Eu Acho que Amo Você
Capítulo 16
16
Getting to Know You: Musicoterapia com Ashley
Por Petra William s, Bacharel em Música,
Musicoterapeuta Registrada
RESUMO
Esse estudo de caso descreve sessões sem anais durante um período de m ais de dois anos com um a m enina de 10 anos de idade com problem as em ocionais graves. Ashley foi indicada para a m usicoterapia por causa de seu com portam ento agressivo e dificuldades de aprendizado na escola. Sua m ãe estava participando de um program a de reabilitação de drogas na época. Ashley tinha um senso rítm ico excelente e as sessões sem anais se tornaram um lugar onde ela se sentia segura. O estudo de caso tam bém ilustra com o as form as defensivas de expressão da criança foram trabalhadas m usicalm ente para aj udá-la a com unicar suas necessidades sem raiva e a m odificar algum as de suas tendências destrutivas para que ela pudesse interagir com seus colegas e iniciar um a vida m ais gratificante. Durante as sessões, um acordo inconsciente foi criado entre Ashley e a terapeuta com relação a não m encionar diretam ente sua história pessoal, que era difícil e triste dem ais. Em vez disso, ficou decidido que a m úsica contaria a história por ela.
HISTÓRICO
Ashley pensa em si própria com o “a m enina que ninguém am a”. Ela foi o quarto filho de sua m ãe, porém de pai diferente dos outros três irm ãos. Ashley foi concebida durante um dos períodos em que seu padrasto estava ausente de casa, e parece que ele nunca a aceitou, dizendo-lhe com frequência que ela era “um a estranha no ninho”. O pai de Ashley nunca m orou com a m ãe e desapareceu da vida da filha quando tinha 4 anos. Ele passou um período na prisão, em bora ela afirm asse que “m eu pai está no céu”. Os assistentes sociais descreviam a fam ília com o “caótica” e as quatro crianças foram tiradas de casa em duas ocasiões, para sua própria segurança.
Ashley é um a criança graciosa e bonita, que lutou m uito contra suas qualidades
naturais para que ficasse tão desagradável quanto pensa que é. Ela dem onstra deficits m oderados nas áreas cognitiva e de linguagem , geralm ente ficando entre 12 e 18 m eses atrás da m édia da sua idade. Sua relação m ais próxim a foi com sua avó falecida, Nana, dona de um pub, que tocava piano e cantava para Ashley durante toda a sua infância. As favoritas eram canções de m usicais de Richard Rodgers e Oscar Ham m erstein. Em bora sua fala sej a sem pre confusa, Ashley consegue incorporar letras de m úsicas com m uita alegria e precisão em um a conversa. Seus professores ficam surpresos que um a criança tão “desafiadora” consiga dem onstrar esses vislum bres de precocidade verbal.
A m orte de sua Nana, seis m eses antes da vinda de Ashley para a terapia, parecia
ser o gatilho das explosões extrem am ente violentas na escola. O histórico que tive sobre ela veio de Rosem ary, sua professora, que achava que a criança dem onstrava sinais de depressão provenientes de cuidados m aternais instáveis. Algum as m anhãs, ela aparecia na escola com o se estivesse vestida para um a festa, com tênis novos e laços no cabelo; em outros, usava roupas suj as e era ridicularizada pelos colegas com respeito à higiene pessoal. “Ashley Fedorenta” é com o ela geralm ente descreve a si m esm a em nossas dram atizações. Rosem ary achou que a m usicoterapia deveria ser tentada com o últim a opção depois que a terapia ocupacional e aulas de natação não conseguiram proporcionar m elhoras.
Petra salva o que fez, fecha o arquivo e o laptop. Está escuro no quarto, exceto pelo brilho alaranj ado indistinto que é lançado pela lâm pada da rua. Pela j anela saliente, salpicada pela poeira do fim do verão, ela olha para a casa do outro lado da rua, cópia exata da sua casa no estilo vitoriano, assistindo o j ogo de som bras de outra fam ília. Observar com o a fam ília das outras pessoas trabalha sem pre a fascinou. Ela se m ove em direção à lum inária, m as m uda de ideia. Olá, escuridão, m inha velha am iga.
Quando estava tocando com Ashley, sentia que sabia exatam ente o que estava fazendo, o que era a diferença do resto de sua vida, m as agora acha que não consegue colocar isso por escrito. Um estudo de caso requer que ela im ponha a linguagem técnica de sua profissão – deficits cognitivos, reações de transferência – em relação à criança de carne e osso que foi até sua sala em um a tarde congelante de fevereiro. Ashley se recusava a falar, m as ao m esm o tem po gritava sua aflição. Pequena para sua idade, a garota usava um a m iniblusa com o desenho do coelhinho da Play boy e um short atoalhado branco encardido; a gordurinha que balançava entre as duas peças de roupa estava azulada pelo frio. Foi no m eio da quarta sessão j untas, com Petra guiando a m ão da m enina sobre as teclas do piano, que Ashley tirou o chiclete e cantou “Getting to Know You”.
