Eu Acho que Amo Você

Allison Pearson · Capítulo 5 de 27

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Eu Acho que Amo Você

Capítulo 3

3

 

É claro, eu sonhava com ele o tem po todo, m as não com entava sobre isso com ninguém . É preciso guardar algum as coisas em segredo. Com o nunca disse a verdade sobre m inha m úsica favorita. Quando Gillian disse que “Could It Be Forever” era o m elhor álbum de David, disse que ela estava absolutam ente certa. Era fabuloso. Rom ântico. O m odo com o David nos m antinha pairando e esperava um a batida que fazia nosso estôm ago revirar antes de entrar para o “But” no final. E a voz dele derretia nessa palavra. Juro que é possível ouvi-lo sorrir enquanto canta. Ele deveria saber que ficávam os com o bobas e que esperávam os até ele gritar, im plorando que dissesse... “But?”

Costum ávam os rum inar essas coisas durante nosso alm oço, reunidas em volta do radiador velho e pulsante no corredor do laboratório de ciências. Esse era nosso ponto de encontro quando estava chovendo, o que acontecia na m aior parte do ano onde m orávam os. Na prim avera, o grupo de Gillian m udava-se para seu centro de operações do lado de fora, debaixo dos castanheiros, onde term inam as quadras esportivas. Eu ainda era nova no grupo, substituta recente de Karen Jones, que ofendera Gillian depois que Stuart Morris dançou um a m úsica lenta com ela no baile do Natal. Quer dizer, ele dançou com Karen, não com Gillian. Justiça sej a feita a Karen, Gillian nunca dissera que gostava de Stuart antes de pegá-los dançando j untos, portanto Karen não podia saber, não acha? Ela chorou sem parar quando Gillian a cham ou de vagabunda no estacionam ento.

Com parados a David, os garotos da nossa idade pareciam cretinos patéticos.

– Olhe pra ele, é só um garotinho – Sharon sacaneava, caso algum deles ousasse se aproxim ar.

Especialistas em rom ance, nunca havíam os beij ado. Apenas sabíam os que David era um cavalheiro e que j am ais tentaria qualquer daquelas coisas que os m eninos faziam na Starlight, onde íam os dançar nos sábados à noite. Eles vinham com um a m ão boba antes m esm o de te pagar um a Pepsi. Mas Stuart Morris era diferente, tinha três anos a m ais que a gente e estava no prim eiro colegial. Ele agora era o capitão do tim e de rúgbi da escola, enquanto Gareth Pugh se recuperava de um a contusão no j oelho. Rúgbi era a religião local, então isso fazia de Stuart um deus. Sem que ninguém precisasse contar, quase com o se tivéssem os nascido sabendo, com preendíam os um princípio m atem ático essencial: quanto m ais atraente fosse um garoto, m enores as chances de ele nos querer. Quanto m enor a chance de ele nos querer, m ais atraente ele ficava. Portanto, os m eninos que gostavam de nós não eram atraentes. Matem aticam ente com provado.

De qualquer m aneira, Gillian estava saindo com Stuart agora, Karen estava fora e eu estava dentro, ou quase. Estava desesperada para ficar no grupo delas e precisava causar um a boa im pressão sem ter a m enor ideia de com o.

– “But” não é um a palavra sexy – anunciei naquele alm oço, tentando fazer parecer que “sexy ” era um a palavra que eu usava todos os dias, em bora fosse a prim eira vez que a falasse em voz alta. – Mas em “Could it Be Forever”, David faz “but” parecer bem sexy .

– David tem um “sexy butt”, um bum bum sexy ! – Carol deu um gritinho estridente.

Carol era a m ais saidinha. Tinha om bros m usculosos de nadadora e um bum bum tão arrebitado que dava para equilibrar um copo de papel em cim a. Além de ter m enstruado pela prim eira vez com 10 anos, seus seios cresceram da noite para o dia, com o se ela tivesse se cansado de esperar e os tivesse enchido com um a bom ba de bicicleta, o que não seria nenhum absurdo, para ser bem honesta. Carol era apaixonada por seus seios. Ela os m anuseava com o se fossem ham sters, e até os tirava da blusa ocasionalm ente e os afagava. Quanto a m im , eu dificilm ente ousava olhar de relance para m inhas tím idas azeitonas no espelho do banheiro de casa, a m enos que o espelho estivesse em baçado. Meus m am ilos eram achatados, m acios e rosa-escuros com o pétalas de rosas. Os da Carol eram parecidos com nozes, m arrons e protuberantes. Dava para vê-los claram ente através da blusa.

– Características sexuais secundárias – era assim que o professor de biologia se referia aos seios. E com os m alditos m eninos ali conosco. Muito obrigada, professor. Eles j am ais nos deixavam esquecer. CSS. Características Sexuais Secundárias.

Era difícil ignorar os seios de Carol, pois ela dava um nó em sua blusa branca bem abaixo deles, m esm o sendo repreendida o tem po todo pelos professores por m ostrar sua barriga, que era m orena o ano todo. As sobrancelhas de Carol eram da cor de dam asco, m uito finas, praticam ente invisíveis. Quando fazia sol, a pele em baixo das sobrancelhas ficava da cor de bacon, então ela desenhava os arcos com lápis para olhos m arrom . Aquilo fazia ela parecer durona. Mais durona do que era na realidade. E tinha um j eito de usar a gravata da escola, com a ponta bem longa e pendente, o que parecia m enos um a tediosa gravata, e m ais a língua de um lagarto para lam ber os garotos.

