dos seus óculos estava rem endada com fita adesiva.
– Você não entrevistou David, né?
Houve um a pausa. A m ultidão sum ia e surgia em volta deles, com Bill parado ali com o um farol. A coisa m ais inteligente, é claro, seria negar tudo, deixar a pergunta pra lá. Quem poderia saber com o essas m eninas reagiriam se ele contasse tudo? Não seria apenas inútil dizer que ele conhecera o cara; poderia ser perigoso.
– Três dias atrás – ele disse.
Ele não sabia que seres hum anos explodiam . Ele sabia que podiam gritar, bradar, arrem essar sua cólera contra os céus. Sabia que algum as pessoas, quando com eçam a rir ou choram ingar, não conseguem parar: m as aquilo era diferente. Aquilo era com o um cam po m inado. As m eninas arrem essaram as m ãos à lateral da cabeça, com o se estivessem tentando im pedir seus m iolos de estourar. Elas o olhavam de um a m aneira que poderia, a distância, ter parecido com horror, gritando. Deus do céu, elas gritaram . Quanto fôlego naqueles pulm ões ainda não desenvolvidos com pletam ente...
– Oh, m eu Deus, m eu Deeeeeeeus! – Outras garotas olharam de lado para elas e depois para Bill, sentindo o calor da histeria se espalhando. Ele j á estava se arrependendo de ter falado. Isso é o que dá falar a verdade.
– Esse cara encontrou Dei-vi-di! – gritou a garota de am arelo. Instantaneam ente a algazarra dobrou sua força, derram ada em sua direção.
– Com o foi, o que ele estava usando, ele estava com a guitarra, ele cheira bem , ele com eu algum salgadinho, os salgadinhos eram am ericanos, ele com eu Twinkles, não é Twinkles, é Twinkies, sua bocó, ele estava usando algum a j oia, ele estava usando um colar, por favor, não diga que ele estava usando anéis...
Bill estava se afastando, m as elas o agarravam – não exatam ente ele, ele nada m ais era do que um vaso, m as parecia que elas queriam raspar qualquer resíduo de David que pudesse ter ficado nele. Metade de um a im pressão digital j á estaria de bom tam anho. Um a garota de tranças chegou m ais perto e segurou a m ão de Bill, dizendo: “Se eu apertar sua m ão e você apertou a dele...” Então ela tirou a m ão e a colocou na bochecha. Outra tinha um livro de autógrafos aberto com um a caneta e um elástico preso na ponta com os dizeres “Am ar É”. Ninguém j am ais lhe pedira um autógrafo quando ele tocava com o Spirit Level, isso era certo, em bora os donos de alguns bares o pedissem para assinar a com anda de bebidas antes da apresentação, assim ninguém da banda poderia tentar beber algum a cervej a de graça.
Bill olhou em volta, só para checar se não havia nenhum conhecido, nenhum a ex-nam orada, colegas de trabalho, qualquer um com quem ele j á tivesse falado, m orado ou dorm ido, à vista. Tudo o que ele podia ver, no entanto, eram cabeças e om bros de adolescentes desconhecidas, então ele se virou, pegou a caneta e rapidam ente assinou seu nom e na página am arela, usando o que esperava que fosse o tipo de floreio doido que os cantores de rock fazem , ou de alguém que conheceu um cantor de rock um dia. A garota de tranças pegou o livro de volta e olhou para o garrancho, depois para Bill.
– Com o é seu nom e?
– Bill.
– Não parece Bill. Parece o núm ero 87. – A garota ao lado deu um a espiada. – Escrito por um retardado – ela acrescentou, aj udando.
Bill deu um sorriso am arelo, o sorriso que os bêbados dão um pouco antes de com eçar a vom itar e sair de cena. Em algum lugar havia um a barreira, a fronteira óbvia que dividia a im prensa dos fãs, m as para encontrá-la teria de se arrem essar para frente com o um touro, com a cabeça abaixada; a m elhor opção era a m enos lógica – voltar passando por toda a fila, sair pela entrada e seguir para fora do estádio até outro portão. Bill escolheu a segunda rota, e parou de lutar para conseguir passar. Em vez disso, respirou fundo, deixou-se cair para trás na m ultidão e continuou caindo. Os corpos o m antinham m ais ou m enos de pé, e o m ovim ento o levava. Em algum lugar um a m úsica com eçou a tocar, com urgência e sem voz. Alguém o abraçou e o passou para frente. Algum as vezes você é salvo naufragando.
20:11. – Com licença, essa é m inha cabeça. Licença, por favor, você pode sair de cim a de m im ?
Estava acostum ada com um tipo de tratam ento m ais rude da parte de m inha m ãe, m as aquela era a prim eira vez que eu era usada com o escada. Um a garota de cabelos ruivos com pridos colocou um a bota na m inha bochecha, a outra estava bloqueando m inha orelha, o que eu quase não notei porque não podia ouvir nada m esm o, a gritaria era alta dem ais. Tentei tirar a garota de m im , m as não havia espaço para ela sair. Eu quase não conseguia m over m eu corpo um centím etro para cada lado, então tentei andar de ré e desbancar m inha passageira, com o j á vira cavalos fazerem na TV. A garota fincou os saltos e ficou reta sobre os om bros que, até pouco tem po atrás, eram m eus, só m eus.
