Eu Acho que Amo Você
Capítulo 11
11
Não sabíam os que um a garota havia m orrido. Ela deveria estar a alguns m etros de nós e não sabíam os. Algo tão im portante, tão terrível, e nós nem ficam os sabendo. Era chocante. Pensei m uito naquilo. Repassei m uitas vezes na m inha m ente o m om ento em que m e abaixei para procurar Sharon, com a m ultidão convulsionando e gritando acim a de nós com o um anim al com dor. Era possível se afogar ali, pensei, m as Sha e eu subim os pelo buraco que Carol deixou aberto para nós. Do contrário, j á éram os.
Do lado de fora do estádio estava frio dem ais. As roupas que escolhêram os naquela m anhã agora pareciam estupidez, roupas de verão. Não conseguia parar de bater os dentes; era com o se eles tivessem vida própria, com o a dentadura de mamgu no copo ao lado de sua cam a, sorrindo aquele sorriso assustador. Um sorriso sem rosto m e fazia pensar na m orte. Um a garota havia m orrido. Poderia ter sido Sharon. Ela era a única entre nós que estava aquecida porque estava usando seu novo sobretudo de lã. Nós o colocam os de volta sobre ela logo depois que o m édico enfaixara sua costela.
White City foi um a loucura, pode ter certeza. Algum as garotas ainda estavam chorando e outras paravam o carro para ver se David estava escondido no porta-m alas. Gillian ficou parada do lado de fora da entrada, com duas lágrim as de cristal rolando por suas bochechas, com o um a boneca Tiny Tears. Ela disse que sua vida estava acabada porque David iria parar.
– Não tenho m ais nada para gostar – ela se lam entou.
Pensei no pôster do Bay City Rollers dentro do seu arm ário e o que ela havia dito sobre estar aberta a opções quando o assunto é garotos. Ela j am ais am ou David com o Sharon e eu am am os. Garotas com o Gillian não precisavam de David. Garotas com o ela não precisavam esconder o quanto ficavam apavoradas por serem paqueradas por um m enino de verdade, e o quanto ficavam apavoradas de pensar que nenhum m enino de verdade j am ais gostaria delas.
A estação do m etrô estava fechada quando chegam os, com um m onte de policiais do lado de fora do portão m andando as m eninas em bora. Gillian disse que iria passar a noite em Londres com sua nova am iga, a prim a de Angela, Joanna. Ela ligaria para seus pais da casa de Joanna. Ficam os olhando enquanto Gillian e Jo andavam de braços dados, com Angela e Olga m archando alguns passos atrás.
Quando conseguim os encontrar um táxi e chegar em Paddington, o últim o trem j á havia saído. O seguinte sairia som ente cinco horas depois. Tínham os um pouco de dinheiro sobrando, e Sharon ligou para sua m ãe de um telefone público para explicar o que acontecera. Tive de discar o núm ero, pois o braço dela estava ruim . Com o restante das m oedas, Carol pegou chocolate quente em um a m áquina e nos sentam os em um banco, só nós três, apertando o copo de plástico branco no peito para nos aquecer. Não liguei para casa. Só de pensar no novo telefone verde tocando no hall de entrada de casa, e na conversa que teria de ter com m inha m ãe quando ela atendesse, bom , sim plesm ente não pude, né? As m entiras que havia dito pesavam com o um a lápide no m eu peito.
Já dentro do trem , tudo o que conseguia pensar era na princesa Margaret. Minha m ão, a que fora pisoteada, estava latej ando, e um a m ancha roxa estava se espalhando com o se um a tinta tivesse sido inj etada sob a pele. Doía quando eu fechava o pulso. Não sabia com o iria conseguir tocar as suítes de Bach. No assento do lado oposto, Carol roncava seu ronco de porquinho; ela assoviava de um j eito engraçado, com o um a chaleira, ao final de cada respiração. Eu estava exausta, m as tam bém m uito alerta, com um a dor de cabeça terrível. Ao m eu lado, Sharon estava cochilando com a cabeça encostada em m eu om bro. Seus cabelos finos e loiros, com o os de um bebê, espalhavam -se na m inha j aqueta de couro. A estática em seus cabelos m e deu um choque quando ela acordou com um pulo na estação de Swindon. O céu sobre a estação era da cor de groselha. Não parecia real, nada parecia real.