O que estou tentando dizer é que Carol era sexy antes m esm o de saberm os o que era ser sexy .

– Sexy butt! David tem um bum bum sexy ! – Sharon recitou com o Carol, divertindo-se com m eu erro.

– Não foi isso que eu quis dizer – interferi rapidam ente. – É o m odo com o ele para na m úsica e ficam os esperando pelo “but”...

Tarde dem ais. Até m esm o para m eus próprios ouvidos soava estupidam ente ingênua e pedante. Não teve graça, Petra. Aprenda a aceitar um a piada; por que você não consegue?

As outras caíram na gargalhada. Até Angela e Olga, que tinham ido pegar bebida e chocolates na m áquina e haviam perdido a conversa “sexy but”. O riso de porquinha da Carol chegou ao seu estágio final e ela espirrou chocolate quente pelo nariz e respingou em toda sua blusa, fazendo parecer que ela tinha sido m etralhada. Minha m ãe teria m e m atado, m as Carol não estava nem aí. Havia algo de anim al na Carol que m e assustava às vezes.

– Petra quer dar um a passadinha de m ão no bum bum sexy de David. – Ela m e lançou um olhar m alicioso, franzindo os lábios de desentupir pia e agarrando m inha cam isa.

Eu a em purrei.

– Não, eu não quero.

Deus do céu, não é horrível ficar verm elha? Um a vez que o sangue com eça a subir, não tem m ais j eito. É com o um copo de groselha derram ada se espalhando para todo lado. É claro que j á havia visto o bum bum de David. Não há com o não ver. Ele se destaca em todas as fotos de shows quando David usa aqueles m acacões colados. No entanto, não queria ouvir piada sobre o bum bum de David. Fazer piada com um garoto qualquer era um a coisa, com o dar risada de Mark Tugwell, o contrabaixista que se sentava atrás de m im na orquestra j ovem da cidade. Carol disse que ele guardava um oboé extra nas calças e eu não conseguia parar de olhar sem pre que ele descruzava as pernas. Mas com David era diferente. Eu estava apaixonada e detestava conversas grosseiras ou desrespeitosas sobre ele. Eu m e im aginava cavalgando em sua defesa com um vestido longo de gaze de algodão, gola alta, pregas no corpete e rendas no acabam ento, com o o que Karen Carpenter tinha. Estaria no pônei Palom ino, o m esm o que David cavalgava no m eu pôster favorito na parede do quarto de Sharon. Mas cavalgaria de lado, com o a rainha, para não estragar o vestido.

Piadinhas obscenas sobre David m e deixavam m uito brava. Acho que elas m e faziam lem brar que ele era um bem com um . Que coisa m ais ridícula. Não sei com o alguém pode achar que um artista que tem o m aior fã-clube da história, m aior que o de Elvis ou dos Beatles, sej a seu e só seu, m as isso acontece, acontece m esm o.

O m ais difícil é que eu adorava falar sobre David, e tudo o que se relacionava a ele, m esm o de um m odo bobo. Nas noites de quarta-feira, eu pegava o cam inho m ais com prido até a prática de orquestra para poder passar pela loj a de ferragens, atrás do ponto de ônibus. Ver seu nom e escrito em letras garrafais em cim a da loj a parecia um sinal. Quer dizer, aquilo era um a placa, m as para m im era um sinal. Com o se o m undo soubesse que eu o am ava e colocar seu nom e lá em cim a fosse algo m uito especial. Apenas dizer seu nom e em voz alta era eletrizante depois de tê-lo ouvido um m ilhão de vezes na m inha cabeça. Falar com m inhas am igas sobre ele o fazia ficar ainda m ais real, m as ao m esm o tem po eu o dividia, o que era doído. Preferia ficar sozinha com ele no m eu quarto.

– David é sexy , m as o quê? – Gillian exigiu saber, contraindo seu delicado e em pinado nariz.

Ela estava no seu posto usual em cim a do radiador, com as pernas esguias pendendo para baixo, as m eias azul-m arinho puxadas até a altura das coxas, deixando apenas alguns centím etros de pele exposta. Tentei não olhar para a breve visão da calcinha branca, que m e fazia pensar em seu novo nam orado e o que ele estaria aprontando com ela. Com o eu queria ter m eias bem com pridas com o as de Gillian! As m inhas vinham som ente até abaixo dos j oelhos e m inha m ãe insistia para que eu usasse tiras elásticas para prendê-las em cim a. O elástico apertava m uito a pele, deixando um bracelete verm elho horroroso ao redor da batata da perna. Levava séculos para aquela m arca sum ir. Às vezes, quando deitava na banheira e olhava para as m arcas na m inha perna, gostava de fingir que era um a santa torturada. Um a santa que coraj osam ente m anteve sua fé e resistiu aos ferros quentes de torturadores sádicos com barbas pontudas, não revelando absolutam ente nada. Estigm as com binavam com aquelas m arcas da cinta-liga.

