Eu Acho que Amo Você

Allison Pearson · Capítulo 7 de 27

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Eu Acho que Amo Você

Capítulo 5

5

 

– Tudo bem , eu tenho:

 

1. pigm entação propensa a sardas

2. um a pele clara e delicada que ruboriza facilm ente 3. pele pálida com regiões oleosas ou

4. nenhum a das anteriores?

Estávam os no Kardom ah Café, ao lado da praça do m ercado, tom ando o café espum ante que eles serviam em xícaras e pires transparentes. Não gostávam os m uito do café, m as achávam os que parecia am ericano, então encarávam os. O café vinha escaldante e queim ava a nossa garganta, depois ficava frio e com restos de espum a, sem nunca ficar gostoso para beber. O Kardom ah era o café m ais legal da cidade, na nossa opinião. As m otos m ais cham ativas ficavam estacionadas em frente. O serviço era lento e os cinzeiros só eram esvaziados a cada dois dias, m as havia um a m áquina de fliperam a próxim a à porta e flores artificiais em um vasinho sobre as m esas. O café era caro, m as Sharon e eu conseguíam os fazer com que duas xícaras e um a torrada dividida por nós duas durasse boa parte da tarde. Era só evitarm os os olhos do garçom , apenas isso. Naquele sábado, o local estava lotado e m al podíam os ouvir o que falávam os com o barulho da m áquina de café lim pando a garganta a cada segundo.

Estávam os usando nossos ponchos sobre cam isas de gola e calças de boca larga. Meu poncho era m arrom e bege, tricotado por Mam gu, e tinha tam bém um gorro de crochê com um a aplicação de flor em dois tons de chocolate, que relutantem ente tirei ao entrar. Estava usando um a gargantilha m arrom de veludo, um pouco apertada, m as eu acreditava ser um acessório elegante, e deixava m eu pescoço m ais longo. (Meu pescoço era um dos m eus pontos fracos.) Sharon estava sentada do lado oposto ao m eu com um poncho verm elho com longas franj as brancas nas bordas e um em blem a de David com um sorriso feliz na frente. Ela lia em voz alta o teste de m últipla escolha na página de beleza.

– Bom , o que você acha, Pet? Que tipo de pele eu tenho?

– Nenhum a das anteriores – disse com cautela.

– Você é b, sem dúvida – ela afirm ou, circulando a resposta.

O aniversário de Gillian era naquela sem ana e estávam os todas na cidade com prando presentes. Tínham os deixado Olga e Angela explorando, sorridentes, a liquidação da perfum aria Boots. Particularm ente, tinha com o certo que m eu presente seria o m elhor. Achei que tinha acertado em cheio na com pra de um kit de som bras Mary Quant. A paleta de cores ia do azul m ais claro, quase o azul-celeste da cor dos olhos de Gillian, até um m aravilhoso índigo. No estoj o preto laqueado com o logo da Mary Quant, o kit era de um a beleza m agnífica, e parte dela vinha de pensar no quanto custou. Mais do que gastei nos presentes de Natal para m eu pai e m inha m ãe, algo que m e deixou levem ente desconfortável, m as estava tão em polgada com a ideia da surpresa e gratidão de Gillian que qualquer despesa valeria a pena.

Mesm o quando não estava conosco, Gillian estava em nossas conversas. Ela pertence a um tipo de garota que deve ter existido sem pre, m as isso não fazia ela ser m enos fascinante. Gillian devolvendo um a bata na loj a porque o bordado no busto descosturara prendia m ais a atenção do que o restante de nós descendo as Cataratas do Niágara em um barril. Um a tarde inteira era gasta especulando sobre se ela voltaria com Stuart. Gillian e Stuart term inavam e voltavam com m ais frequência que Elizabeth Tay lor e Richard Burton. Eles eram nossos atores de cinem a.

– Ei, Susan Dey. Sonhando acordada? Bom -dia! Vam os fazer o teste ou não? – Sharon batia de leve na m esa de fórm ica verm elha com um a colher de chá para cham ar m inha atenção.

– Não diga o nom e dela – protestei.

– Susan Dey , aquela vadia sortuda – sibilou Sharon sem m alícia, ou pelo m enos sem m uita.

Todo grupo precisa de um inim igo em com um . Para os fãs de Cassidy, era Susan Dey, a atriz que fazia a irm ã de David em A Família Dó-Ré-Mi. Na verdade, não odiávam os Susan Dey. Eu ficava irritada porque queria ser ela e não poderia haver duas de nós e ela era afrontosam ente bonita – e, para com pletar, a gota d’água: obviam ente um a pessoa m eiga. Nas entrevistas, Susan sem pre negava que havia algum a coisa entre ela e David. Em bora trabalhasse com David todos os dias, Susan dizia não ser nem um pouquinho afetada pelo charm e que derrubava m etade das garotas do planeta.

Sharon e eu tínham os nossas suspeitas, m as preferíam os dar a Susan o benefício da dúvida. A outra opção era frustrante dem ais para ser considerada. Passam os bastante tem po estudando fotos dela e, apesar de nunca term os dito em voz alta, acho que teríam os concordado que, em concorrência direta, David deveria preferir a beleza californiana estonteante de Susan a duas fedelhas do País de Gales que tinham que estar na cam a por volta das 20:30.