– Está tendo um incêndio, Pet? – ela perguntou.
– Claro que não, é só o dia am anhecendo. Volte a dorm ir.
– Sabia que você não se inscreveria com ela – ela m urm urou. – Gillian nem gosta tanto do David.
– Eu sei.
– De qualquer m aneira, nós não vam os vencer – ela disse, bocej ando.
– Por que não?
Por algum tem po pensei que ela apagara novam ente, e então ela disse:
– Garotas com o nós não ganham nada. Eles vão dar para algum a garota de Londres.
– Annette Sm ith, de Sevenoaks.
– CDF vagabunda! – Sharon riu, e depois se contraiu porque rir era doloroso. – A verdade é que – ela disse – o desem pate de Annette Sm ith não chegará aos pés do seu.
Eu estava falando a verdade quando disse às m eninas que não havia inscrito Gillian no teste. Minha m ão hesitou na seção que pedia o nom e da am iga que você gostaria que fosse conhecer David Cassidy com você. Por que não coloquei o nom e de Gillian? Eu estava definitivam ente assustada o bastante para fazê-lo. Sabia qual seria o preço por desagradá-la e sabia que o pagaria enquanto nós duas estivéssem os na m esm a escola. No fim , foi algo tão pequeno, na verdade, pequeno e ao m esm o tem po grande. Na beira do form ulário, em toda a volta, Sharon fizera um a decoração linda e intrincada com o nom e de David e sua data de nascim ento repetida diversas vezes, com o um m anuscrito m edieval, para que nosso form ulário saltasse aos olhos dos j uízes. Em um canto, com a letra m ais rom ântica que eu j á vira, ela havia escrito algo que fizera m eu coração pular:
PETRA CASSIDY
Eu era a única que sabia o quanto lhe custara escrever aquilo.
Saím os na prim eira página do South Wales Echo . PRÉ-ADOLESCENTES EM TRAGÉDIA DE CASSIDY. Havia um a festa de boas-vindas quando finalm ente chegam os à estação. A m ãe de Sharon correu e nos deu um tipo de abraço, sacudindo-nos ao m esm o tem po. A sra. Lewis estava rindo e chorando. Um hom em negro, bonito, vestindo calça j eans, estava ao lado dela. Ele colocou um cobertor em volta de Carol, que caiu em seus braços e chorou com o um a m enininha que eu não conhecia. Nenhum a de nós havia colocado os olhos no pai de Carol antes. Ele era a peça que estava faltando nela, e no m inuto em que o vi o quebra-cabeça de Carol se resolveu na m inha m ente.
Sobre o om bro da sra. Lewis, vi m inha m ãe cintilando no final da plataform a. Ela estava usando seu terno de tweed, o que ela usava na reunião de pais e no crem atório. Meu pai estava atrás dela, m as não pude vê-lo direito.
Sei que o que fiz foi ruim , sabe, m as não acho que ela deveria ter m e batido. Não no rosto, não com todas aquelas pessoas olhando e tudo m ais.
Nos três dias seguintes, ela m e colocou de castigo no quarto. Minha com ida era deixada em um a bandej a do lado de fora com um guardanapo de papel; ela não deixava nem m eu pai falar com igo. No andar de baixo, a briga deles era furiosa com o um a batalha distante. Às vezes, ouvia batidas na porta, gritos e depois silêncio, até tudo recom eçar. A m ãe de Sharon ligou para dizer a m eus pais que nos atrasáram os em Londres por causa do tum ulto do show de David Cassidy , essa parte eu consegui saber pelo que foi dito no carro. A sra. Lewis estava apenas tentando ser útil, não é? Qualquer tem or que m inha m ãe poderia ter sentido por m im lhe causou m enos dor do que a hum ilhação de outra m ulher saber que ela tinha perdido o controle de sua filha.