– Qual a graça em David cantar “but”? Não entendi – Gillian irritou-se.

Deus fez Gillian perfeita, m as em Sua infinita sabedoria deixou de lado o senso de hum or. Talvez por ser tão bonita, Ele achou que não precisasse. Deus provavelm ente pensa que só é válido dar senso de hum or para aqueles que precisam rir de tudo o que está errado neles.

– Não é engraçado – disse, tentando silenciar Sharon com um olhar suplicante.

Ela deveria ficar do m eu lado, não do lado de Carol. Quando estávam os na casa dela fazendo nossos álbuns de David com recortes de revistas, sentia que éram os m uito próxim as, m as na escola nunca sabia ao certo de quem ela era am iga. A lealdade m utante de Sharon doía m ais que as provocações grosseiras de Carol.

– Só estava dizendo que “Could It Be Forever” é a m elhor m úsica de David, com o você falou, Gillian – continuei, esperando que o nom e de Gillian pudesse fazê-las parar. Todas ficavam apavoradas em decepcioná-la, inclusive Carol.

Gillian tirou um pote de vaselina de sua bolsa e espalhou um pouco em seu lábio inferior. Tinha um j eito próprio de fazer aquilo, m ovim entando e apertando os lábios para conseguir um a cobertura por igual sem precisar usar os dedos. Com o todas as ações de Gillian, era sedutor e hipnotizante. Todas nós tentávam os copiá-la, m as acabávam os com vaselina nos dentes.

Gillian agora m e olhava com o se eu fosse um produto na vitrine de um a loj a que ela estivesse considerando seriam ente com prar. Por um m om ento incrível, pensei que ela fosse sorrir. Talvez até m e convidasse para ir até sua casa ouvir uns discos. Ela desceu do radiador, puxou sua saia para baixo e disse:

– Isso é irritante em você, Petra. Você está sem pre concordando com tudo, não é?

 

Nossa sala de aula ficava em um dos prédios ao lado das quadras de basquete. O prédio tam bém era conhecido com o estábulo, congelante no inverno e um forno no verão. As paredes eram tão finas que era possível ouvir um a cadeira sendo arrastada na sala de aula ao lado. Cham avam -no tam bém de bloco tem porário, m as ele estava ali desde a guerra.

No cam inho de volta para as aulas da tarde, Angela nos contou que tinha novidades. Sabia pelo sorrisinho m isterioso em seu rosto que ela estivera guardando a notícia com o o últim o biscoito do pacote. Sua prim a, um a garota cham ada Joanna Cram pton, tinha ligado para ela na noite anterior. David viria ao Reino Unido para fazer dois shows no fim de m aio. Estava confirm ado. Sua prim a soube disso pela revista de David, que ela recebia um a sem ana antes de nós porque m orava em Hounslow, um distrito de Londres. Tudo dem orava tanto para chegar no País de Gales! O m undo poderia acabar, Londres seria destruída por um a bom ba nuclear e nós ainda estaríam os presos na dobradinha de geografia.

O show seria no dia 26 de m aio, em um lugar cham ado White City .

White City . Soava com o um lindo palácio de m árm ore para m im . Com o o Taj Mahal talvez. Im aginava a rua pavim entada e deslum brante que levava até a entrada em form a de torre, e o som suave das fontes j orrando. A data ficou instantaneam ente gravada no m eu cérebro com o se fosse o dia do m eu casam ento. 26 de m aio.

– Estão dizendo que vai ser a últim a apresentação dele – Angela anunciou com um estrem ecim ento de orgulho.

– Ele não virá de novo? Nunca mais! Tem os que ir, Petra – Sharon gritou, cruzando seu braço com o m eu. – David vai procurar por nós, am iga. Nós param os de roer as unhas e tudo o m ais. Tem os 439 fotos dele e agora ele diz que é seu últim o show. Quanta ingratidão!

Era tão bom ouvir nossas risadas, a dela era um soprano no contratem po, a m inha um contralto estridente. Sabia que Sharon estava arrependida sobre o incidente de Carol e o sexy “but”.

– Se quiserm os ingressos – Angela advertiu –, tem os de nos m exer e m andar um vale postal. Custa um a libra cada.

– Com prei um desses da m inha tia por m eia-coroa – Sharon disse.

– Quanto é um a libra no dinheiro antigo, então? – alguém perguntou.

Olga fez o cálculo enquanto o restante de nós ainda estava contando nos dedos. Tinha um a cabeça fantástica para núm eros.

Antes de m udarm os nossa m oeda, 12 pence equivaliam a 1 xelim . Três anos depois, eu ainda ficava apavorada com as casas decim ais. Coloque no lugar errado e você levará um prej uízo de centenas. Meu cérebro de 13 anos de idade se prendia com teim osia às libras, xelins e pences. Particularm ente, eu lam entei a m orte do threepenny, a m oeda britânica agora obsoleta, que era pesada e quente nas m ãos e tinha um a borda irregular m uito legal. Era sem dúvida a m elhor m oeda para brincar dentro do bolso quando se estava nervoso.