Nossa im plicância não era só com Susan, vej a bem . Qualquer m ulher na vida de David era fonte de um a especulação angustiada. Em agosto, nossa revista publicou a foto de um a garota m agra, m uito bonita, de cabelos castanhos curtos usando um biquíni, sentada ao lado dele em um a piscina. A cham ada dizia: David relaxando com um a am iga.

Que am iga? Que tipo de am iga? A garota m e deixou doente de ciúm es. O nom e dela era Beverly Wilshire. Não consegui descansar até a edição de setem bro, quando a revista publicou outra foto da m esm a garota, desta vez usando um a cam isa m asculina e j eans. Descobrim os que ela não se cham ava Beverly Wilshire, no fim das contas. Esse era o nom e do hotel em que David estava! Ela se cham ava Jan Freem an e era a substituta de David nas film agens de A Família Dó-Ré-Mi. Então tudo bem . De qualquer m aneira, nunca pensei que ele iria gostar de um a garota com um cabelo curto daqueles.

– Escuta isso – Sharon continuava pressionando com o teste de beleza, rapidam ente circulando as respostas enquanto a caneta descia a página.

Um a das coisas que eu adorava em Sharon era com o as coisas eram definidas para ela, não parecia lhe ocorrer que o m undo era desconcertante ou assustador de form a algum a. Estávam os sem pre fazendo esses testes de m últipla escolha que deveriam revelar com o ficar m ais bonita ou m ais atraente, ou definir seu tipo de personalidade. Os garotos não ficavam fazendo testes sobre o que poderiam fazer para que nós gostássem os deles, não é? Mas nós continuávam os fazendo testes m esm o assim . Acho que éram os m uito desesperadas por dicas sobre com o crescer e nos tornarm os desej áveis.

Sharon sem pre assinalava a resposta que achava que era a certa. Destem idam ente, dizia a verdade sobre ela. Quanto a m im , ficava olhando para as alternativas a, b, c e d por um a eternidade e tentava um olhar furtivo para as respostas que estavam de cabeça para baixo no rodapé da página. Sem pre ponderava que escolhas provariam que eu era o m elhor tipo de garota, e depois trocava as respostas se o resultado não fosse o tipo de personalidade certo. Quando finalm ente fazia um a escolha, m esm o que fosse a correta, ficava im aginando onde as outras teriam levado.

Vou lhe dizer o que é realm ente contraditório: eu trapaceava em testes de m últipla escolha, até quando estava sozinha. Fingir ser m elhor do que se é pode parecer norm al para outras pessoas, m as tentar enganar a si m esm a era m uito esquisito. Soava dissim ulado e vergonhoso, com o da vez em que colei a m aioria das respostas de Olga, quando ela se sentou ao m eu lado durante a prova de física e, por com pleta sorte, m inha nota foi m elhor que a dela. Ela sabia o que eu havia feito, m as nunca disse um a palavra. Sim plesm ente tirou os óculos e m assageou o osso do nariz de um m odo que expressava sua decepção. Parece que não conseguia m e conter. Com o poderia explicar? O fato é que as outras garotas pareciam reais para m im de um a m aneira que eu não sentia que era. Sentia com o se ainda estivesse tentando m e form ar, apressadam ente, im provisando m inuto a m inuto. Mas o m ais engraçado era que não m e im portava por estar assustada e inacabada quando estava com Sharon: ela era forte e definida o suficiente por nós duas.

Meus pensam entos foram perturbados por um guincho alto:

– Oh, você não vai acreditar, Petra. Escuta só: “Você fez de 8 a 13 pontos. Você é m uito desencanada com sua aparência!” – Sharon riu e deu um a m ordida na torrada antes de passar o últim o pedaço para m im . As uvas-passas estavam queim adas e tinham gosto de carvão, m as eu estava fam inta.

– Sha, pare de ler, tá? Isso está m e dando urticária.

– Espere um pouco. Agora vem a parte boa. Diz: “Mesm o que você ache que é a garota m ais sem graça e cheia de problem as do m undo, nos dias de hoj e não tem m ais desculpa. É fácil criar um a nova im agem para si m esm a, pois é caráter e téc...”

– Técnica.

– ... “técnica que im portam de verdade.”

Sharon sem pre tirava dúvidas sobre palavras com igo. Eu aj udava com as palavras e ela com os desenhos, esse era nosso acordo. Ela virou a página da revista. A suj eira do chá dos clientes que se sentaram antes de nós ainda estava sobre a m esa, e um saquinho aberto estava espalhando açúcar em um a área grande.

– O que é técnica?

Mergulhei um dedo na espum a do café frio, depois o rolei no açúcar derram ado e lentam ente o lam bi.

– Hum . O m odo com o você faz algum a coisa. Com o quando você pinta um quadro ou eu toco violoncelo. Ter boa técnica é segurar o arco direito e se sentar corretam ente. Um a técnica ruim é ser desleixado, com o só usar um a parte do arco, tocando toda tensa e arqueada. Basicam ente, se você tem boa técnica, consegue um som m elhor.