– David, quero ter um bebê seu! – a estranha nos m eus om bros gritou, balançando de um lado para outro.
– Desce daí, sua vagabunda! – Carol disse, golpeando a cabeça verm elha na parte de trás, o que fez com que ela voasse para fora de m im , com a cabeça em cim a das m eninas à nossa frente. Ela não caiu porque não havia espaço suficiente para um a queda: em vez disso, assistim os à garota ser transportada com o um a surfista na onda que estava surgindo na direção do palco.
Muitas vezes, na praia onde m oro, havia sentido a enorm e força da m aré. Sabia com o era estar nadando sozinha na parte rasa e, de repente, ser arrastada e arrem essada sobre os seixos na beira do m ar, sentindo cada osso do corpo sacolej ando, procurando m e agarrar e correr por cim a das pedras para m e ver longe do puxão possessivo da água. Mas esse era um tipo com pletam ente diferente de poder. Era com o estar presa a um vício. Parecia que de um a hora para outra Petra William s, fã de David Cassidy, 13 anos e nove m eses, do País de Gales, não existia m ais. Eu era um a gota em um m ar de fãs e a única m aneira de sobreviver era m e deixando levar pela corrente que no m om ento nos forçava a ir contra um a barreira. Sharon estava agarrada ao m eu braço, seus olhos brilhavam de excitação, sua boca estava fixa em um “O” de adm iração constante.
Você deve estar surpreso em saber que nós duas estávam os nos falando. A cena horrível no trem ainda estava presente e colocara um a barreira entre nós, m as agora, no estado de esm agam ento no qual nos encontrávam os, fom os atiradas um a ao lado da outra. Sharon não conseguiria m anter um a m ínim a distância por ressentim ento, m esm o se tentasse. Nunca estivem os tão próxim as, ou tão distantes. Do outro lado da barreira, a cerca de 600 m etros de distância, pude ver um fotógrafo que estava tirando fotos de nós e da vasta m ultidão de garotas. Um hom em de barba estava rindo e apontando para nós com o se fôssem os anim ais em um zoológico ou algo parecido.
O m ais assustador, no entanto, era que David não aparecera ainda. No palco estava um a banda fazendo a abertura, com um a m enina loira cantando blues. A garota era boa, m as o som estava horrível, todo distorcido, e os gritos abafavam sua voz. Senti pena dela.
Aquela noite era dedicada a Ele, a chegar o m ais próxim o possível de David. Com o eu tinha esperado por esse m om ento! Durante 18 m eses, David colonizara m eu cérebro até eu sentir que m eus pensam entos não eram m ais m eus, e ainda tudo o que eu pensava era “obrigada, Deus, por eu ter ido ao banheiro e trocado m eu absorvente antes de chegarm os ao portão”. Não queria ter um acidente. Não havia com o sair agora, nem em um futuro próxim o. Olga, Angela e sua prim a, Joanna, saíram para ir ao banheiro im undo na parte de trás há cerca de um a hora, e nem sinal delas ainda.
– É ELE? – Sharon estava gritando e apontando para o palco.
Li os lábios dela.
– NÃO. ELE ENTRARÁ AGORA, A QUALQUER MINUTO.
Gillian estava segurando a outra ponta do cachecol escrito David Cassidy de Sharon, e as duas o sacudiam com o um a bandeira. Não queria acenar com m eu cachecol. Pensei que poderia não ser apropriado, que era algo que David não gostasse em um a garota. Ele iria preferir que ouvíssem os respeitosam ente suas m úsicas, em vez de ficarm os vociferando. Gillian se recusava a olhar para m im e de qualquer form a eu a estava evitando. A viagem para Londres não fora perdoada, e nem seria, dos dois lados, m as estava tem porariam ente esquecida porque, ali entre as m ilhares de garotas naquele form igueiro, nós, do País de Gales, éram os tudo um a para a outra. Vendo-se rodeada por um a adversária estrangeira, Carol estava fazendo tudo o que os brutam ontes galeses faziam em qualquer j ogo fora de casa: pisava furiosam ente no pé de qualquer rival que ousasse invadir nosso m etro quadrado.
Quando chegam os, acham os assentos no terraço, em bora j á não fossem m ais assentos quando os pegam os. Todos estavam de pé. Todos m esm o. Se você tentasse se sentar, ficaria encrencada. Falando sério, ficar de pé j á era bem difícil. Outras m eninas passaram por nós com rapidez, descendo os degraus em direção ao gram ado no m eio da arena, e nós saím os atrás delas, determ inadas a não deixar ninguém ter m ais chance de tocar David.