– Socorro, só os britânicos são tão idiotas a ponto de contar de 12 em 12 – m inha m ãe reclam ava. Qualquer evidência do atraso de sua terra adotiva era um de seus assuntos prediletos.

Gillian declarou ter 25 libras em econom ias com os correios. Um a pequena fortuna que nos deixou de queixo caído. Carol disse que poderia tirar um m onte de m oedas de seu pai, que adm inistrava o parque de diversões do píer e sem pre tinha um a sacola grande de troco.

– Então j á tem os um bom dinheiro. O problem a é que agora tem os que pensar na tarifa do trem e do m etrô – Olga lem brou, denom inando-se tesoureira da viagem , em bora não tivesse m uitas rivais para o cargo.

Enquanto as m eninas acrescentavam o dinheiro que tinham e o dinheiro que pensavam que conseguiriam , senti o pânico crescer dentro de m im . Um a onda salgada que alcançou a parte de trás da m inha boca e fez com que sentisse que m eu alm oço estava prestes a voltar. Isso não podia estar acontecendo. Eu sem pre achei que haveria tem po de sobra para vê-lo. Cada célula do m eu corpo estava se preparando para aquele encontro. Ele esperaria o quanto fosse preciso, eu sabia. Esperaria até que os cravos do m eu rosto oleoso tivessem desaparecido. Até que m eus seios valessem a pena ter um sutiã decente. (A Play tex vendia roupas íntim as para a “Mulher que Você Quer Ser”. Rosa, com aros. Página 78 do Catálogo Freem an’s.) Até que eu estivesse tocando as suítes de Bach no violoncelo, com o elas realm ente têm de ser. Dor e alegria se entrelaçavam , com o quando m inha m ãe trançava m eus cabelos até que m eu couro cabeludo gritasse por clem ência. Dor e alegria, dor e alegria. Um dia eu gostaria de tocar m inhas peças favoritas para David. Mesm o que as palavras m e faltassem , a m úsica não falharia.

Contudo, agora não haveria m ais até. O últim o show de David na Grã-Bretanha seria em m enos de um m ês. Depois disso ele não voltaria m ais. Eu ficaria com o aquela garota da peça que estávam os ensaiando na aula de inglês. Ela nunca falou de seu am or, m as deixou o segredo agir com o um verm e germ inando, alim entando-se dela. Era exatam ente assim que m e sentia. Com o se algo estivesse m e corroendo por dentro. Não podia j ogar fora toda m inha preparação.

Eu tinha que dar um j eito de com prar um ingresso e vê-lo em White City .

 

Havia coisas que m inha m ãe não sabia. Minha m ãe não sabia que havia escolhido um nom e m uito ruim para m im , pois Petra era tam bém o nom e de um cachorro fam oso da TV infantil. Ela não sabia que toda vez que a professora m e cham ava e eu respondia a classe toda com eçava a latir, ou pelo m enos todos os m eninos.

Meu nom e era o penúltim o da lista, então eu tinha sem pre alguns m inutos, durante os quais fingia que estava ocupada dem ais para m e preocupar com o que estava por vir, colocando um a carga nova na caneta, em brulhando a antiga cuidadosam ente em um m ata-borrão, procurando um apontador em m inha bolsa debaixo da carteira, cansada de saber que ele estava no m eu estoj o de pelúcia m arrom .

Prim eiro o sr. Griffiths tinha que passar pelo sobrenom e Davies, incluindo a pobre Susan Fedida, todos os Jones, um Lewis (m inha Sharon), um Morgan, o doido do Gareth Roberts, depois todos os Thom as...

– Karen Thom as?

– Aqui, senhor.

– Karl Thom as?

– Presente.

– Siân Thom as? Susan Thom as?

Havia seis alunos cham ados Thom as ao todo, incluindo dois prim os que pareciam ovos caipiras pintados. Os pais deles eram gêm eos idênticos que se revezavam trabalhando na m áquina de presunto na cooperativa. Eles usavam redes sobre os cabelos loiros, assim a caspa não cairia no presunto. Depois do últim o Thom as havia um a pausa que sem pre parecia um a eternidade no inferno para m im antes de...

– Petra Willi...

– Au! Au! Auuuuuuu!

– Petra William s. Quietos! Eu disse QUIETOS!

A classe se transform ava em um canil. Latindo, rosnando, brigando. Na últim a fileira, Jim m y Lo j ogava a cabeça para trás e uivava com o um lobo sob a lua cheia.

Minhas novas am igas da turm a de Gillian m e olhavam com rápidos e encoraj adores sorrisos. Os sorrisos diziam que sentiam m uito e estavam envergonhadas por m im . Na m aior parte do tem po, no entanto, creio que apenas ficavam felizes por não serem elas a terem o nom e de um cachorro da TV.

– Tudo bem , j á chega, classe – o sr. Griffiths vociferava.

Se os latidos continuassem enquanto ele tentava cham ar o nom e de Steven William s, que vinha logo após o m eu, o sr. Griffiths com eçava a m udar de cor. Dava para ver o sangue subindo pelo colarinho de sua cam isa e cobrindo seu rosto com o se um a tinta verm elha tivesse sido inj etada em seu pescoço.