A dicção perfeita de Debora Kerr com o professora em O rei e eu viaj ara 40 anos ou m ais através da avó de Ashley no piano de um pub, chegando até um a criança-m ulher cuj o vocabulário provavelm ente não passava de duas m il palavras. Petra fazia questão de nunca se em ocionar nas sessões. As em oções da criança eram sem pre m ais im portantes do que qualquer coisa que ela pudesse estar sentindo no m om ento, m as naquele dia com Ashley foi difícil para Petra conseguir se recom por suficientem ente para responder à m úsica da criança, ao m esm o tem po que sentia a em oção de com eçar a gostar dela, esperando que Ashley gostasse de volta.
E depois o verso final, j untas, a voz da m enina e da m ulher entrelaçadas com o em um a espiral prateada de som .
A m úsica chega a lugares ocultos do nosso ser onde a linguagem geralm ente não chega, conseguindo perfurar a arm adura que um “eu” ferido constrói desde m uito cedo para se proteger. É por isso que a terapia funciona, se é que realm ente funciona, e talvez o m istério do processo, e o fato dele ultrapassar as barreiras da linguagem , é o que faz com que sej a tão difícil descrevê-lo.
Bill Finn poderia colocar tudo isso em palavras, Petra subitam ente tem certeza disso. Durante a produção, Bill perguntou sobre seu trabalho, perguntas que sugeriam que pudesse estar interessado nas respostas, o que seria im possível. Petra conhece esse tipo urbano, da m etrópole. Na realidade, ela não os conhece, não pessoalm ente, m as j á leu sobre pessoas assim . Sem pre pulando de um lançam ento de livro a um a inauguração na noite, tudo é m aravilhoso, incrível ou extrem am ente interessante, com o se falar apenas de diversão o fizesse interessante aos olhos de outra pessoa. Talvez aquilo fosse inj usto. Talvez Bill fosse m ais do que a som atória de suas revistas glam ourosas. Eles estavam sentados na lanchonete da Nightingale quando Petra se viu contando sobre a risada de Ashley, a m ais alegre que j á ouvira, e a m ais im pressionante, porque veio de um a pessoa sem registros prévios de alegria. Bill quis saber exatam ente com o a m usicoterapia aj uda um a criança com o Ashley a vencer dificuldades.
– Não é um a ciência exata – ela disse. – Existem m uitas teorias sobre com o ela funciona.
– E qual é a sua?
– Dizem que os hom ens prim itivos se com unicavam através de canções, não dizem ? Grunhidos com entonações. Talvez fôssem os com o pássaros e perdem os essa característica. Na verdade, não a perdem os totalm ente.
– O cantar dos pássaros é um a coisa m uito estranha – Bill disse. – Você acha que eles cantam para m arcar território e acasalar, m as eles cantam porque adoram cantar.
– Você quer dizer os pássaros.
– Um biólogo, ou algo do tipo, pega seu clarinete para tocar na floresta. Um bando de m elros ficava em volta. No fim das contas, a única conclusão dele é que os pássaros estão fazendo m ilhares de sons a m ais do que deveriam . Sim plesm ente pela alegria de cantar, im provisando enquanto cantam . Com o Charlie Parker.
– Você está falando do Bird.
– Isso m esm o, o Bird, Charlie Parker – Bill disse. Ele fez um a pausa. – Pensei que você fosse fã dos clássicos, não do j azz.
– Sou fanática por todos os gêneros de m úsica – respondeu ela. – Se você tiver danos cerebrais no seu lóbulo tem poral direito, que controla o processam ento auditivo de sons: a fala do lado esquerdo, a m úsica do lado direito...
– Estou perdendo o interesse – ele disse.
– Não, você vai entender. O lóbulo tem poral direito fica atrás da orelha, aqui. Acho que o seu é bastante desenvolvido. Se estiver danificado, os pacientes apresentam total dificuldade em reconhecer canções ouvidas recentem ente, em bora consigam reagir em ocionalm ente a elas. Isso se cham a am usia.
– Am usia. Um ótim o título para um livro. Adorei. – Quando Bill sorria, parecia ser um a pessoa diferente.
– E se os hum anos cantaram antes de falar? – ela disse. – Ou sej a, a m úsica pode ser profundam ente instintiva para nós, talvez nossa form a m ais verdadeira de com unicação.
– Você não m e ouviu no chuveiro às 6h da m anhã.
– É o que estava dizendo, hom em prim itivo.
– Ai! – Bill disse. – De onde você veio?