De pé ali no m eio daquele im enso espaço, olhei ao redor, espantada. Não sabia que o am or podia afetar tantas pessoas. É claro que sabia que David tinha m ilhares de fãs, m as geralm ente as tirávam os da m ente. Hoj e não. Antes, fora sem pre ele e eu. Agora, era ele e nós. Muitas de nós, até onde os olhos podiam alcançar.
Do lado de fora, na fila para com prar lem branças de David, com ecei a falar com um a loirinha baixinha usando um a capa cinza com capuz. Moira. Ela viera de carona desde a cidade de Dundee, e não tinha onde ficar. Estava assom brada com sua coragem . Ela dorm iu em um banco do lado de fora do hotel Paraíso, onde todos pensaram que David estava hospedado. Moira disse que o preço dos produtos era um roubo, e era m esm o, m as dei a nota de 10 libras de m eu pai por um a cam iseta que valia 2 libras, com um a foto de David usando a j aqueta j eans que eu adorava. Precisava desesperadam ente de um a prova de que estivera ali, que aquele não era m ais um sonho acordada.
– Querem os David! Querem os David! – Todas nos j untam os ao coro que encheu White City. Estávam os im pacientes agora. Trinta m il pares de sapatos plataform a batendo no chão soavam com o cascos.
– Vocês são dem ais, um a plateia m aravilhosa, m uito obrigada! – A voz da cantora loira de blues trem ia no sistem a de som .
– Fora! – gritam os.
Mais à frente, vi o hom em careca da am bulância levantar um a garota sobre sua cabeça com o se ela fosse um a boneca de pano, passando-a sobre a barreira para os braços dos que estavam do outro lado. Nesse m om ento, dois seguranças de uniform e preto passaram por m im em purrando, forçando cam inho até o palco.
– Um a das sacanas está ali – ouvi o segurança m aior gritar. Que suj eito detestável. – Elas estão fingindo desm aiar para serem levadas à frente.
E, de repente, Ele estava lá. Do m eio das ondas de fum aça ele apareceu, com o um gênio ou um deus. Oh, m eu Deus, David. Meu. Deus. Sorrindo o sorriso de David, com um a roupa verm elha incrível. David. Você nunca viu nada igual. Aquele fraque verm elho, calça verm elha e um a gravata-borboleta que cintilava com diam antes. David. E um cinto de diam antes. Ele estava inacreditavelm ente m aravilhoso. David. Ele estava rindo, alguém estava fazendo palhaçada. Day y vvvidd. Day y y -vvvidddd.
Sharon com eçou a chorar de felicidade. Reconheci a m úsica j á no com passo de abertura. “If I Didn’t Care”. E sua linda voz m acia nos acariciando, fazendo-nos derreter por dentro. Balançando de um lado para outro cantam os j untas, as m eninas do País de Gales, m elhor do que qualquer um a daquele estádio todo.
Então a gaita entrou, e seu som era tão dolorosam ente triste que eu com ecei a m e m over na direção dele. Não seria fácil chegar até o palco, m as eu não tinha escolha, tinha? Tinha de fazer aquilo. David era solitário, disso eu tinha certeza absoluta. “Estou indo”, disse-lhe. Com igo ele não estaria m ais sozinho.
Possuídas por esse pensam ento único, 30 m il garotas abriam cam inho na direção do seu am or. Foi nessa hora que senti a m ão de Sharon soltar a m inha.
20:36. Fraque verm elho? Tudo bem usar verm elho, com o fazem os idosos que m oram no asilo Chelsea, ou com o os j ogadores do Liverpool. Tudo bem usar fraque, com o Fred Astaire, m as os dois j untos? As únicas pessoas até agora que ousaram fazer isso foram os palhaços de circo, pedalando com um a bicicleta m inúscula, ou então – e Bill não conseguia se lem brar exatam ente de com o sabia disso, m as parecia instintivam ente verdadeiro – o dem ônio encarnado.
Mas era isso o que o garoto Cassidy decidira usar, em um a noite no m ês de m aio. Um fraque escarlate e calça com binando, com as lapelas realçadas com fileiras de im itação de diam antes (ou diam antes, com o todas as m eninas que estavam lá insistiam ). Seu cinto brilhava com as m esm as pedras, e tam bém – que Deus nos protej a – sua gravata-borboleta. O olhar de Bill a todo m om ento voltava naquela gravata, com m edo e esperança de que, em um adeus final ao bom gosto, a gravata com eçaria a girar, com as pedras piscando vertiginosam ente. O que significava aquela roupa toda? Qual era a m ensagem que aquelas luvas brancas e a bengala girando queriam passar: um m ágico, um megastar, um anim ador de crianças, um idiota com pleto?
Bill ficou ali de pé e assistiu ao lado de outros j ornalistas, a m aioria hom ens, nenhum deles fã de Cassidy ; não em público, de j eito nenhum . Foi surpreendente, entretanto, ver os lábios dos j ornalistas se m ovim entando em sincronia com m etade das m úsicas, com o se fossem versados nas m úsicas de David pelo poder da sugestão hipnótica. Talvez não conseguissem evitar; talvez tivessem apenas ficado com o rádio ligado na cozinha de casa o dia todo ao lado do escorredor de pratos, e no escritório, perto de um a j anela aberta. As m úsicas de Cassidy iam e vinham em um dia com um do rádio, e com o passar das sem anas entravam no seu sistem a nervoso, querendo você ou não, e você se pegava cantarolando um a canção. É im possível controlar, com o acontece com os surtos violentos.