– Eu disse que j á chega disso. Com portem -se. Eu disse silêncio AGORA, classe.

O sr. Griffiths era um cara legal, m as era j ovem dem ais para ser professor, e bonito, com suas costeletas, olhos de um cocker spaniel suplicantes e um bigode desleixado. Eu achava que seria bem m elhor se ele fosse m ais velho e feio, assim sua raiva seria assustadora, e não engraçada.

Os latidos não eram culpa da m inha m ãe. Ela não sabia que Petra era o nom e do cachorro em Blue Peter porque não tínham os TV em casa. Minha m ãe não gostava de TV.

– É um a caixa para idiotas – ela dizia.

Minha m ãe alegava que os cientistas haviam provado que, se você ficasse na frente da TV por m uito tem po, os raios em itidos poderiam destruir seus órgãos vitais, até m esm o os rins, que estão localizados na parte de trás do corpo e abaixo da cintura. Quando contei para Sharon sobre os perigos dos raios da TV para os nossos órgãos, estávam os na sala de estar da casa dela, sentadas no sofá novo de três peças, am arelo-m ostarda, esperando A Família Dó-Ré-Mi com eçar. Estávam os com nossas m elhores roupas. Claro, tínham os que estar bonitas para David. Barrados pela sra. Lewis para assistir ao program a por causa de seus com entários desrespeitosos, o irm ão m ais velho de Sharon, Michael, e seu am igo, Rob, estavam do lado de fora da porta, prosseguindo com seus com entários entre risinhos abafados e am eaçando violências terríveis contra David.

– Oi, veado, ouça a m úsica que vam os cantar/Vam os lá, ele é noj ento – cantavam os m eninos, desafinados, j unto com a canção-tem a de A Família Dó-Ré-Mi.

– Calem a boca, vocês estão é m orrendo de ciúm e! – Sharon berrava de volta.

Ela riu sobre m eu com entário dos raios da TV, m as alguns segundos depois foi até a cozinha e voltou segurando duas assadeiras no ar com o se fossem os pratos de um a bateria. Nós nos recostam os no sofá cobrindo o peito e a barriga.

– As assadeiras irão rechaçar os raios nocivos – Sharon garantiu, com a voz m etálica do Capitão Escarlate. – Não entre em pânico, está bem ? Seus rins estarão a salvo com igo, Petra fach.

As assadeiras nos fizeram parecer soldados rom anos que haviam m orrido em batalha.

Na fila do lanche, do lado de fora do refeitório, Jim m y Lo, cuj os pais eram os donos do restaurante chinês na Gwy nber Street, gritou:

– Petra é um a pastora-alem ã! – Ele pronunciava pastora aremã. – Entendeu? Pastora aremã. Petra. Au-au!

E os garotos que estavam com ele – Mark “Gato” Tugwell e Andrew “Am or” Morris com eçaram a cantar:

“Hitler tem um a bola só,

Goering tem duas, duas bolinhas,

A de Him m ler é de dar dó...”

(Anos m ais tarde, depois de eu ter entrado na faculdade em Londres, o restaurante chinês de Lo foi fechado pela vigilância sanitária porque eles serviam carne de pastor-alem ão no chop suey. Isso é conhecido com o j ustiça poética.)

Goering e Him m ler foram m em bros im portantes do Partido Nazista. Os alem ães bom bardearam nossa cidade durante a guerra e as pessoas não esquecem algo assim tão rápido. Havia um a exposição de fotos antigas e am areladas do bom bardeio no corredor principal da biblioteca. Noite após noite os aviões voltavam para atingir a siderúrgica e as docas. As explosões ilum inavam o m ar com o um flash gigante de fotografia e as pessoas diziam que dava até para ver a Irlanda. Se os pilotos não conseguissem achar o alvo, lançavam as bom bas m esm o assim , para que os aviões tivessem com bustível suficiente para fazer a viagem de volta à Alem anha. Sabia disso porque Mamgu e Tad-cu, m eus avós, tinham um a fazenda nas m ontanhas que ficava atrás da cidade e, enquanto trancavam as vacas um a noite, ouviram um incrível som penetrante.

– Você teria achado que o próprio Todo-poderoso estivesse uivando com o um lobo – Mamgu, m inha avó, sem pre dizia quando contava aos netos a história do bom bardeio. Sabíam os que era verdade porque ainda se podia ver a cratera no cam po. A cratera era tão grande que um a casa inteira caberia lá dentro.

Achava difícil acreditar que m inha m ãe estivesse do outro lado durante a guerra porque o nosso lado estava certo e nós vencem os. E na nossa casa, m inha m ãe estava sem pre certa e sem pre vencia.

Quando m eus avós, m eu pai e suas duas irm ãs, tia Edna e tia Mair, estavam correndo na direção do curral com suas roupas de dorm ir, carregando baldes de água, o avião que causara o fogo j á estava a cam inho do país onde m inha m ãe, na época com 6 anos, estava dorm indo. Um a vaca prenha perdeu seu bezerro e, durante cinco dias após o bom bardeio, o leite do rebanho inteiro saiu com o queij o.

Mesm o antes de m eus pais se conhecerem j á estavam brigando.