Enquanto Petra recordava, foi levada de volta à sua sala de estar por um a batida alta vinda do andar de cim a. Molly. Ainda acordada e tocando teclado. Às 22:25. E o dia seguinte é dia de escola, pelo am or de Deus. Ela belisca a ponta do nariz, o local onde dizem que tira a dor de cabeça, ou pelo m enos assim dizem as revistas. Suas piores brigas ultim am ente têm sido sobre o horário de dorm ir. Não ir para a cam a cedo o suficiente, não conseguir dorm ir, e depois não levantar no dia seguinte. Ter horário para ir dorm ir, sua filha anunciara com arrogância, é coisa de bebê. Petra relem bra Molly bebê, no berço, encolhidinha com o um a castanha de caj u, suas m ãos pequeninas se abrindo e fechando. Aquela parecia ser a pior fase: as noites am am entando, o relógio digital ao lado da cam a lhe dizendo ser 3:15 da m anhã. Naquela época parecia que sem pre eram 3:15. A falta de sono faz você ficar zonza, ao m esm o tem po que seus pés parecem pesar com o chum bo. Durante um concerto no Albert Hall, Petra apagou por alguns segundos, o que não teria sido um problem a, se ela não fosse um a das artistas se apresentando. Petra sem pre achou que poderia tocar violoncelo dorm indo, m as som ente a m aternidade lhe dera a oportunidade de testar essa hipótese.
E então os anos de bebê se passaram com o chuva de verão e a parte difícil passou a ser a m ais fácil, m as ninguém sabe disso até que a fase term ine. A m aternidade é com o estar em um a peça e só saber as falas da sua cena em cim a da hora. Quando você descobre com o desem penhar seu papel, as cortinas caem e com eça o próxim o ato. Alguns dias ela sentia m uitas saudades daquele bebezinho.
– Ser pai ou m ãe nunca se torna m ais fácil – Carrie afirm ou. – Apenas fica difícil de um a form a diferente.
Petra era a disciplinadora da fam ília, um papel que Marcus ficava feliz em delegar. Não, feliz em abandonar, pensa, e fiscaliza a si própria. Ela não suporta se sentir am arga, a sensação é com o a de usar um enxaguante bucal barato. Ao sair do escritório do advogado, depois de discutir um a separação am igável – sr. Am os era o advogado de ambos, m as de repente passou a ser de Marcus –, ela cuspiu a bile que acum ulara no fundo da garganta dentro de um a lixeira verde.
Eu m e tornei o tipo de m ulher que cospe na rua e não carrega lenço, ela pensa. Se sua m ãe estivesse viva, isso a teria m atado.
Agora que Marcus não está m ais com ela, Petra precisa ser a durona e a boazinha para Molly . Com o Cagney e Lacey , as policiais do seriado am ericano da década de 1980.
Qual delas era o quê? Petra nunca conseguiu entender direito, m as a loira era definitivam ente m ais durona, a m orena era m ais cheinha e m aternal. Não se veem m uitas personificações de m ulheres que gostam e dependem um a da outra com o essas duas. De acordo com sua experiência, na vida real era a am izade fem inina que m antinha a m aioria das m ulheres em m ovim ento, principalm ente depois que a rivalidade com relação aos hom ens perdeu a força.
Todos os dias da sem ana, às 6:50, Petra entra no quarto de Molly e tropeça ao passar pelo tapete. Com seus am ontoados de entulhos, o quarto é com o um a praia depois que a m aré baixou. Ela liga o rádio – um DJ estúpido e irritante o suficiente para levantar os m ortos. E então, 15 m inutos depois, ela grita da escada para o andar de cim a, horário que geralm ente a filha está no chuveiro. Nessa m anhã, entretanto, ela teve que literalm ente sacudi-la para que acordasse. Molly, com o rosto escondido pelos cabelos dourados com pletam ente bagunçados, surgiu com o um m arsupial saindo da toca. Isso não era dorm ir, era hibernar. Petra ficou brava. “Pirou”, na acusação chorosa de Molly .
– E se você quer ter cabelos com pridos, m ocinha, vai ter de aprender a penteá-los toda noite ou vam os cortá-los.
Mocinha? De onde veio isso? Com o eram caretas e previsíveis as palavras que se aloj avam no gene acusativo das m ães. Será que Darwin sabia que a sobrevivência dos m ais evoluídos envolve escovar os cabelos? Não, m as as m ães sabem . Greta costum ava agarrar os cabelos de Petra e dizer: “Ach, estão oleosos dem ais.” Muitas das frases de sua m ãe com eçavam com aquele ach gutural de reprovação. Ela pensava que era porque Greta estava desapontada com a aparência da filha. Agora que tam bém tem um a filha, Petra vê com um a clareza assustadora com o o m undo j ulgará Molly, e não a j ulgarão por seu hum or inteligente ou suas m ãos habilidosas que tocam acordes com plexos com o pontes feitas de carne e osso.