– Você está realm ente m e fazendo de boba, Petra – ela disse duas vezes no cam inho para casa. Vi os olhos de papai m e olhando pelo espelho retrovisor.
Ficar presa no quarto não foi tão ruim quanto parece. Tinha m inhas edições da revista Tudo sobre David Cassidy escondidas debaixo das tábuas de m adeira do chão e do rádio transistor cinza com seus pequenos fones de ouvido. Não tinha com quem conversar, m as tinha m uitas pessoas para cantar para m im . The Isley Brothers cantaram “Sum m er Breeze”, e eu cantei j unto o m ais baixo que pude, m esm o não sabendo com o o j asm im poderia entrar na sua m ente ou com o era o cheiro dele. “Kissing in the Back Row of the Movies”. Era The Drifters e eu adorava, m esm o nunca tendo beij ado ninguém , em lugar nenhum . Justamente porque nunca havia beij ado. Minha m úsica favorita no rádio era “She”. Era com o um a piada: “Havia um a m enina galesa trancada no quarto, chorando, porque um francês estava cantando em inglês enquanto ela pensava em um garoto...” Ele.
Solitária com o um a princesa em sua torre, sem tranças para j ogar, tive tem po para pensar no que aconteceu e com o deveria ter visto o m odo com o as coisas seriam com Gillian com o m inha nova m elhor am iga.
Na sexta-feira antes do show, fui ao banheiro das m eninas e lá estava Angela na frente do espelho em m eio à nuvem do spray irritante que ela havia passado para fixar seu novo corte de cabelo repicado, virado para fora. Você sabia que tinha passado fixador suficiente quando o repicado ficava duro com o um a cartolina e proj etado para fora com o os faróis traseiros de um carro. Angela não poderia ter ficado m ais feliz se tivesse, propositalm ente, arm ado essa cilada para m im , e logo descobri por quê.
– Venha ver o que Gillian m e deu, Petra. – Havia um tom de triunfo em sua voz enquanto ela procurava algum a coisa em sua bolsa j eans, com o se fosse um bilhete de loteria.
– Gillian é m esm o m uito generosa, você não acha?
Nas m ãos de Angela estava o estoj o de m aquiagem Mary Quant. Ela abriu a tam pa laqueada preta e usou a esponj inha, ainda intacta, para aplicar um a cam ada de azul índigo sobre os olhos castanhos afundados.
– Gillian disse que são exatam ente as m inhas cores.
– Legal – respondi.
Pensei em contar para Angela, ali, naquela hora, que seu m aravilhoso presente custara todo o m eu dinheiro do Natal. Mas pude ver o prazer que lhe dera estar à m inha frente na batalha pelo afeto de Gillian, a batalha pela am izade que ela deve ter pensado que estava perdendo até colocar as m ãos no estoj o de som bras. A própria Gillian deveria adorar nossas ceninhas de ciúm e, tram ando para deixar o enredo m ais em ocionante. Sentia os fios atados aos m eus m em bros serem agitados, m as pela prim eira vez m e recusei a responder ao puxão da bela com andante de fantoches. Pobre Angela, tão esperançosa e feliz com aquela som bra azul nos olhos.
Se eu pensei em David durante esses três dias de prisão na solitária? Bom , eu repassei o show na m inha cabeça, pensei m uito em Sharon e no que poderia ter acontecido. Mas o m ais engraçado foi que a pessoa em quem m ais pensei foi em Steven William s. Sentar no j oelho de Steven no carro, no cam inho até a estação, com seu braço em volta dos m eus om bros, e im aginar se ele falava sério sobre m e ver depois.
No terceiro dia, a cam painha da porta da frente tocou. Ninguém nunca visitava nossa casa e, quando tínham os visitas, elas norm alm ente vinham pela porta dos fundos. A passagem da frente estava bloqueada com caixas e m inha m ãe teve de tirá-las do cam inho para abrir a porta para o diretor. Ela ficou tão surpresa que sim plesm ente o deixou entrar. Serviu chá ao sr. Pugh na sala de estar com o j ogo de chá de prata que seus pais tinham trazido no navio de Ham burgo.