Por alguns instantes pareceu (para o alívio de Bill e, provavelm ente, para o terror das fãs, apesar de elas estarem gritando dem ais para ouvir a m úsica) que seria im possível ouvir David naquela noite. Ele estava no palco; surgira ali por entre ondas de fum aça branca, com o se estivesse tentando personificar o sol saindo de trás de um a nuvem , e com eçara a cantar – cantar enquanto sorria, o que Bill sem pre pensara ser im possível. O vocalista do Slade, Noddy Holder, até que tentava sorrir, m as term inava parecido com um a daquelas bruxas de Macbeth, olhando atravessado para a boca do caldeirão.
Com relação à afinação, quem saberia dizer? O sistem a de som em White City estava tão ruim , ou a instalação dos fios era tão am adora, que tudo o que se ouvia era um zum bido: um ruído assustador que saía dos alto-falantes com um a leve sugestão da m elodia escondida atrás daquele zunido. Para piorar a situação, na segunda m úsica, sej a lá qual fosse, havia um a apresentação hum orística. Aquilo deve ter sido descrito dessa m aneira no roteiro de m úsicas do show, em bora sej a difícil im aginar algo m ais sem graça: um dançarino vestido de cachorro, com quem o artista dava cam balhotas. “O nom e dele é Tem pestade”, ele confidenciou para a plateia depois que o idiota tinha ido em bora. Elas rolaram de rir m esm o assim . Não tinham ouvido m úsica ainda, apenas um trecho de algo supostam ente engraçado com um cara vestido com um a roupa de pelos: para elas, tudo era revelação. Tudo era David.
Então, Bill im aginou, alguém atrás do palco ligou um aparelho na tom ada ou m exeu em um botão, porque, sem aviso, a voz voltou à vida. “If I didn’t care...” Até que não era um a voz ruim , apesar de algum as vezes dar uns tropeços aqui e ali, e a sra. Hoderness, a diretora do coral da escola prim ária de Bill, teria algo a corrigir sobre a afinação. (Mais alto, David! Som os um a pipa. Ficam os nos ares quando estam os cantando, não é?) Ele tinha a aj uda de duas backing vocals que usavam saias com fenda, profissionais de voz aguda e precisa que j am ais perdiam um a nota. Elas o sustentavam em notas agudas quando ele subia a voz, e brilhavam quando ele corria pelo palco e quando os gritos de desej o j orravam da m ultidão.
– Ele se m ovim enta m uito bem , não é?
Bill olhou de relance para a sua esquerda e encontrou um hom em com pacto, que não dem onstrava a idade que tinha, vestido com um a cam isa índigo e dono de um a barba que m ais parecia um ninho. Ele gritou para ser ouvido, m as não alto o suficiente.
– Com o disse? – Bill gritou de volta.
– O garoto. Vej a só. Ele se m ovim enta bem , tem os de reconhecer. Vej a agora, ele vai para frente rápido, aí está, e agora espere, olhe o que ele faz com seu traseiro.
Bill ficou olhando e viu a figura de verm elho m over-se rapidam ente na direção deles, quase até a beira do palco. Os gritos das garotas ficavam m ais altos. O vulto girava, um a volta e m eia, e depois, antes de ir para a parte de cim a do palco, balançava o traseiro, sacudindo de leve. As duas m etades do fraque se separavam para em oldurar o gesto. Os gritos triplicavam , até soarem com o lam entos. Bill sentia, m ais do que nunca, que estava no lugar errado: no j ogo errado, na profissão errada. Com certeza, no corpo errado tam bém .
– Vagabundo! – gritou o hom em ao seu lado. Bill franziu as sobrancelhas.
– Quem ?
– Ele. Quanta encenação. É com o assistir a um stripper.
– Um o quê?
– Um stripper.
E ele tinha razão. Se Zelda estivesse ali, ou até m esm o Roy, ele teria apontado para o palco e lhes m ostrado a razão para o trabalho deles, o que pagava o salário de todos eles todo m ês. Não era apenas as m úsicas; às vezes não eram as m úsicas m esm o. Era a encenação. Não era um fingim ento ou um a fraude. Ele era um ator, não era? Foi assim que tudo com eçara, na TV, com A Família Dó-Ré-Mi, e agora havia aum entado e crescido, só que dessa vez ele não estava fingindo ser outra pessoa. Estava fingindo ser David Cassidy . Era de tirar o chapéu para o filho da m ãe, ele era m uito bom nisso.