Petra am a sua filha de um a form a apaixonada, m as é extrem am ente crítica com ela. Com um filho poderia ter sido diferente, ela sem pre pensa sobre isso. Mas ela tem um a filha adolescente, um a criatura m uito voluntariosa. Muito teim osa. Não, voluntariosa é m elhor. O m odo com o Molly proj eta seu queixo em form ato de coração, determ inada a dar a últim a palavra em qualquer discussão, sentindo-se m ais confiante nos assuntos em que é m ais ignorante. Dói quando Petra é acusada por Molly de não com preendê-la. Com parada à sua m ãe, Petra se sente um a m estra da com preensão e com paixão. Greta poderia ter ensinado aos aiatolás no Irã algum as coisinhas sobre rigidez e intolerância. Pelo m enos Molly não havia herdado o gosto pela m elancolia e pela catástrofe. Petra foi educada para acreditar que tudo o que foi inventado depois de 1959 causaria câncer. Ainda acredita.
– Os velhos tem pos de novo não – Molly suspira se Petra ousa sugerir que, em um tem po não m uito distante, havia m ães ainda m ais rígidas e m ais irritantes que ela.
– Isso foi há 25 anos – diz Molly .
Não para Petra. “Estou chegando à m etade da m inha vida”, pensa. Sou adulta. Sou m ãe. Tenho um a casa em um bairro agradável de Londres com um a faixa de sol no quintal voltado para o sul, onde planto tom ates excelentes e m anj ericão, que espalho com as m ãos sobre os tom ates cortados para liberar o arom a, acrescentando um pouco de vinagre balsâm ico. Tenho um trabalho que am o e que pode até fazer algum a diferença no m undo, preciso ser um a pessoa m adura ancorada por todas as arm adilhas de um a vida decente e um pouco entediante, ainda que progressivam ente m e sinta com o um a criança que suspeita que o passado está dando voltas em um grande círculo para lhe fazer um a em boscada.
Ela tem apenas um a vaga ideia da teoria da relatividade de Einstein, m as sabe que algo estranho aconteceu com o tem po desde que achou a carta da revista de David Cassidy no arm ário de sua m ãe. Seu cérebro, que geralm ente gira de preocupação com o um pião, com eçou a dar voltas im pressionantes entre os anos e as décadas, com o se um diretor invisível estivesse j untando cenas de destaque da vida de Petra para um a cerim ônia de prem iação. Enquanto ela estava lendo no banheira, certa noite, foi o pênis de Steven William que surgiu. Ela o viu pela prim eira vez quando estava cuidando das filhas de seu professor de geografia, e Steven apareceu sem avisar. (Petra e ele estavam com eçando a sair depois que Gillian se cansara de Steven. Ela nunca gostou dele, só não queria que outras m eninas o tivessem .) Petra se lem bra, por exem plo, de quando ela abriu a porta, de com o ele estava parado na entrada da casa revestida de seixos com um a garrafa de sidra e um sorriso esperançoso. Ela se lem brava do m odo com o ele tirou o casaco, j ogando-o sobre o corrim ão com o se fosse um a sela, fazendo as fivelas do casaco tilintarem com o estribos. O m odo com o os dois subiram as escadas pé ante pé para verificar se as duas m eninas estavam dorm indo, e com o foi a sensação de experim entar a vida adulta pela prim eira vez. Ela se lem bra de ter exam inado m inuciosam ente o rosto de Steven em m eio ao brilho do abaj ur de cogum elo e percebeu, para sua surpresa, que estava olhando para ver que tipo de pai ele poderia ser. Petra tinha, no m áxim o, 15 anos na época.
Ela se surpreende recordando coisas que nem sabia que havia notado. Com o quando eles estavam se beij ando no sofá e ele se ergueu usando um dos cotovelos para im pedir que seu peso a com prim isse. Ela se lem brou de com o gostava de ser com prim ida pelo peso dele. Seu coração batia com o se ela tivesse corrido centenas de quilôm etros. Quando os lábios dele encontravam seus seios, um sinal elétrico era enviado “lá pra baixo”, um espasm o de desej o que criava novos atalhos enquanto ela estrem ecia. Ele desabotoou a calça j eans, aj ustou-se com um único m ovim ento, e lá estava ele. Enorm e e indom avelm ente vivo. Nenhum a conversa entre as m eninas na sala de costura, nenhum a aula de biologia ou até m esm o a m ím ica de Carol com um saucisson na viagem do 7º. ano para Paris poderia tê-la preparado para a coisa em si.