Ressonância. Eu m e lem brava da palavra que a srta. Fairfax m e ensinara. Quando o violoncelo ressoa, ele parece tão belo quanto um a floresta, se as florestas pudessem revelar seus segredos.

Sharon assentiu com a cabeça.

– Você precisa tocar para aquela princesa Margaret, não é?

– Depois de voltarm os do show de David. Tem os que pensar nas roupas para White City prim eiro. Acho que vou usar m inha calça de veludo e m inha cam iseta crem e com m eu casaco de couro m arrom . O que você acha?

Eu era especialista quando o assunto era m e esquivar de perguntas sobre o violoncelo. Am ava m eu instrum ento tanto quanto detestava falar sobre ele. Queria falar sobre coisas que fizessem com que eu m e sentisse igual aos outros. O problem a é que o violoncelo não é um bom instrum ento se você quer ser invisível. Fique com a flauta, é o m eu conselho. A reação padrão das outras pessoas quando eu estava carregando o violoncelo era: “Com o você consegue colocar esse violino debaixo do queixo?” Não era nada engraçado depois da vigésim a vez; não foi engraçado da prim eira vez. Há algum as sem anas eu estava carregando o enorm e estoj o do violoncelo até o ônibus da escola e um garoto no banco de trás se levantou e gritou:

– Ei, m agrela, toca um pouco do seu banj o pra gente!

Desde então, parei de levar o violoncelo para casa e o guardava atrás do piano na sala de prática m usical da escola. Tanto m inha m ãe quanto a srta. Fairfax pensaram que eu estava praticando para o concerto em todos os intervalos e alm oços, e eu queria, queria m esm o, m as não ia arriscar deixar m inhas am igas. Elas poderiam ficar se perguntando onde eu estava. Pior ainda, a preocupação que eu não queria adm itir, nem para m im m esm a, era que elas poderiam não sentir m inha falta – e um dia eu voltaria e descobriria que m eu lugar tinha sido tom ado. Com o em um a sala onde retiraram um a cadeira e reorganizaram a m obília, e então você nem se lem bra de que a cadeira um dia esteve ali. Karen Jones desaparecera do dia para a noite, com o um abaj ur que ninguém m ais gosta. Outro dia na educação física, Karen teve de fazer dupla com Susan Fedida. Aquilo era um aviso ou talvez um pressentim ento. Além do m ais, não queria que Gillian m e visse com o um a “nariz em pé” arrogante da m úsica clássica.

Im pressionar a princesa Margaret ou Gillian Edwards? Não era nem um a disputa.

– Por acaso vocês duas term inaram ? – A garçonete estava parada ao lado da nossa m esa com a m ão no queixo.

– Ainda não – respondeu Sharon. Ela havia colocado o chá frio do bule do cliente anterior em sua xícara vazia e a ergueu com um sorriso bem -hum orado na direção da garçonete, que saiu andando com altivez.

– Essa m ulher tem a cara de um traseiro am assado.

– Sha-rrron.

– É sim . Só porque som os pobres dem ais para pedir um a com ida decente. Se você pede pernil e batatas fritas, eles te deixam em paz. Você gastou um a grana com o presente da Gillian, não foi?

– Não m uito. Não tinha m uito depois de com prar o ingresso para o show.

Meu pé tocou a sacola debaixo da m esa e senti um arrepio de prazer pensando na carga preciosa que havia ali. Tinha certeza de que o kit sofisticado de som bras Mary Quant logo m udaria m inha vida para m elhor. Em m inha m ente, j á estava prevendo várias cenas afetuosas. Gillian cham ando as outras garotas em seu quarto fabuloso no seu aniversário.

– Você viu o que Petra m e deu?

Gillian recebendo elogios por sua m aquiagem no sábado à noite na Starlight.

– Sim , é índigo, do estoj o de som bras Mary Quant que Petra m e deu de aniversário.

Quando a câm era virava, lá estava eu no centro do palco dessa vez. Petra seria prom ovida para m elhor am iga de Gillian, para o espanto do restante da turm a. Petra com o a sábia e espontaneam ente engraçada confidente no quarto de Gillian. Petra seria até, quem sabe, convidada para acom panhar a fam ília Edwards para o acam pam ento das férias de verão na França. Eles eram os únicos que viaj avam para o exterior.

As fantasias com Gillian m ais ou m enos se confundiam com m eus sonhos com David, preenchendo m uito do m eu tem po acordada conform e seu aniversário se aproxim ava, e então Bach teve que ficar em segundo plano. Sem pre fui m eticulosa com relação à prática. Agora, sem pre que olhava para m eu violoncelo, m e sentia culpada, com o se o instrum ento soubesse que não vinha m ais em prim eiro lugar.

– Com prei um crem e Ponds para ela – Sharon estava dizendo. – Lim pa sem ressecar a pele, deixando-a radiante, o anúncio dizia.