A luz no céu com eçara a esvanecer. Em resposta, as luzes no estádio se acenderam , inundando a tigela funda e longa de m assa hum ana. Bill olhou em volta, distante do palco. Ele estava perto da barreira agora, tinha dado a volta nela; em algum lugar estava a garota desapontada do livro de autógrafos. Todos levantaram o rosto para a claridade, que passava por eles e chegava ao seu destino – o hom em pequeno no palco, esguio com o um a pena, agora preso em um a aura ofuscante.
Dessa vez, contudo, o garoto em evidência, que não era bobo, estava fazendo algo novo. Ele teve a perspicácia de perceber, Bill achou, que todo artista precisa inovar, m esm o que sua arte sej a inferior. A capacidade de convencer passava com o inovação. O m oleque lhes dava as m úsicas porque elas as conheciam e adoravam , m as ele não som ente as interpretava, ele brincava com as m úsicas, colocava o tem pero certo para fazer as garotas acreditarem que as estavam experim entando pela prim eira vez.
“Breaking up is hard to do-ooo...” foi feita na m etade da velocidade, com o astro arranhando a guitarra em volta do pescoço suavem ente, em prestando à letra um toque de tristeza, e o baterista segurando a batida rápida que as m eninas ouviam no disco, usando a vassoura no lugar da baqueta com um .
– Legal – disse o hom em peludo ao lado de Bill. – O filho da m ãe é esperto.
As m eninas atrás de Bill reagiram à m udança da velocidade com o se um a escovinha m assageadora estivesse sendo passada suavem ente nas costas delas. O que ele próprio havia escrito, na voz de David, duas edições atrás? “Sabe quando você ouve um a m úsica lenta e tem arrepios? Bem , vou te contar um segredo, então. Acontece o m esm o quando você CANTA. Sério! Eu posso estar lá em cim a, segurando o m icrofone, e tenho o m esm o sentim ento. Se você j á teve alguém bem perto, em um a pista de dança, vai saber exatam ente o que estou dizendo!” O que, Bill pensou, era tão bom quanto escrever sobre um beij o sem na verdade dizer a palavra. Pete Espinhento cham ava isso de “transa em câm era lenta”, com o se ele soubesse do que estava falando. Ele teria dado um sorriso obsceno se estivesse aqui agora com Bill, e ouvisse os gem idos e gritos.
Havia algo de errado com os gem idos, entretanto.
Existe a dor das em oções que você não espera dom inar, cuj a força e significado você m al entende, irrom pendo de dentro de você em um dom ingo à noite, com um a canção no seu coração; e existe a dor, a dor real, tão real quanto um a agulha. E Bill, ouvindo o ruído constante e indefinido, não conseguia m ais distinguir o que era o quê. Seu estôm ago revirava.
– Qual é seu nom e? – Bill perguntou ao hom em peludo.
– Jerry . Da revista Rock On. – O que isso im porta?
– Venha com igo – disse Bill, virando e o puxando. Eles passaram por quatro ou cinco fileiras de j ornalistas, todos olhando fixam ente para o cantor, e todos irritados por terem de se m over ou serem em purrados para o lado, dizendo a Bill para olhar por onde andava. E então ele e Jerry estavam no espaço vazio ao fundo, olhando diretam ente para a barreira.
– Meu Deus!
A prim eira coisa que ele notou, sem saber por quê, foi um a m ulher de branco. Não era um a m enina, era um a m ulher, definitivam ente. Talvez por volta dos vinte e poucos anos, a m esm a idade dele, m as ela tentara se vestir com o as m ais novas, com o alguém vestida de anj o para a peça de teatro da escola: tênis brancos com cadarços brancos, calça j eans branca, cam iseta branca com “David Cassidy ” im presso sobre o peito. A única coisa que não era branca nela era o rosto. Até m esm o na som bra o verm elho do seu rosto era visível. Estava pressionada entre as barras, não de um a form a ansiosa, e estava verm elha. Era de um verm elho quase roxo, com o um a am eixa, com o se ela estivesse sem ar.
Por todo o cam inho era a m esm a coisa. As pessoas am ontoadas atrás não tinham para onde ir, nenhum a válvula de escape, nenhum a outra direção, a não ser em frente, na direção da fonte de sua felicidade: o am ontoado hum ano estava aum entando, um a onda sobre a onda j á pressionada, e as pessoas na barreira estavam recebendo todo o peso. Um a garota de verde estava quase na horizontal; ela deve ter se arrastado de lado para encontrar espaço e ficou presa. Algum as garotas estavam de costas para as grades, com o se tivessem se virado e tentado desesperadam ente fugir. A m aioria das garotas estava gritando, m as o ruído ficava preso no grito geral, perdido. Ninguém a m ais de 20 m etros de distância faria algum a ideia do que estava acontecendo. David não sabia de nada, não ainda.
– Me aj udem ! Eu perdi m inha am iga!