Ela não sabia se ria ou desm aiava, porém nenhum a das alternativas seria apropriada, porque, sem dúvida algum a, aquele era um m om ento solene. Sabendo que algo deveria ser feito em relação à ereção, com o acabar com ela, para ser m ais exata, e descobrir com o j ustam ente no m om ento em que o professor de geografia colocou a chave na porta da frente. Steven deu um pulo e ficou de pé, fechando o zíper e enfiando o sutiã dentro da bolsa dela com um único m ovim ento. Os anos de treinam ento no cam po de rúgbi estavam sendo úteis nesse m om ento.
Petra disse que as m eninas não deram trabalho. Nenhum trabalho m esm o. O professor sabia, e os dois sabiam que ele sabia, m as foram salvos pelo constrangim ento m útuo.
Steven lhe deu carona na bicicleta pelo cam inho da praia. Petra se sentia feliz sim plesm ente por estar viva. O vento salgado em seus lábios beij ados, suas m ãos envolvendo a cintura de Steven, seu corpo inclinando-se com o dele para virar cada esquina. Seu prim eiro contato com o sexo a deixara entorpecida, guardando os segredos da condição de ser m ulher para si m esm a.
Um a parede inteira do quarto de Molly está tom ada por um garoto. O m esm o garoto, pôster após pôster. Um garoto na proa de um barco, um garoto na praia. Ele tem olhos azuis e o queixo proem inente com um a covinha. Sua franj a com prida é repartida para o lado e tem m echas loiras. Petra não acha o garoto grande coisa. Com seu nariz de botão e olhos redondos, ele parece o desenho de um a criança, não parece totalm ente real. Ela não gosta do quarto de sua filha parecer um a capela renascentista dedicada ao culto do j ovem , m as não diz nada. Em vez disso, com um a voz suplicante que ela própria detesta, diz: “Mol, j á lhe disse antes, se você colocar fita adesiva para grudar pôsteres, a tinta vai sair quando você os tirar.”
Molly não responde. Ela está na cam a, ouvindo seu Discm an em baixo da colcha com o se fosse um m onstro do m ar.
– Sabe que não podem os gastar para pintar a casa.
Com o acontece com frequência com sua filha, Petra percebe sua língua continuar falando quando o silêncio seria a opção m ais inteligente. Não era isso o que queria dizer, pensa. Essa não sou eu.
– Mas não vou tirar os pôsteres, vou? Dãaa! – diz a form a debaixo da colcha.
– Não diga dãaa.
– Qual o problem a em dizer dãaa? Sinceram ente, m ãe, não entendo você às vezes.
– Não precisa m e entender. Sou sua m ãe.
Petra se abaixa para apanhar um a pilha de calças.
– Esse é o m enino de Titanic?
Molly se senta, incrédula.
– Leonardo DiCaprio, m ãe. Ele é fam oso no m undo todo.
– Com o ele conseguiu esse nom e?
– Sua m ãe estava grávida dele, viaj ando pela Itália, e viu um a pintura de Leonardo da Vinci.
– Com o é que você sabe disso?
– Li em um a revista.
Petra suspira, exasperada.
– Você não pode acreditar em tudo o que lê nas revistas, filha.
– Acontece que é sério. Di Ver-da-di.
Petra se inclina para frente para perm itir que aquela linguagem artificial sej a processada em sua cabeça.
– Sabe, quando eu tinha a sua idade, não podia colocar pôsteres no...
Molly não espera que ela term ine:
– Aonde está querendo chegar?
O terrível sarcasm o com a m ão na cintura que Molly aprendeu nos seriados am ericanos que assiste na TV.
– Molly , por favor, não fale com igo desse j eito.
– Que j eito?
Assim com o o resto de sua geração, Molly acha chato aprender um a língua estrangeira, m as de algum a m aneira consegue falar fluentem ente o dialeto dos fedelhos de Beverly Hills. “Isso é tãaao tosco”, ela diz, torcendo o nariz. Petra, que ainda acha que tosco é algo feito de um j eito rústico, sente-se velha e ultrapassada.
Tente sem pre se lem brar de que você é a adulta. Foi o que um a vizinha com crianças disse a Molly quando ela com eçou a trabalhar com o babá. Parecia algo tão estranho para se dizer – quem era o adulto, se não a m ãe? Agora seu bebê j á era um a adolescente e Petra sabe o quanto é difícil não ser provocado por um a m anha infantil. “Bom , com o você acha que eu m e sinto?” é o que ela se vê pensando.
Molly não se im porta com o que Petra sente. O papel de Petra é absorver o que Molly estiver sentindo.
– Mol?
– OK, vou usar o adesivo Blu-tack para não estragar as paredes.
– Ótim o.
– Está bem .
– Já é tão tarde. Esperava que você j á estivesse dorm indo, am or.