Aos 13 anos, nossa noção de sofisticação era totalm ente influenciada pelas revistas. Éram os consum idoras perfeitas, Sharon e eu, acreditando em absolutam ente tudo o que as revistas diziam . Eu tinha a zona T oleosa, e obedientem ente tentava dom á-la com Leite de Lim peza Anne French. Um frasco custava m uito, m as a tam pinha azul e pontuda, com seus sulcos agradáveis, causava um a sensação boa e significativa quando você o abria. Fazia com que eu sentisse que tinha um a série de cuidados com a pele, do tipo que os editores de beleza dizem ser vital. Nunca era cedo dem ais para com eçar a cuidar da pele.

Com pram os um daqueles pequenos barris m arrons de xam pu Linco Beer porque Sharon lera que dava incrível brilho aos cabelos. Ficam os parecidas com aquela m orena do anúncio que tinha um a cortina de cabelo tão brilhante que você podia ver seu reflexo nele? Claro que não. Cheirávam os a lúpulo e, se você quer saber, isso em pata na com petição do pior cheiro do m undo com ovos podres. O cheiro é tão ruim que faz suas orelhas doerem . Durante nosso período de Linco Beer, o tio de Sharon, Jim , perguntou se tínham os com eçado a ferm entar nossa própria cervej a. Não era o tipo de atenção m asculina que tínham os em m ente.

Havia tantos problem as que garotas com o nós podíam os ter. E as m ulheres elegantes de Londres... bom , elas tinham todas as respostas:

A tendência atual é de sobrancelhas delicadas e bastante curvas, não com o as suas, que crescem grossas, escuras e cerradas! Qual das alternativas a seguir você faz? 1. Arranca-as ferozm ente até se transform arem em linhas finas e m odernas. 2. Deixa-as com o estão, m odernas ou não.

3. Apara o que está desalinhado na parte interna, afina a parte externa para ficar m ais

estreita e ilum ina o todo com tintura m arrom de um a cor m ais clara.

4. Arranca as sobrancelhas por igual no com prim ento todo, tirando fios principalm ente

da parte de baixo.

 

Um núm ero surpreendente ficou com a últim a alternativa. Nós nos preocupávam os m uito com as sobrancelhas. As m inhas eram com o lagartas peludas, herdadas do lado da fam ília do m eu pai. Minha m ãe não. Tinha os arcos da Grace Kelly, é claro. Mas eu não queria com eter o m esm o erro de Angela. Ela as arrancou na parte de cim a, e agora não cresciam m ais. As sobrancelhas são com o pontuações no seu rosto; você só percebe o quanto elas fazem sentido quando está sem elas.

As revistas geralm ente tinham sete páginas de coisas que você tem de errado na sua aparência, seguidas de um artigo cham ado “Confiança: com o consegui-la”. Um dia, quando fôssem os bem m ais velhas, poderíam os dar risada daquilo tudo, m as ainda não. Se nossa pele ainda era problem ática e suj eita a erupções incontroláveis, nossos corações tam bém eram ; extrem am ente delicados e se m achucavam facilm ente.

As revistas podem influenciar você a fazer loucuras, vej a. Aquela tarde no Kardom ah, Sharon anunciou que iria fazer perm anente nos cabelos. Ela estava lendo sobre “Form atos dos Rostos e seus problem as”:

Um rosto redondo pode facilm ente parecer um a lua cheia, especialm ente se você tem o corte de cabelo errado. Franj as e cortes m ais curtos não favorecem rostos redondos. Os cabelos são im portantíssim os, portanto tenha com o obj etivo volum e dos lados. Um perm anente leve dará volum e ao cabelo, fazendo com que fique levem ente ondulado, se você não gosta de um a cabeça cheia de cachos.

– Para com isso, você tem os cabelos m aravilhosos, o que está dizendo? – discordei.

O rosto alegre de Sha foi subitam ente escurecido pela dúvida. Sua cabeleira loira de bebê era tão linda que eu não conseguia im aginá-la de outra form a. De todas nós, Sharon era a que chegava m ais perto do ideal de um a princesa Disney . Não era apenas os longos cabelos dourados que cacheavam alegrem ente nas pontas. Havia tanta doçura nela que não ficaria surpresa se ela escancarasse a j anela e com eçasse a cantar para os pássaros a qualquer m inuto, que entrariam e a aj udariam a fazer um vestido.

– Tudo bem pra você com as bochechas que tem . – Sharon sugou suas bochechas até ficarem côncavas. Ela parecia m inha avó quando estava sem a dentadura. – Meu rosto parece um a lua.

– Pare com isso. Eu pareço aquele cachorro m agricela, o Whippet, que precisa de um a bela refeição.

– Você precisa de um exam e de cabeça, Petra William s, só pode ser. Você parece um a m odelo. Eu sou gorda – ela disse de m aneira direta.

– Não, não é. Você perdeu m uitos quilos. Olhe para a sua blusa, está larga em você.

E assim levávam os o j ogo, o eterno pingue-pongue da am izade fem inina, o tipo de apoio que não apoia verdadeiram ente, m as que querem os m esm o assim . O j ogo que sem pre term ina em em pate se você quiser m anter a am iga.