Bill olhou para a direita e viu um a garota m agra, perto da parte de cim a da barreira, com um a perna sobre a grade. Se ela conseguisse pular para dentro da sala de im prensa, estaria a salvo. Um dos seus sapatos caíra do lado dele. Ele forçou passagem para chegar até ela e agarrar sua m ão, percebendo a pressão dos corpos a centím etros de distância do outro lado das grades. Ele ouviu súplicas enquanto escalava, vozes gritando “Saia da frente”, “Não posso ver”. Atrás dele, David continuava cantando: “Rem em ber whe-e-en y ou would held m e tight...”
Ele chegou até a garota e desaj eitadam ente pegou-a nos braços.
– Me aj ude, por favor! – ela gem eu. – Minha am iga. Por favor, você precisa nos aj udar!
Antes que Bill pudesse puxá-la para ficar a salvo, ele foi puxado para baixo das grades e aterrissou de m au j eito. Ele sentiu algo cedendo em sua coluna, o estiram ento de um m úsculo bem abaixo das costelas.
– O que você está fazendo? – Era um segurança, chateado e m usculoso. Sua cam isa branca estava m anchada de suor.
– Que diabos você está fazendo? – Bill retrucou.
– Senhor, não nos cause m ais problem as. Espera-se que o pessoal desse pedaço sej a o m ais inteligente. Já tivem os problem as dem ais com as lunáticas lá dentro. – Ele sinalizou com a cabeça para a m ultidão.
– Elas vão m orrer.
– Com o é?
– As que estão na frente não conseguem respirar. Estão sufocadas, olhe para elas.
– Está um pouco quente.
– O quê?
– Vou pegar água. Há um balde ali.
– Ah, pelo am or de Deus! – Bill observou o hom enzarrão seguir apressado, depois virou para as grades. Ele viu um a garota bem pequena com o rosto contorcido e a boca aberta, sem em itir som algum , em choque, enquanto a m ultidão atrás dela continuava a em purrar. Um de seus braços curvado para o lado errado. Outro em purrão. A m ultidão era com o um m onstro proj etando-se para frente e se agitando. E agora? Então Bill percebeu que David term inara a canção. Elas estavam vibrando, chorando e m andando para ele seu am or. Seu am or interm inável.
21:59. A água nos acertou no rosto. Algum as vinham im plorando por água e foi isso o que tivem os. Um balde j ogado por um segurança. Depois outro. Estava m uito zangada, sabe. Continuava pensando em um zoológico, só que os funcionários não estavam cuidando dos anim ais. Centenas de garotas estavam esm agadas contra as grades agora e ninguém as abria para nos deixar passar. Eu j á havia perdido um sapato tentando passar por cim a delas para pedir aj uda. Um dos sapatos plataform a que Gillian m e dera. O hom em bonito m e ouviu gritar e tentou m e pegar nos braços, m as foi puxado por um dos seguranças asquerosos.
Ao longe eu ainda ouvia David cantando.
Por que alguém não contava para ele o que estava acontecendo, pelo am or de Deus? Se David soubesse o que estava acontecendo conosco, ele pararia o show e viria aj udar. Onde estava Sharon? Era só o que m e im portava agora. Com pletam ente apavorada, passei os olhos pela m ultidão de m eninas, m as a cabeça loira de Sharon não estava em lugar algum . Isso queria dizer que ela estava em algum lugar no chão. Gritei esse pensam ento terrível para Carol, que sim plesm ente balançou a cabeça. A vida de Carol tinha sido tão cheia de catástrofes que essa não a pegaria de surpresa. Ela sabia com o eram as coisas ruins, o que fazia com que fosse m ais durona do que qualquer j ovem deveria ser, m as tam bém a fazia crer que era possível ver a luz no fim do túnel.
Separando as m ãos, Carol fez um a m ím ica m ostrando que se ela abrisse espaço eu poderia m e abaixar e olhar. Eu assenti com a cabeça. Estava pronta para tentar qualquer coisa. Gillian ficou parada ali, com seu rosto bonito paralisado com o choque, enquanto Carol se virava e se lançava para a parede de garotas atrás dela, fincando suas pernas com o árvores e em purrando-as para trás com toda a força dos om bros, com o se estivesse no alinham ento de um a m assa de j ogadores am ontoados no rúgbi. Um pequeno buraco se abriu entre Carol e a parede, e fiquei de j oelhos para rastej ar debaixo do aglom erado de pernas, na floresta densa de calças de veludo. Estava escuro ali em baixo, m as bem m ais calm o, pois os gritos eram abafados. Logo à m inha esquerda, vislum brei algo. A cabeça loira platinada de Sharon. Era inconfundível. Estiquei um braço. Um sapato veio de cim a e pisou na m inha m ão. Gritei. O sapato m e soltou. Estiquei-m e o m ais que pude para colocar m inha m ão nos cabelos longos de Sharon, e puxei. Um a m echa saiu na m inha m ão. Agora foi a vez de Sharon gritar.
– Desculpe – disse. – Desculpe, bach.
Na tentativa seguinte, consegui agarrar a m ão de Sharon e puxá-la na direção do espaço que Carol ainda estava abrindo para nós.
– Minha costela – gem eu Sharon.