 

No m eu sonho favorito com David, o professor estava fazendo a cham ada na escola quando David abre a porta e entra. Era sem pre depois dos seis Thom as e bem na hora em que o sr. Griffiths cham ava m eu nom e. David estava com aquela cam isa aberta no pescoço, com golas enorm es e botões perolados, a m esm a que está usando na capa do álbum Cherish.

Meu Deus, existe coisa m ais m aravilhosa? David Cassidy era o único ser hum ano, entre hom ens e m ulheres, que fazia um cabelo repicado ficar insanam ente atraente. Observando bem a capa daquele disco, percebe-se que seu olhar é tão intenso que seus olhos castanho-claros estão praticam ente pretos; com o a Mona Lisa, seus olhos fazem a gente querer olhar sem parar.

Um a vez na sala de aula, David se apresentaria para o sr. Griffiths, daria um sorriso lindo e sim pático de Keith Partridge, seu personagem em A Família Dó-Ré-Mi, e diria: “Petra, que nom e m aneiro! Gostei.”

Isso calaria a boca deles. Ficariam im pressionados por um superstar com o David aparecer na nossa escola. E com o David é am ericano, não saberia que Petra é o nom e de um cachorro da TV. Ele pensaria que Petra é um nom e com o outro qualquer, talvez até achasse um nom e bonito. Quando fosse m ais velha, eu iria m orar nos Estados Unidos, em um cânion, e ninguém nunca m ais latiria para m im .

Minhas am igas nunca falavam com igo sobre os latidos. Provavelm ente era difícil ter algo para dizer. Só duas pessoas m encionaram o assunto. Um a delas foi Susan Davis.

Eu estava saindo de um dos banheiros durante o intervalo, e Susan estava perto do toalheiro de papel; ela havia feito um a dobradura de pom ba m uito legal com um a toalha de papel e estava aj eitando as asas para que elas abrissem e fechassem . Estávam os sozinhas.

– Você não fica chateada com aqueles latidos, não é? – Susan disse, quase para si m esm a.

– Claro que não – respondi abrindo a torneira e apertando o botão da saboneteira com sabonete líquido. Sem pre tentávam os conseguir algum a gota de sabonete, em bora a substância viscosa cor-de-rosa com cheiro de chiclete que ficava sobre a pia tivesse acabado. O odor inconfundível de Susan (o cheiro im pactante que nos forçava a respirar pela boca quando ela estava por perto) m isturava-se com o fedor doce dos banheiros.

– Seu cabelo está lindo, Petra – ela disse.

Levantei o olhar e vi seu rosto no espelho. Se você se forçasse a não j ulgar por alguns segundos, era possível ver que um a garota de olhos castanhos, em oldurados por cílios espessos e lábios com form ato de coração estava por trás daquela terrível m áscara m arcada por pústulas. O cabelo de Susan era bonito e brilhante com o o de um anúncio de revista, e tão com prido que ela poderia se sentar nele. Os cabelos eram sua afirm ação de beleza e percebi, na hora que elogiou o m eu, o quanto ela cuidava dos seus, e com o eram bem lavados e penteados toda noite para que estivessem perfeitos para a escola no dia seguinte. Se você visse Susan Davis de costas e não soubesse do seu problem a de pele, esperaria ver um a garota linda quando se virasse. Ficava pensando com o deveria ser quando você se vira ao ouvir o assobio de um garoto, com seus cabelos loiros e longos de com ercial de xam pu, para depois ver o choque e repugnância nos olhos dele.

– Seus cabelos... – com ecei, m as a porta de entrada do banheiro fem inino foi escancarada com o se um caubói estivesse entrando em um bar para um tiroteio. Carol. Ela ignorou Susan, baixou a calça, sentou-se no vaso e não se im portou em trancar a porta enquanto seu xixi j orrava e deixou escapar um pum barulhento.

– O pessoal daquela cantina é m uito pão-duro – Carol disparou, com o se estivéssem os só nós duas. Quando m e voltei, a única evidência de que Susan esteve ali era um a pom binha am assada na parte de cim a da lixeira. Eu a em purrei para baixo dos outros papéis. Não tinha gostado daquilo; Susan agindo com o se estivéssem os no m esm o barco. Não queria que ela sentisse pena de m im . O que pensariam se Susan estivesse sentindo pena de m im ?

– Quer dizer que você anda falando com Susan Davis? – Carol perguntou.

– Sai fora! – disse, prendendo m eu nariz e fingindo desm aiar com o fedor im aginário.

Carol em itiu um ronco, aprovando.

Ser im popular era com o um vírus contagioso. Era m elhor não chegar m uito perto.

 

A outra pessoa que tam bém m encionou algo sobre os latidos foi Steven William s. Foi na m esm a tarde em que decidim os com prar os ingressos para o show de David, e todos estavam correndo com o um bando de loucos para fora da classe depois da cham ada quando Steven veio na m inha direção e m e entregou um a cópia da peça de Shakespeare, Noite de reis.

– E aí, tudo bem ? Acho que isso é seu – ele disse.