A garçonete veio e depositou ruidosam ente o prato de m etal com a conta.

– Isso aqui não é um hotel, sabiam ?

Pagam os e fom os cam inhando pela rua até a beira-m ar. Em poucos m inutos estávam os nos degraus de concreto que levavam à praia coberta de pedrinhas. Depois do ar quente e úm ido do café, a brisa do m ar era com o um tapa. Quando abri a boca, o ar salgado entrou nos m eus pulm ões. Do outro lado da baía veio o som fúnebre da sirene que dizia que estava na hora do intervalo dos trabalhadores da usina siderúrgica. Ao longe, podia ver a cham a trem ulando no topo da torre de gás. Ela nunca apagava. Meu pai agora devia estar com endo os sanduíches que m inha m ãe fez para ele. Presunto e queij o todos os dias. Schinken mit Käse, m inha m ãe dizia baixinho enquanto os em brulhava. Papai pediu com m enos m anteiga, um a cam ada m uito grossa o deixava enj oado. A m im tam bém . Ele nunca m ais pediu nada.

Sharon estava exam inando as pedrinhas na praia e eu m e sentei ao lado dela com os j oelhos enfiados debaixo do m eu queixo e m eu poncho apertado ao m eu redor. Ela estava sem pre procurando a pedra ideal, principalm ente as que ela dizia que pareciam com ovos de m elro. Eram verde-azuladas, bem pálidas, salpicadas de pintinhas pretas. Ela gostava de desenhá-las. Preenchia páginas e páginas de um livro de desenhos com elas.

Contei a Sha que tem ia que m eu plano de ver David nunca desse certo. As m entirinhas inofensivas que contara para m inha m ãe estavam ficando m aiores e m ais com plicadas. Eu escrevera a história que contara para m inha m ãe até então no m eu diário e o coloquei em um esconderij o debaixo da m inha cam a, assim poderia m e lem brar de todas as lorotas. Só de im aginar m inha m ãe descobrindo que eu ia a um show de m úsica pop j á m e doía tanto quanto não ir com as outras m eninas para White City .

Sharon disse que daria tudo certo, ela e a m ãe m e cobririam . Essa era a vantagem de m inha m ãe se recusar a se m isturar com qualquer outra m ulher na cidade porque elas eram todas com uns e iam até o furgão de chinelos e bobes nos cabelos para com prar peixe. Pelo m enos ela não podia conferir nada com as outras m ães.

Eu adorava o píer. Minha m ãe achava o m ar deprim ente. Ach, sem pre indo e voltando e nos lem brando que ia e voltava antes de você nascer e que continuará indo e voltando séculos depois de você ter m orrido. O m ar era indiferente ao sofrim ento hum ano, m inha m ãe dizia. Eu, contudo, achava consolo nas coisas que ela odiava. O m ar sugando enquanto tom ava fôlego para vir para a frente, e depois o rugido quando recuava, arrastando as pedrinhas com ele. Era a canção de ninar da natureza, com o a m ãe fazendo “shhh” para sem pre para um bebê chorando. Shuuussssh. Shhooooossh. Se você se deitasse com a cabeça para trás, m oldando seus braços e suas pernas nas pedras, podia sentir a si próprio desaparecendo. Era um sentim ento bom ; não estar m ais ali. Gostava de fazer isso no verão, quando o calor das pedras penetrava nos ossos.

Cada vez que íam os à praia, o pôr do sol era diferente. Às vezes as nuvens eram tão bonitas e m alucas que se você as pintasse com o realm ente eram , diriam que você estava inventando. Naquela tarde, o sol parecia um a pastilha redonda que fora chupada até ficar bem fina, prestes a quebrar.

– Olhe – disse para Sharon –, um sol de pastilha de vitam ina C.

 

Disse para m inha m ãe que iríam os ver O Messias, um concerto de Handel.

Sabia que ela aprovaria. Ela gostava da alta cultura. Na verdade, aprovava a altitude em geral. Saltos altos, a alta ópera, copos altos que ela com prava com selos que j untava da loj a Green Shield e enchia com lim ão, Cinzano Bianco e m uito gelo picado.

– O coquetel das m ulheres pobres – cham ava. Hom ens altos em lugares altos teriam sido o ideal da m inha m ãe.

Não era um a m entira com pleta sobre O Messias. Haveria m úsica e adoração de certo tipo, precisaríam os pegar o trem e precisaríam os de dinheiro para com er algum a coisa. Descobri o concerto na seção “Próxim os Eventos” da revista South Wales Echo . Era na m esm a noite do show de David no White City, só que seria em Cardiff, não em Londres. Então, era realm ente perfeito.

O problem a é que essa era a prim eira grande m entira que contava a ela na m inha vida e eu estava apavorada. Se não quisesse tanto ir, nunca teria m e atrevido.

– Handel é sublim e – m inha m ãe dissera quando contei. – Qual vai ser o coro, Petra?

– The Cwm bran Orpheus – disse.