Dentro de alguns segundos, não soube dizer com o, estava subindo pelas pernas de Carol e Sharon vinha atrás, até nós duas estarm os de pé no espaço que tínham os. Nós nos j ogam os nos braços um a da outra, m as o abraço fez Sharon colocar a m ão no lado esquerdo de seu corpo, contraindo o rosto. Precisávam os tirá-la dali. Todas nós precisávam os sair. Subitam ente percebi que algum a coisa estava faltando. David deixara o palco. Um hom em que eu pensei ter visto na r e vista Jackie estava dizendo à m ultidão que se não nos m ovêssem os para trás e nos controlássem os, o show não continuaria. A m úsica parou, m as o som dos gritos ficou m ais alto.
21:24. Em relação a sofrim ento, ele estava quase sem pre enganado e, para ser honesto, vira pouquíssim o da realidade, m as isso Bill sabia com certeza: sem pre, sej a onde for que haj a pessoas sofrendo, elas não serão aj udadas pela presença de Tony Blackburn, um a personalidade do rádio inglês. Se Tony tivesse se curvado aos pés da cruz, falando besteiras ao m icrofone, será que o lam ento das m ulheres teria sido m enos profundo? O Titanic teria afundado m ais facilm ente e com m enos gritos de agonia se o anim ado DJ da Rádio 1 da BBC, de cabelos até os om bros, tivesse anunciado a m ensagem final e edificante do deque superior, com aquele sorriso brilhante, insubm ergível? Se não é o caso, então o que ele estava fazendo ali, insistindo para que m ilhares de fãs de David Cassidy se contivessem ? Em um a crise dessas, com o ar sendo forçado para fora delas, era im provável obedecerem aos conselhos de um hom em que, da últim a vez que ouviram , dissera a elas para com prarem o últim o single da banda Mud. Elas não precisavam de um DJ, pelo am or de Deus. Elas precisavam de um guarda de trânsito.
Bill ficou ali no m eio da área reservada à im prensa, com corpos curvados e esparram ados para todo lado. Alguém , finalm ente, havia tido o bom senso, ou a com paixão, de abrir o único portão na barreira; ou isso, ou ele havia se escancarado sob a força da m ultidão. As garotas se lançaram por ele, im pulsionadas pela fuga desordenada de quem vinha atrás, e se deitaram na gram a, em choque. Não havia m ais m úsica agora, som ente os sons da natureza hum ana, nem calm a nem triste. Um a garota gritava por sua m ãe, que, ou estava do outro lado das grades, em pânico tam bém , ou a m uitos quilôm etros de distância, calm am ente assistindo à TV.
Bill andou sobre coisas pelo chão. Program as am assados, palitos de pirulito tingidos de laranj a, um elástico de cabelo com lantej oulas, um a m alha de lã am arela com um rasgo, um pedaço de curativo com sangue. Um a haste de óculos. Ele levantou o olhar e o baixou novam ente. Seu sapato havia chutado outro sapato. Ele o pegou e inspecionou a cena. Dois hom ens da am bulância estavam tentando colocar um a garota na m aca. Ela não estava se m exendo e seus olhos estavam fechados. Devia haver pelo m enos um as 30 outras gem endo em m acas.
– Posso aj udar? – Bill ofereceu.
– Não, filho. – O hom em da am bulância não olhou para cim a.
– Ela vai ficar bem ?
– Só tenho de levá-la para fora.
Ele continuou andando e se aproxim ou de duas garotas que estavam descansando contra a barreira, um a sentada com as costas apoiadas, a outra deitada sobre o colo da am iga. Ele olhou para o sapato. Era pesado com o um tij olo e gasto no dedão, com a palavra “Dolcis” visível do lado de dentro.
– É seu? Acho que você perdeu um pé.
– Ah, obrigada, não. O m eu era de outra m arca.
– Quer que eu procure? Deve estar por aqui.
– Não, obrigada, de coração. – A garota m orena sorriu. – Não tem m ais im portância.
Bill olhou para a am iga. Elas eram a im agem da Pietá de Michelangelo. A garota m orena segurando a loira, m ais baixa e gordinha, em seu colo.
– Você está bem ? – Ele achara que elas estavam assim apenas por conforto. Então viu o rosto da outra garota. – O que houve?
– Minha costela. – Ela era loira, um a m enina realm ente baixinha, com um sotaque galês m ais forte que o da am iga.
– Que costela?
– Esquerda.
– Por isso eu a estou segurando assim . Dói m enos. Li em um livro de prim eiros socorros que não se deve colocar pressão quando você quebra um a costela. É ruim para a respiração. É m elhor ficar deitada, sem se m exer.
– Você acha que foi isso m esm o? Costela quebrada?
– Talvez. Ela foi pisoteada.
Bill ficou de pé.
– Vou cham ar o pessoal da am bulância. Você precisa ser im obilizada.
– Não, estou bem – disse a garota m achucada.
– E precisam os tirar vocês daqui.
– Nãaaao – ela disse, enérgica dem ais, tossindo com o esforço. Seu rosto se contorceu.