Petra sentou-se na beira da cam a e acariciou a testa da filha com o dedo indicador. Nos últim os m eses, as feições da m enina cuidam da tarefa urgente de transform á-la em m ulher; no m om ento, os olhos, nariz e lábios cheios estão levem ente fora de escala, sutilm ente grandes dem ais para seu rosto. Molly reclam a que não é nem um pouco bonita, m as um dia ela será linda, sua m ãe acha. A m enina m ais bonita da classe raram ente cresce e continua linda. Surge um a súbita im agem de Gillian no encontro dos ex-alunos da escola, quatro anos antes. Dona de casa e m ãe agora, m orando em Berkshire ou Buckingham shire, região próxim a a Londres. Suas feições são agradáveis, acom panhadas de um corte de cabelo Chanel perfeito e reflexos cor de caram elo só um m ilím etro cheios dem ais. Gillian Edwards, agora adulta, falando da casa que tem em Algarve, com as palm as das m ãos m anchadas do bronzeam ento artificial. Gillian. Toda aquela m ágica atem orizante desapareceu.
– Não consigo dorm ir. Eu sem pre lhe digo isso – Molly reclam a. As bolsas debaixo dos olhos estão da cor de um a am eixa escura. Suas pálpebras estrem ecem com o se um a traça estivesse presa debaixo delas.
Petra se inclina para beij á-la.
– Está tudo bem na escola?
– Está.
– Hannah está bem ?
A pergunta foi feita em tom casual. Hannah Difícil, a m ais volátil no grupo de Molly. Hannah, a garota que Petra há tem pos viu com o am eaça para a felicidade de sua filha, em bora m antivesse esse pensam ento guardado para não fazer com que Hannah se tornasse ainda m ais interessante para sua filha. Hannah Difícil, a rainha que faz as outras m eninas girarem ao seu redor. Todo grupo tem um a. Hannah com frequência exige ser a m elhor am iga de Molly, só ela e m ais ninguém . Mais exigente do que qualquer am ante.
Elas são só adolescentes, Petra diz para si m esm a, m as sabe o que as adolescentes podem fazer, por isso fica alerta. Petra aconselha Molly a m anter um círculo grande de am igas. Não diz que quanto m ais am igas tiver, em grupos diferentes, m enos chance de ser abandonada. A adolescência é um período de preocupação para as m ães, m as Petra sabe que se preocupa m ais do que o razoável. Sua antena para a rej eição é superdesenvolvida; m esm o parecendo ter colocado no m undo um a garota popular e bem -aj ustada, não consegue desligar esse botão.
– Manhê, isso não é um problem a, tá?
Isso é o que Molly sem pre diz quando Petra pergunta por que não foi incluída na ida ao shopping com as outras m eninas ou, inexplicavelm ente, foi deixada de fora da lista de algum a festa. Petra sente um frio na barriga diante de qualquer falta de atenção para com Molly, sej a ela real ou im aginária. Sim plesm ente não consegue evitar. Molly detesta quando estão atrasadas para chegar à casa de um a am iga, grita com Petra quando ficam presas no trânsito, odeia que as outras m eninas com ecem sem ela. O m edo de ficar de fora está atrelado ao m edo de que ninguém sinta sua falta. Algum as coisas nunca m udam .
Petra aj usta sua posição na cam a para se deitar ao lado de Molly, a cabeça das duas fica lado a lado no travesseiro. O am ortecim ento entre as duas são os seios de Molly, algo recente e que vem crescendo com rapidez. Petra fica feliz com os seios da filha, até m esm o orgulhosa. Isso é norm al? Recentem ente, Molly tem se recolhido bastante, banindo Petra do banheiro quando está no banho. Há pouco tem po elas costum avam conversar sobre o dia, com Petra sentada na beira do vaso sanitário e Molly deitada na água com o a garota da pintura de Millais, com os cabelos flutuando com o algas m arinhas atrás de sua cabeça.
Agora ela pensa se algum dia verá o corpo de sua filha novam ente, o corpo que cresceu dentro dela m esm a. Provavelm ente não. O próxim o a vê-lo será um garoto, um garoto de verdade, e não o Leonardo dos pôsteres na parede.
Enquanto põe os braços em volta da filha, sente todos os com bates deixarem Molly. Quando tinha pouco m ais de um ano, Molly ficava toda rígida durante um acesso de m au hum or, até que o dem ônio partia e ela se perm itia ser aconchegada e tranquilizada por um a m am adeira. Ela gostava que segurassem a m am adeira para ela para que pudesse enrolar os cabelos com o dedinho de um a das m ãos e agarrar o cobertor com a outra. Com o era fácil naquela época, Petra pensa. Era possível consolá-la, fazer tudo de ruim passar, dizer que tudo ficaria bem . E ficava. Porque era possível controlar o m undo. Ela era seu m undo, praticam ente.