– Petra, por favor, venha aqui em baixo para cum prim entar o sr. Pugh.
Ela m e cham ou com o se nada tivesse acontecido e não estivesse zangada. Apertei a m ão do sr. Pugh, tão lisa e fria que parecia ter talco, não era áspera e quente com o a m ão de papai. O diretor disse que seria um a grande decepção para a escola se Petra não tocasse para a princesa Margaret na abertura do novo salão. Entendia que m inha m ão ainda estava um pouco m achucada, m as o program a do evento j á havia seguido para im pressão. Não podíam os brincar com a realeza, não é? Minha m ãe concordou, encantada por ter seu papel no program a VIP.
– A fam ília real é alem ã, sabia? De Hanover – ela anunciou no café da m anhã.
– Isso explica tudo – m eu pai disse, deslizando um envelope rosa para debaixo do m eu prato de torrada.
Querida Petra,
Há seis m eses você vem sendo um a grande am iga. A m elhor que j á tive. Você tem m e aj udado MUITO, pode acreditar.
Sinto m uito que as coisas estej am ruins com sua m ãe e espero que ela deixe passar
o que j á é passado...
Sei que você vai arrasar no concerto, você sem pre m e deixa arrepiada quando
declam a algum a poesia ou toca seu violoncelo.
Lem bre-se do que você disse no desem pate do teste. “Não im porta o que aconteça
nas nossas vidas, sem pre terem os David.”
Beij os,
Sharon Disseram para eu com eçar a tocar no m inuto em que a princesa entrasse no salão, m as o plano deu errado, porque a princesa entrou e com eçou a falar com igo:
– Que m aravilhoso tocar tão bem na sua idade – disse a princesa.
Mar-rrá-vilhoso.
Nunca tinha ouvido ninguém falar assim antes. A princesa era m iudinha, e seus cabelos eram escuros e presos no topo da cabeça, com m uitos cachos perfeitam ente no lugar, provavelm ente feitos por um a dam a de com panhia. Ela usava um vestido verm elho curto, um casaco verm elho com botões pretos por cim a, sapatos de verniz e um a bolsa de m ão. Achei que ela se parecia com a Elizabeth Tay lor, apesar dos j oelhos gordos, m as Sharon achou que ela se parecia m ais com a Sophia Loren. Foi m uito bom a princesa ter falado com igo, isso acalm ou m eus nervos e eu estava relaxada quando com ecei.
O salão novo estava com pletam ente lotado de crianças e pais. A anim ação da conversa era tanta que foi quase possível cortá-la com o se corta um bolo de frutas secas. Tentei não levantar o olhar, m as pude ver algum as pessoas conhecidas. Meu pai tirou a tarde de folga e vestiu seu blazer esportivo. Ele estava nas cadeiras m ais altas, bem atrás de Steven William s. Eu m e sentia estranha vendo os dois tão próxim os; os rostos dos m elhores caras do m undo, m eu pai e Steven. É sério.
Tudo aconteceu com o a srta. Fairfax disse que seria. Meu braço direito fluiu com o água corrente, as costas firm es com o o tronco de um a árvore, os pés com o raízes entrando pelo chão e m eus ouvidos procurando – com o era m esm o? – o ponto im óvel de calm a no salão. Estava bem ali. Sabia onde a srta. Fairfax estava sentada, na lateral, em direção ao fundo, m as não toquei na sua direção, não era preciso. Eu a levava na m inha cabeça, sem pre levaria. Em vez disso, toquei na direção dele. Steven. Ele.
A m enina pedindo para o m enino voltar, m uito calm am ente no início, você pode, por favor, voltar para m im ? Você não faz ideia do quanto eu quero que você volte para m im . E depois com m uita em polgação. Ele está voltando. Ele está voltando. Tenha controle. Controle suas em oções, Petra. Cada nota com o um a pérola. “I Think I Love You”. “I Think I Love You”. “I Think I Love You”. “I Think I Love You”. “I Think I Love You”.