– Pelo am or de Deus – Bill disse. – O que há de errado com todas vocês? Vocês estão m achucadas, algum as quase m orreram , e ninguém faz nada. – Ele parou. – Desculpe. Desculpe. É que, vocês sabem , se eu estivesse m achucado, e m eus pais não estivessem aqui...
A m orena olhou para ele.
– Tem razão – ela disse, baixinho. – Eu disse para irm os em bora e procurar aj uda, m as...
– Mas eu disse para ficarm os aqui – disse a loira. – Ele ainda nem tocou “How Can I Be Sure”, não é? Não podem os perder essa. Tenho o resto da vida para ficar doente.
Bill sorriu. Ele não entendia, ainda m ais agora, com todo aquele estrago ao seu redor, m as o que ele poderia fazer? Resignar-se à vida dos outros e suas estranhas form as de am or. Ele se inclinou para frente e tocou a garota loira no om bro.
– Se cuida, tá? Fique deitada. Deixe sua am iga cuidar de você.
– Eu sem pre deixo, não é, Pet?
A m orena encantadora olhou para ele.
– Diolch yn fawr – ela disse.
Dee olk in o quê?
– Até m ais – Bill falou, virando-se. Havia m eninas passando por cim a da barreira agora; elas haviam conseguido algum tipo de escada para subir e alguém poderia cair e ter de ser levantado.
– Até m ais – veio um a voz por trás dele. Ele não tinha certeza de quem era, com todo aquele ruído. O barulho aum entou. Algum a coisa estava acontecendo lá em cim a. Os gritos retornaram . As luzes estavam sendo irradiadas novam ente na direção do palco. David estava voltando.
21:24. Nós nos sentam os novam ente, só nós duas, eu apoiada contra a barreira com Sharon no m eu colo, tentando processar o que acontecera. O cenário ao nosso redor era o m ais próxim o que j á havíam os visto do final de um a batalha, só que os soldados feridos eram todos m eninas. Muitas delas estavam sendo carregadas em m acas, algum as gem endo e trem endo. As que não estavam gritando eram as que preocupavam . Na gram a toda rem exida havia centenas sentadas, enroladas em cobertores, m enos chocadas com a perda da vida do que pela perda de David.
– Você arruinou m inha vida, David – gem eu um a.
Carol levara Gillian para fora para tentar achar um a bebida quente. Pensei que Sharon precisava de um chá com açúcar, por causa do choque, e eu não acharia nada m al um tam bém . Minha m ão direita estava latej ando e devagar m eu coração estava voltando ao ritm o norm al. Gillian se portara com o um pavão em m eio àquilo tudo, um pavão, belo e inútil. Talvez a categoria “Personalidade” daqueles testes de m últipla escolha valesse para algum a coisa, no fim das contas. Vi a personalidade de Carol e nunca m ais iria olhar para ela da m esm a form a. Um a crise pode dizer m uito sobre as pessoas, separar os hom ens dos m eninos, ou das m eninas, nesse caso. É isso aí, Carol, é isso aí.
Ainda estávam os sentadas ali, Sha e eu, quando aquele m oço chegou, aquele com o rosto bonito que m e pegara quando estava escalando a barreira. Ele tinha cabelos um pouco com pridos e claros, porém m ais escuros que os de Sharon. Não sei quantos anos ele tinha; não conseguia adivinhar a idade de ninguém com m ais de 19 anos, as pessoas apenas ficavam m ais velhas. Ele quis m e dar o pé de um sapato. Engraçado, ele se lem brava que havia perdido o m eu. De qualquer form a, não foi o sapato Judas plataform a que disparara todo aquele problem a. Sentia que era j usto ter perdido aquele m aldito sapato enquanto estava tentando resgatar Sharon.
O m oço nos disse que precisávam os ir em bora, m as Sharon estava bem o suficiente para dizer que ficaríam os para ouvir David. Eu sorri e fiquei ao lado dela. Afinal, ela j á tinha passado por m uitas coisas, sabe, m as eu não sentia da m esm a form a. Aquilo tudo, os gritos e as pessoas m achucadas, nada era culpa de David, m as por causa dele. Dele e nossa. As garotas o am avam tanto que estavam sendo levadas em am bulâncias...
O m oço bonito disse para Sharon se cuidar e colocou a m ão em seu om bro. Eu quis que ele colocasse a m ão no m eu om bro tam bém , m as se ele tivesse feito isso eu com eçaria a chorar e não pararia nunca m ais.
– Se cuida, tá? Fique deitada. Deixe sua am iga cuidar de você.
– Eu sem pre deixo, não é, Pet?
Estava tão cansada e tão agradecida que respondi diolch yn fawr, em vez de obrigada. Ele m e olhou de um j eito engraçado. O que ele deve ter pensado de m im ? O galês era um a língua estranha para ele. Esqueci que não devem os falar galês com pessoas que não conhecem os. De algum m odo ele parecia fam iliar. Com o se eu o conhecesse.
– Até m ais! – gritei atrás dele. – Até m ais!