– Nada m au. Eles não são os m elhores, m as não é tão ruim – ela disse, retirando um a luva de couro e passando a m ão pelos cabelos loiros ondulados. – Fico feliz por você fazer esse esforço, Petra. Suas am igas são m eninas legais, eu espero, de boa fam ília e tudo m ais?

– Sim . – Tentei im aginar m inha m ãe conhecendo a fam ília de Sharon, m as m inha m ente ficou em branco só em pensar na possibilidade.

Estávam os em um pedaço estreito de terra, na parte de trás da casa, que m eu pai havia transform ado em um canteiro de frutas e legum es. Era um a horta para nossa alim entação. A única concessão à decoração era um a fileira de ervilhas-de-cheiro ao longo da parede de tij olos que nos separava do sr. e sra. Hughes, da casa ao lado. (Mesm o depois de 17 anos, m eus pais ainda não cham avam os vizinhos pelo prim eiro nom e, e nunca cham ariam , não no País de Gales.) Os caules verdes das ervilhas subiam e enrolavam -se ao redor de estacas feitas de bam bu. Quando as flores surgiam – nas cores rosa, branca e violeta –, pareciam as m ais lindas rosetas de papel. Ervilhas-de-cheiro eram o tipo de flor nas quais as fadas dorm iam . Um dia Carol falou que não acreditava em Deus. Ele fora inventado por hom ens velhos para im pedir os j ovens de se divertirem . Mas, pergunto a você, por que a Natureza iria se im portar em fazer algo tão inutilm ente belo quanto a ervilha-de-cheiro?

O arom a era delicado e intenso ao m esm o tem po. Inebriante. Essa era um a palavra de “Aum ente seu Poder com as Palavras”. Substantivo: encantam ento, um estado anorm al que é essencialm ente inebriante. A condição de estar em briagado. Forte excitação ou euforia.

Minha m ãe m e ensinou a cortar as flores todos os dias do verão; fazendo isso, elas voltariam sem pre. Ela adm irava as ervilhas-de-cheiro por sua abundância, acho, m as tam bém por sua determ inação em não deixar a beleza m orrer.

Para qualquer outra pessoa, suponho que não seria m uito m ais do que um sim ples j ardim , m as eu adorava ficar ali com m eu pai. Era o nosso lugar. Ele fum ava seu cachim bo e, quando ele apagava, eu corria para dentro para pegar seus fósforos. Ele tinha um a bolsa para guardar o fum o, e nós costum ávam os nos sentar no últim o degrau, atrás dos fertilizantes, enquanto papai raspava o fum o preto e pegaj oso que sobrava no interior do cachim bo com um fósforo e então levava um tem pão pressionando o fum o novo, em purrando a folha m arrom para baixo até que ficasse com o um ninho. Papai dizia que eu era inteligente com o m inha m ãe porque eu sabia ler m úsica e tirava notas boas. Mas ele era o m ais inteligente de nós, isso eu garanto.

Quando papai tinha a m inha idade, aprendeu sozinho o sol-fá tônico e conseguia tocar qualquer coisa que quisesse. Com prou o piano que ficava na nossa sala de visitas com os salários que econom izou até os 18 anos. Não achava certo m eu pai quando m enino ter que entrar em um buraco e rastej ar apoiado nos cotovelos e j oelhos para pegar carvão. Mas papai dizia que foram dias de herói.

– Os m elhores do m undo, querida, você não acharia nenhum m elhor.

Ele ficou triste quando teve de voltar à superfície para trabalhar na siderúrgica, por conta de seus pulm ões ruins. Seis sílabas. Pneu-m o-co-ni-o-se. Era a palavra m ais com prida que conhecia. Pneum oconiose. Era um risco ocupacional.

Lá fora no j ardim , onde não perturbaríam os m inha m ãe, m eu pai costum ava aquecer a voz:

– Doh, reh, m i, fah, soh, lah, si, doh.

Era preciso respirar a partir do diafragm a, dar a cada nota seu peso total.

Na parte de baixo dos degraus do j ardim havia um pequeno anexo de tij olos que era um sanitário antes de pegarem um canto dos nossos três quartos e o transform arem em um banheiro. Quando eu era pequena, papai costum ava m e carregar para fora à noite, subir m inha cam isola e m e sentar no assento de m adeira. Tentava segurar o xixi e soltá-lo silenciosam ente, porque não queria acordar as aranhas. As aranhas eram enorm es e suas teias cobriam as paredes de tij olos com o um a cortina para fantasm as.

Suba até o topo da nossa horta e terá um a visão incrível. O m ar espalhava-se com o um m anto reluzente até Pendine Sands, onde um hom em estabeleceu o recorde m undial de velocidade em terra. Era sem pre possível saber quando um a tem pestade estava a cam inho. O céu sobre o m ar ficava da cor de chum bo e as nuvens se transform avam em um am arelo sinistro, com o se o sol atrás delas estivesse enfraquecendo por algum m otivo.

– Rápido, por favor. Segure esse arbusto enquanto eu o am arro, Petra.