Steven era alto e se inclinava sutilm ente enquanto falava com igo. Eu sabia que ele era do tim e de rúgbi e colega do latidor m aligno Jim m y Lo. Ele tinha um arranhão na bochecha debaixo do olho direito, que era do m esm o azul do m ar em um dia de verão. A largura de seus om bros era incrível. Eu m e sentia com o um a boneca Barbie perto dele.

Não era a m inha cópia da peça, eu sabia. A m inha estava na m ochila. Eu havia visto a m inha cópia enquanto escondia m eu rosto ruborizado durante a cham ada.

– Obrigada – agradeci, e a peguei.

– Sinto m uito sobre os latidos – Steven William s disse. – Os garotos são um pouco doidos, é só.

Eu concordei com a cabeça.

– É por causa da cidade rosa-averm elhada?

– O quê?

– Petra. A cidade rosa-averm elhada, tão antiga quanto o tem po. – Ele disse essas palavras com o se estivesse recitando um poem a.

– Sei lá – respondi.

Por quê? Por quê, m eu Deus? Eu nunca dissera “sei lá” antes na m inha vida. Sei lá era com um . Era o vocabulário dos idiotas. Minha m ãe poderia cair m orta na rua se soubesse que tinha um a filha que dizia “sei lá”. A m ulher que devorou a revista Reader’s Digest que trazia a m atéria “Vale a Pena Aum entar o Poder da Palavra” não poderia ter produzido um a filha que dizia “sei lá”.

– Tenha bons m odos, Petra, pelo am or de Deus – m inha m ãe m e repreendia.

– Muito obrigada – tentei novam ente e abri um sorriso nervoso.

Steven pegou sua m ochila listrada da Adidas e a arrem essou sobre o om bro com o se estivesse pronto para ir, m as ficou onde estava, im óvel, m ovendo seu peso de um pé para o outro.

Aquilo era um a arm adilha? Olhei em volta para conferir se Jim m y e os outros m eninos estavam de tocaia, m as eles j á estavam a quase 100 m etros de distância, chutando suas m ochilas para a lam a e caindo em cim a delas.

– Pensei que você gostaria de saber... sobre a outra Petra.

– Obrigada. Eu não... sabia. A cidade rosa-averm elhada.

A m esm a cor das m inhas bochechas naquele m om ento, com certeza. O rubor viaj ava m ais rápido que o sentim ento que o im pulsionava; um sentim ento para o qual eu ainda não tinha um nom e. Um dos sentim entos m ais poderosos no m undo todo.

– Até m ais, então – Steven disse, fazendo um sinal com o braço livre para m e m ostrar que precisava alcançar os outros m eninos. Ele levantou os olhos do chão e sorriu. O sorriso dizia que os latidos não iriam parar, m as que ele não concordava com aquilo.

– Até m ais.

Acho que acabávam os de ter nossa prim eira conversa.

 

– O que Steven William s queria com você? – Gillian indagou assim que alcancei as m eninas na aula de costura.

Ela colocou toda a ênfase no “você”. Com o se eu fosse a últim a garota no m undo com quem um garoto quisesse conversar.

– Ele pegou um livro m eu por engano – eu disse.

Eu detestava a aula de costura, ou, m elhor dizendo, a aula de costura m e detestava. Vinha tentando colocar um zíper em um a saia há três aulas e a professora continuava insistindo para que eu o tirasse e tentasse novam ente. Toda vez que eu gentilm ente pressionava o pedal na pequena m áquina de costura, sentia-m e com o um cavaleiro de rodeio forçado a cavalgar um a abelha gigante. O m ais leve toque no pedal e a agulha endoidava. Bbbzbzzbbzzzzz.

– Steven William s pode entrar sob m eus cobertores qualquer dia desses. – Carol deu um sorriso afetado, erguendo-se um pouco da cadeira e em pinando os lábios. Olga revirou os olhos para m im . Diferente de m im , Olga usava óculos na escola e conseguia enxergar.

– É um m enino bonito, bom para ele – Sharon com entou, lam bendo a ponta de um a linha antes de colocá-la na agulha. Ela com eçou a posicionar a m anga em seu exato lugar no corpete de um vestido rosa acetinado de dam a de honra que iria usar no casam ento de sua tia, em agosto. O vestido j á tinha pregas no busto, várias nervuras e um a barra com costura invisível. As m angas longas e bufantes caíam com o m em bros am putados na m esa; a parte de cim a tinha ondulações perfeitas e estava pronta para ser costurada. O que estou querendo dizer é que o vestido de Sharon parecia de fato um vestido. Um a façanha m ais surpreendente para m im do que escrever um a sinfonia ou fazer um a nave espacial retornar à Terra. Aquele vestido estava tão profissional que Sharon poderia vendê-lo em um a loj a.

– Sej a com o for, esse Steven William s beij a m uito m al. Bethan Clark j á o beij ou – Gillian confidenciou. – Ele cospe na boca da garota.

 

Nossa turm a estava descendo a rua de braços dados. Gillian estava no m eio e, naquele sábado, deixou Sharon e Angela darem os braços para ela. As segundas favoritas davam o braço para as garotas ao lado de Gillian. Eu estava na ponta, m as estranham ente feliz e agradecida por pelo m enos fazer parte daquele alinham ento. Tinha de soltar o braço de Olga toda vez que nos deparávam os com um poste, descer para a sarj eta, pular de volta para a calçada e pegar seu braço novam ente. A conversa continuava, portanto estava sem pre um pouco atrasada. Na pressa, não notei um a suj eira de cachorro.