O diretor disse que eu era m otivo de orgulho para a escola. A srta. Fairfax se curvou levem ente. “De um a artista para outra artista”, ela dissera. Meu pai chorou. Minha m ãe achou que a princesa Margaret tinha ganho peso e que estava m eio desleixada.
– Sua m ãe acha que até a m aldita Helena de Troia é desleixada – disse Sharon.
Alguns dias depois do concerto, estava na pequena sala de prática de m úsica da escola, que fica atrás da quadra de basquete, quando olhei pela j anela. Estava tão envolvida com m inha nova peça que perdi a noção de quem era e onde estava. Vi Steven passando pela trilha lá fora, e m eu coração disparou, com o sem pre acontecia quando o via. Levantei a m ão para acenar, m as a baixei de volta bem na hora em que vi quem estava segurando seu braço.
Gillian.
Só porque ela podia.
Vários anos se passaram até que eu subisse novam ente no trem para Londres. Dessa vez faria a viagem sozinha, som ente eu e m eu violoncelo, para um a entrevista na Roy al Academ y of Music. Pensei que estava m ais forte, m as m inha força não havia sido testada de novo, não com o naquele dia com a turm a de Gillian.
Há um a foto com todas nós que foi tirada na m anhã do show em White City. Estam os na frente da bilheteria da estação de trem . Angela pediu ao carregador para tirar a foto com sua Kodak Instam atic. Carol está extraordinária, com o um a artista. Vulgar, m inha m ãe diria. Tinha m echas loiras na parte da frente do seu cabelo castanho-averm elhado arrepiado, destoando da sua calça verm elha. Nos pés, Carol estava usando botas de verniz brancas, que deixavam um a extensão grande da perna de fora, m orena da cor de canela. Ela se apoiou com um dos j oelhos na frente do grupo, com as m ãos esticadas no ar, enquanto sua expressão dizia: “Ta-raaá! Olhe para nós. Não som os sensacionais?”
Sharon estava usando seu sobretudo de lã. O casaco estava lindo na m odelo da revista, m as com o Sha era baixinha e cheinha, ficou parecendo um a ovelha, principalm ente com o corte de cabelo repicado que tinha feito em hom enagem a David. As cam adas nunca funcionaram com os cabelos de Sharon, finos com o os de um bebê – m esm o com litros e m ais litros de spray que ela com prava para segurá-lo no lugar. Acho que o spray fixador de Sharon foi responsável por com eçar o buraco na cam ada de ozônio; nunca tínham os ouvido falar sobre a cam ada de ozônio antes de inventarem o cabelo repicado, não é?
Ela está tão cheia de vida naquela foto! Esse é o dom de Sharon e ela o com partilhava com generosidade com aqueles que não nasceram com talento para a felicidade.
Meu cabelo está ainda pior que o de Sha. Nunca peguei o j eito de secar m eu corte Chanel; então, na noite antes do show, usei bobes no cabelo para ter certeza de que as pontas ficariam viradas para baixo. Dorm i de barriga para cim a, com o um a santa na tum ba. O velcro pinicava m eu coro cabeludo toda vez que eu m e m exia. Achava que valeria a pena qualquer sofrim ento para ter um cabelo bonito. Meu cabelo era um dos m eus pontos fortes, em bora tenha ficado óbvia a m arca onde os bobes estiveram durante a noite. Não fiquei parecida com Susan Dey, com o esperava. Nas roupas, estava vestida dos pés à cabeça com a cor favorita de David, o que o aj udaria a m e escolher na m ultidão, é óbvio. Com m eu tom de pele claro, fico horrível de m arrom . Fico amarela vestida de m arrom .
Olga está atrás de m im , um pouco para o lado, com um a expressão pensativa, que sem pre foi sua postura em relação ao grupo. Abençoadas, ou am aldiçoadas, com nom es estrangeiros, Olga e eu estávam os destinadas a serm os am igas – ela era m usical tam bém , tocava viola, e seu pai era um russo bastante rigoroso. Mas nós nos evitávam os. Era com o se sentíssem os que a som a das duas seria dem ais. Um a garota esquisita, estrangeira e estudante de m úsica era um a aberração aceitável. Duas era esquisitice dem ais. Acho que teria m e dado bem com Olga e ela com igo. Às vezes a via sorrindo pelas m esm as coisas que eu.