Deixando-se levar, Molly chega m ais perto. Para ser honesta, é disso que Petra sente falta com relação a Marcus. Não é o sexo. É outro corpo que possa, com o se por osm ose, drenar todas as tensões das suas células. Ela precisa dar o braço a torcer, Marcus era bom m assagista; seus dedos de violoncelista eram poderosos e ágeis para encontrar os nós de tensão.
– Vou m assageá-la – ele ofereceu, virando-a de bruços e pressionando cada vértebra da sua espinha até em baixo, m ovim entando cada um a com o a lingueta de um trinco. Ele sem pre foi excelente no vibrato.
No fim , ela não podia m ais suportar que ele a tocasse. Tentou fazer sexo e term inar com tudo o m ais rápido possível, odiando a si m esm a por deixá-lo até m esm o chegar perto, ainda pensando que talvez ele ficasse, e odiando a si m esm a por isso tam bém . Ela lera em algum lugar que quanto m ais agudo os gritos da m ulher, m ais rápido o hom em chega ao clím ax. Ora, ora, ora, parece que, às vezes, pode-se confiar no que se lê nas revistas. Foi tão fácil, e tão difícil.
– Quando você e Sharon estiverem nos Estados Unidos, vocês podem ir ver o Leo – Molly m urm ura.
– Que Leo?
– Leo DiCaprio.
– Ah. O garoto m ais fam oso do m undo.
– Um nom e tão lindo. Eu o am o tanto, m ãe.
– Eu sei, querida, eu sei.
Ela desce as escadas novam ente, precisa voltar ao com putador, m as o ar da sala de estar está abafado e pesado, então ela sai pela porta que dá para o quintal. O j ardim escuro se agita com os arom as da horta. Mais cedo, ansiosa por algum a distração depois de ter escrito o caso de Ashley, Petra passou pelo m enos um a hora ali fora regando as plantas, colhendo suas ervilhas-de-cheiro e alguns tom ates, colocando-os no peitoril da j anela para que am adurecessem . Ela gosta do cheiro que deixam nas m ãos. Distraidam ente, com eça a tirar as folhas m ortas da nicotiana, colocando-as no vaso de terracota ao lado da porta. As flores m urchas dão a sensação de um paraquedas de seda ao toque. Com os dedos prontos para arrancar, Petra subitam ente sente o poder terrível da vida e da m orte. Ela hesita diante de um a flor m urcha. Não, vam os dar m ais um dia à pobrezinha.
As incarvíleas de cor crem e só abrem no fim da tarde e liberam sua fragrância alm iscarada durante a noite toda. Com o é estranho pensar que a nicotiana, bela e inocente com o um a cam isola vitoriana, é a irm ã caçula do tabaco, que m ata m ilhões. Aj udou a m atar seu pai, tom ou o que restou de seus pulm ões depois da pneum oconiose, e sua voz encantadora. Quando Petra se aj oelha perto do contêiner, pensa estar sentindo o cheiro do cachim bo de seu pai e ouvindo as batidinhas que dava com o cachim bo no degrau m ais alto da escada, para soltar o sarro pegaj oso acum ulado no fundo do fornilho.
Várias vezes Petra tentou conversar com Molly sobre seu avô. Ei tad-cu hi significa avô em galês. Quando Molly j á tinha idade suficiente para ter ciência dele, seu pai tinha m etade do tam anho do hom em que trabalhou na usina siderúrgica, um fiapo de hom em debaixo de um lençol, que trem ia, praticam ente incapaz de fazer a barba, lutando para respirar, m as ainda abrindo os braços para sua neta.
– Venha aqui, m inha linda, dê um abraço apertado no vovô.
Ela quer desesperadam ente que Molly tenha consigo esse m odelo de hom em bom em seu coração, m as, quando Petra tenta descrever seu pai para sua filha, o que sai são apenas palavras. Ele era tão fascinante. Gentil. Bom . Um barítono m aravilhoso. Bom dançarino. Dean Martin. Isso é amore.
Com o definir o trabalho do ser hum ano que a protegeu o m elhor que pôde de sua m ãe, enquanto um a tem pestade caía sobre ele? Risco ocupacional.
Pelo m enos, Petra pensa, sua filha não sente que precisa esconder – não os pôsteres do seu Leonardo DiCaprio e nem seus sentim entos. Molly agora pode não gostar que sua m ãe entre no banheiro, m as ela sabe que tem um a vagina, e não um lugar vergonhoso e indeterm inado cham ado “lá em baixo” e que é feio tocar. Achafi!