– Credo, Petra, é você? Tem algum a coisa no seu sapato? Pelo am or de Deus, m enina!

Gillian disse que eu poderia alcançá-las depois de tirar o cocô de cachorro do m eu sapato.

– Venha para m inha casa depois, tá? – Angela gritou sem olhar para trás. Minhas am igas se afastaram sem quebrar a form ação, parecendo um a parede.

Achei um palito de pirulito em um a cerca viva e com ecei a tirar o cocô grudento e alaranj ado da sola do sapato. Levou séculos, porque o cheiro m e dava ânsia. Os últim os pedaços ficaram presos no solado de borracha em zigue-zague e eu tentava lim pá-lo com um a folha. Céus, m inhas m ãos estavam fedendo e eu não tinha nenhum lenço de papel. Tudo bem , eu poderia lavar as m ãos na casa da Angela, no banheiro do andar de baixo. Subi a ladeira o m ais rápido que pude para alcançá-las e senti um a pontada. A dor dava agulhadas no m eu lado esquerdo e tive de m e sentar em um a m ureta por algum tem po até passar. Depois peguei um a rua errada e tive de voltar para a rua principal de novo para m e achar. Estava m uito atrasada. O arom a penetrante de gordura de batata assando com eçou a vir das casas onde as m ulheres estavam servindo o j antar. As m eninas deveriam estar preocupadas, pensando que fui para casa ou algo do tipo. Por fim , encontrei as casas gem inadas em form ato de ferradura onde a inglesa Angela m orava. A casa era linda, nova e com árvores j ovens plantadas em círculos nos gram ados em frente. As árvores eram ainda varetas am arradas a um a estaca, com um único galho de floração rosa pálido, com o a echarpe de plum as que eu sem pre quis. O lugar onde Angela m orava tinha um pátio, um vestiário no andar de baixo e tudo m ais. Ainda bem que eu m e lem brava do núm ero. Estava tão aliviada e feliz por saber qual era a casa de Angela que quase com ecei a chorar quando sua m ãe abriu a porta.

A m ulher carregava um a bebezinha com cabelos cacheados e que parecia zangada, com o se tivesse acabado de acordar da sua soneca. A m ãe de Angela pareceu surpresa quando disse por que estava lá.

– Oh, sinto m uito, am or, as m eninas não estão aqui. Elas estão na casa de Gillian hoj e. Vai ter um a festinha. Você esqueceu, foi?

 

Eu realm ente esqueci de um a coisa. Esqueci de dizer qual é a m inha m úsica favorita de David. Não era “Could It Be Forever”, nem m esm o com aquela parada m aravilhosa e sexy para o “but”. Era “I Am a Clown”.

Esta m úsica chegou só ao terceiro lugar nas paradas do Reino Unido, m as sem pre fora a m inha rom ântica núm ero 1. Eu a adorava por ser triste, com ovente, sensível e profunda, tudo ao m esm o tem po. Provavelm ente o que pensava que eu era. David cantava sobre ser um palhaço em um circo sem m uita im portância. Ele tinha de sorrir, a qualquer preço, m esm o que estivesse m orrendo por dentro. A prim eira vez que ouvi “I Am a Clown”, fiquei arrepiada. Sério, pensei que ele estava falando com igo por códigos. David se sentia só e preso nessa vida de artista e só eu conseguia entendê-lo. Você j am ais poderia im aginar, m as sentir um pouco de pena dele era ainda m elhor do que pensar que ele era perfeito. Era com o perceber que ele tinha um a pele ruim e não se im portar. (Ele tinha m esm o, e eu não m e im portava, porque as m anchas de David apareceram quando ele estava com problem as nervosos, e por causa de toda aquela m aquiagem que tinha de usar. Não era acne ou algo do tipo. Era pele sensível, só isso.)

Sentir pena de David significava que ele precisava de m im . Eu tinha um papel na vida dele. Apesar de toda a sua fam a e riqueza, e m ilhões de garotas que poderia escolher, ele precisava de mim.

David Cassidy era solitário. Esse pensam ento era estranham ente excitante. Com igo ele não seria m ais solitário.

É por isso que nunca revelei m inha canção favorita às outras garotas. Se eu contasse, elas copiariam m inha ideia. Isso m e custaria um a vantagem crucial quando David e eu finalm ente nos conhecêssem os. Ele ficaria m uito im pressionado por eu não ter escolhido um de seus sucessos óbvios.

– Nossa, isso é incrível, Petra. Você curte “I Am a Clown”? Uau! Ninguém repara nesta m úsica e ela significa m uito pra m im . É a que m ais gosto.

E o que eu responderia?

Pode acreditar. Você não precisa se preocupar. O que eu quero é fazer você feliz. E se você disser “vá em bora”, vou fazer o que você diz. Mas acho m elhor ficar e te am ar. Você acha que tenho algum a chance? Quero te olhar olho no olho e saber.

Será que você m e am a?

“I THINK I LOVE YOU.”