No centro da turm a de Gillian estava a própria. Angela está escondida ao lado com o olhar abatido e resignado da m elhor am iga que sabe que sua posição em breve será anunciada nos classificados. Com um a blusa de chiffon com babados, calça branca de boca larga, im aculada, e um chapéu em form a de sino com um broche de flor, Gillian tem a indiferença opressiva de Bianca Jagger. A câm era olha para ela e você sabe que quer continuar olhando cada vez m ais. Bebendo de sua beleza. Gillian é a única que não está se em penhando em sorrir. Ela deixa sua boca abrir só um pouco, com o um a m odelo. Talvez sej a m inha im aginação, m as o rosto de Gillian parece estar trem ulando com o ressentim ento que estava prestes a ferver e queim ar todas nós.
Há tantas coisas que as m eninas naquela foto não sabiam . Não sabíam os que a fam osa White City da nossa im aginação seria concreto cinza úm ido fedendo a urina. Não sabíam os que um a garota m orreria. Nem que m ilhares ficariam feridas, e que Sharon seria um a delas. Não sabíam os, não ainda, quanto o am or poderia custar. Estávam os apaixonadas pela ideia da paixão. Estávam os experim entando. E suspirando.
Não m uito tem po depois daquela foto, m eu am or por David iria recuar com o a m aré. Logo depois ficaria envergonhada em adm itir que um dia gostei dele, assim com o, por um curto período, fiquei com vergonha do m eu violoncelo. No m eu aniversário de 14 anos, Sharon m e deu o álbum Original Soundtrack da banda inglesa 10cc. Fiquei arrepiada com aquele LP, pois aquilo queria dizer que havia pessoas que ouviam coisas do m odo com o eu ouvia. Palavras e m úsica, dor e alegria.
Os inchados e confusos acordes de abertura de “I’m Not in Love”, com a bateria com o um a batida de coração, era o que pensar em garotos de verdade havia com eçado a fazer com todas as células do m eu corpo.
Entretanto, ainda era grata a David, sem pre seria, só não sabia disso naquela época. Por estar com igo quando ninguém m ais estava; por dar voz a sentim entos que m al haviam nascido; por m e aj udar a crescer, o que é m uito, m uito difícil de se fazer. Por m e dar um garoto para am ar, que j am ais m e m agoaria, m esm o que fosse apenas porque ele nunca m e am aria de volta. Poderia ser para sempre?
Talvez sim .
No show de David Cassidy em White City, que aconteceu no dia 26 de m aio de 1974, a parte central da m ultidão de 35 m il fãs avançou freneticam ente quando Cassidy apareceu; m uitas fãs desm aiaram , foram pisoteadas ou prensadas. Um dos funcionários do serviço de am bulância disse que a quantidade de feridos o fez lem brar da Blitz, o bom bardeio alem ão sobre os ingleses durante a Segunda Grande Guerra. O diretor do Conselho Britânico de Segurança cham ou o evento de “show suicida”.
Cerca de 750 garotas foram tratadas de histeria ou de ferim entos naquela
noite. Alguns dias depois, Bernadette Whealan, um a fã de 14 anos que estava inconsciente desde o tum ulto, tornou-se a prim eira fatalidade em um show de m úsica pop na Grã-Bretanha.
David Cassidy enviou um a carta de pêsam es aos pais de Bernadette, m as não
com pareceu ao funeral por receio de causar outro tum ulto.
No exam e de autópsia, o m édico-legista registrou a causa com o sendo por
m orte acidental devido a asfixia. Disse que Bernadette foi “vítim a de histeria coletiva” e sugeriu que “os sapatos altos tipo plataform a” foram um dos fatores contribuintes para o grande núm ero de garotas caídas no m eio da m ultidão.
David Cassidy interrom peu sua carreira pouco tem po depois.