Petra fica feliz com isso. Ela raram ente perm itia que Greta visse seus sentim entos, sabendo que eles apenas dariam a chance para a desaprovação ou até para a alegria com a tristeza da filha. Um dia ela estava andando ao lado da parede de blocos de cim ento, em frente ao bangalô que estavam construindo, e caiu, cortando fundo o j oelho e esfolando os sapatos novos. As ponteiras dos sapatos, brilhantes com o um a castanha-da-índia, ficaram arranhadas com listras rosa. Ela entrou chorando por estar m achucada e tam bém por ter estragado seus pobres sapatos novos, enquanto o sangue escorria por um a perna até sua m eia branca.
– Aí está, viu? – sua m ãe disse.
A dor estava ali para lhe ensinar um a lição, m as qual lição ela nunca aprendera. O papel que Greta achava que tinha na vida era o de endurecer a filha.
– Controle suas em oções, por favor, Petra.
Quando Petra pensa em si m esm a quando criança, vê um a m enina m uda, que não ousa falar. A m úsica foi sua form a de falar, sua terapia tam bém . William Finn, Bill, dissera isso para ela no dia da produção. Ela nunca havia pensado nisso antes.
“Tenho de m udar de casa”, Petra pensa de repente, fechando as portas do j ardim com o trinco. Foi nessa sala que ela teve sua últim a crise de angústia por causa do casam ento, a única que o m undo ficou sabendo. Mas foi horrível, lançando-se aos pés de Marcus e entregando-se ao sofrim ento. Petra lhe prom eteu coisas, im plorando. Ele se desvencilhou, querendo se livrar dela, ansioso para voltar àquela que o fisgou. Ele lhe contou que tentou desapontá-la gentilm ente. É preciso ser cruel para ser gentil. Por quê? Por que não ser som ente gentil?
Depois que ele foi em bora, Petra ficou sentada no escuro, soluçando e falando sozinha. “Calm a, calm a, tudo vai ficar bem .” Com o se fosse sua própria m ãe. Ainda assim , ela ficou esperando os passos dele na frente da casa, pensando que talvez ele voltasse, com o sem pre acontecia antes.
Agora, pela prim eira vez desde que Marcus foi em bora, ela sente algo se m exendo sutilm ente dentro dela, a sensação de que poderá ter um futuro. Depois de am anhã, Molly vai ficar com Carrie, sua vizinha, e ela, Petra, vai para Las Vegas conhecer David. Petra, Sharon e David. Sharon e Petra. E Bill. Não parece m ais ser um plano m aluco. Ela se vê cantando. “Breaking Up Is Hard To Do”, term inar um relacionam ento é difícil. A letra dessa m úsica ainda está fresquinha na sua m em ória. Ainda cantarolando, ela consulta seu notebook e com eça a digitar; as palavras vêm com facilidade agora:
Toda sem ana, durante os prim eiros m eses em que trabalham os j untas, Ashley dizia: “Num quero contá m inha história. Num tenho que fazê isso se eu num quisé.”
Conform e o trabalho com Ashley foi evoluindo, com o uso da com binação de
m úsicas fam osas que ela conhecia m uito bem e a im provisação livre no violoncelo, teclado e percussão, Ashley com eçou a falar de m aneira diferente, dem onstrando um sentim ento de autoestim a e sendo capaz de adm itir seu desej o de se sentir segura. As estruturas fam iliares das m úsicas lhe ofereciam certa previsibilidade, e com isso ela com eçou a confiar no nosso relacionam ento. Ashley com eçou a encontrar outro m odo de se com unicar e perceber que seu com portam ento poderia ser um a escolha consciente, e não apenas o reflexo de um im pulso raivoso.
Im itando estruturas claras de frases em canções que eram com patíveis com seu
hum or, consegui “conter” seus sentim entos, m usicalm ente os transform ando em anim ação e prazer norm ais.
CONCLUSÃO
A m usicoterapia é um a atividade m uito im portante na vida de Ashley : o m om ento no qual ela pode liberar todos os seus sentim entos com segurança, incluindo a fúria e o sofrim ento que ela vem guardando. A m aioria dos adultos que conheceu a trataram com incom preensão, geralm ente com agressividade, e tenho tido a posição privilegiada de lhe oferecer algo m elhor. O ponto positivo que Ashley trouxe com ela foi um rico repertório m usical de suas recordações. As canções fam osas de m usicais que aprendeu com sua querida avó proporcionaram a Ashley um a das poucas e confiáveis estruturas em sua experiência de vida. Dentre todas as crianças com as quais trabalhei, não sei de ninguém para quem a m úsica tenha sido um escape tão vital.
Ashley teve m uitas separações durante sua vida. Ao cantar “So Long, Farewell”
(Até logo, adeus), de A noviça rebelde, fiquei com o papel dos vários adultos que a deixaram . Conform e ela com eçou a cantar a letra, no final de cada sessão, sua confiança foi aum entando cada vez m ais, e m eus olhos se enchiam de lágrim as. Ela obviam ente aprendeu com o fazer para não se m achucar com o fato de dizer adeus.