Os arbustos de groselheira-preta estavam se debatendo ao vento, um sábado antes de irm os a White City. Minha m ãe m e fez segurar cada arbusto enquanto ela os fixava ao bam bu com um pequeno pedaço de cordão. O cordão ficava no bolso da frente de seu casaco e ela o cortava com um a faca. Mesm o quando estava cuidando do j ardim , m inha m ãe era chique. Naquela m anhã, ela estava usando calça j usta estilo cam ponesa, que teria feito qualquer outra m ulher parecer um búfalo d’água, e um a cam isa m asculina para dentro da calça, presa por um cinto dois tons m ais escuro. O cachecol de lã estava solto com um nó na altura do busto. Ela estava tão elegante quanto Am elia Earhart ao lado de seu avião.

– Certo com o a chuva! – m inha m ãe gritou para o céu. – O que há de tão certo sobre a chuva? Por que os britânicos dizem isso? As frutas precisam de sol.

Ela pegou a enxada e pareceu esticar a ponta enferruj ada de m aneira acusadora para m eu pai, que estava sentado no degrau de cim a fum ando seu cachim bo e apenas olhando para ela. O tem po era culpa dele. Tudo era culpa dele. Ele sorriu e ergueu as m ãos para o alto, com o se estivesse se rendendo.

– É apenas um ditado, Greta. Não leve para o lado pessoal, am or. Estam os em m aio. Haverá tem po suficiente para que as frutas am adureçam .

– Ach, m as elas não terão sabor. Terão sabor de chuva.

Se pudesse, ele iria até o céu e traria o sol nas costas para ela, sei que iria. Meu pai adorava m inha m ãe, em bora ele nunca tenha descoberto os sacrifícios certos para satisfazê-la. Segundo m inha m ãe, ele a conquistou com falsas prom essas e ela j am ais lhe perdoaria por isso. Quando eles se conheceram , Gly nn William s era a estrela na ópera da cidade e m inha m ãe era um a j ovem soprano. O dueto que eles fizeram no m usical Kismet recebeu um a excelente crítica no j ornal local.

Minha m ãe com eteu um erro. Ela pensou que m eu pai subiria na vida, m as o que aconteceu foi que ele apenas escalou a m ontanha para olhar a vista.

Meu pai tinha o olhar do Clark Gable, ou pelo m enos foi isso que Gwennie, da m ercearia, disse à sra. Price. Nunca vi Clark Gable, por isso não sei. Todas as m anhãs, quando m eu pai saía de casa para ir para a siderúrgica de m otocicleta, eu ia até a j anela no patam ar das escadas para vê-lo partir. O acordo que tinha com Deus era que, se eu ficasse observando m eu pai chegar ao fim da rua, sem j am ais tirar os olhos dele um segundo, até que ele virasse a esquina, Deus o traria de volta são e salvo para m im . Isso sem pre funcionou, portanto nunca m e atrevi a parar de olhar.

A fam ília do lado do m eu pai era baixa e m orena. Nas fotos antigas de casam ento, você diria que eram sicilianos. Minha m ãe achou que a aparência forte de m eu pai significasse virilidade e coragem . Ele, por sua vez, achou que seus cabelos loiros angelicais e lábios carnudos significassem doçura. A decepção de m inha m ãe com ele tom ou conta dos nossos dias.

A história é que os pais dela com praram um a passagem de Ham burgo para Nova York, m as o navio aportou na cidade de Cardiff certa noite e eles desceram apressados pensando que era Manhattan. (Neblina, cansaço, um bebê chorando no m om ento errado.) Foi um em baraçoso erro de cálculo para um a fam ília de reloj oeiros alem ães renom ados. Criada em um a casa de quatro côm odos sobre um a reloj oaria na High Street, m inha m ãe achou que fora traída pelo destino. Ela ansiava pelo estrelato, aquele que seu rosto m erecia. A vida para a qual sua beleza havia sido planej ada estava lá fora, em algum lugar, perdendo-se enquanto os relógios da loj a tiquetaqueavam .

É m uito difícil para um a criança entender a infelicidade dos pais. Meus pais, quem dera eu soubesse, foram infectados pelo vírus da incom patibilidade. Ninguém m orria disso, m as ninguém vivia tam bém . Minha m ãe ficou quieta no seu lugar, e você pensaria que ela era um a esposa e m ãe norm al, m as seu espírito ofendido se vingou. Qualquer coisa a deixava irritada. Se eu lesse um livro ou se eu não lesse livro algum . Cabelo oleoso, cravos, que ela achava que eu m esm a tinha causado, m esm o que todas as pessoas da m inha idade os tivessem , m eninas e m eninos. Costum ava im aginar se era filha única porque tinha sido um a grande decepção.

Muitas vezes quis contar para m inha m ãe sobre os garotos que latiam para m im na classe, m as isso significava ter de contar a ela sobre a cadela da TV cham ada Petra, e sabia o quanto isso a deixaria nervosa. Ela suspeitaria que eu estivesse assistindo a caixa para idiotas. Em vez disso, certa noite, depois de um dia terrível na escola, perguntei se poderia ser cham ada pelo m eu segundo nom e, Maria.

Ela levantou a espátula que estava usando para desenform ar um cheesecake e apontou-a para m im , por pouco não acertando m inha bochecha.

– Não. Por que está perguntando isso, sua garota estúpida? Já lhe disse que Petra é um lindo nom e, era o nom e da m inha tia, um a pessoa m uito sofisticada em Heidelberg. Se você m e perguntar isso m ais um a vez, será castigada, garota estúpida, você entendeu?

Quando ela saía, m eu pai gostava de dançar com igo na sala de visitas. Não podíam os entrar ali de sapatos. Havia um a grande radiola preta com um a tela na frente, bordas douradas e três botões na cor crem e. Geralm ente a radiola era ligada para ouvir concertos de m úsica clássica, m as aos dom ingos pela m anhã podíam os girar o botão para ouvir o program a Family Favourites. Minha m ãe aprovava o Family Favourites porque algum as vezes ele era transm itido da Alem anha. Os soldados enviavam pedidos de m úsicas para seus entes am ados que estavam em casa.

Todas as sextas-feiras à noite, m inha m ãe pegava o salário do m eu pai e lhe dava alguns trocados para que ele fosse ao clube. “Seu pai não é confiável com dinheiro”, ela dizia. Ele sem pre era meu pai quando ela estava zangada. Você tinha de ouvi-lo cantar. Mesm o em um a terra fam osa por suas canções, a voz de barítono do papai se destacava. “I’ve got a cruuuussh on y ou, sweetie pie.” Essa era a m úsica que ele cantava para m im . Um dia, com Dean Martin cantarolando “That’s Am ore” na radiola da casa vizinha, m eu pai m e pegou em seus braços e rodopiou com igo pela cozinha. Eu m e im aginava em um lugar de clim a quente com m eus cabelos enfeitados com um a flor verm elha. Eu m e im aginava glam ourosa.

 

– Bem , vam os ver o concerto de Handel, O Messias. Mais ou m enos isso.

Sharon desabou de rir. Ela achou que o álibi que tinha dado à m inha m ãe sobre onde estaria no dia 26 de m aio tinha sido brilhante.

Estávam os sentadas com Gillian na gram a acim a da quadra de rúgbi, falando dos planos para White City .

– Genial, Pet – Sharon disse. – David é um deus para nós e você pode usar suas roupas da escola dom inical para sair de casa e depois se trocar na m inha casa. Depois você pode dorm ir em casa, quando voltarm os, e sua m ãe nunca vai desconfiar, não é?

O tio de Sharon, Jim , trabalhava na via ferroviária, na torre de sinalização na estação de Port Talbot, então nos inform ou o horário do últim o trem de volta. Era especialm ente para as pessoas que iam para Londres para ver os shows. Tínham os certeza de que conseguiríam os pegar o trem das 23:45 se saíssem os no m inuto em que o show term inasse.

– O que vocês vão usar para ir a Londres? – Gillian perguntou. Seus olhos azuis estavam fixos no j ogo lá em baixo, onde Stuart atuava com o capitão do tim e da escola.

Sharon deixou escapar um gem ido:

– Oh, que Deus nos aj ude. Pense só no que a Carol vai usar para ver David. – Franzindo os lábios com o se fossem um desentupidor de pia, Sha j untou seus pequenos seios com as duas m ãos e os em purrou para cim a, até que se parecessem com dois m anj ares brancos balançando na parte de cim a da blusa da escola. Ela ficou de pé e com eçou a desfilar com seu queixo esticado para a frente e o traseiro para trás, im itando o andar em pertigado de Carol.

– Ela vai usar um biquíni e todas serem os presas – eu disse.

Nós duas rim os, m as não indelicadam ente, ao pensarm os em nossa am iga sexy. Gillian ignorou nossa brincadeira. Ela estava fazendo o tipo refinado que sem pre fazia quando os garotos estavam por perto.

Lá em baixo no cam po, o j ogo estava ficando violento. Nosso tim e, de verm elho e branco, j ogava contra um tim e de Valley s. Eles eram uns brutam ontes. O agrupam ento de j ogadores estava se desfazendo e um brutam ontes, do tam anho de um boi, veio bram indo do em aranhado de braços e pernas e foi para cim a do nosso pilar, até que os dois tivessem sangue na boca.

Subitam ente a bola ficou livre e um dos nossos m eninos a pegou. Ele a abraçou em seu peito, saiu de lado e arrancou com velocidade. Céus, com o ele era rápido. Os caras que se arrem essaram atrás dele pareciam estar m ergulhando no nada. Por um instante, no m eio daquilo tudo, o garoto conseguiu avançar. Foi m ágico o m odo com o ele parecia estar correndo em câm era lenta dentro da sua bolha particular enquanto os outros se debatiam ao seu redor. Ele cruzou a linha, tocou de leve a bola no chão e se virou, com um sorriso largo no seu rosto bonito. Steven William s.

– Ei, ele está acenando para você, Petra – Sharon disse.

– Ele está acenando para nós – disse Gillian de pé, batendo palm as.

A vida toda eu m e lem braria daquela j ogada. Ver Steven correndo pela lateral do cam po, fazendo com que os grandalhões virassem piada.

Algum as coisas não m orrem j am ais.